FERNANDO BARRIGA
Como os exploradores do passado
Fernando Barriga, 54 anos, dois filhos, professor Catedrático de Geologia na Universidade de Lisboa e actual director do Museu de História Natural, tem o perfil e a pose dos grandes exploradores do passado, que transformaram o século XIX no período épico da sua ciência. Foram eles que expandiram a idade da Terra para biliões de anos, foram eles que descobriram no registo fóssil o vestígio de uma longa sequência de espécies extintas, foram eles que tornaram o Dilúvio de Moisés numa cheia de menor de pouquíssima importância à escala global. Barriga enfrenta outro desafio épico que se levanta agora à Geologia: como travar o avanço acelerado do mar sobre a Terra? Como proteger as praias, as falésias, todas as zonas litorais que temos tantas vezes visto na televisão a caírem como castelos de cartas? Enquanto o povo português procura desesperadamente um culpado para comparecer perante a sua justiça, seja a Natureza, seja o Governo, seja o presidente da Câmara lá da zona, ele aponta tranquilamente o dedo a todas as pessoas que nos rodeiam e recorda-nos, com provas atrás de provas e estudos sobre estudos, que o aquecimento global não é nenhuma brincadeira. Mas, enquanto o flagelo do Terceiro Milénio não se reduz nas suas dimensões apocalípticas, ele já está a projectar estratégias para ir tapando os buracos no prazo imediato. Sem alarde. É ciência.
Foi no edifício do Museu de História Natural que eu aprendi a ser bióloga. Entrar na imponente alameda das palmeiras que dá para a Rua da Escola Politécnica faz-me sempre voltar a ter dezoito anos. Aqui dentro, há ossadas que partilham expositores com réplicas, há meninos que abrem muito os olhos para verem bem, com todos os pormenores, os bichos estranhos de outros tempos – e, a fazer brilhar de felicidade todo o rosto do Fernando, há uma profusão espantosa de minerais bizarros, cristais oblongos, rochas de milhares de anos onde viveram bactérias que já não existem. Não sei se percebem que isto é tudo absolutamente fascinante, diz ele.
OK, então vamos lá. O mar enlouqueceu, e está a dar cabo da nossa costa. De uma vez por todas: de quem é a culpa?
Não costuma ser assim muito fácil atribuir culpas em situações complexas, mas este é um daqueles casos em que podemos cortar a direito: o aquecimento global é culpa das pessoas, e é culpa dos políticos. Toda a gente sabe que o clima está a mudar, e isso pode originar mudanças dramáticas na Terra, e sobretudo na vida que estamos habituados a viver.
Mas toda a gente sabe que o clima tem mudado ao longo do tempo...
Sim, toda a gente sabe que já houve grandes glaciações. Ou que o clima de Lisboa já foi muito mais frio do que é agora.
Então por que é que, desta vez, vocês dizem que as mudanças são causadas pelo homem?
Pois, era bom podermos encolher os ombros e não fazer nada. Mas, quando nos damos conta, cientificamente, com centenas de dados comprovativos, de que desta vez o homem é parte substancial da mudança, então a coisa muda de figura.
Mas como é que se mede a mudança climática?
Olha, a subida do nível do mar, de que temos falado tanto em Portugal, é uma consequência disso. Há variações seculares da mudança do nível do mar, que eram da ordem dos 01/0.2 milímetros antes da revolução industrial. Depois disso, o que acontece é que o aumento da temperatura que já se verificou, atribuído quase todo ao homem, é de cerca de 6ºC desde meados do século XX. Esses 6ºC não são um número muito grande para os nossos sentidos, mas o que sabemos claramente é que estamos muito mais tempo fora do valor médio: o clima muda todos os dias. A temperatura média de Agosto em Lisboa é de 28ºC e continua a ser, mas mas estamos mais tempo fora do valor médio. Temos picos de calor como o de 2003, temos máximos de chuva, máximos de frio, as ondas no oceano estão cada vez mais altas. Sabes que os seguros marítimos aumentaram todos de preço? Isso é por que as tempestades estão cada vez mais intensas.
E porquê?
Antes de mais nada, o calor faz aumentar o tamanho da água. Entre 10 e 12ºC, a água sobe de volume. Quando tens um aumento destes numa massa tão grande, o crescimento só pode ser para cima. Por outro lado, o aumento da temperatura desencadeia a fusão das águas polares, e estamos a falar de valores extremamente significativos. As zonas vulneráveis dos gelos da Antárctida podem fazer subir o nível do mar uns bons seis metros, e isto não é o gelo todo, é só o dos glaciares da Antárctida Ocidental, onde há muito gelo em cima do continente. E os relatos que vêem do Ártico apontam para que, daqui a poucas décadas, haja um processo de fusão dos gelos desmesurado.
E isto tudo por nossa culpa?
Há um registo geológico extremamente importante no sentido de o nível do mar já ter estado muito mais baixo que hoje. Estamos num período intra-glaciário. Estes períodos são cíclicos. Quando ocorrem, a tendencia do mar é para descer. Mas, neste momento, estamos confrontados com uma tendência muito forte de subida.
Que nós provocámos?
Ouve, se a subida da temperatura for causada pelo homem, segue-se inevitavelmente uma subida do nível do mar causada pelo homem.
Todos concordam?
Já nenhuma dúvida é razoável. Os últimos relatórios apontam todos claramente nesse sentido. Uma coisa destas nunca se demonstra de forma absoluta, mas os argumentos contra o factor humano são cada vez mais académicos, no mau sentido da palavra. O grau de certeza de que a alteração climática á atribuída ao homem é de mais de 90%, e isto é a versão oficial, aprovada politicamente.
Fala-me de um indicador que, a ti, te convence mesmo.
O registo das paleoatmosferas. Das atmosferas que existiram na Terra desde há de dez a vinte mil dezenas de milhares de anos atrás. Encontramos esse registo nas falhas que há no gelo. São amostras de uma atmosfera antiga que ficou ali aprisionada. Aí temos uma indicação precisa da idade de cada segmento, e podemos analisar a atmosfera fóssil, incluindo o teor em dióxido de Carbono que ela tinha. .
E então?
