quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Homens e Medicamentos. História da Farmácia e da Terapêutica

 
Este livro contém o Curso de História da Farmácia e da Terapêutica que ensino na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa desde a década de 1980.
Estará à venda, online a partir do próximo dia 15 de agosto, e nas livrarias a partir do mês de setembro. O lançamento terá lugar provavelmente em setembro.



segunda-feira, 16 de maio de 2022

Sita - A vida e o Tempo de Sita Valles

Vi hoje o documentário "Sita - A vida e o Tempo de Sita Valles", de Margarida Cardoso, em exibição em Lisboa, e que pode ser adquirido igualmente em DVD (pelo menos no Cinema Ideal)

Os factos narrados não são, na maioria, novos. Mas vê-los ditos na primeira pessoa, por muitos dos intervenientes que os viveram de perto, foi um enorme murro no estômago.

Para além do que se abateu sobre a Sita, o seu marido e os restantes protagonistas principais, fica uma enorme perplexidade sobre como um Estado, um Partido e um Presidente assassinaram, de forma sumária e prolongada no tempo, dezenas de milhares de cidadãos do seu jovem país, para assegurarem que o lugar deixado vago pelos anteriores colonos podia por eles ser ocupado, sem terem que dividir as suas riquezas pela grande massa da população. 

Fizeram-no com o apoio, a cumplicidade ou o silêncio de atores do bloco de Leste e do chamado mundo ocidental.

Fizeram-no com o apoio e a cumplicidade de Cuba e da URSS, o que não estranha se atendermos a que o que se passou em Angola em 1977-78 foi muito semelhante ao que os dirigentes soviéticos e do Comintern fizeram a Andreu Nin e ao Partido Obrero de Unificación Marxista durante a guerra civil espanhola. 

Mas também o fizeram com o silêncio cúmplice do Governo e do Estado português, por motivos de convicção política ou para não pôr em risco a partilha de algumas migalhas das riquezas angolanas.

A todos estes se juntou a cumplicidade de Álvaro Cunhal e do Partido Comunista Português, por motivos e de uma forma que não deixa de apresentar contornos semelhantes aos que levaram este partido a tomar a sua conhecida posição face à atual invasão russa da Ucrânia.

Até agora, só o atual Presidente de Angola, João Lourenço, tomou a iniciativa de romper o véu do silêncio. Seria o momento de outros o fazerem.

 


quinta-feira, 7 de abril de 2022

O Partido Comunista Português e a invasão da Ucrânia

O PCP continua alegremente na senda do apoio objetivo a Vladimir Putin, ao votar contra o convite a V. Zelenski para falar no parlamento português e na argumentação com que alertou para “manipulação” e pede investigação rigorosa sobre as mortes de civis na cidade de Bucha.

É verdade que a retórica do PCP se coloca numa hipotética neutralidade entre ambos os lados do conflito, mas esquecer que um dos países (sem dúvida o mais forte) é o invasor e o outro (o mais fraco) é o invadido e pô-los em pé de igualdade só porque os EUA, a NATO e a UE dão a este último um apoio parcial e limitado, é claramente um sofisma.

A continuada insistência nas teses sobre os nazis ucranianos e sobre a falta de provas acerca dos crimes de guerra russos, quando é evidente a falta de apoio aos primeiros por parte dos eleitores ucranianos e quando a deliberada destruição de alvos civis por parte dos russos se encontra mais que demonstrada, tanto na Ucrânia como na Síria (que curiosamente não é diretamente mencionada no comunicado de imprensa do PCP), é uma técnica antiga de distorção deliberada dos factos.

Ao defender estas posições, o PCP mantém-se próximo do Partido Comunista da Federação Russa, que apoia a intervenção militar russa no Donbass: 

"A Rússia está-se finalmente a afastar da idolatria perniciosa do Ocidente…. É hora de mostrar o nosso caráter no Donbass. Estamos rodeados por uma cadeia de Estados hostis. É impossível recuar mais. O Ocidente deve sentir a determinação da Rússia em defender a si mesmo e seus amigos. (...)

