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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
ENTREVISTA: Carlos Fiolhais
CARLOS FIOLHAIS
Como quem não esquece o deslumbre
Em finais de 2006, a Universidade de Évora atribuiu, pela primeira vez, o Prémio Rómulo de Carvalho, destinado a distinguir alguém que marque a diferença pelo seu contributo para a cultura científica, nomeadamente em áreas descuradas e no entanto fundamentais, como o Ensino e a História da Ciência. Agora, em Fevereiro de 2007, foi lançado o esperadíssimo Nova Física Divertida, segundo andamento de uma Física Divertida que embalou inúmeros leitores no prazer do pensamento científico nos últimos anos.
O galardoado e o autor dos dois livros é Carlos Fiolhais, 50 anos, pai de um filho de 13, Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra, e, mais recentemente, director da Biblioteca Geral dessa universidade, que inclui a riquíssima Biblioteca Joanina, senhora de milhares de volumes de veneranda sabedoria. Um homem que tem dedicado grande parte da sua energia intelectual ao prazer extremamente exigente de comunicar aos outros as coisas espantosas que sabe, como quem não esquece o deslumbre que acompanha a descoberta dos segredos do Universo e da aventura da vida. Um homem que gosta mesmo de contar histórias, histórias que vale a pena ouvir.
Fizemos questão de fotografar o Carlos na biblioteca mais antiga do país; mas, antes, fomos tranquilamente conversar para o café da Gulbenkian, cada um de nós com o seu pastel de nata delicioso. Grande, sorridente, este laureado é também um cidadão empenhado: veio de Coimbra a Lisboa para ouvir a conferência única de Al Gore no Museu da Electricidade, e agora está a fazer horas para marcar presença na “vernissage” da nova exposição do nosso grande mestre Jorge Calado. Tem tanta curiosidade, e por tanta coisa, que é preciso alertá-lo e repreendê-lo para manter o fio da conversa. “Sou assinante do JL desde o primeiro número”, diz ele. “Só há muito pouco tempo é que, com pena minha, deitei fora a enorme colecção que lá tinha em casa. Mas de vez em quando também leio o 24 horas”.
Está bem, mas, pelo amor de Deus, começa lá a história do princípio. É mesmo verdade que te doutoraste aos 26 anos?
Sim, mas não foi nada de especial. Fui estudar para Frankfurt e lá a rotina era essa. Depois voltei para Coimbra, treinei-me a dar muitas aulas e aprendi imenso com vários colegas. Depois, ao fim de uns anos, voltei a sair para trabalhar para New Orleans, a cidade mais fabulosa dos Estados Unidos. Estás a ver, aqueles pântanos, as mansões, os jacarés, a comida “cajun” que é uma delícia, a loucura de Bourbon Street... Gostei tanto que já lá voltei na minha segunda sabática. A Tulane foi uma universidade que me deu muita sorte…
Só sorte, ou também muito trabalho para ter sorte?
Ambas as coisas. Quando lá cheguei, o chefe do laboratório tinha acabado de descobrir uma fórmula, e distribuiu-a por cinco colaboradores, entre os quais eu próprio, para que cada um de nós estudasse uma aplicação prática. O artigo que publicámos já teve, até hoje, 4700 citações.
É obra. E o fenómeno continua?
Sim, porque aquela fórmula calcula uma energia dos electrões. E, por isso, usa-se em tudo o que é modelação molecular.
Se eras um VIP científico, por que é que te foste meter na tarefa ingrata da divulgação?
Em 1982, quando voltei de Frankfurt, estava a nascer a editora Gradiva, com a sua famosa colecção Ciência Aberta. Eu vinha todo cheio de cultura germânica, e achava que livros de divulgação bons eram os alemães. Mas gostava dos livros científicos que a Gradiva publicava. Escrevi uma carta ao editor, o Guilherme Valente, a dizer isso. Ele telefonou-me. Estivemos uma hora ao telefone. Sabes como é o Guilherme. E eu estava cheio de sangue na guelra… Combinámos encontrar-nos em Leiria.
Quer dizer, a meio caminho entre Lisboa e Coimbra?
Sim, é a terra dele. Foi óptimo. Falámos, falámos... nessa altura havia pouca divulgação em Portugal... Começámos a colaborar. Eu recomendava livros e fiz algumas traduções. Depois, em 1991, enchi-me de brios e escrevi o Física Divertida.
E foi um espantoso “best-seller”.
Bom, vai agora na sétima edição. Vendeu quase vinte mil exemplares. Em Portugal, de facto, é um número considerável.
Estavas à espera desse êxito?
Não. Foi um choque. Na altura, o José Mariano Gago escreveu no “Expresso” uma coisa gira, a dizer que eu tinha entrado para catedrático da Universidade da Gradiva, que era melhor que várias outras. Até fiquei envergonhado... sem jeito, sabes como é? Não aprendemos em lado nenhum a estar preparados para estas coisas.
Tens ideia do que é que seduziu as pessoas?
Repara, o título do livro é um paradoxo: nunca se pensa na Física como sendo divertida. O livro baseia-se em episódios da história da física, e creio que interessou tanto a miúdos como a universitários, porque era a antítese da física dos manuais escolares. Era uma prosa inspirada na colecção Ciência Para Gente Nova, de Rómulo de Carvalho. É prosa molhada, se quiseres, ao invés da prosa seca típica desses livros. Na escola, o que nos serviam como ciência eram fretes. E eu tentei falar de verdadeira ciência, com todo o seu brilho e cor. No secundário, a Física parecia-me por vezes um instrumento de tortura, um trato de polé. As minhas melhores notas eram a Filosofia e a Ciências Naturais, e não a Física ou a Matemática. Não fiquei a gostar de física na escola: encontrei-a nos livros de divulgação científica que trazia para casa da Biblioteca Municipal, onde por vinte e cinco tostões ao ano tinha acesso a tudo e mais alguma coisa. O que eu vibrei em miúdo com o Júlio Verne… E como fiquei fascinado com o átomo… Com o núcleo, que é o coração do átomo. Acabei por fazer o doutoramento sobre a cisão do núcleo.
O que é que te atraiu assim tanto para essas lides?
O núcleo do átomo é o mistério dos mistérios!
Em Biologia, a gente diz isso da reprodução...
À chaqu'un son gout. A gente não vê os núcleos. Eu pensava: gosto de dar aulas a pessoas, mas o que são elas comparado com o Cosmos? Fui atraído pelos mistérios cósmicos do muito pequeno. Percebi que podia alcançar essas dimensões… No secundário, sentia que os programas de Física me estavam a esconder qualquer coisa. E irritava-me: por que é que me escondem isto? Quando cheguei à Faculdade, encontrei o que estava escondido, o átomo com núcleo e electrões É paradoxal: o electrão é esquizofrénico! Pode estar em dois pontos ao mesmo tempo… Como é que ele faz isso? E as partículas que estão dentro do núcleo? Pronto, lá fui descobrir as leis do núcleo para a Alemanha. Sabes o que é que eu acho magnífico nisto? As leis da Natureza, a gente só pode descobri-las. Não pode, nunca, fazê-las.
O que é que tu descobriste?
Descobri melhor como se partia o núcleo atómico. Quando fui para New Orleans, a Física Nuclear, de que tanto gostava, já não estava na moda. Mas a Mecânica Quântica continuava a ser a mesma. Se a gente percebe bem, e a sério, de uma determinada coisa, depois pode aplicá-la a uma variedade grande de questões. No meu caso, podia perfeitamente utilizar o que sabia sobre os núcleos para estudar moléculas. Sempre com o computador. Acabado de doutorar, tinha comprado o primeiro PC da Universidade de Coimbra. Era um Olivetti que custou 500 contos. Isto foi em 1983, quando apareceram os primeiros computadores pessoais – tive imensa sorte com esta janela de tempo, como se ela tivesse esperado por mim… Hoje, o maior computador em Portugal para cálculo científico também está em Coimbra. Demos-lhe o nome de Milipeia, porque funciona como um bicho de mil patas que precisa que todas funcionem em uníssono para conseguir mover-se. Começámos por criar a Centopeia, que tinha mais de cem patas. E agora temos a Milipeia.
Por que é que, com a formação de físico que tens, acabaste por investir tanto tempo e energia nos computadores?
Não me puxes pela língua. Esta parte é fascinante. O computador, que vem da física, já nos deu muito, mas estou convencido de que ainda não deu tudo o que tem para dar-nos. Todos os dois anos o computador dá-nos o dobro. Isto está estudado. É a lei de Moore, o criador da Intel.
Peço desculpa, mas vais ter que explicar isso melhor.
Pensa nos transistores. São interruptores. Conforme os ligas ou não, passa ou não uma corrente eléctrica, tal como passa ou não água numa mangueira conforme pões o pé em cima ou o tiras. Tudo se faz a partir daqui, a partir de sinais de sim e não. Os transistores são cada vez mais pequenos; e, à medida que minguam, cabem vez mais no mesmo espaço: neste momento, há cerca de dez milhões de transistores num chip. Um PDA era impossível há poucos anos. É uma tecnologia que seria impossível se os transistores não fossem pequeninos. E vão ser menores. Olha: um micrómetro, o tamanho de uma célula, é o tamanho dos transistores actuais. Um nanometro, um milésimo do micrometro, é o tamanho de uma molécula orgânica, e os transistores vão ser deste tamanho. O que quer dizer que, nessa altura, um PDA poderá ser do tamanho de um cabelo. Não podemos descer abaixo do nível do átomo; mas, até aí, muita coisa se pode fazer..
Não há dimensões abaixo do átomo?
Há, mas é vazio até ao núcleo. E transístores com partículas do núcleo é ficção científica.
E o que é que vai acontecer, na prática, por causa do encolhimento dos transistores?
Pensa bem. Se a indústria automóvel tivesse progredido ao ritmo da indústria informática, eu hoje tinha um Ferrari pelo preço de uma bicicleta. Mas, no mundo dos computadores, já tenho o meu Ferrari ao custo da bicicleta. E, enquanto o Ferrari parou ali, os computadores continuam a ficar cada vez mais poderosos.
Então e as aplicações científicas desse fenómeno?
Sem computadores, toda a moderna ciência do caos seria impossível. Sempre se fizeram associações entre causas e efeitos, mas a ideia de que pequenas causas pode causar grandes efeitos é recente e deve-se ao computador.
Aquilo da borboleta que bate as asas no México e desencadeia um ciclone na China?
Sim, isso mesmo.
Eu estava a pensar em desenvolvimentos científicos que interferissem directamente com a vida de todos nós…
Há um conto do Jorge Luis Borges em que alguém quer fazer um mapa do tamanho de um império. Os computadores ainda não conseguem mapear o mundo dessa forma, mas para lá caminham. Basta lembrar que põem satélites em órbita com precisão e, por favor, isso é uma velharia dos anos 50. Com esses satélites prevê-se o tempo que vai fazer amanhã. Vamos prever cada vez melhor o futuro, porque vamos ter cada vez mais poder de cálculo.
Credo. E isso é bom, com os futuros que andam para aí a ser previstos?
Claro que é. Para já, porque, assim, temos a possibilidade de evitar o pior, por exemplo as alterações climáticas E temos a possibilidade de decidir – e que exige muito de nós, em maturidade - mas também nos dá muito em troca, em bem-estar e mesmo sobrevivência. Podemos fazer vários cenários, e depois escolher o futuro que queremos. E, num país democrático, quando o governo não quiser escolher o futuro que queremos, podemos tirá-lo nas eleições seguintes.
Até lá, o dito governo ainda tem tempo de fazer muita porcaria.
E tu queres viver em regime de golpe de Estado, é? Ainda hoje o Al Gore disse na conferência: numa democracia o poder político é um recurso renovável… Assim como o periscópio permite ver mais longe, o computador permite ver mais para diante. Podemos até alterar o mundo e criar mundos virtuais, como no filme “Matrix”. Podemos alterar virtualmente as leis da Natureza e ver se o mundo fica pior ou não.
Por exemplo?
Experimenta mudar a lei da gravidade no teu mundo virtual. Não demoras muito tempo a perceber que tudo deixa de funcionar. Perde-se logo a regularidade astronómica, por exemplo. E, sem ela, não há estações, não há climas, não há noites de Lua Cheia... Quando percebes que perfeito que isto é, que perfeitos são os fenómenos cósmicos que permitiram o aparecimento da vida, passas a gostar mais de estar no mundo. Já viste bem que fantástico tudo isto foi?
sábado, 17 de fevereiro de 2007
ENTREVISTA: Ana Maria Rodrigues
Ana Maria Rodrigues
COMO QUEM VIAJA NO TEMPO
António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, historiador medievalista e contemporâneo, resistente antifascista, antigo director da Biblioteca Nacional, Gão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supermo Conselho do grau 33 (1991-1994), condecorado em 1998 com a Grão Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, autor de uma vasta obra de grande importância para o estudo da História de Portugal, faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vítima de problemas cardíacos. Tinha formado uma verdadeira escola, e deixado pelo caminho vários discípulos que foram, por seu turno, subindo nos escalões da carreira. Homenageá-lo, hoje, é, antes de mais nada, não deixar que a Idade Média desapareça do conhecimento imediato dos portugueses. Para recordarmos esse período único em todo o seu esplendor, pedimos ajuda a Ana Maria Rodrigues, Professora Associada do Departamento de História da Universidade de Lisboa, 49 anos, dois filhos, pronta a fazer uma grande festa, com viagem familiar e tudo, quando totalizar os 50. A sua especialidade é História Medieval, e os seus olhos brilham quando revela o que estuda. Fala tranquilamente, familiarmente, como quem viaja no tempo, do período menos compreendido e mais maltratado da História da Europa.
A cave da Faculdade de Letras tem corredores infindáveis com cacifos alinhados dos dois lados, inscrições nas colunas do tecto que ninguém se dá ao trabalho de ler, e um certo ar de última paragem neste mundo dos que foram sentenciados a deixá-lo. Na rua o frio continua a gelar os transeuntes, mas dentro do gabinete onde Ana Maria trabalha hoje estão os aquecimentos ligados e os casacos pesados vindos do exterior despem-se depressa. Uma mesa larga, um computador antigo, prateleiras a transbordar de papeladas, paredes vagamente cinzentas e janelas abertas para o sol gélido do exterior. Ela está linda, como sempre, com aquele seu ar que trouxe do doutoramento em França e nunca mais a largou. As pessoas atribuem à Idade Média tudo o que acontece de mal, diz ela.
Mas por que é que temos uma visão assim tão negativa do período medieval?
Foi na Idade Média que a nossa sociedade colocou a barbárie, a violência, o arbitrário... e, no entanto, hoje sabemos bem que não é tudo assim. Talvez tivessem existido alguns períodos que correspondam a esse imaginário global. Mas, hoje em dia, há vários autores que fazem a comparação entre a Idade Média e os nossos tempos, dizendo que nos aproximamos de uma nova Idade Média.
Porquê?
