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quarta-feira, 14 de março de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Museu aberto

Esta última edição do Moda Lisboa, concluída no Domingo sob um sol radioso que enchia a rua de antecipações risonhas da Primavera, teve lugar no Museu de História Natural. Para mim era particularmente comovente, porque aquele edifício da Escola Politécnica foi onde eu fiz o curso de Biologia, alguns dos stands estavam montados onde dantes ficavam os gabinetes de professores muito temidos ou os expositores do material para as práticas de Zoologia I; e, num golpe de aproveitamento do ambiente absolutamente genial, todos os funcionários da festa estavam vestidos de batas brancas, as mesmas que o pessoal do meu tempo usava. A organização lembrou-se de outros toques cénicos muito bem esgalhados: a sala VIP tinha armários de fósseis a decorar o fundo, as lâmpadas peduradas do tecto recuperavam o design da iluminação antiga, as tabuletas e setas do Museu estavam estategicamente destacadas do conjunto, pena foi que não se explorasse mais este filão e não se desse mais relevo à diversidade e ao colorido das colecções que lá estão dentro. A ideia geral não podia ser mais produtiva, e os responsáveis pelo Museu estão de parabéns: entrou nas suas instalações a Comunicação Social em peso e uma multidão de gente que talvez por outras razões nunca lá fosse, deu-se a ver a todo o país a beleza e profusão de materiais que caracterizam o espaço, recordou-se aos visitantes que a História Natural é um mundo que nos enriquece quando o conhecemos melhor – e, sobretudo, deu-se uma machadada no conceito desagradável de que o que é das Universidades está vedado às pessoas normais. Foi bom.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Quarta feira de cinzas

QUARTA FEIRA DE CINZAS
Quarenta dias antes da Páscoa sem contar os domingos ( que não são incluídos na Quaresma), e quarenta e quatro dias antes da Sexta-feira Santa contando os domingos: a quarta-feira de cinzas, que celebramos hoje, é o primeiro dia da Quaresma no calendário cristão ocidental. As cinzas que os católicos recebem neste dia são o símbolo para a reflexão sobre o dever da conversão, da mudança de vida, e a recordação da passageira, da transitória, da efémera fragilidade da vida humana, sujeita à morte. E é exactamente neste dia que deveríamos, com grande orgulho em sermos portugueses, observar um minuto de silêncio em memória do injustamento esquecido Barjona de Freitas, 1834-1900.
Augusto César Barjona de Freitas, sem dúvida um dos maiores portugueses de sempre, foi um jurista e político ligado à esquerda do Partido Regenerador. Foi deputado, Par do Reino, e ministro. E, graças ao seu trabalho incessante nesse sentido e aos seus dotes oratórios impressionantes, conseguiu elevar-nos à quintessência da civilização corporizada no facto incontornável de Portugal ter sido o primeiro país do Mundo a abolir a pena de morte. Isto sim, é respeitar a passageira, transitória e efémera fragilidade da vida humana. Neste momento sim, fomos o país mais educado e culto do planeta. Às vezes, um de nós torna-nos sublimes. A seguir esquecemo-lo? Somos excepcioais nessa manobra.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: O Filósofo da Bénard

O FILÓSOFO DA BÉNARD
As pessoas gostam muito de dizer que os portugueses são burros e que não têm nada entre as orelhas, mas eu regozijo-me quase todos os dias com pequenas revelações de que não é verdade que andem para aqui dez milhões de criaturas com o cérebro em coma. A desta semana, absolutamente deliciosa, foi-me entregue numa folha A4 por um empregado da Bénard, ali em pleno Chiado, numa dessas tardes em que parei lá por uns minutos para me refazer da chuva antes de seguir para casa. O que era aquilo? Muito simples. Há um jovem filósofo alemão, absolutamente brilhante e de seu nome Robert Kurtz, que vai escrevendo textos para tentar partilhá-los com o mundo. Esse filósofo alemão é amigo de um filósofo português. E este segundo rapaz, empenhado em não deixar apagar a chama, traduz cuidadosamente a prosa do colega para a nossa língua e distribui-a por vários locais – nomeadamente pela Bénard. O texto desta semana, intitulado Desarmamento moral: a cultura do escândalo como expressão da falta de perspectiva social, contém várias passagens notáveis, da quais transcrevo, por impossibilidade de monopolizar mais espaço, apenas isto: “A sociedade transformou-se num grande ninho de intriga global. Quando os conteudos se tornam indiferentes surge um capitalismo mental, com a sua espectacular economia da atenção”. Querem mais? Vão ver a exit-online.org. E, por favor, deixem de generalizar a acefalia crónica dos portugueses. Garanto-vos que o empregado que me passou o papel estava genuinamente entusiamado com o texto.