Estamos prontos para apoiar as medidas decisivas do governo para proteger a segurança da Rússia e dos nossos concidadãos nas Repúblicas Populares da região de Donbass." [Artigo de opinião de Gennady Zyuganov, atual líder do PC da FR de 4 de fevereiro de 2022 [Peoples World].

A 5 de abril, o mesmo G. Zyuganov defendeu na reunião plenária da Duma que a Ucrânia "deve ser libertada do nazismo e dos banderistas", apelidando de histórica a decisão de Putin de iniciar a invasão:

“Todos entendem que a Ucrânia deve ser libertada do nazismo e dos banderistas. Todos estão cientes de que a decisão do Presidente da Federação Russa de iniciar a operação visando a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia é histórica. Mas todos entendem que se pararmos e os nazistas ainda detiverem o poder, a situação será ainda pior” [Página da Duma].

Ao recusar de facto o direito dos ucranianos se armarem e defenderem da agressão, o PCP afasta-se das teses de Lenine sobre o respeito pelas nacionalidades e aproxima-se da visão imperial de Estaline, posições abertamente partilhadas por Putin [ver Lipman, Masha. 2014. "Putin Disses Lenin". The New Yorker, 3 de Setembro de 2014. https://www.newyorker.com/news/news-desk/putin-disses-lenin].

No seguimento das Teses sobre a Questão Nacional, que escrevera em 1913, Lenine deixou bem claro em 1917 que:

"nenhum democrata pode negar o direito da Ucrânia de se separar livremente da Rússia. Somente o reconhecimento irrestrito desse direito permite defender uma união livre dos ucranianos e dos russos, uma associação voluntária dos dois povos em um Estado. Só o reconhecimento incondicional deste direito pode realmente romper completa e irrevogavelmente com o maldito passado czarista, quando tudo foi feito para provocar um distanciamento mútuo dos dois povos tão próximos um do outro em língua, território, caráter e história. O maldito tsarismo fez dos russos carrascos do povo ucraniano e fomentou neles o ódio por aqueles que até proibiam as crianças ucranianas de falar e estudar em sua língua natal." [Publicado pela primeira vez no Pravda nº 82, 28 (15) de junho de 1917. Publicado de acordo com o texto do Pravda. Marxists Internet Archive.]

Já há muito tempo que o PCP parece ter sacrificado uma visão crítica da realidade internacional em favor de uma concentração de esforços na realidade nacional. Mas se tal podia fazer algum sentido quando ainda existia a ditadura em Portugal e a Rússia era a URSS, a presente colagem ao PC da Federação Russa surge como um mero reflexo atávico e irracional.

Tudo indica, contrariamente ao vaticinado por vários comentadores, que o PCP não vai morrer soterrado pela pirâmide etária. Por este caminho vai-se tristemente afogar nas águas paradas da estupidez. E é pena. O saudável equilíbrio de forças da democracia ficará certamente a perder.

quinta-feira, 31 de março de 2022

A denominação de uma disciplina: Ecologia

O termo ecologia (do grego oikos, "casa" e -logia, "estudo de") foi introduzido por Ernst Haeckel (1834-1919) no seu livro Natürliche Schöpfungsgeschichte [História da Criação Natural] (1868), traduzido para inglês em 1876 sob a supervisão do zoólogo E. Ray Lankester (1847-1929), com o título The History of Creation.

Nas palavras de Haeckel, a ecologia assenta numa premissa claramente materialista, alheia a quaisquer intenções do Criador:  

"A ecologia dos organismos, o conhecimento da soma das relações dos organismos com o mundo exterior circundante, com as condições orgânicas e inorgânicas de existência; a chamada "economia da natureza", as correlações entre todos os organismos que vivem juntos numa mesma localidade, sua adaptação ao meio, sua modificação na luta pela existência, especialmente as circunstâncias dos parasitismos, etc. São apenas esses fenómenos na “economia da natureza” que os não-científicos, numa consideração superficial, costumam considerar como arranjos sábios de um Criador agindo para um propósito definido, mas que, num exame mais atento, mostram ser os resultados necessários de causas mecânicas." (Haeckel 1876, vol2, p. 354).