Por causa das migrações. Estaríamos perante uma nova invasão dos bárbaros...
Quem, os emigrantes de Leste?
Não. Esses vêm de uma cultura idêntica à nossa, muitas vezes até superior à nossa. E, assim que ganham algum dinheiro, vão-se embora. Poderíamos realmente falar dos romenos, por causa da raça cigana, que tem um código de honra completamente diferente do nosso. Mas já é esticar um bocado a corda. Os bárbaros em questão, segundo estes autores, seriam os argelinos, os marroquinos, enfim, os africanos. Isto em termos de opinião pública. Da mesma forma, os condomínios privados que agora existem seriam equivalentes aos antigos senhorios: instalam-se em domínios onde existe um afastamento dos outros, uma espécie de território próprio onde quem não pertence não entra. Nestes condomínios, as pessoas estranhas estão proibidas porque o Estado já não consegue assegurar a protecção da população em relação ao roubo e outras pequenas violências; e então introduzem-se aqui os seguranças privados, exactamente como existiam tropas especiais que protegiam o senhor do domínio.
Há mais exemplos do nosso novo período medieval?
Olha, se queres entrar numa grande empresa, não passas na segurança sem apresentares primeiro as credenciais, e tens que ser controlada enquanto estás lá dentro. Ou seja, há domínios de direito próprio dentro do que deveria ser uma democracia que constitui um Estado de Direito.
E voltando ao período medieval que já acabou, por que é que achas que hoje tem tão mau nome?
Provavelmente, por ser um período histórico extremamente longo. Basicamente, damos esse nome, que foi cunhado já pejorativamente pelos humanistas da Renascença, a todo o período que vai da Antiguidade Clássica à Renascença. O intuito dos humanistas do século XV era, precisamente, desvalorizar esse período e exaltar os seus próprios tempos, que tinham reatado com o grande conhecimento e beleza da Antiguidade. Até se usou por muito tempo tempo o termo “Dark Ages”, ou “Séculos Góticos”, remetendo para o obscurantismo, a violência, a falta de conhecimento do período medieval.
E tu não concordas, claro.
Então. Se houve de facto um início que pode ser considerado como um retrocesso, resultante da fusão entre a cultura romana e cristã e a cultura bárbara, depois esse período é seguido por várias ondas de criação de uma cultura nova, que já não é gótica nem obscura, e que está nos fundamentos da nossa cultura ocidental.
Diz-se que tudo muito condicionado pela Igreja...
Bem. Existem na Idade Média posturas positivas, dentro de um determinado caldo cultural que já não se conseguir reproduzir. Tem sido várias vezes assinalado nas últimas décadas que a Idade Média não possuía propriamente uma religião católica. Vivia-se, isso sim, dentro de um sistema que era religioso, em que a questão de se poder não acreditar em Deus ou de não seguir a fá cristã nem se punha. Um dos factores que caracteriza a fé islâmica é não existir separação entre a Igreja e o Estado: no período medieval, essa separação também não se fazia. Havia uma colaboração que por vezes podia ser mais difícil, mas que regra geral era muito afável. As duas entidades que nós consideramos separadas eram só uma na Idade Média. Nos Concílios, tratava-se assuntos tanto de moral e de religião como de política forma de governo, e isto dura até ao fim do século XI.
O que é que acontece no século XI?
Dá-se a Reforma Gregoriana, quando se tenta distinguir o que é que diz respeito ao papado e o que é que diz respeito ao império. As duas coisas estavam tão interligadas que os reis interferiam na Igreja, e a Igreja no poder régio.
E como é que isso passava para a vida quotidiana?
As pessoas eram cristãs como identidade profunda, que as marcava do nascimento à morte. Viviam numa civilização que acreditava no Além, o que permitia a vivência da miséria, do sofrimento, da opressão, com uma perspectiva de futuro muito mais livre, abundante e feliz. Com esta atitude coabitavam crenças mais antigas, relativas à magia, ao culto prestado em determinados lugares, que muitas vezes representava rituais anteriores ao cristianismo.
Essa vivência da fé chegava à legislação?
Os códigos das leis também tinham alguma inspiração cristã, mas as primeiras eram dos bárbaros. Foram legadas pelos Visigodos, pelos Ostrogodos, pelos Burgúndeos; e constituem uma transcrição por escrito dos códigos de Direito existentes entre eles a nível oral. Também entram nesses códigos algumas influências de Direito romano, mas poucas. A conversão dos bárbaros ao cristianismo foi mais tardia. Até aí, as suas leis são muito olho por olho dente por dente, e isto sem qualquer influência bíblica.
Temos, ou não temos, uma boa noção do que é que era considerado pecado na Idade Média?
Temos que ir buscar essa informação aos Penitenciários, ou seja, aos livros que prescreviam as penitências conforme a gravidade da ofensa a Deus, para os sacerdotes saberem que tipo de penas deviam aplicar aos fieis que vinham confessar-se. Isto aplica-se não só para os pecados da carne, que nos mostram que tipo de moral se seguia, mas também ao aborto, ao infanticídio, à masturbação, e por aí fora. As penitências costumavam ser de abstenção de sexo durante meses, senão anos, e de pão e água. As para o incesto, então, era horríveis.
Porquê especificamente o incesto?
A concepção de incesto é, neste época, muito mais vasta que entre nós. A Reforma Gregoriana excluiu o casamento com parentes até ao oitavo grau de proximidade, o que implicava quase toda a gente. Claro, podiam pedir licenças papais para serem dispensados. Concedendo ou não a dispensa, o papa fazia valer o seu poder. O controlo do matrimónio era também político: desta forma, os papas podiam reger a vida dos reis, e estabelecer fronteiras.
E o povo?
O povo não tinha forma de chegar ao papa, nem tinha dinheiro para as dispensas papais, portanto ou incorria em pecado ou ia procurar companhia fora da aldeia. Finalmente, no século XII, a proibição passou a ser apenas atá ao quarto grau, porque se tinha criado uma situação insustentável.
Bom, mas o pessoal podia pecar à vontade, certo? Só precisava de ir à confissão a seguir.
O cristianismo tem sempre isso de bom! O que é preciso, para a confissão funcionar, é que se esteja mesmo arrependido, e disposto a não voltar a repetir o pecado.
OK, mas isso não justifica todas as perseguições religiosas de que ouvimos falar.
Essas perseguições, no período medieval, são uma ideia-feita que não corresponde à verdade. As grandes perseguições só começara no dealbar da Renascença, por volta do século XV. Mesmo as histórias de perseguições a feiticeiras a bruxos são sobretudo do período Moderno.
Então no período Medieval não existiram perseguições?
Existiram perseguições a judeus, como é evidente.
Por que é que havia de ser evidente?
A expulsão dos judeus de Portugal em 1496 já tinha sido precedida por várias outras no Sul da Europa, com períodos de maior ou menor turbulência, sobretudo por motivos económicos. Os judeus praticavam a usura e cobravam as rendas reais, e tornavam-se odiosos porque as pessoas nem tinham que comer, e eram obrigadas a estar a pagar. Em Portugal também havia alguma preocupação com os muçulmanos. Foram expulsos da Península pelos Reis Católicos no século XV, mas até aí já viviam muito restritos na sua liberdade de movimentos. Praticavam a sua religião, tinham as suas escolas mas, pelo menos a partir de D. Afonso IV, tiveram que começar a usar roupas distintivas e viver em bairros fechados, onde as mulheres cristãs não podiam entrar porque se temia a miscigenação sexual entre mouros e cristãos, e eram sempre as mulheres quem caía ou fazia cair em tentação. Eram essencialmente agricultores e artesãos, gozavam de protecção régia, mas não se conseguiram evitar confrontos sangrentos quando as populações locais eram tomadas pela raiva.
E a Inquisição, aparece quando?
No século XIII, mas não contra os judeus. Forma-se antes para vigiar os cátaros, acusados de heresia por aceitarem uma religião dualista, em que o Bem e o Mal se degladiam constantemente pelo poder. Tudo o que está ligado à matéria é mau e tudo o que está ligado ao espírito à bom. Pensa-se que terão sido influenciados pelas culturas orientais na altura das cruzadas. Mas era uma Inquisição episcopal, eram os bispos que mandavam os inquisidores às dioceses onde existiam hereges, resultando dos seus julgamentos ou a expropriação de bens ou a morte pelo fogo.
E não eram torturados? Achas que a expressão corrente “tortura medieval” também não faz sentido.
Acho que até as torturas se tornaram muito mais requintadas e cruéis do século XV em diante. Mas a tortura existia, claro. Era considerada um meio legítimo de obter informações. Claro que a Joana d'Arc morreu na fogueira como uma herege, mas não sofreu torturas prévias, e este era um caso extremo, com fortes implicações políticas.
Também não existiam feiticeiras?
Existiam, sim. Mas as acusações mais extremas que lhe são dirigidas, como as de copularem com o Diabo nas noites de Lua Cheia, são formulações da Idade Moderna. Existem demónios na Idade Média, as pessoas têm sonhos, têm visões, mas não se dá a nada disto a importância que se dará mais tarde. O imaginário desenfreado dos demónios só se forma a partir do século XV, como aliás fica bem patente nas pinturas de Hyeronimus Bosh.
Olha, e cientistas? Podemos falar de cientistas medievais?
Entre muitos outros temos o Pedro Hispano, possivelmente o mesmo homem que, sob o nome de Pedro Julião, se tornou mais tarde no papa português João XXI. Ou só um autor ou vários autores, isso não se sabe, escreveram obras sobre as mais variadas ciências. O Tesouro dos Pobres é um livro fascinante de Medicina, de Magia, de estudo de muitas plantas curativas, e dos rituais a seguir durante a utilização dessas plantas.
E em termos de grandes romances medievais?
Ah, temos a história lindíssima da Heloísa e do Abelardo. Heloisa é uma jovem sobrinha doe um clérigo a quem o tio deixa ter uma educação pouco comum numa mulher da época, arranjando-lhe para o efeito, como preceptor, o grande filósofo Abelardo. Apaixonam-e os dois, Heloisa engravida, e isto causa graves problemas para ambos. Abelardo foi capado, e ela foi fechada num convento e viveu lá o resto da vida, mas trocou uma correspondência assídua com o homem amado,. Apesar das circunstâncias, manteve sempre vivos o amor e a independência de espírito, sem nunca se mostrar arrependida do que fez. Claro que, durante muitos séculos, se duvidou da autoridade dessas cartas, porque ninguém queria acreditar que uma mulher tivesse aquele nível de instrução e de capacidade filosófica.
COMO QUEM VIAJA NO TEMPO
António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, historiador medievalista e contemporâneo, resistente antifascista, antigo director da Biblioteca Nacional, Gão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supermo Conselho do grau 33 (1991-1994), condecorado em 1998 com a Grão Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, autor de uma vasta obra de grande importância para o estudo da História de Portugal, faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vítima de problemas cardíacos. Tinha formado uma verdadeira escola, e deixado pelo caminho vários discípulos que foram, por seu turno, subindo nos escalões da carreira. Homenageá-lo, hoje, é, antes de mais nada, não deixar que a Idade Média desapareça do conhecimento imediato dos portugueses. Para recordarmos esse período único em todo o seu esplendor, pedimos ajuda a Ana Maria Rodrigues, Professora Associada do Departamento de História da Universidade de Lisboa, 49 anos, dois filhos, pronta a fazer uma grande festa, com viagem familiar e tudo, quando totalizar os 50. A sua especialidade é História Medieval, e os seus olhos brilham quando revela o que estuda. Fala tranquilamente, familiarmente, como quem viaja no tempo, do período menos compreendido e mais maltratado da História da Europa.
A cave da Faculdade de Letras tem corredores infindáveis com cacifos alinhados dos dois lados, inscrições nas colunas do tecto que ninguém se dá ao trabalho de ler, e um certo ar de última paragem neste mundo dos que foram sentenciados a deixá-lo. Na rua o frio continua a gelar os transeuntes, mas dentro do gabinete onde Ana Maria trabalha hoje estão os aquecimentos ligados e os casacos pesados vindos do exterior despem-se depressa. Uma mesa larga, um computador antigo, prateleiras a transbordar de papeladas, paredes vagamente cinzentas e janelas abertas para o sol gélido do exterior. Ela está linda, como sempre, com aquele seu ar que trouxe do doutoramento em França e nunca mais a largou. As pessoas atribuem à Idade Média tudo o que acontece de mal, diz ela.
Mas por que é que temos uma visão assim tão negativa do período medieval?
Foi na Idade Média que a nossa sociedade colocou a barbárie, a violência, o arbitrário... e, no entanto, hoje sabemos bem que não é tudo assim. Talvez tivessem existido alguns períodos que correspondam a esse imaginário global. Mas, hoje em dia, há vários autores que fazem a comparação entre a Idade Média e os nossos tempos, dizendo que nos aproximamos de uma nova Idade Média.
Porquê?
Por causa das migrações. Estaríamos perante uma nova invasão dos bárbaros...
Quem, os emigrantes de Leste?
Não. Esses vêm de uma cultura idêntica à nossa, muitas vezes até superior à nossa. E, assim que ganham algum dinheiro, vão-se embora. Poderíamos realmente falar dos romenos, por causa da raça cigana, que tem um código de honra completamente diferente do nosso. Mas já é esticar um bocado a corda. Os bárbaros em questão, segundo estes autores, seriam os argelinos, os marroquinos, enfim, os africanos. Isto em termos de opinião pública. Da mesma forma, os condomínios privados que agora existem seriam equivalentes aos antigos senhorios: instalam-se em domínios onde existe um afastamento dos outros, uma espécie de território próprio onde quem não pertence não entra. Nestes condomínios, as pessoas estranhas estão proibidas porque o Estado já não consegue assegurar a protecção da população em relação ao roubo e outras pequenas violências; e então introduzem-se aqui os seguranças privados, exactamente como existiam tropas especiais que protegiam o senhor do domínio.
Há mais exemplos do nosso novo período medieval?
Olha, se queres entrar numa grande empresa, não passas na segurança sem apresentares primeiro as credenciais, e tens que ser controlada enquanto estás lá dentro. Ou seja, há domínios de direito próprio dentro do que deveria ser uma democracia que constitui um Estado de Direito.
E voltando ao período medieval que já acabou, por que é que achas que hoje tem tão mau nome?
Provavelmente, por ser um período histórico extremamente longo. Basicamente, damos esse nome, que foi cunhado já pejorativamente pelos humanistas da Renascença, a todo o período que vai da Antiguidade Clássica à Renascença. O intuito dos humanistas do século XV era, precisamente, desvalorizar esse período e exaltar os seus próprios tempos, que tinham reatado com o grande conhecimento e beleza da Antiguidade. Até se usou por muito tempo tempo o termo “Dark Ages”, ou “Séculos Góticos”, remetendo para o obscurantismo, a violência, a falta de conhecimento do período medieval.
E tu não concordas, claro.