Há geralmente uma correlação positiva entre o dióxido de Carbono e a temperatura: quanto mais quente está a Terra, mais vestígios de CO2 se encontram. Por vezes, a subida da temperatura antecede o aumento do CO2. Pode ser que existam causas independentes que desencadeiam estes efeitos, como as modificações da órbita da Terra. Mas a mudança actual é sistematicamente ao contrário.
Ou seja?
Agora, nesta mudança climática, temos sempre primeiro a subida do CO2. Para isto, não há outra explicação senão a influência do homem.
E como é que isso funciona na costa portuguesa?
As modificações da costa são as principais causas da situação a que estamos a assistir, e isso é devido a falta de sedimentos.
O que é que queres de dizer com isso?
Há falta de areia nas praias.
E porquê?
Os rios transportam naturalmente uma grande uma grande parte de sedimento para o mar. A areia que hoje está na tua praia não é a mesma do que quando eras criança. Há um transporte de areia de Norte para Sul que é feito pelos rios, e em determinados pontos há os chamados sumidouros de sedimento, onde a circulação da areia é feita para longe da costa e vai parar ao mar profundo, pelo que se perde em relação à areia do litoral. Mas, enquanto circula junto à costa, é ela que protege o litoral, interpondo-se entre as rochas sólidas e as ondas. Se a quantidade de areia for menor tens a dinâmica do mar mais perto da costa, e quanto menos tempo o sedimento estiver junto ao litoral pior.
Mas aqueles pontões todos que nós agora passamos o tempo a ver não se destinam, exactamente, a reter a areia e proteger o litoral?
Não é assim tão simples. Um esporão perpendicular à costa só protege um pequeno triângulo junto a esse ponto. Logo ao lado há uma zona de maior depósito, mas a maior parte da areia perde-se. Isto já se faz há muito tempo, mas, a prazo, dá mau resultado. É muito mais eficaz fazer uma construção paralela à costa para manter a areia junto do litoral.
E é só por isso que temos assistido a tantos desastres?
Claro que não. Como os temporais são mais intensos, as marés vivas também são mais vivas, o mar está muito mais agitado, e tudo isto causa uma erosão fortíssima.
Disseste que o sedimento costumava vir para a costa com os rios. Deixou de vir?
Deixou de vir nas quantidades habituais que mantinham o equilíbrio no litoral, em grande medida por causa das barragens. Até ao início do século XX vinha muito mais areia nos rios. Há uma quantidade enorme de areia que agora fica retida pelo caminho, e isso, para mim, é a principal causa do que tem estado a acontecer. Há barragens em todo o lado. Em Portugal, não há um único rio que vá para o mar que não tenha uma barragem. Isso, sem a menor dúvida, é uma péssima gestão de recursos e um planeamento ambiental desastroso.
E há mais?
Bem... há todo o desgaste relacionado com a agricultura.
Então, mas a agricultura também tem a culpa?
Ao contrário do que dizem os poetas sobre os campos dourados, a agricultura implica revolver o solo e deixá-lo exposto à intempérie uma grande parte do ano. Se houver uma grande chuvada depois da colheita, as partículas as partículas mais finas, exactamente as mais nutrientes, são arrastadas até às barragens; e isso provoca uma grande descida de fertilidade nos solos, e o material que pode contribuir para essa fertilidade está no fundo da barragem.
Dá ideia de que já tens aí um belo projecto de recuperação de solos...
Estou a trabalhar nisto há dez anos. Não tiramos água absolutamente nenhuma da barragem. Vamos mesmo ao fundo, para lá da parte grosseira que está por cima. Tiramos uma lama com água suja, que tem que ser diluída, e depois é preciso decantar o sedimento. Só volta para a albufeira a água limpa. A lama é re-injectada no solo, e olha: em terrenos que eram completamente áridos já criámos tulipas francamente melhores que as dos melhores viveiros.
Onde é que fazes isso?
No Brasil.
Porquê?
Porque a Europa tem excesso de produção alimentar e não há grandes interesses agrícolas.
E a tal parte grosseira que está por cima, não pode ter, também, qualquer préstimo?
Oh. Esse, agora, é um dos nossos grandes interesses. A parte grosseira é a tal areia que pode ser levada até ao litoral! Como o transporte é caro, o material pode ser fornecido à construção civil, com bons incentivos – e, assim, talvez consigamos que os madeireiros não tirem a areia que é da praia.
Então ainda há esperança.
Enquanto houver ciência.
Blogue dedicado ao papel da história e do pensamento na compreensão da relação entre o homem e a natureza
segunda-feira, 21 de maio de 2007
NA CAIXA DO CORREIO: Arbeitintensif
ARBEIT MACHT FREI
Aqui vai uma historia dos meus alunos. Espertíssimos, e quase licenciados.
A meio de uma aula, nem me lembro bem porquê – eles deviam estar com um ar exausto, ou assim -- faço perfidamente uso da frase sinistra Arbeit Macht Frei. Como estou de frente para eles, noto-lhes perfeitamente nas expressões faciais que a frase não surtiu qualquer espécie de efeito para a grande maioria. Formalizo-me logo: Arbeit Macht Frei, meninos! É possível que isto não vos diga nada?
Muitos deles admitem que não.
Eu começo a explicar que é a frase que está escrita por cima do portão de Auschwitz. Que é o cúmulo da crueldade, porque significa “O Trabalho Liberta” e foi posta pelos nazis na antecâmara de um lugar horrível onde as pessoas eram obrigadas a trabalhar como escravas e a sua única libertação possível era a morte na câmara do gaz, logo seguida da queima no crematório. Com a memória ainda fresca da minha própria visita, acrescento que ninguém consegue medir na totalidade a violência do genocídio hitleriano antes de visitar Auschwitz. Vem-me à cabeça que, como professora, tenho deveres pedagógicos sérios, e faço logo ali a seguinte proposta:
-- Pessoal, eu trato de tudo. Arranjo um patrocínio, organizo a viagem à Polónia, e, assim que acabar o ano lectivo, vamos passar uns dias a Cracóvia, que é uma cidade linda com uma super vida nocturna, e nessa altura eu levo-vos a visitar Auschwitz. Querem?
E eles, logo:
-- Ó professora, mas os exames...
Ai eu.
Aqui vai uma historia dos meus alunos. Espertíssimos, e quase licenciados.