Não é por acaso que a revisão do livro é realizado por Ray Lankester, admirador de Charles Darwin (1809-1882) e amigo de Karl Marx (1818-1883), autores que partilhavam dessa recusa duma visão teleológica do mundo natural. Lankester é a única figura que se sabe ter estado no funeral de ambos. Por volta de 1879-80, ele tornara-se amigo próximo e visita assídua de Karl Marx e da sua filha Eleanor (1855-1898). Segundo Foster, "Marx sem dúvida achou atraente o materialismo e o radicalismo completos de Lankester" (Foster 2020, p. 37), sendo possível encontrar nas suas obras e correspondência fortes indícios das trocas de ideias entre ambos.

Ray Lankester foi um influente autor e professor de zoologia geral na viragem do século XIX para o século XX, tendo realizado importantes contribuições para a anatomia comparada, a embriologia, a parasitologia e a antropologia. Foi professor nas Universidades de Londres (1874-90) e de Oxford (1890-1898) e na Royal Institution, em Londres (1898-1900) e diretor do Natural History Museum, de Londres (1898-1907). 

Lankester, ele próprio um pioneiro da ecologia, preferiu usar o termo "bionomics [bionomia]" (do grego bio, "vida" e -nomos, "lei") em vez de "ecologics [ecologia]", o que fez no artigo "The history and scope of zoology", primeiro publicado na nona edição  da Encyclopædia britannica (1888). Neste artigo, reeditado na coletânea  The advancement of science. Occasional essays & addresses (1890), Lankester considerava que se podia dizer que "Darwin fundou a ciência da bionomia" (Lankester 1890, p. 367).

Segundo Lankester, que fora um dos principais fundadores da Marine Biological Association em 1884 e seu presidente entre 1890 e 1929, 

"A fundação de laboratórios biológicos marinhos sob o controle de zoólogos científicos oferece uma perspetiva de verdadeira observação e experiência bionómica em escala aumentada num futuro próximo, e onde tais laboratórios fossem fundados nas nossas universidades e dotados dos aparelhos necessários para manter animais terrestres e de água doce, assim como as formas marinhas, vivas e observadas em condições o mais próximas possíveis das da natureza, teria sido dado um passo no sentido de fazer avançar o estudo da Bionomia que não pode ser adiado." (Lankester 1890, pp. 369-70).   

O termo bionomia só foi substituído por ecologia, como o preferido pelos biólogos, no início do século XX.

Nota:

J. B. Foster dedica todo o primeiro capítulo, "Ecological Materialism", de The Return of Nature (pp. 24-72) a E. Ray Lankester. Foster não se limita a abordar o seu pensamento ecológico, traçando igualmente o perfil biográfico, tanto de Ray como de seu pai, o médico Edwin Lankester (1814-1874), e discutindo o seu pensamento relativamente a questões como a degeneração, a "questão feminina", ao darwinismo social e à eugenia. Aborda igualmente a sua relação com Marx e aspetos do seu posicionamento sócio-político.

Bibliografia

Britannica, The Editors of Encyclopaedia. "Sir Edwin Ray Lankester". Encyclopedia Britannica, https://www.britannica.com/biography/Edwin-Ray-Lankester. Ac. 29 mar 2022.
Foster, John Bellamy. 2020. The Return of Nature: Socialism and Ecology. Monthly Review Press.
Haeckel, Ernst. 1876. The history of creation, or, The development of the earth and its inhabitants by the action of natural causes : a popular exposition of the doctrine of evolution in general, and of that of Darwin, Goethe and Lamarck in particular / from the German of Ernst Haeckel ; the translation revised by E. Ray Lankester. 2 vols vols. London: H.S. King & Co. https://wellcomecollection.org/works/rpm9wvq7.
Lankester, E. Ray. 1890. The advancement of science. Occasional essays & addresses. London: Macmillan. https://www.biodiversitylibrary.org/item/74510.
 