Então. Se houve de facto um início que pode ser considerado como um retrocesso, resultante da fusão entre a cultura romana e cristã e a cultura bárbara, depois esse período é seguido por várias ondas de criação de uma cultura nova, que já não é gótica nem obscura, e que está nos fundamentos da nossa cultura ocidental.
Diz-se que tudo muito condicionado pela Igreja...
Bem. Existem na Idade Média posturas positivas, dentro de um determinado caldo cultural que já não se conseguir reproduzir. Tem sido várias vezes assinalado nas últimas décadas que a Idade Média não possuía propriamente uma religião católica. Vivia-se, isso sim, dentro de um sistema que era religioso, em que a questão de se poder não acreditar em Deus ou de não seguir a fá cristã nem se punha. Um dos factores que caracteriza a fé islâmica é não existir separação entre a Igreja e o Estado: no período medieval, essa separação também não se fazia. Havia uma colaboração que por vezes podia ser mais difícil, mas que regra geral era muito afável. As duas entidades que nós consideramos separadas eram só uma na Idade Média. Nos Concílios, tratava-se assuntos tanto de moral e de religião como de política forma de governo, e isto dura até ao fim do século XI.
O que é que acontece no século XI?
Dá-se a Reforma Gregoriana, quando se tenta distinguir o que é que diz respeito ao papado e o que é que diz respeito ao império. As duas coisas estavam tão interligadas que os reis interferiam na Igreja, e a Igreja no poder régio.
E como é que isso passava para a vida quotidiana?
As pessoas eram cristãs como identidade profunda, que as marcava do nascimento à morte. Viviam numa civilização que acreditava no Além, o que permitia a vivência da miséria, do sofrimento, da opressão, com uma perspectiva de futuro muito mais livre, abundante e feliz. Com esta atitude coabitavam crenças mais antigas, relativas à magia, ao culto prestado em determinados lugares, que muitas vezes representava rituais anteriores ao cristianismo.
Essa vivência da fé chegava à legislação?
Os códigos das leis também tinham alguma inspiração cristã, mas as primeiras eram dos bárbaros. Foram legadas pelos Visigodos, pelos Ostrogodos, pelos Burgúndeos; e constituem uma transcrição por escrito dos códigos de Direito existentes entre eles a nível oral. Também entram nesses códigos algumas influências de Direito romano, mas poucas. A conversão dos bárbaros ao cristianismo foi mais tardia. Até aí, as suas leis são muito olho por olho dente por dente, e isto sem qualquer influência bíblica.
Temos, ou não temos, uma boa noção do que é que era considerado pecado na Idade Média?
Temos que ir buscar essa informação aos Penitenciários, ou seja, aos livros que prescreviam as penitências conforme a gravidade da ofensa a Deus, para os sacerdotes saberem que tipo de penas deviam aplicar aos fieis que vinham confessar-se. Isto aplica-se não só para os pecados da carne, que nos mostram que tipo de moral se seguia, mas também ao aborto, ao infanticídio, à masturbação, e por aí fora. As penitências costumavam ser de abstenção de sexo durante meses, senão anos, e de pão e água. As para o incesto, então, era horríveis.
Porquê especificamente o incesto?
A concepção de incesto é, neste época, muito mais vasta que entre nós. A Reforma Gregoriana excluiu o casamento com parentes até ao oitavo grau de proximidade, o que implicava quase toda a gente. Claro, podiam pedir licenças papais para serem dispensados. Concedendo ou não a dispensa, o papa fazia valer o seu poder. O controlo do matrimónio era também político: desta forma, os papas podiam reger a vida dos reis, e estabelecer fronteiras.
E o povo?
O povo não tinha forma de chegar ao papa, nem tinha dinheiro para as dispensas papais, portanto ou incorria em pecado ou ia procurar companhia fora da aldeia. Finalmente, no século XII, a proibição passou a ser apenas atá ao quarto grau, porque se tinha criado uma situação insustentável.
Bom, mas o pessoal podia pecar à vontade, certo? Só precisava de ir à confissão a seguir.
O cristianismo tem sempre isso de bom! O que é preciso, para a confissão funcionar, é que se esteja mesmo arrependido, e disposto a não voltar a repetir o pecado.
OK, mas isso não justifica todas as perseguições religiosas de que ouvimos falar.
Essas perseguições, no período medieval, são uma ideia-feita que não corresponde à verdade. As grandes perseguições só começara no dealbar da Renascença, por volta do século XV. Mesmo as histórias de perseguições a feiticeiras a bruxos são sobretudo do período Moderno.
Então no período Medieval não existiram perseguições?
Existiram perseguições a judeus, como é evidente.
Por que é que havia de ser evidente?
A expulsão dos judeus de Portugal em 1496 já tinha sido precedida por várias outras no Sul da Europa, com períodos de maior ou menor turbulência, sobretudo por motivos económicos. Os judeus praticavam a usura e cobravam as rendas reais, e tornavam-se odiosos porque as pessoas nem tinham que comer, e eram obrigadas a estar a pagar. Em Portugal também havia alguma preocupação com os muçulmanos. Foram expulsos da Península pelos Reis Católicos no século XV, mas até aí já viviam muito restritos na sua liberdade de movimentos. Praticavam a sua religião, tinham as suas escolas mas, pelo menos a partir de D. Afonso IV, tiveram que começar a usar roupas distintivas e viver em bairros fechados, onde as mulheres cristãs não podiam entrar porque se temia a miscigenação sexual entre mouros e cristãos, e eram sempre as mulheres quem caía ou fazia cair em tentação. Eram essencialmente agricultores e artesãos, gozavam de protecção régia, mas não se conseguiram evitar confrontos sangrentos quando as populações locais eram tomadas pela raiva.
E a Inquisição, aparece quando?
No século XIII, mas não contra os judeus. Forma-se antes para vigiar os cátaros, acusados de heresia por aceitarem uma religião dualista, em que o Bem e o Mal se degladiam constantemente pelo poder. Tudo o que está ligado à matéria é mau e tudo o que está ligado ao espírito à bom. Pensa-se que terão sido influenciados pelas culturas orientais na altura das cruzadas. Mas era uma Inquisição episcopal, eram os bispos que mandavam os inquisidores às dioceses onde existiam hereges, resultando dos seus julgamentos ou a expropriação de bens ou a morte pelo fogo.
E não eram torturados? Achas que a expressão corrente “tortura medieval” também não faz sentido.
Acho que até as torturas se tornaram muito mais requintadas e cruéis do século XV em diante. Mas a tortura existia, claro. Era considerada um meio legítimo de obter informações. Claro que a Joana d'Arc morreu na fogueira como uma herege, mas não sofreu torturas prévias, e este era um caso extremo, com fortes implicações políticas.
Também não existiam feiticeiras?
Existiam, sim. Mas as acusações mais extremas que lhe são dirigidas, como as de copularem com o Diabo nas noites de Lua Cheia, são formulações da Idade Moderna. Existem demónios na Idade Média, as pessoas têm sonhos, têm visões, mas não se dá a nada disto a importância que se dará mais tarde. O imaginário desenfreado dos demónios só se forma a partir do século XV, como aliás fica bem patente nas pinturas de Hyeronimus Bosh.
Olha, e cientistas? Podemos falar de cientistas medievais?
Entre muitos outros temos o Pedro Hispano, possivelmente o mesmo homem que, sob o nome de Pedro Julião, se tornou mais tarde no papa português João XXI. Ou só um autor ou vários autores, isso não se sabe, escreveram obras sobre as mais variadas ciências. O Tesouro dos Pobres é um livro fascinante de Medicina, de Magia, de estudo de muitas plantas curativas, e dos rituais a seguir durante a utilização dessas plantas.
E em termos de grandes romances medievais?
Ah, temos a história lindíssima da Heloísa e do Abelardo. Heloisa é uma jovem sobrinha doe um clérigo a quem o tio deixa ter uma educação pouco comum numa mulher da época, arranjando-lhe para o efeito, como preceptor, o grande filósofo Abelardo. Apaixonam-e os dois, Heloisa engravida, e isto causa graves problemas para ambos. Abelardo foi capado, e ela foi fechada num convento e viveu lá o resto da vida, mas trocou uma correspondência assídua com o homem amado,. Apesar das circunstâncias, manteve sempre vivos o amor e a independência de espírito, sem nunca se mostrar arrependida do que fez. Claro que, durante muitos séculos, se duvidou da autoridade dessas cartas, porque ninguém queria acreditar que uma mulher tivesse aquele nível de instrução e de capacidade filosófica.
ENTREVISTA: Ricardo Santos
RICARDO SANTOS
Como quem veio de longe
Por que é que fez muita falta escutar a voz dos filósofos durante todo o debate sobre o aborto que marcou os últimos meses da vida portuguesa? Provavelmente, pela mesma ordem de razões que torna tão desastrosa a eliminação dos exames de Filosofia no ensino secundário. Contemplando estas questões cruzadas que de uma forma ou de outra marcam a identidade nacional, Ricardo Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Professor Auxiliar da Universidade de Évora e investigador no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, quarenta anos, três filhos, fala com a grande calma de quem já veio de muito longe e sabe que tem pela frente um grande caminho. A Filosofia formou o núcleo duro dos primeiros passos científicos do mundo, e confronta-se com um futuro emocionante, pleno de desafios cada vez mais complexos. Trazê-los até aos mais jovens e imbuir a sociedade do seu espírito acutilante é a missão de todos os que se juntam à sua volta.
A Sociedade Portuguesa de Filosofia partilha o andar com outras sociedades científicas num prédio igual aos outros da Avenida da República. Está frio na rua, e as salas de pé direito elevadíssimo parecem todas completamente geladas. Um cinzeiro grande marca a zona de tolerância sobre a mesa de reuniões. Ricardo Santos deixou de fumar há pouco tempo, num esforço que lhe pareceu “curiosamente fácil”. A calma das suas respostas está infectada pela energia contagiosa dos que amam a sua área de estudo e não hesitam em partilhá-la com o mundo. O debate sobre o aborto tem sofrido de um abaixamento inaceitável, diz ele. E, aí, nota-se mesmo a falta dos filósofos.
Porquê?
Porque em Portugal ouviu-se muito pouco a voz dos filósofos a debater esta questão, quando há muito trabalho de reflexão filosófica sobre o problema ético do aborto que era importante ter em conta. E também porque a formação em Filosofia nos dá uma grande disciplina de argumentação, que nestes casos faz toda a diferença. Um filósofo está, em princípio, mais preparado para evitar os erros mais frequentes num debate: conclusão precipitada, petição de princípio, problemas ambíguos, uso de falácias. Estamos precavidos contra o apelo à emoção, o escamotear da informação, a utilização de informação manipulada intencionalmente, temos esse arcaboiço. Que é sempre um contributo valioso para um debate público tão importante como este.
O que diria um filósofo sobre o aborto, se lhe perguntassem?
Por exemplo, começaria por mostrar que a questão do aborto está intrinsecamente ligada ao problema da vagueza.
E isso é o quê?
É um problema muito antigo, conhecido desde a Grécia antiga, sob a designação de “paradoxo de sorites”. Quantos grãos de areia são necessários para formar um monte? Se eu tiver três grãos de areia, não tenho um monte. E se só tiver quatro, também não. Em geral, se não tenho um monte, e acrescento apenas mais um grão, não passo a ter um monte. Mas, por este raciocínio, seria levado a concluir que uma enorme duna na Costa da Caparica também não é ainda um monte, pois os grãos de areia que a formam foram, imaginemos, acrescentados um a um. Ora, há muitos casos análogos. Por exemplo, os carecas: a partir de quantos cabelos é que passo a ser careca? E, no caso do desenvolvimento do feto, a questão é a de saber ao fim de quantos dias passamos a ter um ser humano.
Parece um problema filosófico criado de propósito para este debate.
Ele mostra que há certos processos de mudança – de uns quantos grãos de areia para um monte, de cabeludo para careca, ou de óvulo fecundado para ser humano – que, devido ao seu carácter contínuo, tornam muito problemático o estabelecimento de uma linha divisória precisa. Será que essa linha não existe, e por isso haverá certas pessoas das quais não é verdadeiro nem falso dizer que são carecas, ou ela existe, mas nós não a conhecemos? No caso do aborto, esta dificuldade parece favorecer mais a posição conservadora, pois todos recusamos o infanticídio e, se não houver linha divisória, o aborto será tão grave como o infanticídio. Mas isto é apenas um exemplo de como há muita coisa pensada e estudada pelos filósofos sobre problemas desta natureza, que são relevantes e que seria importante ter trazido para iluminar mais o debate.
Então por que é que o Ricardo acha que os filósofos não foram chamados a participar?
Por pura ignorância? É uma possibilidade. Desconhecendo a Filosofia, é provável que se conclua, logo à partida, que ela não tem coisas relevantes para trazer para este debate. Mas eu creio que, no afastamento dos filósofos, há também uma boa dose de preconceito: considera-se a questão do aborto demasiado séria para justificar suportar-se esta problematização fria, abstracta e racional dos filósofos. Mas sentimos a falta deles quando a questão começa a ser discutida de um modo que abusa do apelo à emoção ou que pede sobretudo a identificação das pessoas com certos grupos de opinião, sejam eles católicos, feministas, esquerdistas ou outros.
Há mais problemas filosóficos que sejam relevantes num debate tão humanamente dilacerante?
Há, e são completamente ignorados pela maioria das pessoas. Cito-lhe mais um exemplo: o problema da consciência e da capacidade de sentir dor. Quando é que isso começa no desenvolvimento do feto? Não se tem conseguido responder. E será possível algum dia responder? Ora, a Filosofia tem uma longa tradição de reflexão sobre o conhecimento das outras mentes. Como posso eu conhecer a consciência do outro? Como posso conhecer a dor dos outros sem a ter, se a dor é uma experiência completamente privada? Cientificamente, podemos tentar postular medidas observáveis que tomamos como reveladores da presença de consciência. Mas como é que vamos justificar esta correlação entre o observável e o inobservável? Todo esse legado de problematização que existe na Filosofia devia ter sido trazido para a linha da frente.
E eu que, dos problemas filosóficos, só conhecia aquela história do barco reconstruído...
Ah! Esse é o barco em que Teseu regressou a Atenas depois de vencer o Minotauro. Os atenienses decidiram preservá-lo e, à medida que as tábuas envelheciam, eram substituídas por novas. A dada altura, restavam muito poucas tábuas originais e colocou-se a questão: É este ainda o barco de Teseu? Actualmente, fazemos uma modificação do problema: o barco sai de um porto, empreende uma grande viagem, leva madeira no porão, e vai uma chalupa atrás. Durante a viagem, os marinheiros têm que ir mudando as tábuas, e vão deitando fora as velhas. A chalupa que vai atrás aproveita as tábuas velhas para reconstruir o barco. Quando regressam ao porto, o barco da frente não tem nenhuma tábua original, e o barco que vem atrás tem essas tábuas todas. Qual deles é o barco que partiu à frente? E, a ser o segundo, como é que a tripulação que partiu no primeiro barco mudou de barco sem nunca ter desembarcado?