A meio de uma aula, nem me lembro bem porquê – eles deviam estar com um ar exausto, ou assim -- faço perfidamente uso da frase sinistra Arbeit Macht Frei. Como estou de frente para eles, noto-lhes perfeitamente nas expressões faciais que a frase não surtiu qualquer espécie de efeito para a grande maioria. Formalizo-me logo: Arbeit Macht Frei, meninos! É possível que isto não vos diga nada?
Muitos deles admitem que não.
Eu começo a explicar que é a frase que está escrita por cima do portão de Auschwitz. Que é o cúmulo da crueldade, porque significa “O Trabalho Liberta” e foi posta pelos nazis na antecâmara de um lugar horrível onde as pessoas eram obrigadas a trabalhar como escravas e a sua única libertação possível era a morte na câmara do gaz, logo seguida da queima no crematório. Com a memória ainda fresca da minha própria visita, acrescento que ninguém consegue medir na totalidade a violência do genocídio hitleriano antes de visitar Auschwitz. Vem-me à cabeça que, como professora, tenho deveres pedagógicos sérios, e faço logo ali a seguinte proposta:
-- Pessoal, eu trato de tudo. Arranjo um patrocínio, organizo a viagem à Polónia, e, assim que acabar o ano lectivo, vamos passar uns dias a Cracóvia, que é uma cidade linda com uma super vida nocturna, e nessa altura eu levo-vos a visitar Auschwitz. Querem?
E eles, logo:
-- Ó professora, mas os exames...
Ai eu.
domingo, 29 de abril de 2007
NA CAIXA DO CORREIO: Sem memória não há futuro
É imperdoável qualquer português não saber que data se comemora hoje, porque o esquecimento da história é o fomento da barbárie. Se é verdade que há cada vez mais jovens que desconhecem o 25 de Abril, então é porque alguma coisa no sistema de ensino obrigatório não está a funcionar. Não podemos usar como desculpa o facto de todos esses jovens já terem nascido depois da queda da ditadura, porque a ideia subjacente à civilização não é conhecermos apenas aquilo que acontece durante o nosso tempo de vida. Os jovens sabem o nome do primeiro rei de Portugal, e não é de certeza porque o conheceram pessoalmente. Mesmo que ninguém nos fale delas em casa, estas coisas aprendem-se na escola – entre várias outras razões, também para ajudar a combater as diferenças sociais e equalizar a oportunidades. O 25 de Abril faz parte de todos os manuais escolares, não me lembro bem se do 5º ou do 6º ano. E nem sequer é daquelas temáticas já mesmo do fim do ano, que muitas vezes saltam fora porque não houve tempo para leccionar tudo. E, no entanto, há números impressionantes de portugueses que passam pela escola e saem de lá sem saber o que foi que mudou no país a partir de 1974, e sem perceber que essa mudança foi da maior das importâncias para todos nós? Bolas, re-escrevam os manuais. Revejam os conteúdos e os métodos da história que se ensina aos meninos. Mas não contribuam mais para a disseminação perigosa da ignorância colectiva.
NA CAIXA DO CORREIO: Religião
A FÉ E O MUNDO
Lecciono aos finalistas de Biologia uma cadeira de História do Pensamento Biológico. À medida que os anos passam, dá ideia de que os portugueses são cada vez menos crentes, e ainda menos praticantes: de uma forma que se generaliza gradualmente, os meus alunos desconhecem tanto o Velho como o Novo Testamento. E isto torna particularmente complicado o ensino de qualquer temática de foro histórico, porque a fé cristã fez parte integrante da organização do nosso mundo até à segunda metade do século XIX, complementada pelas tradições judaica e islâmica que nos acompanharam no caminho. Aparentemente, a única forma de colmatar esta lacuna complicada seria regredir à velha obrigatoriedade da frequência de Moral e Religião, onde ao menos se aprendiam uns vislumbres. O problema é que estas aulas são constituídas por proselitismo e não por aprendizagem de factos, o que torna obrigatório manterem-se estritamente opcionais. Mas, se as bases mais elementares da religião que modelou o Ocidente já não se aprendem em casa nem por simples contágio social, a formação dos cidadãos ocidentais nunca estará completa se elas não passarem a ensinar-se na escola, por forma a não acabarmos por perder completamente o Norte quanto tentamos seguir o percurso que nos trouxe até aqui. Talvez criar, pelo menos no secundário, assim como há Filosofia e Introdução à Política, uma cadeira nova que se chamaria qualquer coisa como, simplesmente, Religião – para apresentação de factos,com exclusão rigorosa de comentários? A fé pode já não querer diser grande coisa no nosso mundo, mas o trajecto que esse mundo seguiu depende em grande parte dela, e, sem ela, não se entende com a devida clareza. E continua a querer dizer muito no mundo dos outros, remetendo-nos por analogia para o nosso, como no caso da fé islâmica. Uma cadeira de Velho e Novo Testamento, reformas, contra-reformas, hexegeses que marcaram a Europa, guerras e torturas e perseguições e criações de padrões populacionais ao longo do tempo. Pensem nisso. Eu apenas posso atestar, como docente universitária, que o nosso entendimento do mundo está a ficar cada vez mais deficiente. Agradeço muitos comentários, porque sei que isto não é nada simples.
Lecciono aos finalistas de Biologia uma cadeira de História do Pensamento Biológico. À medida que os anos passam, dá ideia de que os portugueses são cada vez menos crentes, e ainda menos praticantes: de uma forma que se generaliza gradualmente, os meus alunos desconhecem tanto o Velho como o Novo Testamento. E isto torna particularmente complicado o ensino de qualquer temática de foro histórico, porque a fé cristã fez parte integrante da organização do nosso mundo até à segunda metade do século XIX, complementada pelas tradições judaica e islâmica que nos acompanharam no caminho. Aparentemente, a única forma de colmatar esta lacuna complicada seria regredir à velha obrigatoriedade da frequência de Moral e Religião, onde ao menos se aprendiam uns vislumbres. O problema é que estas aulas são constituídas por proselitismo e não por aprendizagem de factos, o que torna obrigatório manterem-se estritamente opcionais. Mas, se as bases mais elementares da religião que modelou o Ocidente já não se aprendem em casa nem por simples contágio social, a formação dos cidadãos ocidentais nunca estará completa se elas não passarem a ensinar-se na escola, por forma a não acabarmos por perder completamente o Norte quanto tentamos seguir o percurso que nos trouxe até aqui. Talvez criar, pelo menos no secundário, assim como há Filosofia e Introdução à Política, uma cadeira nova que se chamaria qualquer coisa como, simplesmente, Religião – para apresentação de factos,com exclusão rigorosa de comentários? A fé pode já não querer diser grande coisa no nosso mundo, mas o trajecto que esse mundo seguiu depende em grande parte dela, e, sem ela, não se entende com a devida clareza. E continua a querer dizer muito no mundo dos outros, remetendo-nos por analogia para o nosso, como no caso da fé islâmica. Uma cadeira de Velho e Novo Testamento, reformas, contra-reformas, hexegeses que marcaram a Europa, guerras e torturas e perseguições e criações de padrões populacionais ao longo do tempo. Pensem nisso. Eu apenas posso atestar, como docente universitária, que o nosso entendimento do mundo está a ficar cada vez mais deficiente. Agradeço muitos comentários, porque sei que isto não é nada simples.