 
 

segunda-feira, 21 de março de 2022

Pensamento ecológico e socialista: dois livros de John Bellamy Foster

John Bellamy Foster
Existe uma tradição ecológica socialista e materialista, com raiz no pensamento de Karl Marx? John Bellamy Foster (N. 1953) tem publicado de forma consistente, tanto individualmente como em colaboração com outros autores, a demonstrar que sim. Foster, professor de sociologia na Universidade de Oregon e editor da Monthly Review, é o autor, entre outros livros que abordam a temática ecológica, de Marx's Ecology: Materialism and Nature (2000) e The Return of Nature: Socialism and Ecology (2020), duas obras fundamentais para se entender o pensamento de Karl Marx e de outros autores no campo do socialismo sobre a natureza e a ecologia.

Marx’s Ecology: Materialism and Nature

Em Marx’s Ecology: Materialism and Nature, Foster   contesta a ideia muito frequente que Marx se preocupava apenas com o crescimento industrial e o desenvolvimento das forças produtivas. No prefácio, Foster descreve o seu próprio percurso intelectual e as dificuldades que teve para compreender inteiramente a importância do pensamento ecológico de Marx: "O meu caminho para o materialismo ecológico foi bloqueado pelo marxismo que aprendi ao longo dos anos. (...) Parecia haver pouco espaço em tal síntese, no entanto, para uma abordagem marxista das questões da natureza e da ciência natural-física" (p. vii). No livro, ele examina vários escritos de Marx sobre agricultura capitalista e ecologia do solo, naturalismo filosófico e teoria da evolução, apresentando uma nova compreensão do materialismo ecológico, expresso no seu conceito central de fratura metabólica na relação humana com a natureza. Ele mostra que Marx, além de crítico da sociedade capitalista, também estava profundamente preocupado com essa mudança da relação homem-natureza. Marx’s Ecology descreve uma história intelectual e social, abrangendo pensadores como Epicuro (341 a.C.-270 a.C.), Charles Darwin (1809-1882), William Paley (1743-1805), Thomas Malthus (1766-1834), Ludwig Feuerbach (1804-1872) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Ao reconstruir uma conceção materialista da natureza e da sociedade, Marx’s Ecology contrapõe à visão idealista predominante no movimento verde moderno um método de análise que oferece soluções mais sustentáveis ​​para a crise ecológica. O livro termina com as mortes de Darwin (1882) e Marx (1883). Apenas no Epílogo é que Foster avança cronologicamente, abordando a receção do pensamento ecológico de Marx em vários autores do século XX.

The Return of Nature: Socialism and Ecology

Vinte anos depois, com
The Return of Nature: Socialism and Ecology, Foster continua e desenvolve a narrativa iniciada no Epílogo de Marx’s Ecology, descobrindo uma longa linhagem de autores que procuraram unir questões de justiça social e sustentabilidade ambiental. As 672 páginas de The Return of Nature contém uma detalhada epopeia, que começa nos finais do século XIX e segue até ao surgimento da era ecológica, nas décadas de 1960 e 1970. Ele mostra como vários pensadores socialistas e cientistas materialistas influenciados por Marx, primeiro na Grã-Bretanha, depois nos Estados Unidos, como Ray Lankester (1847-1929), William Morris (1834-1896), Frederick  Engels (1820-1895), Arthur George Tansley (1871-1955), H(erbert) G(eorge) Wells (1866-1946), Lancelot Hogben (1895-1975), John Desmond Bernal (1901-1971), Joseph Needham (1900-1995), John Burdon Sanderson Haldane (1892-1964), Hyman Levy (1889–1975), Christopher Caudwell (1907-1937), Rachel Carson (1907-1964) e Stephen Jay Gould (1941-2002), procuraram desenvolver um naturalismo dialético, enraizado numa crítica do capitalismo, oferecendo uma reinterpretação detalhada e fascinante das origens radicais e socialistas da ecologia. Nas palavras do autor, "Os principais pensadores socialistas (e social-democratas) que constituem o foco deste livro foram todos politicamente e socialmente ativos no desenvolvimento de uma visão crítico-materialista enraizada na ecologia e na dialética que se estendeu à ciência e/ou arte" (p. 21). O livro dedica uma larga atenção à vida e ao pensamento, não apenas ecológico mas também político e social de muitos desses autores, constituindo uma fonte de informação que vai muito além do que esperaríamos do seu título.