Com tantas contribuições interessantes para oferecer ao nosso pensamento, por que é que o Ministério da Educação decidiu abolir os exames de Filosofia?
Não sabemos. A sério. Já perguntámos várias vezes, e nunca obtivemos resposta. Ficamos numa completa perplexidade, porque o que temos pela frente parece uma medida puramente administrativa, da qual se desconhecem os fundamentos, didácticos, científicos, ou outros.
Será embirração particular da Ministra?
Esta medida é completamente contraditória com o restante discurso da própria Ministra sobre a disciplina, que continua a ser obrigatória em todos os cursos no 10º e 11º anos. Isto implica que a Filosofia é importante para a formação geral dos estudantes, pelo que não se percebe por que é que para Português existe um exame nacional, e para Filosofia não.
A mim parece-me uma medida ainda mais grave do que abolir a disciplina. É uma forma explícita de dizer que embora tenha que se ouvir falar “daquilo”, “aquilo” não é importante. É tão pouco importante que nem se justifica existir exame.
Há um conjunto de razões que tornam esta medida contra-producente. A ideia-chave por trás de um exame é ter uma medida de aferição: um instrumento que, associado a outros, permite aos agentes do processo educativo aferir a sua acção e gerir uma série de coisas. Sem exame, ficamos privados da informação que daí derivava. Essa informação permite-nos ver se os programas estão a ter bons resultados, se os manuais estão a ser úteis, se os métodos são adequados. Com o exame, também temos funções de normalização do ensino da disciplina nas várias turmas que há em cada escola e nas várias escolas que há ao longo do país. No que diz respeito aos estudantes, é mais que sabido que a sua atitude perante uma disciplina, nomeadamente no esforço que ela merece, muda completamente conforme ela tem ou não exame. É fundamental que esta disciplina exista, e não ter exame é um sério revés para a sua imagem de seriedade.
Na sua opinião, quais vão ser as consequências da abolição do exame?
Vamos ter várias consequências, a nível dos vários agentes envolvidos. Do lado dos alunos, vamos certamente ter um forte desinvestimento quando a matéria que está a ser ensinada não vai ser sujeita a avaliação externa. Só quem não tem experiência de ensino é que pode não saber disto. Os professores também mudam as suas práticas consoante existe ou não um exame nacional. Os manuais, os autores, as editoras, o próprio Ministério da Educação quando está a fazer programas e a monitorizar a sua aplicação, todos vão ressentir-se. Não existe só um efeito: a abolição dos exames provoca uma multiplicidade de efeitos que dá uma boa medida da importância do ensino da Filosofia na sociedade portuguesa, tanto qualitativa quanto quantitativa. Vamos saber menos sobre Filosofia do que devíamos, e vão ser menos as pessoas a interessar-se por ela.
Bom, e aqui põe-se a vexata quaestio... para que é que serve a Filosofia?
Se pensarmos só ao nível de um utilitarismo mais básico, não serve para consertar canos. Claro que não. Mas também não é isso que queremos dar aos nossos estudantes. Se fizermos a pergunta com um sentido mais economicista, no sentido de o que é que se ganha com isso, aí já podemos ter nuances na resposta. O mundo contemporâneo é diferente na forma como mede o valor de mercado das coisas. Como actividade intelectual, a Filosofia produz resultados que não é completamente óbvio que não tenham valor de mercado. Até em Portugal já houve livros de Filosofia que foram best-sellers. Ainda recentemente houve notícias de empresas norte-americanas a recrutarem filósofos para os seus conselhos de administração. Mas as coisas têm que ser vistas de outra maneira.
Como?
A Filosofia serve verdadeiramente para fins de carácter intelectual. É um instrumento que é insubstituível para desenvolver nos nossos jovens a capacidade de pensamento e de análise crítica de problemas e de argumentos. E também uma capacidade invulgar de interpretação de textos. Sempre foram estes os verdadeiros contributos da Filosofia. Há outras áreas do saber que cultivam também este género de capacidades, daí que muita gente sublinhe a proximidade da Filosofia com a Matemática, com a Física, com a História ou com a Literatura. Mas a Filosofia reúne, por tradição, esta capacidade que lhe é muito própria de desenvolver habilidades de análise e de pensamento crítico, de reflexão autónoma, que não se encontra noutras áreas. É fundamental para a formação de cidadãos autónomos, intervenientes no espaço público, na vida da sociedade.
O Ministério terá tomado esta decisão por a Filosofia ser considerada particularmente difícil de ensinar?
Eu fui professor do secundário, e posso responder pela minha experiência. A Filosofia não é mais difícil de ensinar do que outras disciplinas. A Matemática, a Física, a História, a Literatura, são de um ensino igualmente complexo. Claro que não podemos ensinar jovens de quinze e dezasseis anos como ensinamos os universitários, mas estes alunos têm uma coisa maravilhosa do seu lado: são de uma curiosidade intelectual inesgotável, ainda muito crua, sem deformações. Parecem esponjas. E isso faz com que captem e sejam captados pelo essencial dos problemas de que a Filosofia vai tratar.
Já falámos do problema da vagueza, do paradoxo de sorites, da questão da consciência, do barco de Teseu...
Sim, esses são bons exemplos de problemas filosóficos, importantes e também interessantes, que podem ser apresentados de modo claro e acessível. O barco de Teseu tem de ser explicado aos alunos do secundário como um problema sobre a identidade e a persistência dos objectos. Relaciona-se facilmente com o célebre aforismo de Heraclito “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”: os elementos que compõem um objecto são substituídos por novos e isso leva-nos a questionar a identidade do objecto. Platão interpretou o aforismo pelas suas consequências epistemológicas: se o mundo visível está em constante mudança, se nele tudo é fugaz e nenhum objecto persiste no tempo, então não podemos conhecê-lo, pelo que não poderia haver uma ciência deste mundo. De onde Platão infere que o mundo que vemos não é a verdadeira realidade.
Ou seja, tudo é questionável.
Não há dúvida de que os problemas filosóficos têm a particularidade de pôr em causa de modo surpreendente as ideias feitas, coisas que parecem evidências para o senso comum. Como a relação entre o pensamento e a existência, por exemplo. Tendemos geralmente a achar que podemos pensar no que não existe, mas será que podemos mesmo? Se uma coisa não existe, como posso realmente pensar nela? Não vale responder que a coisa existe no meu pensamento, que tenho uma imagem mental do diabo, por exemplo, e que é nela que penso quando penso no diabo. Porque essa imagem ou representação mental existe e, nesse caso, não estaria a pensar em algo que não existe. Mas se o pensamento está necessariamente vinculado à existência, daqui decorre que, se consigo realmente pensar em algo – em deus, por exemplo –, então isso existe. O que seria uma prova surpreendemente fácil da existência de certas entidades. Como os números, por exemplo.
É dessas coisas que se fala nas aulas de Filosofia do secundário?
Sim, entre muitas outras. Mas é preciso que os professores usem a linguagem e os métodos adequados. E que possam socorrer-se de bons materiais didácticos, como manuais escolares de qualidade. As coisas têm melhorado bastante ultimamente, mas há ainda muito a aperfeiçoar.
Como quem veio de longe
Por que é que fez muita falta escutar a voz dos filósofos durante todo o debate sobre o aborto que marcou os últimos meses da vida portuguesa? Provavelmente, pela mesma ordem de razões que torna tão desastrosa a eliminação dos exames de Filosofia no ensino secundário. Contemplando estas questões cruzadas que de uma forma ou de outra marcam a identidade nacional, Ricardo Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Professor Auxiliar da Universidade de Évora e investigador no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, quarenta anos, três filhos, fala com a grande calma de quem já veio de muito longe e sabe que tem pela frente um grande caminho. A Filosofia formou o núcleo duro dos primeiros passos científicos do mundo, e confronta-se com um futuro emocionante, pleno de desafios cada vez mais complexos. Trazê-los até aos mais jovens e imbuir a sociedade do seu espírito acutilante é a missão de todos os que se juntam à sua volta.
A Sociedade Portuguesa de Filosofia partilha o andar com outras sociedades científicas num prédio igual aos outros da Avenida da República. Está frio na rua, e as salas de pé direito elevadíssimo parecem todas completamente geladas. Um cinzeiro grande marca a zona de tolerância sobre a mesa de reuniões. Ricardo Santos deixou de fumar há pouco tempo, num esforço que lhe pareceu “curiosamente fácil”. A calma das suas respostas está infectada pela energia contagiosa dos que amam a sua área de estudo e não hesitam em partilhá-la com o mundo. O debate sobre o aborto tem sofrido de um abaixamento inaceitável, diz ele. E, aí, nota-se mesmo a falta dos filósofos.
Porquê?
Porque em Portugal ouviu-se muito pouco a voz dos filósofos a debater esta questão, quando há muito trabalho de reflexão filosófica sobre o problema ético do aborto que era importante ter em conta. E também porque a formação em Filosofia nos dá uma grande disciplina de argumentação, que nestes casos faz toda a diferença. Um filósofo está, em princípio, mais preparado para evitar os erros mais frequentes num debate: conclusão precipitada, petição de princípio, problemas ambíguos, uso de falácias. Estamos precavidos contra o apelo à emoção, o escamotear da informação, a utilização de informação manipulada intencionalmente, temos esse arcaboiço. Que é sempre um contributo valioso para um debate público tão importante como este.
O que diria um filósofo sobre o aborto, se lhe perguntassem?
Por exemplo, começaria por mostrar que a questão do aborto está intrinsecamente ligada ao problema da vagueza.
E isso é o quê?
É um problema muito antigo, conhecido desde a Grécia antiga, sob a designação de “paradoxo de sorites”. Quantos grãos de areia são necessários para formar um monte? Se eu tiver três grãos de areia, não tenho um monte. E se só tiver quatro, também não. Em geral, se não tenho um monte, e acrescento apenas mais um grão, não passo a ter um monte. Mas, por este raciocínio, seria levado a concluir que uma enorme duna na Costa da Caparica também não é ainda um monte, pois os grãos de areia que a formam foram, imaginemos, acrescentados um a um. Ora, há muitos casos análogos. Por exemplo, os carecas: a partir de quantos cabelos é que passo a ser careca? E, no caso do desenvolvimento do feto, a questão é a de saber ao fim de quantos dias passamos a ter um ser humano.
Parece um problema filosófico criado de propósito para este debate.
Ele mostra que há certos processos de mudança – de uns quantos grãos de areia para um monte, de cabeludo para careca, ou de óvulo fecundado para ser humano – que, devido ao seu carácter contínuo, tornam muito problemático o estabelecimento de uma linha divisória precisa. Será que essa linha não existe, e por isso haverá certas pessoas das quais não é verdadeiro nem falso dizer que são carecas, ou ela existe, mas nós não a conhecemos? No caso do aborto, esta dificuldade parece favorecer mais a posição conservadora, pois todos recusamos o infanticídio e, se não houver linha divisória, o aborto será tão grave como o infanticídio. Mas isto é apenas um exemplo de como há muita coisa pensada e estudada pelos filósofos sobre problemas desta natureza, que são relevantes e que seria importante ter trazido para iluminar mais o debate.
Então por que é que o Ricardo acha que os filósofos não foram chamados a participar?
Por pura ignorância? É uma possibilidade. Desconhecendo a Filosofia, é provável que se conclua, logo à partida, que ela não tem coisas relevantes para trazer para este debate. Mas eu creio que, no afastamento dos filósofos, há também uma boa dose de preconceito: considera-se a questão do aborto demasiado séria para justificar suportar-se esta problematização fria, abstracta e racional dos filósofos. Mas sentimos a falta deles quando a questão começa a ser discutida de um modo que abusa do apelo à emoção ou que pede sobretudo a identificação das pessoas com certos grupos de opinião, sejam eles católicos, feministas, esquerdistas ou outros.
Há mais problemas filosóficos que sejam relevantes num debate tão humanamente dilacerante?
Há, e são completamente ignorados pela maioria das pessoas. Cito-lhe mais um exemplo: o problema da consciência e da capacidade de sentir dor. Quando é que isso começa no desenvolvimento do feto? Não se tem conseguido responder. E será possível algum dia responder? Ora, a Filosofia tem uma longa tradição de reflexão sobre o conhecimento das outras mentes. Como posso eu conhecer a consciência do outro? Como posso conhecer a dor dos outros sem a ter, se a dor é uma experiência completamente privada? Cientificamente, podemos tentar postular medidas observáveis que tomamos como reveladores da presença de consciência. Mas como é que vamos justificar esta correlação entre o observável e o inobservável? Todo esse legado de problematização que existe na Filosofia devia ter sido trazido para a linha da frente.
E eu que, dos problemas filosóficos, só conhecia aquela história do barco reconstruído...
Ah! Esse é o barco em que Teseu regressou a Atenas depois de vencer o Minotauro. Os atenienses decidiram preservá-lo e, à medida que as tábuas envelheciam, eram substituídas por novas. A dada altura, restavam muito poucas tábuas originais e colocou-se a questão: É este ainda o barco de Teseu? Actualmente, fazemos uma modificação do problema: o barco sai de um porto, empreende uma grande viagem, leva madeira no porão, e vai uma chalupa atrás. Durante a viagem, os marinheiros têm que ir mudando as tábuas, e vão deitando fora as velhas. A chalupa que vai atrás aproveita as tábuas velhas para reconstruir o barco. Quando regressam ao porto, o barco da frente não tem nenhuma tábua original, e o barco que vem atrás tem essas tábuas todas. Qual deles é o barco que partiu à frente? E, a ser o segundo, como é que a tripulação que partiu no primeiro barco mudou de barco sem nunca ter desembarcado?
Com tantas contribuições interessantes para oferecer ao nosso pensamento, por que é que o Ministério da Educação decidiu abolir os exames de Filosofia?
Não sabemos. A sério. Já perguntámos várias vezes, e nunca obtivemos resposta. Ficamos numa completa perplexidade, porque o que temos pela frente parece uma medida puramente administrativa, da qual se desconhecem os fundamentos, didácticos, científicos, ou outros.
Será embirração particular da Ministra?
Esta medida é completamente contraditória com o restante discurso da própria Ministra sobre a disciplina, que continua a ser obrigatória em todos os cursos no 10º e 11º anos. Isto implica que a Filosofia é importante para a formação geral dos estudantes, pelo que não se percebe por que é que para Português existe um exame nacional, e para Filosofia não.
A mim parece-me uma medida ainda mais grave do que abolir a disciplina. É uma forma explícita de dizer que embora tenha que se ouvir falar “daquilo”, “aquilo” não é importante. É tão pouco importante que nem se justifica existir exame.