ENTREVISTA: Teresa Avelar
TERESA AVELAR
Como quem defende a ciência
Há pequenos pormenores que podem passar hoje despercebidos junto do grande público, apenas para se converterem nos debates mais dramáticos da próxima década. Um jornal português de grande tiragem, e respeitado consensualmente como de referência, publica um artigo de página inteira escrito por um defensor português do chamado Criacionismo Científico. Algum tempo mais tarde, o mesmo jornal surpreende-nos com a notícia improvável de que, um dia destes, vai abrir perto de Mafra o Museu do Criacionismo. Finalmente, é a própria Faculdade de Ciências que organiza uma conferência de dia inteiro sobre a controvérsia entre o Darwinismo e o Criacionismo, e nela participa o defensor do Criacionismo com tanta seriedade como qualquer cientista que venha pronunciar-se sobre modelos de evolução. Nos bastidores, já se preparam livros sobre o assunto. Entretanto, nos Estados Unidos, a controvérsia já cresceu para proporções tais que acabou por dar origem ao documentário Flock of Dodos, acompanhado por toda a espécie de merchandising e unanimemente louvado pela crítica. Vocês podem ainda não ter dado por nada, mas, daqui a dez anos, quando forem chamados a referendo para se decidir se o país introduz ao não o Criacionismo nos programas escolares, lembrem-se do aviso que receberam hoje. Esta estranha confraria que já se agita há muitos anos nos subterrâneos do mundo americano está a estender-se pela Europa e a lançar as suas raízes no solo português; e, onde ela chega, acaba por ser difícil ignorá-la. Para que ao menos estejamos devidamente informados perante o que ainda vamos ter que debater a doer, chamei à conversa a minha colega Teresa Avelar, professora de Evolução, que respira como quem estuda e vive cada um dos seus dias como quem defende a ciência acima de todas as coisas. A Teresa tem 49 anos, e toda a vida se interessou pelas teorias da evolução, tanto na aplicação como na história. Licenciou-se pela primeira vez em Biologia em Inglaterra, em 1979. Depois repetiu todo o processo em Lisboa, e completou o grau em 1983. Doutorou-se na Faculdade de Ciências em 1991, no dia seguinte ao início do bombardeamento americano sobre Bagdad durante a Guerra do Golfo-- o que quer dizer que, em plena véspera de doutoramento, não dormiu nada. Os dramas do Golfo tornaram-se muito mais complexos e criminosos desde essa altura, e agora podemos olhar para essa primeira investida como para um acontecimento quase ingénuo; mas, na altura, pareceu-nos a todos estar a viver uma noite decisiva. E quando a Teresa acredita que uma coisa é séria, acredita mesmo. Estuda, investiga, ensina e publica a um ritmo que só existe quando existem grandes paixões.
Conversamos numa das salas de aula do edifício de Mestrados da Universidade Lusófona, onde ambas trabalhamos. A Teresa tem estado doente, mas fez das tripas coração para estar aqui hoje, como faz muitas vezes, sempre que acha que o que está em causa é importante. Este cerco que o Criacionismo tem andado a fazer a Portugal, para ela, é uma dessas causas que pede verdadeira luta. Seguiu com toda a atenção o debate na Faculdade de Ciências, e ainda está incomodada com o que viu e ouviu. Se as pessoas tiverem pouca instrução, diz ela, irão sempre atrás do que é mais fácil. E o Criacionismo é fácil demais.
Está bem, mas então agora pensa que estás mesmo a falar com uma pessoa sem nenhuma instrução. Tens que conseguir explicar-me o que é a Teoria da Evolução. Consegues?
A Teoria da Evolução tem várias componentes. Ocorreu evolução no mundo vivo. Essa evolução ocorreu por ramificação sucessiva a partir de um ancestral comum. Essas ramificações ocorrem por especialização dentro das populações, e a formação de novas espécies que daqui resulta é gradual e não ocorre de uma geração para a outra. O principal mecanismo da mudança evolutiva é a Selecção Natural. Não é o único, mas é é o único responsável por adaptações que se transformam nas características mais distintivas dos seres vivos.
Quais são as confusões mais frequentes que se fazem a este respeito?
Olha, que o homem descende do macaco, por exemplo. Não é assim tão simples como isso, e sobretudo é muito menos directo.
Mas essa confusão fez-se desde muito cedo.
Foi. O livro crucial de Charles Darwin que lançou estas ideias, A Origem das Espécies, saiu em 1859. Antes de ser vendido ao grande público, foi enviado para leitura e comentário a várias entidades. Uma revista escreveu logo que o livro era “uma abominação”, e chamou à Teoria da Evolução “a Teoria do Macaco”. No livro, Darwin escreveu uma única frase sobre a origem do homem, e disse apenas isto: “havemos de fazer luz sobre o homem e a sua história”. Mas a ilação automática do público foi logo a do macaco.
E para as especialistas da matéria? A reacção também foi assim tão visceral?
Praticamente todos os biólogos aderiram logo à Teoria da Evolução. Mas o conceito de Selecção Natural demorou muito mais tempo a entrar.
Porquê?
Porque aceitar a Selecção Natural é aceitar um mecanismo que não tem planos, não prevê o futuro, é imediatista, não se rege por qualquer moral. Isso é mais difícil de engolir. No fim do século XIX, já existem uma série de teorias evolutivas em que a evolução é o resultado de um plano providencial. Em relação aos modelos anteriores a Darwin, só desapareceu a ideia de o plano ser orientado por Deus.