Há um conjunto de razões que tornam esta medida contra-producente. A ideia-chave por trás de um exame é ter uma medida de aferição: um instrumento que, associado a outros, permite aos agentes do processo educativo aferir a sua acção e gerir uma série de coisas. Sem exame, ficamos privados da informação que daí derivava. Essa informação permite-nos ver se os programas estão a ter bons resultados, se os manuais estão a ser úteis, se os métodos são adequados. Com o exame, também temos funções de normalização do ensino da disciplina nas várias turmas que há em cada escola e nas várias escolas que há ao longo do país. No que diz respeito aos estudantes, é mais que sabido que a sua atitude perante uma disciplina, nomeadamente no esforço que ela merece, muda completamente conforme ela tem ou não exame. É fundamental que esta disciplina exista, e não ter exame é um sério revés para a sua imagem de seriedade.
Na sua opinião, quais vão ser as consequências da abolição do exame?
Vamos ter várias consequências, a nível dos vários agentes envolvidos. Do lado dos alunos, vamos certamente ter um forte desinvestimento quando a matéria que está a ser ensinada não vai ser sujeita a avaliação externa. Só quem não tem experiência de ensino é que pode não saber disto. Os professores também mudam as suas práticas consoante existe ou não um exame nacional. Os manuais, os autores, as editoras, o próprio Ministério da Educação quando está a fazer programas e a monitorizar a sua aplicação, todos vão ressentir-se. Não existe só um efeito: a abolição dos exames provoca uma multiplicidade de efeitos que dá uma boa medida da importância do ensino da Filosofia na sociedade portuguesa, tanto qualitativa quanto quantitativa. Vamos saber menos sobre Filosofia do que devíamos, e vão ser menos as pessoas a interessar-se por ela.
Bom, e aqui põe-se a vexata quaestio... para que é que serve a Filosofia?
Se pensarmos só ao nível de um utilitarismo mais básico, não serve para consertar canos. Claro que não. Mas também não é isso que queremos dar aos nossos estudantes. Se fizermos a pergunta com um sentido mais economicista, no sentido de o que é que se ganha com isso, aí já podemos ter nuances na resposta. O mundo contemporâneo é diferente na forma como mede o valor de mercado das coisas. Como actividade intelectual, a Filosofia produz resultados que não é completamente óbvio que não tenham valor de mercado. Até em Portugal já houve livros de Filosofia que foram best-sellers. Ainda recentemente houve notícias de empresas norte-americanas a recrutarem filósofos para os seus conselhos de administração. Mas as coisas têm que ser vistas de outra maneira.
Como?
A Filosofia serve verdadeiramente para fins de carácter intelectual. É um instrumento que é insubstituível para desenvolver nos nossos jovens a capacidade de pensamento e de análise crítica de problemas e de argumentos. E também uma capacidade invulgar de interpretação de textos. Sempre foram estes os verdadeiros contributos da Filosofia. Há outras áreas do saber que cultivam também este género de capacidades, daí que muita gente sublinhe a proximidade da Filosofia com a Matemática, com a Física, com a História ou com a Literatura. Mas a Filosofia reúne, por tradição, esta capacidade que lhe é muito própria de desenvolver habilidades de análise e de pensamento crítico, de reflexão autónoma, que não se encontra noutras áreas. É fundamental para a formação de cidadãos autónomos, intervenientes no espaço público, na vida da sociedade.
O Ministério terá tomado esta decisão por a Filosofia ser considerada particularmente difícil de ensinar?
Eu fui professor do secundário, e posso responder pela minha experiência. A Filosofia não é mais difícil de ensinar do que outras disciplinas. A Matemática, a Física, a História, a Literatura, são de um ensino igualmente complexo. Claro que não podemos ensinar jovens de quinze e dezasseis anos como ensinamos os universitários, mas estes alunos têm uma coisa maravilhosa do seu lado: são de uma curiosidade intelectual inesgotável, ainda muito crua, sem deformações. Parecem esponjas. E isso faz com que captem e sejam captados pelo essencial dos problemas de que a Filosofia vai tratar.
Já falámos do problema da vagueza, do paradoxo de sorites, da questão da consciência, do barco de Teseu...
Sim, esses são bons exemplos de problemas filosóficos, importantes e também interessantes, que podem ser apresentados de modo claro e acessível. O barco de Teseu tem de ser explicado aos alunos do secundário como um problema sobre a identidade e a persistência dos objectos. Relaciona-se facilmente com o célebre aforismo de Heraclito “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”: os elementos que compõem um objecto são substituídos por novos e isso leva-nos a questionar a identidade do objecto. Platão interpretou o aforismo pelas suas consequências epistemológicas: se o mundo visível está em constante mudança, se nele tudo é fugaz e nenhum objecto persiste no tempo, então não podemos conhecê-lo, pelo que não poderia haver uma ciência deste mundo. De onde Platão infere que o mundo que vemos não é a verdadeira realidade.
Ou seja, tudo é questionável.
Não há dúvida de que os problemas filosóficos têm a particularidade de pôr em causa de modo surpreendente as ideias feitas, coisas que parecem evidências para o senso comum. Como a relação entre o pensamento e a existência, por exemplo. Tendemos geralmente a achar que podemos pensar no que não existe, mas será que podemos mesmo? Se uma coisa não existe, como posso realmente pensar nela? Não vale responder que a coisa existe no meu pensamento, que tenho uma imagem mental do diabo, por exemplo, e que é nela que penso quando penso no diabo. Porque essa imagem ou representação mental existe e, nesse caso, não estaria a pensar em algo que não existe. Mas se o pensamento está necessariamente vinculado à existência, daqui decorre que, se consigo realmente pensar em algo – em deus, por exemplo –, então isso existe. O que seria uma prova surpreendemente fácil da existência de certas entidades. Como os números, por exemplo.
É dessas coisas que se fala nas aulas de Filosofia do secundário?
Sim, entre muitas outras. Mas é preciso que os professores usem a linguagem e os métodos adequados. E que possam socorrer-se de bons materiais didácticos, como manuais escolares de qualidade. As coisas têm melhorado bastante ultimamente, mas há ainda muito a aperfeiçoar.
domingo, 28 de janeiro de 2007
ENTREVISTA: Carlos Pimenta
CARLOS PIMENTA
Como quem não baixa os braços
Então vamos lá ver, por que é que o mar da Costa da Caparica decidiu este ano dar cabo da praia? Por que é que desmoronam as falésias no Algarve? O que é que julgam que vai acontecer a prazo na Ria de Aveiro? Alguma vez se questionaram sobre o que vos obriga realmente a passarem tanto tempo no trânsito? Têm a certeza de que escolheram bem o vosso automóvel particular? Pensavam que ter ar condicionado em casa só era mau por causa da factura da electricidade? Têm a certeza de que deveriam mesmo ser os camiões a pejar-nos as autoestradas de cortejos de mercadorias, se ali mesmo ao lado passa uma linha de comboio? O que é que vos impede de comprarem lâmpadas amigas do ambiente de cada vez que vão ao Aki? Já tomaram consciência de que o aquecimento global é mesmo um problema real e terrível, a dois passos de se tornar irreparável? Se tudo isto já se sabe desde 1991, por que é que terá levado tanto tempo a calar-nos fundo na consciência? Pode não parecer à primeira vista, mas todas estas questões estão intrinsecamente ligadas. Em Portugal, um homem que batalha constantemente na cena internacional pela devolução às sociedades humanas de um planeta feliz e habitável sabe orientar-nos no mapa da nossa própria degradação melhor que qualquer outro: Carlos Pimenta, 51 anos, três filhos, formado em Engenharia Electrotécnica e munido de Pós-Graduaçoes em Informática feitas na Suíça, em França e na Bélgica, fala-nos com a energia contagiante de quem não baixa os braços e demonstra-nos por a mais b que, se o drama da Caparica não existisse, isso significaria que estávamos todos a viver melhor. É com um conhecimento de causa enciclopédica que nos explica porquê.
À hora marcada em ponto, nem mais nem menos um minuto, aparece à porta da sala com o seu tradicional sorriso de miúdo, rasgado de orelha a orelha. Aqui, no meio de computadores topo da gama e informação ambiental de todo o mundo nas paredes, que ninguém pense sequer em fumar. Quando está em Lisboa, é neste quarto andar das Avenidas Novas que está o grosso do investimento do Carlos: no Centro de Estudos de Economia, Energia, Transportes e Ambiente, uma Organização Não-Governamental com cerca de vinte anos e cerca de vinte pessoas a trabalhar aqui, quase todas oriundas da Universidade Nova de Lisboa, unidas pela primeira vez nos anos 80 quando foi preciso lutar contra a entrada da energia nuclear em Portugal. Agora, militam pela promoção dos recursos renováveis e da eficiência energética. Como do costume, o Carlos passa por aqui, assoberbado de coisas importantes para fazer, dessas coisas das quais vai depender inteiramente o futuro dos nossos filhos.
Estou com projectos a mais em relação àquilo que posso fazer, comenta ele.
Quando falas de energias renováveis que toda a gente em Portugal pode usar se quiser, estás a pensar exactamente em quê?
Em coisas tão simples como instalar em casas paredes que absorvem o calor durante o dia e o libertam à noite, ou em forros de cortiça. Ou no biogaz dos aterros sanitários, ou nos sitemas fotovoltaicos. Nas condutas de água de rega podem instalar-se micro-turbinas dentro dos canos. É ridículo, o que nós não fazemos. Desperdiçamos tudo, até a energia solar, até a matéria orgânica que, à falta de outra iniciativa, é atirada para as ribeiras em quantidades gigantescas, e ainda tem o problema de poluir a água. Temos complexo de país rico, e ainda por cima nenhum país rico faz isto – e, por isso mesmo, é que é rico.
Isso implicaria vontade política e organização nacional. Mas nós, individualmente, podemos contribuir de alguma forma para que se poupe mais energia em Portugal?
Claro que pudemos! Sessenta por cento da electricidade consumida no país é desperdiçada nos edifícios. Uma casa de habituação não precisa de ter ar condicionado. Se estiver bem isolada, não precisa mesmo. Sabes que cinquenta por cento da energia que se consome se perde através do telhado? Basta um bom isolamento do telhado, que até podemos fazer por nós próprios com rolhas usadas, e isso acaba-se. Depois é importante instalar janelas de vidro duplo com vácuo no meio. Digo-te uma coisa: este escritório não tem aquecimento nem ventilação. E estamos bem, não estamos? Além disso, podemos sempre instalar paineis solares para o aquecimento da água, com a quantidade de horas de sol que cá temos: fazes um investimento inicial de 3500 a 5000 Euros, que podes pagar em sete anos, o teu duche passa a ser de graça e reduzes substancialmente as despesas para a aquecer a água nas máquinas. E isto dura-te vinte ou 25 anos. Estás a ver, nem precisas de querer salvar o planeta para fazeres estas opções: basta-te quereres reduzir as tuas despesas energéticas.
Todas essas iniciativas precisam de ter benefícios fiscais para atraírem verdadeiramente as pessoas.
Pois claro, e nesse ponto a nossa legislação fiscal só mete água. Repara neste disparate. Compras uma casa. Queres isolá-la toda muito bem? Pagas 21% de IVA. Queres instalar uma boa caldeira de gaz natural? Pagas 12% de IVA. Continuas a gastar recursos e a contaminar o ambiente, e limitas-te a eleftrificar tudo? Pois bem, só pagas 5% de IVA! O melhor sistema de consumo é o mais penalizado. Faz algum sentido? Premeia-se a forma mais parva de aquecer ou refrescar a casa, que tem que ser queimada termicamente no Carregado ou tirada do carvão em Sines, depois perde 11% nas linhas eléctricas, perde ainda mais com os equipamentos de conversão da electricidade, e acaba por só ter 25 ou 20% da eficiência original. São grandes erros, que desmotivam as pessoas, claro.
Então fala-me de outras coisas simples que podemos fazer.
Podemos arrancar todas as lâmpadas convencionais, que só dão vinte por cento de luz e os restantes oitenta por cento são calor. E as de halogéneo ainda são piores. Em vez disso, instalamos lâmpadas económicas, daquelas fluorescentes pequeninas que há no Aki, no Jumbo, em qualquer grande superfície. Estas lâmpadas têm cinco vezes mais potência que as outras fontes de luz, e agora apareceram outras que nem sequer têm gasto de energia. Não é melhor para toda a gente?
Também já te ouvi falar dos frigoríficos.
Há frigoríficos em categorias que vão do A+ ao E, e hoje em dia a menção no rótulo é obrigatória. Os A+ fazem exactamente o mesmo que os outros, mas com muitissimo menos consumo energético. São ligeiramente mais caros, mas, com o tempo, até isso compensa.
E os plasmas? Ainda não pecebi se são bons ou maus.
Se não leres os papeis, ainda te arriscas a descobrir que tens em casa um bicho que te consome uma energia doida em cada hora que está ligado. Mas há outros que não consomem nada. E nós nunca devemos esquecer-nos de que vamos comprar o equipamento uma vez, mas a seguir vamos viver com ele durante anos e anos.
Também passamos pelo mesmo com os automóveis.
Podemos sempre comprar um Smart. Ou então um híbrido, que é a melhor solução. Arranca-se com o motor eléctrico, e basta um sinal vermelho para o motor se desligar. Um motor normal está sempre a funcionar, mas estes só funcionam quando é mesmo preciso. Também se desligam nas descidas. Mesmo que não estejas a querer evitar o aquecimento global, sentes os resultados na carteira. É de tal maneira que as grandes empresas que não quiseram saber dos híbridos, como a Ford ou a General Motors, hoje estão falidas; enquanto que a Toyota, que investiu nisto a fundo, é a marca com maiores vendas e tem toda a gente na lista de espera para comprar um híbrido.
Qual foi o truque?
Aquela gente percebeu antes dos outros que um condutor quer é ir de uma lado para o outro com rapidez e conforto. Coisa que nós, em Portugal, temos imensa dificuldade em conseguir. Já viste bem que engarrafado que está este país? Isso acontece porque as nossas necessidades são fundamentalmente de energia útil, mas a classe política responde ou com infra-estruturas ou com energia primária.
Podes dar um exemplo?
Então, andam a cobrir o país de auto-estradas todas paralelas umas às outras, em vez de darem prioridade ao comboio e ao metro, por exemplo. Já vamos em cinco auto-estradas paralelas e oitenta por cento são ao longo e todo o litoral, e estamos a falar numa faixa que não tem mais de cinquenta quilómetros de largura entre Setúbal e Braga. Vamos acabar por ter seis autoestradas paralelas entre Lisboa e Cascais. Hoje, tu chegas à Figueira da Foz por três autoestradas, a Aveiro por duas, à Guarda por outras duas... e não se investe no desenvolvimento do combio! Alguma coisa está muito mal no sistema se a forma mais rápida e cómoda de chegar de Lisboa ao Porto é o automóvel particular, incluindo as portagens. É um absurdo. A economia individual é a deseconomia do país. Se as pessoas tivessem metro no aeroporto, nas estações de comboio, a fazer ligações para as periferias, não precisavam de estar horas dentro dos autocarros no meio do trânsito. Muita gente, nestas circunstâncias, desiste dos transportes públicos e mete-se antes no seu próprio automóvel, que sempre está mais à vontade; e daí resulta este efeito patético de termos um país sobreindividado com a compra de automóveis. Mas repara, alguém chega ao aeroporto em Londres e gasta uma fortuna a meter-se num taxi que vai estar horas e horas num engarrafamento? Claro que não. Vai tudo para o centro de metro, porque a estação está logo ali. Entre nós, até as mercadorias são obrigadas a sair do aeroporto de carro! Pode ser. Sabes que temos mais camiões a transportar mercadorias nas nossas estradas do que os próprios Estados Unidos? É suicida. O nosso sistema de deslocações é suicida. Parece que os governos portugueses não conseguem gerir sistemas grandes e complexos. Deixam o caminho de ferro ao abandono a acumular centenas de milhões de Euros em dívidas, descuram os portos e aeroportos, e apresentam uma oferta péssima à população.
Também não temos comboio para atravessar a ponte Vasco da Gama, que já foi construída quando todas essas coisas estavam mais que estudadas.
Bem essa foi uma daquelas guerras que eu perdi e não posso perdoar a mim próprio. Fazer a ponte naquele sítio, antes de mais nada, implicou a destruição dos soberbos terrenos agrícolas do Montijo e de Alcochete. Foi dar carne do lombo à construção civil, enquanto que, no Barreiro, temos centenas de hectares contaminados mas que fazem parte de uma frente de rio magnífica, com uma vista linda para Lisboa. Ainda por cima, a Vasco da Gama, feita de raiz recentemente, não tem comboio; e, na 25 de Abril, só devia passar o metro. Não pode lá passar um TGV, por exemplo. Mas isso seria possível se se tivesse feito a tal ponte no Barreiro. Ficavam todas as linhas ligadas, aéreas e subterrâneas, o metro juntava-se ao comboio, desapareciam as barreiras físicas entre o Norte e o Sul, era perfeito para os nossos problemas de mobilidade. Além de que se poderia ter construído uma cidade fantástica, aberta para a margem, onde o terreno não sustenta agricultura, em vez de encher de caixotes de habitação os solos magníficos onde desagua a Vasco da Gama. Resultado: Portugal tem um dos PIBs mais baixos da União Europeia e está entre os cinco países com mais automóveis particulares por habitante! Isto, além de afectar a qualidade de vida das pessoas, encharca o ambiente em dióxido de Carbono. Sabes que Portugal está completamente em falta em relação aos acordos de Kyoto? Ninguém gosta de dizer isto, mas, em termos de impacto global do nosso comportamento pessoal, estamos a portar-nos tão mal como os americanos. O ar da Avenida da Liberdade, apesar do vento marítimo que vem da Serra de Sintra, é o mais poluído da Europa!
Então vamos já ao que aqui nos trouxe: tu achas que é por causa do aquecimento global que o nível do mar está a subir e a Caparica e o Algarve estão a desaparecer?
E isso também vai acontecer na Ria de Aveiro. Em relação à Caparica, que é neste momento o exemplo mais dramático deas consequências de má gestão humana da paisagem e do ambiente, nunca se deveria ter destruído o banco de areia que, até há cerca de trinta, quarenta anos, sempre ligou o Bugio à Cova do Vapor. Fazia-se aquele caminho todo a pé, lembras-te? Destruiu-se o equilíbrio das areias, que costumavam ser empurradas todos os anos para aquela zona. Por outro lado, a construção mesmo em cima das arrribas fez aumentar dramaticamente o nível de erosão. E, por cima de isto tudo, de facto, temos a subida global do nível do mar por causa de todo o gelo que está a derreter nos pólos, em consequência do aquecimento da atmosfera causada por acumulação de dióxido de Carbono libertado pela actividade humana.
Essa parte, claro, não afecta só a Caparica.
Todos sabemos que isto está hoje em curso em todo o planeta, e que está a ser terrivelmente rápido. Tu vais à Gronelândia e vês a linha de recessão de glaciares, e olha que não são centímetros, são metros e metros de gelo que desaparecem todos os anos. Os ursos polares, que não tinham quaisquer problemas de sobrevivência, estão hoje ameaçados de extinção porque as placas de gelo no Ártico estão a ficar tão finas que se partem quando eles tentam subir para cima delas – e, depois de horas e horas sem conseguirem pisar terra firme, morrem afogados. Se isto continuar a evoluir no mesmo sentido, se não fizermos nada, vamos ter consequências terríveis ainda dentro da nossa expectativa de vida, dentro de vinte ou 25 anos. E o que me desespera mais é que já desde 1991 que se sabe isto tudo! Nessa altura o Al Gore já tinha exactamente os mesmos slides que agora mostra no filme. A primeira reacção política internacional foi que não havia a certeza de que isto estava a ser causado pelo homem, depois que não se tinha a certeza que era do dióxido de Carbono, depois que não podiam por-se travões aos países em desenvolvimento como a Índia ou a China... É exasperante. Espero que, em Portugal, toda a gente tenha finalmente acordado com esta tragédia da nossa costa.
Como quem não baixa os braços
Então vamos lá ver, por que é que o mar da Costa da Caparica decidiu este ano dar cabo da praia? Por que é que desmoronam as falésias no Algarve? O que é que julgam que vai acontecer a prazo na Ria de Aveiro? Alguma vez se questionaram sobre o que vos obriga realmente a passarem tanto tempo no trânsito? Têm a certeza de que escolheram bem o vosso automóvel particular? Pensavam que ter ar condicionado em casa só era mau por causa da factura da electricidade? Têm a certeza de que deveriam mesmo ser os camiões a pejar-nos as autoestradas de cortejos de mercadorias, se ali mesmo ao lado passa uma linha de comboio? O que é que vos impede de comprarem lâmpadas amigas do ambiente de cada vez que vão ao Aki? Já tomaram consciência de que o aquecimento global é mesmo um problema real e terrível, a dois passos de se tornar irreparável? Se tudo isto já se sabe desde 1991, por que é que terá levado tanto tempo a calar-nos fundo na consciência? Pode não parecer à primeira vista, mas todas estas questões estão intrinsecamente ligadas. Em Portugal, um homem que batalha constantemente na cena internacional pela devolução às sociedades humanas de um planeta feliz e habitável sabe orientar-nos no mapa da nossa própria degradação melhor que qualquer outro: Carlos Pimenta, 51 anos, três filhos, formado em Engenharia Electrotécnica e munido de Pós-Graduaçoes em Informática feitas na Suíça, em França e na Bélgica, fala-nos com a energia contagiante de quem não baixa os braços e demonstra-nos por a mais b que, se o drama da Caparica não existisse, isso significaria que estávamos todos a viver melhor. É com um conhecimento de causa enciclopédica que nos explica porquê.
À hora marcada em ponto, nem mais nem menos um minuto, aparece à porta da sala com o seu tradicional sorriso de miúdo, rasgado de orelha a orelha. Aqui, no meio de computadores topo da gama e informação ambiental de todo o mundo nas paredes, que ninguém pense sequer em fumar. Quando está em Lisboa, é neste quarto andar das Avenidas Novas que está o grosso do investimento do Carlos: no Centro de Estudos de Economia, Energia, Transportes e Ambiente, uma Organização Não-Governamental com cerca de vinte anos e cerca de vinte pessoas a trabalhar aqui, quase todas oriundas da Universidade Nova de Lisboa, unidas pela primeira vez nos anos 80 quando foi preciso lutar contra a entrada da energia nuclear em Portugal. Agora, militam pela promoção dos recursos renováveis e da eficiência energética. Como do costume, o Carlos passa por aqui, assoberbado de coisas importantes para fazer, dessas coisas das quais vai depender inteiramente o futuro dos nossos filhos.
Estou com projectos a mais em relação àquilo que posso fazer, comenta ele.
Quando falas de energias renováveis que toda a gente em Portugal pode usar se quiser, estás a pensar exactamente em quê?
Em coisas tão simples como instalar em casas paredes que absorvem o calor durante o dia e o libertam à noite, ou em forros de cortiça. Ou no biogaz dos aterros sanitários, ou nos sitemas fotovoltaicos. Nas condutas de água de rega podem instalar-se micro-turbinas dentro dos canos. É ridículo, o que nós não fazemos. Desperdiçamos tudo, até a energia solar, até a matéria orgânica que, à falta de outra iniciativa, é atirada para as ribeiras em quantidades gigantescas, e ainda tem o problema de poluir a água. Temos complexo de país rico, e ainda por cima nenhum país rico faz isto – e, por isso mesmo, é que é rico.
Isso implicaria vontade política e organização nacional. Mas nós, individualmente, podemos contribuir de alguma forma para que se poupe mais energia em Portugal?
Claro que pudemos! Sessenta por cento da electricidade consumida no país é desperdiçada nos edifícios. Uma casa de habituação não precisa de ter ar condicionado. Se estiver bem isolada, não precisa mesmo. Sabes que cinquenta por cento da energia que se consome se perde através do telhado? Basta um bom isolamento do telhado, que até podemos fazer por nós próprios com rolhas usadas, e isso acaba-se. Depois é importante instalar janelas de vidro duplo com vácuo no meio. Digo-te uma coisa: este escritório não tem aquecimento nem ventilação. E estamos bem, não estamos? Além disso, podemos sempre instalar paineis solares para o aquecimento da água, com a quantidade de horas de sol que cá temos: fazes um investimento inicial de 3500 a 5000 Euros, que podes pagar em sete anos, o teu duche passa a ser de graça e reduzes substancialmente as despesas para a aquecer a água nas máquinas. E isto dura-te vinte ou 25 anos. Estás a ver, nem precisas de querer salvar o planeta para fazeres estas opções: basta-te quereres reduzir as tuas despesas energéticas.
Todas essas iniciativas precisam de ter benefícios fiscais para atraírem verdadeiramente as pessoas.
Pois claro, e nesse ponto a nossa legislação fiscal só mete água. Repara neste disparate. Compras uma casa. Queres isolá-la toda muito bem? Pagas 21% de IVA. Queres instalar uma boa caldeira de gaz natural? Pagas 12% de IVA. Continuas a gastar recursos e a contaminar o ambiente, e limitas-te a eleftrificar tudo? Pois bem, só pagas 5% de IVA! O melhor sistema de consumo é o mais penalizado. Faz algum sentido? Premeia-se a forma mais parva de aquecer ou refrescar a casa, que tem que ser queimada termicamente no Carregado ou tirada do carvão em Sines, depois perde 11% nas linhas eléctricas, perde ainda mais com os equipamentos de conversão da electricidade, e acaba por só ter 25 ou 20% da eficiência original. São grandes erros, que desmotivam as pessoas, claro.
Então fala-me de outras coisas simples que podemos fazer.
Podemos arrancar todas as lâmpadas convencionais, que só dão vinte por cento de luz e os restantes oitenta por cento são calor. E as de halogéneo ainda são piores. Em vez disso, instalamos lâmpadas económicas, daquelas fluorescentes pequeninas que há no Aki, no Jumbo, em qualquer grande superfície. Estas lâmpadas têm cinco vezes mais potência que as outras fontes de luz, e agora apareceram outras que nem sequer têm gasto de energia. Não é melhor para toda a gente?
Também já te ouvi falar dos frigoríficos.
Há frigoríficos em categorias que vão do A+ ao E, e hoje em dia a menção no rótulo é obrigatória. Os A+ fazem exactamente o mesmo que os outros, mas com muitissimo menos consumo energético. São ligeiramente mais caros, mas, com o tempo, até isso compensa.
E os plasmas? Ainda não pecebi se são bons ou maus.
Se não leres os papeis, ainda te arriscas a descobrir que tens em casa um bicho que te consome uma energia doida em cada hora que está ligado. Mas há outros que não consomem nada. E nós nunca devemos esquecer-nos de que vamos comprar o equipamento uma vez, mas a seguir vamos viver com ele durante anos e anos.
Também passamos pelo mesmo com os automóveis.
Podemos sempre comprar um Smart. Ou então um híbrido, que é a melhor solução. Arranca-se com o motor eléctrico, e basta um sinal vermelho para o motor se desligar. Um motor normal está sempre a funcionar, mas estes só funcionam quando é mesmo preciso. Também se desligam nas descidas. Mesmo que não estejas a querer evitar o aquecimento global, sentes os resultados na carteira. É de tal maneira que as grandes empresas que não quiseram saber dos híbridos, como a Ford ou a General Motors, hoje estão falidas; enquanto que a Toyota, que investiu nisto a fundo, é a marca com maiores vendas e tem toda a gente na lista de espera para comprar um híbrido.
Qual foi o truque?
Aquela gente percebeu antes dos outros que um condutor quer é ir de uma lado para o outro com rapidez e conforto. Coisa que nós, em Portugal, temos imensa dificuldade em conseguir. Já viste bem que engarrafado que está este país? Isso acontece porque as nossas necessidades são fundamentalmente de energia útil, mas a classe política responde ou com infra-estruturas ou com energia primária.
Podes dar um exemplo?
Então, andam a cobrir o país de auto-estradas todas paralelas umas às outras, em vez de darem prioridade ao comboio e ao metro, por exemplo. Já vamos em cinco auto-estradas paralelas e oitenta por cento são ao longo e todo o litoral, e estamos a falar numa faixa que não tem mais de cinquenta quilómetros de largura entre Setúbal e Braga. Vamos acabar por ter seis autoestradas paralelas entre Lisboa e Cascais. Hoje, tu chegas à Figueira da Foz por três autoestradas, a Aveiro por duas, à Guarda por outras duas... e não se investe no desenvolvimento do combio! Alguma coisa está muito mal no sistema se a forma mais rápida e cómoda de chegar de Lisboa ao Porto é o automóvel particular, incluindo as portagens. É um absurdo. A economia individual é a deseconomia do país. Se as pessoas tivessem metro no aeroporto, nas estações de comboio, a fazer ligações para as periferias, não precisavam de estar horas dentro dos autocarros no meio do trânsito. Muita gente, nestas circunstâncias, desiste dos transportes públicos e mete-se antes no seu próprio automóvel, que sempre está mais à vontade; e daí resulta este efeito patético de termos um país sobreindividado com a compra de automóveis. Mas repara, alguém chega ao aeroporto em Londres e gasta uma fortuna a meter-se num taxi que vai estar horas e horas num engarrafamento? Claro que não. Vai tudo para o centro de metro, porque a estação está logo ali. Entre nós, até as mercadorias são obrigadas a sair do aeroporto de carro! Pode ser. Sabes que temos mais camiões a transportar mercadorias nas nossas estradas do que os próprios Estados Unidos? É suicida. O nosso sistema de deslocações é suicida. Parece que os governos portugueses não conseguem gerir sistemas grandes e complexos. Deixam o caminho de ferro ao abandono a acumular centenas de milhões de Euros em dívidas, descuram os portos e aeroportos, e apresentam uma oferta péssima à população.
Também não temos comboio para atravessar a ponte Vasco da Gama, que já foi construída quando todas essas coisas estavam mais que estudadas.