Essa aliás, essa ideia continua a não ter desaparecido.
Ao nível da Biologia desapareceu, mas não ao nível da consciência das pessoas em geral. Aliás, a maioria das pessoas contínua a não saber o que é exactamente a Selecção Natural. Basta pensares nos títulos dos manuais escolares do Básico e do Secundário, onde encontras coisas absurdas como Do ADN ao Homem ou Das Moléculas ao Homem -- como se a organização da vida tendesse sistematicamente para o homem como modelo perfeito e mais complexo, uma espécie de produto final. Olhas para a sequência dos capítulos, e tens sempre as bactérias, depois os eucariotas, depois os mamíferos, depois o homem – como se tudo o que existe no mundo vivo fizesse parte de um grande esforço colectivo para se conseguir chegar ao homem. Mas, na realidade, e evolução não avança em direcção ao homem. Avança de forma perfeitamente aleatória. A bactéria é o nosso ancestral comum, e não deixou de existir por causa de nós existirmos. É esta parte que a maioria das pessoas tem dificuldade em assimilar. O esquema evolutivo que se mostra a todos os miúdos começa com uns primatas muito cabeludos e acaba num homem do Cro-Magnon que é loiro de olhos azuis. Isto é um absurdo, e aquele desenho só pode induzir em erro, porque na realidade existem várias linhagens diferentes de hominídeos.
Bom, e, tanto quanto sabemos, continuaram a aparecer espécies novas muito depois de ter aparecido o Homo sapiens.
Claro. O exemplo mais famoso é o das mais de quinhentos espécies de peixes que se descobriram no Lago Vitória, que não podem ter mais de quinze mil anos, porque, antes disso, o lago estava seco. Ora, em contrapartida, o Homo sapiens já tem uns veneráveis 1 500 000 anos.
Perante tudo isto, o que é que foi avançando a defesa do Criacionismo?
O Criacionismo mais básico apareceu no princípio do século XX nos Estados Unidos, com uma crispação crescente em torno do respeito pela letra do texto bíblico, que acabou por ter um confronto muito visível com o evolucionismo em 1925. No Tennessee, foi declarado ilegal ensinar evolução nas escolas, por ser contrário à Bíblia. A American Union for Civic Liberties conseguiu convencer um professor chamado Scopes a ensinar evolução a ser condenado, para ir a tribunal e depois ir ao Supremo: à luz do first ammendement da Constituição americana, que impõe separação entre a Igreja e o Estado, teria que ser autorizado a dar as aulas que entendesse, e o caso seria discutido a nível nacional. O julgamento foi muito publicitado. Aliás, foi dos primeiros casos de reportagem em directo para a rádio. O advogado de acusação era um candidato crónico à presidência da república que achava que ensinar evolução era abrir a porta a todas as imoralidades, e o de defesa era um homem igualmente famoso e mediático, que convocou um grande número de cientistas notáveis para virem defender a evolução. Foi um grande espectáculo.
Mas mudou alguma coisa?
Pouco. O ensino da evolução foi proibido em mais Estados além do Tennessee, e os editores de livros de texto queriam fabricar produtos que pudessem vender-se em todos os Estados Unidos. Por isso, era frequente os livros de texto dos anos 30 e 40 só mencionarem a evolução pela rama, e só nas páginas finais. Alguns dos grandes evolucionistas da actualidade, como o teu amigo Stephen Jay Gould, lembravam-se de nem terem chegado a aprender evolução no liceu.
Então e depois?
Depois os russos puseram um satélite artificial em órbita e os americanos apanharam um susto! Só nessa altura é que se lembraram de rever seriamente a forma como estavam a ser educadas as crianças americanas, e foi quando os biólogos notaram que os livros de texto nem sequer falavam na evolução, que é o grande pólo agregador da Biologia. O Sputnik é de 1957. Em 1960, os livros de texto americanos já davam todos um grande relevo à evolução. E nessa altura, sim, formou-se em resposta um movimento criacionista organizado.
Para fazer o quê?
Lobby, claro. Como já não fazia grande sentido impedir o ensino da Evolução, inventaram o Criacionismo Científico, e começaram a defender que este tinha tanto direito de ser ensinado às crianças como a Teoria da Evolução, porque era uma teoria científica alternativa. Isto acabou por ser aprovado em alguns Estados, e voltaram a registar-se julgamentos mediáticos, desta vez sobretudo no Arkansas: a lei exigia tempo escolar igual para uma coisa e para outra, e os evolucionistas foram a tribunal porque o Criacionismo Científico era religião com outro nome. Foram novamente chamados vários cientistas famosos, desta vez como testemunhas de acusação. O juiz acabou por decidir em favor da acusação, e o seu parecer foi publicado na íntegra na revista Science em 1982. Nesta altura, alguns criacionistas acharam que estava na altura de “evoluir” e substituíram o antigo Criacionismo Científico pelo novo Intelligent Design.
Qual é a diferença?
O Criacionismo clássico levava o Génesis bíblico à letra, e nisto tinha a honestidade de admitir que não apresentava soluções para as contradições internas que existem na própria Bíblia. Há discordâncias dentro do próprio relato do Génesis que são complicadas para quem quer sustentar “cientificamente” que a Bíblia foi escrita exactamente como Deus a ditou e que, como tal, não tem erros. Além de que há episódios do Génesis que, com os conhecimentos actuais, se tornam impossíveis de explicar cientificamente. Um bom exemplo é a arca de Noé. Como é que pode ter sido fabricada por forma a levar lá dentro dez milhões de espécies? Ou então, esbarram em problemas sérios quando apresentam teorias cientificamente testáveis que caem pela base perante os métodos de observação modernos: como é que todos os depósitos geológicos que existem se podem ter formado durante o Dilúvio, se grande parte deles são francamente anteriores à existência do homem? Os defensores do Intelligent Design já apresentam versões mais requintadas, e, como tal, são mais hipócritas.
Mas, antes de mais nada, como é que se fazem ouvir?