Bem essa foi uma daquelas guerras que eu perdi e não posso perdoar a mim próprio. Fazer a ponte naquele sítio, antes de mais nada, implicou a destruição dos soberbos terrenos agrícolas do Montijo e de Alcochete. Foi dar carne do lombo à construção civil, enquanto que, no Barreiro, temos centenas de hectares contaminados mas que fazem parte de uma frente de rio magnífica, com uma vista linda para Lisboa. Ainda por cima, a Vasco da Gama, feita de raiz recentemente, não tem comboio; e, na 25 de Abril, só devia passar o metro. Não pode lá passar um TGV, por exemplo. Mas isso seria possível se se tivesse feito a tal ponte no Barreiro. Ficavam todas as linhas ligadas, aéreas e subterrâneas, o metro juntava-se ao comboio, desapareciam as barreiras físicas entre o Norte e o Sul, era perfeito para os nossos problemas de mobilidade. Além de que se poderia ter construído uma cidade fantástica, aberta para a margem, onde o terreno não sustenta agricultura, em vez de encher de caixotes de habitação os solos magníficos onde desagua a Vasco da Gama. Resultado: Portugal tem um dos PIBs mais baixos da União Europeia e está entre os cinco países com mais automóveis particulares por habitante! Isto, além de afectar a qualidade de vida das pessoas, encharca o ambiente em dióxido de Carbono. Sabes que Portugal está completamente em falta em relação aos acordos de Kyoto? Ninguém gosta de dizer isto, mas, em termos de impacto global do nosso comportamento pessoal, estamos a portar-nos tão mal como os americanos. O ar da Avenida da Liberdade, apesar do vento marítimo que vem da Serra de Sintra, é o mais poluído da Europa!
Então vamos já ao que aqui nos trouxe: tu achas que é por causa do aquecimento global que o nível do mar está a subir e a Caparica e o Algarve estão a desaparecer?
E isso também vai acontecer na Ria de Aveiro. Em relação à Caparica, que é neste momento o exemplo mais dramático deas consequências de má gestão humana da paisagem e do ambiente, nunca se deveria ter destruído o banco de areia que, até há cerca de trinta, quarenta anos, sempre ligou o Bugio à Cova do Vapor. Fazia-se aquele caminho todo a pé, lembras-te? Destruiu-se o equilíbrio das areias, que costumavam ser empurradas todos os anos para aquela zona. Por outro lado, a construção mesmo em cima das arrribas fez aumentar dramaticamente o nível de erosão. E, por cima de isto tudo, de facto, temos a subida global do nível do mar por causa de todo o gelo que está a derreter nos pólos, em consequência do aquecimento da atmosfera causada por acumulação de dióxido de Carbono libertado pela actividade humana.
Essa parte, claro, não afecta só a Caparica.
Todos sabemos que isto está hoje em curso em todo o planeta, e que está a ser terrivelmente rápido. Tu vais à Gronelândia e vês a linha de recessão de glaciares, e olha que não são centímetros, são metros e metros de gelo que desaparecem todos os anos. Os ursos polares, que não tinham quaisquer problemas de sobrevivência, estão hoje ameaçados de extinção porque as placas de gelo no Ártico estão a ficar tão finas que se partem quando eles tentam subir para cima delas – e, depois de horas e horas sem conseguirem pisar terra firme, morrem afogados. Se isto continuar a evoluir no mesmo sentido, se não fizermos nada, vamos ter consequências terríveis ainda dentro da nossa expectativa de vida, dentro de vinte ou 25 anos. E o que me desespera mais é que já desde 1991 que se sabe isto tudo! Nessa altura o Al Gore já tinha exactamente os mesmos slides que agora mostra no filme. A primeira reacção política internacional foi que não havia a certeza de que isto estava a ser causado pelo homem, depois que não se tinha a certeza que era do dióxido de Carbono, depois que não podiam por-se travões aos países em desenvolvimento como a Índia ou a China... É exasperante. Espero que, em Portugal, toda a gente tenha finalmente acordado com esta tragédia da nossa costa.
sábado, 27 de janeiro de 2007
ENTREVISTA: José Tito de Mendonça
JOSÉ TITO DE MENDONÇA
Como a energia das estrelas
Faz agora um mês que soubémos pelas notícias ter finalmente arrancado em França, perto de Aix-en-Provence, o grande projecto internacional e multidisciplinar de construção da primeira central de produção de energia através da fusão do átomo de Hidrogénio, considerada a mais limpa e poderosa de todas desde há décadas mas, até agora, ainda demasiado mal conhecida em termos técnicos para ter podido tornar-se realidade mais cedo. Neste projecto estão envolvidos vários especialistas portugueses, em número francamente superior ao da média de contribuição cientíca do país. À frente do grupo, destaca-se José Tito de Mendonça, 61 anos, três filhos, dois netos, Catedrático de Física do Instituto Superior Técnico e engenheiro electrotécnico de formação. É um homem calmo, discreto, que não gosta de cargos administrativos, desconfia de ministérios, viaja constantemente pelo globo a estudar e desenvolver as suas ideias e está seriamente apaixonado pelo que faz. Só de ouvi-lo falar, percebe-se que deve ser um grande privilégio poder assistir às suas aulas. Sentimo-nos directamente tocados pela energia das estrelas.
O Laboratório de Lasers Intensos do Centro de Física dos Plasmas é um labirinto estranho de espelhos de ouro, turbinas imponentes, tubos metálicos, e feixes verdes ou vermelhos que parecem saídos directamente de um filme de ficço científica. É aqui que está guardado, escrupulosamente protegido do pó, o sistema laser mais potente de todo o Sul da Europa. O foco L21 é a zona mais brilhante de todo o país, capaz de condensar toda a energia solar que se derrama sobre Portugal na área equivalente a um chapéu de sol, e criando assim em laboratório condições físicas que, na natureza, só existem dentro de supernovas ou no centro dos maiores planetas. Um impulso destes lasers chega a ser um bilião de vezes mais rápido que um flash fotográfico. Saem daqui impulsos luminosos mil vezes superiores ao total da potência eléctrcica consumida em todo o mundo. Para andarmos por ali, temos que nos revestir de protecções iguais às que se usam nas salas de cirurgia. No meio das suas máquinas impressionantes, José Tito de Mendonça é, visivelmente, um homem feliz. Esta aqui, diz ele, custou o mesmo que o topo da gama dos Ferraris. Por isso mesmo, chamamos-lhe o Ferrari.
Há décadas que oiço dizer que a energia da fusão dos átomos de Hidrogénio é a melhor de todas. Mas porquê?
É, sem dúvida, uma energia mais forte e eficaz que as energias de cisão. E tem um número impressionante de vantagens. Primeiro, não produz resíduos radioactivos de longo tempo de vida. O grande problema das actuais centrais nucleares é a produção de resíduos radioactivos que mantêm a actividade durante dezenas de milhares de anos e nunca ninguém sabe onde se podem guardar, sendo que, ainda por cima, ao fim de vinte anos uma central destas tem que ser encerrada debaixo de toneladas de betão, e nunca é segura. Segundo, os grandes acidentes como o de Chernobyl ou de Three Mile Island nunca aconteceriam numa central de fusão, porque as quantidades de combustível que se usam aqui são sempre muito pequenas. Terceiro, um dos átomos usados na fusão, o Deutério, existe em grandes quantidades na água do mar, o que quer dizer que temos uma fonte quase inesgotável de combustível nuclear mesmo à mão de semear: o mar tem cerca de trinta gramas de Deutério por metro cúbico, e basta um grama para fazer funcionar uma central. É muito diferente do que se passa com o Urânio, que só existe em minas conhecidas e limitadas. E, a seguir, ainda tem que ser enriquecido, o que é um processo complicado.
Tecnicamente, qual é a grande diferença entre uma energia e outra?
Há duas maneiras de se extrair energia de um núcleo. Podemos recorrer à cisão e partir núcleos pesados em fragmentos, como acontece nos reactores nucleares, onde um áromo de Urânio partido em bocados liberta energia. Ou então podemos recorrer à fusão, em que pegamos em átomos leves, os mais leves de todos, como o Hidrogénio, os isótopos do Hidrogénio como o Deutério e o Trítio, ou o Hélio, e juntamos dois dos seus átomos. Este processo também liberta energia, e é uma energia bastante mais eficaz que a da cisão: é a que se cria na natureza no interior das estrelas. O Sol, por exemplo, liberta quantidades enormes de energia, e vem toda da fusão. É essa energia, aliás, que nos permite vermos tão bem as estrelas, porque elas aquecem a uma temperatura tão elevada que começam a libertar fotões. Os planetas mais pesados, como Júpiter e Saturno, não brilham: isto é porque no centro não têm densidade para os núcleos estarem suficientemente próximos para se fundirem e libertarem a energia da fusão.
Densidade?
Sim. É preciso uma densidade mínima para que haja reacções de fusão; ou que os núcleos tenham cargas suficientemente fortes para são serem repelidos por energia electroestática.
Mas, entretanto, o Tito já se meteu nesta outra pesquisa dos lasers.
Pois, porque existem dois caminhos para chegar à fusão. O primeiro é o do reactor que começou agora a ser construido em França. Neste caso, usa-se um gaz diluido mas muito quente, a cerca de cem milhões de graus centígrados. Para isto, usam-se máquinas de confinamento magnético. O gaz tem que ser confinado porque os átomos não podem tocar nas paredes dos recipientes. Este novo reactor fica num sítio magnífico para trabalhar e passar férias. Já há anos que lá vou. Cheguei a passar lá por temporadas de seis meses. O centro de investigação tem um refeitório com grandes paredes envidraçadas de onde se vêm as cabras montesas que vêem aos restos de comida, é delicioso.
E o que é que vai lá ser construído agora?
É uma espécie de grande donut oco, dentro do qual se vai produziu um plasma.
O que é um plasma?
É um gaz completamente inonizado.
Ou seja?
Bom, num gaz normal os átomos são neutros: os protões do núcleo equilibram-se com a carga dos electrões que ficam por fora. Mas, quando o gaz é muito aquecido, os electrões libertam-se do átomo, ficando os núcleos de um lado e os electrões por outro. Isso é um plasma. Exactamente como os dos écrans de plasma, ou mesmo os das lâmpadas fluorescentes. Só que este é muito mais quente. No caso do reactor de França, cria-se uma descarga lá dentro, e o plasma não toca nas paredes.
Então e qual é o segundo caminho, em que o Tito está a investir agora?
É usar uma bolinha de combustível comprimido mil vezes mais que a densidade do sólido. Aí, já não é preciso confinar: como o gaz é muito denso, podem produzir-se muitas reacções nucleares. Para comprimir o material nuclear usam-se cem feixes de laser muito intensos de distribuição concêntrica. Como não temos a certeza de como é que se superam todos os problemas até se chegar à fase da oferta de energia, é bom explorarem-se as duas vias ao mesmo tempo.
Esses dois caminhos alternativos têm nomes próprios?
O primeiro chama-se fusão por confinamento magnético, utilizando uma máquina que custa uns doze milhões de Euros (mais do que o aeroporto da Ota, por exemplo) e leva dez anos a ser construída. O segundo chama-se fusão laser, e não tem confinamento magnético. Só custa menos de mil milhar de Euros, para os quais estamos a pedir financiamento europeu, e tem grandes probabilidades de sucesso.
O Tito acabou por apostar no segundo.
É uma questão de poupar dinheiro e tempo. Em 1986, quando portugal aderiu à CEE, reuni com um grupo de pessoas aqui e lancei o programa de fusão português. Isto deu origem ao Centro de Fusão Nuclear, que estuda o confinamento magnetico e tem uma participação muito forte no projecto que arrancou agora em França. Depois abandonei o Centro e liguei-me aos lasers, em que também estão interessados países de fora da Europa. Se a nossa máquina, o Hiper, for aprovada, precisa de dois ou três anos de projecto e de cinco ou seis de construção. Ainda pode entrar em funcionamento antes da outra.
E é para ser construída aqui em Portugal?
Podia ser, mas o governo teria que dar contrapartidas muito fortes, que creio que não estão ao nosso alcance. Talvez fique em Inglaterra. Se isto passar nas várias etapas da análise de Bruxelas, o dinheiro não pode vir só de lá. Também terá que haver um investimento muito forte por país. Aqui não há dinheiro de privados, porque ainda não temos oferta.
Se é tudo tão bom, por que é que tem demorado tudo tanto tempo?
Porque there's no such thing as a free lunch1. Os combustíveis da fusão são extremamente difíceis de conceber. Somos consistentes: há trinta anos dissémos que em trinta anos teríamos um reactor de fusão, e hoje continuamos a dizer o mesmo.
Porquê?
É a característica dos plasmas. As partículas ionizadas têm interacções umas com as outras a grandes distâncias, e isso determina um comportamento extremamente complexo. Há muitas instabilidades que que destroem o funcionamento magnético, ou que dificultam a compressão. As nossas grandes dificuldades têm sido compreender e controlar essas instabilidades. Temos vindo a construir máquinas cada vez maiores, mas só agora é que estamos em condições de construir uma à escala de um reactor. E mesmo este reactor ainda é um protótipo experimental. Esta máquina ainda não vai oferecer energia: é um estudo, para daqui a mais vinte anos se poder construir um verdadeiro reactor. Depois de pronto, vai fornecer três ou quatro vezes mais energia que a nossa central térmica do Carregado. É a melhor energia de todas porque não produz dióxido de Carbono, não contribui para o aquecimento global, não degrada o ambiente... vale a pena, o problema é chegar lá.
Quem foi o primeiro iluminado a lembrar-se disto?
Nos anos 50, o Péron anunciou publicamente que a Argentina tinha aprendido a controlar a fusão nuclear e ia construir um reactor. Isto deve ter sido resultado da investigação de cientistas alemães ligados aos nazis, que fugiram para a Argentina no fim da Guerra. Isto estimulou o interesse da comunidade internacional, mas nessa altura toda a informação a este respeito era classificada, por causa das suas implicações militares. Os americanos construiram logo a máquina deles, o Sterelator, que seria uma estrela dentro de um 8 enorme. Nunca funcionou muito bem. No fim dos anos 50 houve uma conferência internacional em Genebra onde se decidiu desclassificar o conhecimento nesta área. Foi quando os russos anunciaram os resultados fantásticos de uma máquina muito mais eficaz, o Tokamak, que já tinha a forma do donut, como a que vai ser construída agora em França. Os senhores que a inventaram são dois laureados: o Shakarov, que ganhou o Nobel da Paz, e o Tamm, que ganhou o Nobel da Física. Hoje há duzentos cientistas da Europa a trabalhar na nova máquina.
E o Tito? Quando é que se virou para aqui?
Quando era estudante, fiquei fascinado com as aulas do Prof. Faro, que transmitia aos alunos um grande entusiasmo pela ciência, embora ele próprio não fizesse investigação. Fiquei sugestionado com a analogia entre os quatro elementos e os quatro estados da matéria. Podemos dizer que a Terra é o sólido (frio), a Água é o líquido (mais quente), o Ar é o gazoso (ainda mais quente) e o Fogo é o plasma (um gaz inonizado a temperaturas ainda maiores). Ou seja, temos uma progressão que vai do gelo à água, daqui ao vapor de água, e daqui ao plasma.