Ah! Têm editoras próprias onde publicam, revistas próprias onde escrevem, sites espampanantes na net, um Institute of Creation Research com tecnologia de ponta... e, claro, sabe-se lá de onde é que vem o dinheiro para isso tudo. Fala-se de financiamentos de grupos fundamentalistas, de Adventistas do Sétimo Dia, de Testemunhas de Jeová, de Born Again Christians, mas está tudo envolto num grande secretismo, como é próprio destas coisas.
E usam esses palanques para argumentar o quê, basicamente?
Que há uma entidade criadora a reger o mundo vivo, mas isto é feito de forma sofisticada. Recorrem a dois grandes grupos de argumentos. O primeiro é que os seres vivos possuem aquilo a que eles chamam “complexidade irredutível”: é impossível existir evolução gradual, porque o todo só funciona quando existe a soma completa das partes. O exemplo preferido deles é a ratoeira, que só funciona quando tem todas as peças no sítio correcto. E passam o tempo a citar incorrectamente o Darwin no que diz respeito ao olho, para implicar que até ele acreditava que um olho é tão complexo que não pode evoluir gradualmente. Na realidade, o que o Darwin escreveu sobre as possibilidades de adaptação é que existem na Natureza todos os tipos de olhos possíveis, pelo que é possível que se tenha começado apenas pelas formas mais simples. Mas eles usam só a frase “quem olha para o olho, em toda a sua perfeição, pode pensar que ele nunca poderia ter evoluído”, e argumentam que o olho é complexo demais para alguma vez poder ter existido numa forma que não seja a presente. Também recorrem a uma série de ideias de nível molecular, que assentam num conhecimento que as pessoas geralmente não têm, pelo que pode convencê-las mais facilmente. Um exemplo deles é o flagelo das bactérias: se funciona por acção de uma série de proteínas que o fazem andar à roda, então todo esse conjunto teve que aparecer tal qual o conhecemos, numa organização pré-fabricada por desígnio. Claro que já vários biólogos sublinharam que a maior parte dessas proteínas já existiu antes noutros complexos metabólicos, e portanto há várias explicações possíveis para a evolução do flagelo – mas eles estão, sobretudo, a tentar convencer as pessoas que não são formadas nestas áreas.
E o segundo argumento?
Chama-se “informação complexa especificada”. Os flocos de neve podem ser todos diferentes e manter as mesmas características cristalinas, mas os seres vivos só podem ser complexos dentro de um padrão específico que lhes permita serem, também, funcionais. Um ser vivo tem que ter a organização específica que tem e nenhuma outra, porque se tivesse outra já não funcionava. Chegaram a publicar os algoritmos de complexidade possível para a funcionalidade, e, repara, estas já são áreas onde o comum dos mortais se perde com facilidade. Uma vez mais, eles defendem que, para este fenómeno da organização funcional complexa ser possível, tem que ser resultado de uma organização pré-fabricada por desígnio.
Ou seja, por Deus? É isso?
Para evitar o rótulo religioso, eles defendem que há um desígnio mas deixam em aberto quem foi o designer desse desígnio. Só insistem que, perante os seus argumentos, qualquer pessoa tem que inferir a existência de um designer. Claro que, entre eles, o designer é Deus, sim.
Tens alguma noção de quem são, exactamente, estas pessoas?
Muitos são cientistas, mas nenhum é biólogo. Que eu saiba, há um bioquímico, e é o mais próximo que encontramos do conhecimento do mundo vivo. Depois há matemáticos, engenheiros, gente de Direito... sem dúvida, pessoas que gostam de argumentos rebuscados.
Mas não são teólogos.
Não. Sobretudo os católicos e os anglicanos tendem a afastar-se, e há criacionistas sinceramente magoados com o João Paulo II . Agora, o presidente dos Estados Unidos tem inequivocamente uma grande simpatia por eles...
Como quem defende a ciência
Há pequenos pormenores que podem passar hoje despercebidos junto do grande público, apenas para se converterem nos debates mais dramáticos da próxima década. Um jornal português de grande tiragem, e respeitado consensualmente como de referência, publica um artigo de página inteira escrito por um defensor português do chamado Criacionismo Científico. Algum tempo mais tarde, o mesmo jornal surpreende-nos com a notícia improvável de que, um dia destes, vai abrir perto de Mafra o Museu do Criacionismo. Finalmente, é a própria Faculdade de Ciências que organiza uma conferência de dia inteiro sobre a controvérsia entre o Darwinismo e o Criacionismo, e nela participa o defensor do Criacionismo com tanta seriedade como qualquer cientista que venha pronunciar-se sobre modelos de evolução. Nos bastidores, já se preparam livros sobre o assunto. Entretanto, nos Estados Unidos, a controvérsia já cresceu para proporções tais que acabou por dar origem ao documentário Flock of Dodos, acompanhado por toda a espécie de merchandising e unanimemente louvado pela crítica. Vocês podem ainda não ter dado por nada, mas, daqui a dez anos, quando forem chamados a referendo para se decidir se o país introduz ao não o Criacionismo nos programas escolares, lembrem-se do aviso que receberam hoje. Esta estranha confraria que já se agita há muitos anos nos subterrâneos do mundo americano está a estender-se pela Europa e a lançar as suas raízes no solo português; e, onde ela chega, acaba por ser difícil ignorá-la. Para que ao menos estejamos devidamente informados perante o que ainda vamos ter que debater a doer, chamei à conversa a minha colega Teresa Avelar, professora de Evolução, que respira como quem estuda e vive cada um dos seus dias como quem defende a ciência acima de todas as coisas. A Teresa tem 49 anos, e toda a vida se interessou pelas teorias da evolução, tanto na aplicação como na história. Licenciou-se pela primeira vez em Biologia em Inglaterra, em 1979. Depois repetiu todo o processo em Lisboa, e completou o grau em 1983. Doutorou-se na Faculdade de Ciências em 1991, no dia seguinte ao início do bombardeamento americano sobre Bagdad durante a Guerra do Golfo-- o que quer dizer que, em plena véspera de doutoramento, não dormiu nada. Os dramas do Golfo tornaram-se muito mais complexos e criminosos desde essa altura, e agora podemos olhar para essa primeira investida como para um acontecimento quase ingénuo; mas, na altura, pareceu-nos a todos estar a viver uma noite decisiva. E quando a Teresa acredita que uma coisa é séria, acredita mesmo. Estuda, investiga, ensina e publica a um ritmo que só existe quando existem grandes paixões.
Conversamos numa das salas de aula do edifício de Mestrados da Universidade Lusófona, onde ambas trabalhamos. A Teresa tem estado doente, mas fez das tripas coração para estar aqui hoje, como faz muitas vezes, sempre que acha que o que está em causa é importante. Este cerco que o Criacionismo tem andado a fazer a Portugal, para ela, é uma dessas causas que pede verdadeira luta. Seguiu com toda a atenção o debate na Faculdade de Ciências, e ainda está incomodada com o que viu e ouviu. Se as pessoas tiverem pouca instrução, diz ela, irão sempre atrás do que é mais fácil. E o Criacionismo é fácil demais.
Está bem, mas então agora pensa que estás mesmo a falar com uma pessoa sem nenhuma instrução. Tens que conseguir explicar-me o que é a Teoria da Evolução. Consegues?
A Teoria da Evolução tem várias componentes. Ocorreu evolução no mundo vivo. Essa evolução ocorreu por ramificação sucessiva a partir de um ancestral comum. Essas ramificações ocorrem por especialização dentro das populações, e a formação de novas espécies que daqui resulta é gradual e não ocorre de uma geração para a outra. O principal mecanismo da mudança evolutiva é a Selecção Natural. Não é o único, mas é é o único responsável por adaptações que se transformam nas características mais distintivas dos seres vivos.
Quais são as confusões mais frequentes que se fazem a este respeito?
Olha, que o homem descende do macaco, por exemplo. Não é assim tão simples como isso, e sobretudo é muito menos directo.
Mas essa confusão fez-se desde muito cedo.
Foi. O livro crucial de Charles Darwin que lançou estas ideias, A Origem das Espécies, saiu em 1859. Antes de ser vendido ao grande público, foi enviado para leitura e comentário a várias entidades. Uma revista escreveu logo que o livro era “uma abominação”, e chamou à Teoria da Evolução “a Teoria do Macaco”. No livro, Darwin escreveu uma única frase sobre a origem do homem, e disse apenas isto: “havemos de fazer luz sobre o homem e a sua história”. Mas a ilação automática do público foi logo a do macaco.
E para as especialistas da matéria? A reacção também foi assim tão visceral?
Praticamente todos os biólogos aderiram logo à Teoria da Evolução. Mas o conceito de Selecção Natural demorou muito mais tempo a entrar.
Porquê?
Porque aceitar a Selecção Natural é aceitar um mecanismo que não tem planos, não prevê o futuro, é imediatista, não se rege por qualquer moral. Isso é mais difícil de engolir. No fim do século XIX, já existem uma série de teorias evolutivas em que a evolução é o resultado de um plano providencial. Em relação aos modelos anteriores a Darwin, só desapareceu a ideia de o plano ser orientado por Deus.
Essa aliás, essa ideia continua a não ter desaparecido.
Ao nível da Biologia desapareceu, mas não ao nível da consciência das pessoas em geral. Aliás, a maioria das pessoas contínua a não saber o que é exactamente a Selecção Natural. Basta pensares nos títulos dos manuais escolares do Básico e do Secundário, onde encontras coisas absurdas como Do ADN ao Homem ou Das Moléculas ao Homem -- como se a organização da vida tendesse sistematicamente para o homem como modelo perfeito e mais complexo, uma espécie de produto final. Olhas para a sequência dos capítulos, e tens sempre as bactérias, depois os eucariotas, depois os mamíferos, depois o homem – como se tudo o que existe no mundo vivo fizesse parte de um grande esforço colectivo para se conseguir chegar ao homem. Mas, na realidade, e evolução não avança em direcção ao homem. Avança de forma perfeitamente aleatória. A bactéria é o nosso ancestral comum, e não deixou de existir por causa de nós existirmos. É esta parte que a maioria das pessoas tem dificuldade em assimilar. O esquema evolutivo que se mostra a todos os miúdos começa com uns primatas muito cabeludos e acaba num homem do Cro-Magnon que é loiro de olhos azuis. Isto é um absurdo, e aquele desenho só pode induzir em erro, porque na realidade existem várias linhagens diferentes de hominídeos.
Bom, e, tanto quanto sabemos, continuaram a aparecer espécies novas muito depois de ter aparecido o Homo sapiens.
Claro. O exemplo mais famoso é o das mais de quinhentos espécies de peixes que se descobriram no Lago Vitória, que não podem ter mais de quinze mil anos, porque, antes disso, o lago estava seco. Ora, em contrapartida, o Homo sapiens já tem uns veneráveis 1 500 000 anos.
Perante tudo isto, o que é que foi avançando a defesa do Criacionismo?
O Criacionismo mais básico apareceu no princípio do século XX nos Estados Unidos, com uma crispação crescente em torno do respeito pela letra do texto bíblico, que acabou por ter um confronto muito visível com o evolucionismo em 1925. No Tennessee, foi declarado ilegal ensinar evolução nas escolas, por ser contrário à Bíblia. A American Union for Civic Liberties conseguiu convencer um professor chamado Scopes a ensinar evolução a ser condenado, para ir a tribunal e depois ir ao Supremo: à luz do first ammendement da Constituição americana, que impõe separação entre a Igreja e o Estado, teria que ser autorizado a dar as aulas que entendesse, e o caso seria discutido a nível nacional. O julgamento foi muito publicitado. Aliás, foi dos primeiros casos de reportagem em directo para a rádio. O advogado de acusação era um candidato crónico à presidência da república que achava que ensinar evolução era abrir a porta a todas as imoralidades, e o de defesa era um homem igualmente famoso e mediático, que convocou um grande número de cientistas notáveis para virem defender a evolução. Foi um grande espectáculo.
Mas mudou alguma coisa?
Pouco. O ensino da evolução foi proibido em mais Estados além do Tennessee, e os editores de livros de texto queriam fabricar produtos que pudessem vender-se em todos os Estados Unidos. Por isso, era frequente os livros de texto dos anos 30 e 40 só mencionarem a evolução pela rama, e só nas páginas finais. Alguns dos grandes evolucionistas da actualidade, como o teu amigo Stephen Jay Gould, lembravam-se de nem terem chegado a aprender evolução no liceu.
Então e depois?