Nem sabia que o plasma também era um estado da matéria.
Então! O estado é o estado da matéria mais abbundante do Universo. Olhe, as estrelas são todas plasma, o vento solar é plasma, o espaço inter-estelar é plasma, o espaço inter-galáxico é plasma, na Terra formam-se plasmas naturais nos relâmpagos, nas auroras boreais e no fogo, os quasares têm um buraco no centro e tudo o resto é plasma... mesmo o centro da Terra deve estar no estado de plasma, para produzir as correntes de convecção que formam o campo magnético da Terra. Só as regiões mais frias é que se liquefazem, ou, por vezes, solidificam. Até os cometas, que são sólidos, têm uma cauda que, quando se aproxima do Sol, se ioniza e se transforma em plasma, Por isso é que brilha tanto. A quantidade de matéria do Universo que não é plasma é desprezível. No início, era tudo muito mais quente. Só com a expansão, muito depois do Big-Bang, é que o arrefecimento permitiu o aparecimento da matéria nos estados em que nós a conhecemos. A vida só foi possível depois de um arrefecimento muito grande.
Foram os Quatro Elementos que o trouxeram para a Física?
Sempre gostei da Fisica, de uma maneira geral. Não sei de onde é que isto veio, nasceu comigo, não tive nenhuma grande epifania, não havia casos prévios na família, e nenhum dos meus filhos é físico. Mas eu acho a Física maravilhosamente platónica. Substituimos a realidade por modelos que são imagens virtuais, mas essas imagens explicam a realidade de forma matemática. Pelo menos, temos a ilusão de percebermos a realidade. A gente faz contas, prova qualquer coisa, e ao fim de uns anos observamos isso mesmo, como quando o Halley previu pela primeira vez o regresso do cometa que tem o seu nome: esta é a grande beleza da ciência.
Como a energia das estrelas
Faz agora um mês que soubémos pelas notícias ter finalmente arrancado em França, perto de Aix-en-Provence, o grande projecto internacional e multidisciplinar de construção da primeira central de produção de energia através da fusão do átomo de Hidrogénio, considerada a mais limpa e poderosa de todas desde há décadas mas, até agora, ainda demasiado mal conhecida em termos técnicos para ter podido tornar-se realidade mais cedo. Neste projecto estão envolvidos vários especialistas portugueses, em número francamente superior ao da média de contribuição cientíca do país. À frente do grupo, destaca-se José Tito de Mendonça, 61 anos, três filhos, dois netos, Catedrático de Física do Instituto Superior Técnico e engenheiro electrotécnico de formação. É um homem calmo, discreto, que não gosta de cargos administrativos, desconfia de ministérios, viaja constantemente pelo globo a estudar e desenvolver as suas ideias e está seriamente apaixonado pelo que faz. Só de ouvi-lo falar, percebe-se que deve ser um grande privilégio poder assistir às suas aulas. Sentimo-nos directamente tocados pela energia das estrelas.
O Laboratório de Lasers Intensos do Centro de Física dos Plasmas é um labirinto estranho de espelhos de ouro, turbinas imponentes, tubos metálicos, e feixes verdes ou vermelhos que parecem saídos directamente de um filme de ficço científica. É aqui que está guardado, escrupulosamente protegido do pó, o sistema laser mais potente de todo o Sul da Europa. O foco L21 é a zona mais brilhante de todo o país, capaz de condensar toda a energia solar que se derrama sobre Portugal na área equivalente a um chapéu de sol, e criando assim em laboratório condições físicas que, na natureza, só existem dentro de supernovas ou no centro dos maiores planetas. Um impulso destes lasers chega a ser um bilião de vezes mais rápido que um flash fotográfico. Saem daqui impulsos luminosos mil vezes superiores ao total da potência eléctrcica consumida em todo o mundo. Para andarmos por ali, temos que nos revestir de protecções iguais às que se usam nas salas de cirurgia. No meio das suas máquinas impressionantes, José Tito de Mendonça é, visivelmente, um homem feliz. Esta aqui, diz ele, custou o mesmo que o topo da gama dos Ferraris. Por isso mesmo, chamamos-lhe o Ferrari.
Há décadas que oiço dizer que a energia da fusão dos átomos de Hidrogénio é a melhor de todas. Mas porquê?
É, sem dúvida, uma energia mais forte e eficaz que as energias de cisão. E tem um número impressionante de vantagens. Primeiro, não produz resíduos radioactivos de longo tempo de vida. O grande problema das actuais centrais nucleares é a produção de resíduos radioactivos que mantêm a actividade durante dezenas de milhares de anos e nunca ninguém sabe onde se podem guardar, sendo que, ainda por cima, ao fim de vinte anos uma central destas tem que ser encerrada debaixo de toneladas de betão, e nunca é segura. Segundo, os grandes acidentes como o de Chernobyl ou de Three Mile Island nunca aconteceriam numa central de fusão, porque as quantidades de combustível que se usam aqui são sempre muito pequenas. Terceiro, um dos átomos usados na fusão, o Deutério, existe em grandes quantidades na água do mar, o que quer dizer que temos uma fonte quase inesgotável de combustível nuclear mesmo à mão de semear: o mar tem cerca de trinta gramas de Deutério por metro cúbico, e basta um grama para fazer funcionar uma central. É muito diferente do que se passa com o Urânio, que só existe em minas conhecidas e limitadas. E, a seguir, ainda tem que ser enriquecido, o que é um processo complicado.
Tecnicamente, qual é a grande diferença entre uma energia e outra?
Há duas maneiras de se extrair energia de um núcleo. Podemos recorrer à cisão e partir núcleos pesados em fragmentos, como acontece nos reactores nucleares, onde um áromo de Urânio partido em bocados liberta energia. Ou então podemos recorrer à fusão, em que pegamos em átomos leves, os mais leves de todos, como o Hidrogénio, os isótopos do Hidrogénio como o Deutério e o Trítio, ou o Hélio, e juntamos dois dos seus átomos. Este processo também liberta energia, e é uma energia bastante mais eficaz que a da cisão: é a que se cria na natureza no interior das estrelas. O Sol, por exemplo, liberta quantidades enormes de energia, e vem toda da fusão. É essa energia, aliás, que nos permite vermos tão bem as estrelas, porque elas aquecem a uma temperatura tão elevada que começam a libertar fotões. Os planetas mais pesados, como Júpiter e Saturno, não brilham: isto é porque no centro não têm densidade para os núcleos estarem suficientemente próximos para se fundirem e libertarem a energia da fusão.
Densidade?
Sim. É preciso uma densidade mínima para que haja reacções de fusão; ou que os núcleos tenham cargas suficientemente fortes para são serem repelidos por energia electroestática.
Mas, entretanto, o Tito já se meteu nesta outra pesquisa dos lasers.
Pois, porque existem dois caminhos para chegar à fusão. O primeiro é o do reactor que começou agora a ser construido em França. Neste caso, usa-se um gaz diluido mas muito quente, a cerca de cem milhões de graus centígrados. Para isto, usam-se máquinas de confinamento magnético. O gaz tem que ser confinado porque os átomos não podem tocar nas paredes dos recipientes. Este novo reactor fica num sítio magnífico para trabalhar e passar férias. Já há anos que lá vou. Cheguei a passar lá por temporadas de seis meses. O centro de investigação tem um refeitório com grandes paredes envidraçadas de onde se vêm as cabras montesas que vêem aos restos de comida, é delicioso.
E o que é que vai lá ser construído agora?
É uma espécie de grande donut oco, dentro do qual se vai produziu um plasma.
O que é um plasma?
É um gaz completamente inonizado.
Ou seja?
Bom, num gaz normal os átomos são neutros: os protões do núcleo equilibram-se com a carga dos electrões que ficam por fora. Mas, quando o gaz é muito aquecido, os electrões libertam-se do átomo, ficando os núcleos de um lado e os electrões por outro. Isso é um plasma. Exactamente como os dos écrans de plasma, ou mesmo os das lâmpadas fluorescentes. Só que este é muito mais quente. No caso do reactor de França, cria-se uma descarga lá dentro, e o plasma não toca nas paredes.
Então e qual é o segundo caminho, em que o Tito está a investir agora?
É usar uma bolinha de combustível comprimido mil vezes mais que a densidade do sólido. Aí, já não é preciso confinar: como o gaz é muito denso, podem produzir-se muitas reacções nucleares. Para comprimir o material nuclear usam-se cem feixes de laser muito intensos de distribuição concêntrica. Como não temos a certeza de como é que se superam todos os problemas até se chegar à fase da oferta de energia, é bom explorarem-se as duas vias ao mesmo tempo.
Esses dois caminhos alternativos têm nomes próprios?
O primeiro chama-se fusão por confinamento magnético, utilizando uma máquina que custa uns doze milhões de Euros (mais do que o aeroporto da Ota, por exemplo) e leva dez anos a ser construída. O segundo chama-se fusão laser, e não tem confinamento magnético. Só custa menos de mil milhar de Euros, para os quais estamos a pedir financiamento europeu, e tem grandes probabilidades de sucesso.
O Tito acabou por apostar no segundo.
É uma questão de poupar dinheiro e tempo. Em 1986, quando portugal aderiu à CEE, reuni com um grupo de pessoas aqui e lancei o programa de fusão português. Isto deu origem ao Centro de Fusão Nuclear, que estuda o confinamento magnetico e tem uma participação muito forte no projecto que arrancou agora em França. Depois abandonei o Centro e liguei-me aos lasers, em que também estão interessados países de fora da Europa. Se a nossa máquina, o Hiper, for aprovada, precisa de dois ou três anos de projecto e de cinco ou seis de construção. Ainda pode entrar em funcionamento antes da outra.
E é para ser construída aqui em Portugal?
Podia ser, mas o governo teria que dar contrapartidas muito fortes, que creio que não estão ao nosso alcance. Talvez fique em Inglaterra. Se isto passar nas várias etapas da análise de Bruxelas, o dinheiro não pode vir só de lá. Também terá que haver um investimento muito forte por país. Aqui não há dinheiro de privados, porque ainda não temos oferta.
Se é tudo tão bom, por que é que tem demorado tudo tanto tempo?
Porque there's no such thing as a free lunch1. Os combustíveis da fusão são extremamente difíceis de conceber. Somos consistentes: há trinta anos dissémos que em trinta anos teríamos um reactor de fusão, e hoje continuamos a dizer o mesmo.
Porquê?
É a característica dos plasmas. As partículas ionizadas têm interacções umas com as outras a grandes distâncias, e isso determina um comportamento extremamente complexo. Há muitas instabilidades que que destroem o funcionamento magnético, ou que dificultam a compressão. As nossas grandes dificuldades têm sido compreender e controlar essas instabilidades. Temos vindo a construir máquinas cada vez maiores, mas só agora é que estamos em condições de construir uma à escala de um reactor. E mesmo este reactor ainda é um protótipo experimental. Esta máquina ainda não vai oferecer energia: é um estudo, para daqui a mais vinte anos se poder construir um verdadeiro reactor. Depois de pronto, vai fornecer três ou quatro vezes mais energia que a nossa central térmica do Carregado. É a melhor energia de todas porque não produz dióxido de Carbono, não contribui para o aquecimento global, não degrada o ambiente... vale a pena, o problema é chegar lá.
Quem foi o primeiro iluminado a lembrar-se disto?
Nos anos 50, o Péron anunciou publicamente que a Argentina tinha aprendido a controlar a fusão nuclear e ia construir um reactor. Isto deve ter sido resultado da investigação de cientistas alemães ligados aos nazis, que fugiram para a Argentina no fim da Guerra. Isto estimulou o interesse da comunidade internacional, mas nessa altura toda a informação a este respeito era classificada, por causa das suas implicações militares. Os americanos construiram logo a máquina deles, o Sterelator, que seria uma estrela dentro de um 8 enorme. Nunca funcionou muito bem. No fim dos anos 50 houve uma conferência internacional em Genebra onde se decidiu desclassificar o conhecimento nesta área. Foi quando os russos anunciaram os resultados fantásticos de uma máquina muito mais eficaz, o Tokamak, que já tinha a forma do donut, como a que vai ser construída agora em França. Os senhores que a inventaram são dois laureados: o Shakarov, que ganhou o Nobel da Paz, e o Tamm, que ganhou o Nobel da Física. Hoje há duzentos cientistas da Europa a trabalhar na nova máquina.
E o Tito? Quando é que se virou para aqui?
Quando era estudante, fiquei fascinado com as aulas do Prof. Faro, que transmitia aos alunos um grande entusiasmo pela ciência, embora ele próprio não fizesse investigação. Fiquei sugestionado com a analogia entre os quatro elementos e os quatro estados da matéria. Podemos dizer que a Terra é o sólido (frio), a Água é o líquido (mais quente), o Ar é o gazoso (ainda mais quente) e o Fogo é o plasma (um gaz inonizado a temperaturas ainda maiores). Ou seja, temos uma progressão que vai do gelo à água, daqui ao vapor de água, e daqui ao plasma.
Nem sabia que o plasma também era um estado da matéria.
Então! O estado é o estado da matéria mais abbundante do Universo. Olhe, as estrelas são todas plasma, o vento solar é plasma, o espaço inter-estelar é plasma, o espaço inter-galáxico é plasma, na Terra formam-se plasmas naturais nos relâmpagos, nas auroras boreais e no fogo, os quasares têm um buraco no centro e tudo o resto é plasma... mesmo o centro da Terra deve estar no estado de plasma, para produzir as correntes de convecção que formam o campo magnético da Terra. Só as regiões mais frias é que se liquefazem, ou, por vezes, solidificam. Até os cometas, que são sólidos, têm uma cauda que, quando se aproxima do Sol, se ioniza e se transforma em plasma, Por isso é que brilha tanto. A quantidade de matéria do Universo que não é plasma é desprezível. No início, era tudo muito mais quente. Só com a expansão, muito depois do Big-Bang, é que o arrefecimento permitiu o aparecimento da matéria nos estados em que nós a conhecemos. A vida só foi possível depois de um arrefecimento muito grande.
Foram os Quatro Elementos que o trouxeram para a Física?
Sempre gostei da Fisica, de uma maneira geral. Não sei de onde é que isto veio, nasceu comigo, não tive nenhuma grande epifania, não havia casos prévios na família, e nenhum dos meus filhos é físico. Mas eu acho a Física maravilhosamente platónica. Substituimos a realidade por modelos que são imagens virtuais, mas essas imagens explicam a realidade de forma matemática. Pelo menos, temos a ilusão de percebermos a realidade. A gente faz contas, prova qualquer coisa, e ao fim de uns anos observamos isso mesmo, como quando o Halley previu pela primeira vez o regresso do cometa que tem o seu nome: esta é a grande beleza da ciência.
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