Depois os russos puseram um satélite artificial em órbita e os americanos apanharam um susto! Só nessa altura é que se lembraram de rever seriamente a forma como estavam a ser educadas as crianças americanas, e foi quando os biólogos notaram que os livros de texto nem sequer falavam na evolução, que é o grande pólo agregador da Biologia. O Sputnik é de 1957. Em 1960, os livros de texto americanos já davam todos um grande relevo à evolução. E nessa altura, sim, formou-se em resposta um movimento criacionista organizado.
Para fazer o quê?
Lobby, claro. Como já não fazia grande sentido impedir o ensino da Evolução, inventaram o Criacionismo Científico, e começaram a defender que este tinha tanto direito de ser ensinado às crianças como a Teoria da Evolução, porque era uma teoria científica alternativa. Isto acabou por ser aprovado em alguns Estados, e voltaram a registar-se julgamentos mediáticos, desta vez sobretudo no Arkansas: a lei exigia tempo escolar igual para uma coisa e para outra, e os evolucionistas foram a tribunal porque o Criacionismo Científico era religião com outro nome. Foram novamente chamados vários cientistas famosos, desta vez como testemunhas de acusação. O juiz acabou por decidir em favor da acusação, e o seu parecer foi publicado na íntegra na revista Science em 1982. Nesta altura, alguns criacionistas acharam que estava na altura de “evoluir” e substituíram o antigo Criacionismo Científico pelo novo Intelligent Design.
Qual é a diferença?
O Criacionismo clássico levava o Génesis bíblico à letra, e nisto tinha a honestidade de admitir que não apresentava soluções para as contradições internas que existem na própria Bíblia. Há discordâncias dentro do próprio relato do Génesis que são complicadas para quem quer sustentar “cientificamente” que a Bíblia foi escrita exactamente como Deus a ditou e que, como tal, não tem erros. Além de que há episódios do Génesis que, com os conhecimentos actuais, se tornam impossíveis de explicar cientificamente. Um bom exemplo é a arca de Noé. Como é que pode ter sido fabricada por forma a levar lá dentro dez milhões de espécies? Ou então, esbarram em problemas sérios quando apresentam teorias cientificamente testáveis que caem pela base perante os métodos de observação modernos: como é que todos os depósitos geológicos que existem se podem ter formado durante o Dilúvio, se grande parte deles são francamente anteriores à existência do homem? Os defensores do Intelligent Design já apresentam versões mais requintadas, e, como tal, são mais hipócritas.
Mas, antes de mais nada, como é que se fazem ouvir?
Ah! Têm editoras próprias onde publicam, revistas próprias onde escrevem, sites espampanantes na net, um Institute of Creation Research com tecnologia de ponta... e, claro, sabe-se lá de onde é que vem o dinheiro para isso tudo. Fala-se de financiamentos de grupos fundamentalistas, de Adventistas do Sétimo Dia, de Testemunhas de Jeová, de Born Again Christians, mas está tudo envolto num grande secretismo, como é próprio destas coisas.
E usam esses palanques para argumentar o quê, basicamente?
Que há uma entidade criadora a reger o mundo vivo, mas isto é feito de forma sofisticada. Recorrem a dois grandes grupos de argumentos. O primeiro é que os seres vivos possuem aquilo a que eles chamam “complexidade irredutível”: é impossível existir evolução gradual, porque o todo só funciona quando existe a soma completa das partes. O exemplo preferido deles é a ratoeira, que só funciona quando tem todas as peças no sítio correcto. E passam o tempo a citar incorrectamente o Darwin no que diz respeito ao olho, para implicar que até ele acreditava que um olho é tão complexo que não pode evoluir gradualmente. Na realidade, o que o Darwin escreveu sobre as possibilidades de adaptação é que existem na Natureza todos os tipos de olhos possíveis, pelo que é possível que se tenha começado apenas pelas formas mais simples. Mas eles usam só a frase “quem olha para o olho, em toda a sua perfeição, pode pensar que ele nunca poderia ter evoluído”, e argumentam que o olho é complexo demais para alguma vez poder ter existido numa forma que não seja a presente. Também recorrem a uma série de ideias de nível molecular, que assentam num conhecimento que as pessoas geralmente não têm, pelo que pode convencê-las mais facilmente. Um exemplo deles é o flagelo das bactérias: se funciona por acção de uma série de proteínas que o fazem andar à roda, então todo esse conjunto teve que aparecer tal qual o conhecemos, numa organização pré-fabricada por desígnio. Claro que já vários biólogos sublinharam que a maior parte dessas proteínas já existiu antes noutros complexos metabólicos, e portanto há várias explicações possíveis para a evolução do flagelo – mas eles estão, sobretudo, a tentar convencer as pessoas que não são formadas nestas áreas.
E o segundo argumento?
Chama-se “informação complexa especificada”. Os flocos de neve podem ser todos diferentes e manter as mesmas características cristalinas, mas os seres vivos só podem ser complexos dentro de um padrão específico que lhes permita serem, também, funcionais. Um ser vivo tem que ter a organização específica que tem e nenhuma outra, porque se tivesse outra já não funcionava. Chegaram a publicar os algoritmos de complexidade possível para a funcionalidade, e, repara, estas já são áreas onde o comum dos mortais se perde com facilidade. Uma vez mais, eles defendem que, para este fenómeno da organização funcional complexa ser possível, tem que ser resultado de uma organização pré-fabricada por desígnio.
Ou seja, por Deus? É isso?
Para evitar o rótulo religioso, eles defendem que há um desígnio mas deixam em aberto quem foi o designer desse desígnio. Só insistem que, perante os seus argumentos, qualquer pessoa tem que inferir a existência de um designer. Claro que, entre eles, o designer é Deus, sim.
Tens alguma noção de quem são, exactamente, estas pessoas?
Muitos são cientistas, mas nenhum é biólogo. Que eu saiba, há um bioquímico, e é o mais próximo que encontramos do conhecimento do mundo vivo. Depois há matemáticos, engenheiros, gente de Direito... sem dúvida, pessoas que gostam de argumentos rebuscados.
Mas não são teólogos.
Não. Sobretudo os católicos e os anglicanos tendem a afastar-se, e há criacionistas sinceramente magoados com o João Paulo II . Agora, o presidente dos Estados Unidos tem inequivocamente uma grande simpatia por eles...
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