XXIX Semana de Estudos Teológicos
De 18 a 21 de Fevereiro de 2008, das 17h30 às 20h00
Auditório Cardeal Medeiros - Biblioteca Universitária João Paulo II
CRIAÇÃO E EVOLUÇÃO
Um Debate Cultural e Teológico
Ver Desdobrável
18 de Fevereiro
Contexto cultural do debate
17h30 - Abertura
Peter Stilwell (Director da Faculdade)
Apresentação da Semana
H. Noronha Galvão (Coordenador da Semana)
18h00 - Mesa Redonda
Carlos Silva - Noção de tempo na descontinuidade ou continuidade da "evolução"
Domingos Terra - "Evolução"no Cristianismo e na Igreja
19h00 - Debate
19 de Fevereiro
Mensagem bíblica e reflexão teológica
17h30 - Mesa Redonda
Armindo Vaz - Dinamismo ascendente nas narrativas das origens
João Lourenço - Teologia da (Nova) Criação no Judaísmo Intertestamentário
Tolentino Mendonça - Homem Novo no Testamento de Jesus Cristo
19h00 - Debate
20 de Fevereiro
A teoria científica da evolução
17h30 - Conferência
Jacques Arnould op - "A Teologia e a teoria da evolução depois de Darwin"
18h15 - Intervalo
18h30 - Comentário - Artur Morão - e Debate
21 de Fevereiro
Encontro da fé cristã e da ciência moderna
17h30 - Conferência
Jacques Arnould op - "De Teilhard de Chardin ao "intelligent design""
18h15 - Intervalo
18h30 - Mesa-Redonda - A questão do ensino
D. Tomaz Silva Nunes-A EMRC, o crescimento humano e a formaçãocientífica
António Figueira - Que lugar para a "Verdade" na actual engenharia do ensino
Peter Stilwell - A fé desafiada pelo "interdito" da razão?
19h30 - Palavra final do Reitor da UCP
Blogue dedicado ao papel da história e do pensamento na compreensão da relação entre o homem e a natureza
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
sábado, 29 de dezembro de 2007
EFEMÉRIDE: Dia Mundial da Diversidade Biológica

NO JARDIM DO REI QUE NÃO EXISTE (I)
Comemora-se, hoje, o Dia Mundial da Diversidade Biológica. Para muitos é um dia insignificante, mais um daqueles que se inventam por aí, mais um que não serve absolutamente para nada a não ser para exclamar “hum, hum” quando, acidentalmente, nos cruzamos com um folheto, um poster ou uma notícia minúscula num jornal. Na verdade, a diversidade biológica não interessa a ninguém. O facto de se extinguirem 27 mil espécies por ano não afecta em nada a nossa vida e o nosso bem-estar. O facto de existirem mais de 15 mil espécies de animais e 60 mil espécies de plantas em perigo de extinção não nos tira o sono e muito menos o orgulho medieval de termos lá por casa qualquer coisa feita de qualquer coisa exótica muito cara e muito rara. É que os corais dão excelentes centros de mesa. E as cascas de tartaruga ficam muito bem sobre o aparador da sala. Já a pele de zebra encaixa perfeitamente no hall de entrada. E no escritório, aquela mobília feita de madeira da Indonésia fica simplesmente perfeita. O facto de, lá longe, a diversidade biológica ser cada vez menos diversa não nos incomoda minimamente. Longe da vista, longe do coração. Suficientemente longe para não fazer parte das nossas preocupações quotidianas. Convenhamos. Porque deveríamos nós chorar todos os dias pelo desaparecimento de algumas plantas em Tuvalu, um mísero e insignificante atol do Pacífico? E por umas plantas? É mesmo isso. Longe da vista, longe do coração. O que faz com que a nossa perspectiva seja um tanto solipsista. A única realidade somos nós próprios e tudo o que há à nossa volta simplesmente não existe, é irreal. Mesmo a consciência não passa de um subproduto dos media. O que faz de nós, inevitavelmente, uns cretinos. É precisamente por essa razão que vamos todos comprar a Agenda Verde 2008 da National Geographic porque é gira e barata e tem umas fotografias de bichos excepcionais mas pouco nos interessa que diga que os gorilas são uma das muitas espécies em risco de extinção por causa da destruição das florestas tropicais pelo corte ilegal e pela pressão da agricultura ou que o aquecimento global fez com que algumas plantas avançassem para norte, florescendo em extensões antes cobertas pelos glaciares ou ainda que a acção humana é, há décadas, a causa directa do imparável decréscimo do número de baleias. Mas hoje é o Dia Mundial da Diversidade Biológica. Há, logo à partida, um aspecto interessante e que simboliza de alguma forma a importância que damos à diversidade biológica. Este dia foi criado no dia 29 de Dezembro de 1993 pelo Segundo Comité da Assembleia-geral das Nações Unidas, altura em que se realizou a Convenção da Diversidade Biológica. No entanto, há quem comemore a data da adopção do texo da convenção, a 22 de Maio. A razão é simples. Para muitos países, a data de 29 de Dezembro não dá jeito. E isto até tem piada porque simboliza na perfeição a nossa preocupação para com a diversidade biológica, isto é, agora não dá jeito. Só assim se compreende que uma fábrica de cimento esteja localizada em plena serra da Arrábida e ninguém dê um grito. Aliás, uma fábrica de cimento em plena serra com uma fauna e uma flora excepcionais, algumas únicas no mundo, só pode ser uma piada de mau gosto, uma autêntica cretinice. Isto já para não falar no estuário do Sado e dos seus golfihos-roazes, uma das poucas populações residentes de golfinhos no mundo mas que está em decréscimo devido ao lixo que fábricas ali da zona despeja directamente no estuário (será que vou preso por te dito isto?!).
(continua)
Fotos do Jardim Botânico de Lisboa (c) Ricardo S. Reis dos Santos
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
OPINIÃO: Excesso de zelo
POLITICAMENTE CORRECTO
Esta quadra festiva presta-se sistematicamente à expressão das mais diversas tendências que cruzam a homogeneidade aparente do povo português com a manifestação entusiástica das suas sub-culturas. E, nos últimos anos, temos assistido a um despique cada vez mais garrido pelas atitudes ecológicas politicamente correctas que podemos ir tomando enquanto festejamos, para não deixarmos deusar as festas para ajudar o planeta e dar um grande presente à Terra. É curioso notar que até esta subcultura já tem as suas variações mais ou menos radicais, até chegarmos ao ponto em que uma data de conceitos díspares se misturam num caldeirão de amor pelo equilíbrio do planeta tão marado que começam a saltar de lá artefactos que raiam o ridículo.
Veja-se uma loja toda dedicada à celebração da Natureza, do nome à decoração das montras, das roupas de fibras naturais que vende aos escritos dos cartões alinhados junto ao balcão. Entro para trocar uma túnica azul por outra preta, e recebo o objecto pedido dentro de um saco de papel reciclado, já de si correctíssimo. Mas, quando olho melhor para o saco, até se me desfocam os olhos: de um lado está pintado um pinheiro que dá cenouras, e do outro um cão com malhas e cornos de renda. A mensagem é clara, incisiva, em tom de comando:
NÃO AO NATAL TRANSGÉNICO!
Ai eu.
Está longe de se encontrar minimamente provado que um pinheiro geneticamente modificado para dar cenouras é inimigo do ambiente, tal como não há qualquer razão para pensarmos que a engenharia necessária a misturar um cão com uma rena envenena a água dos poços ou faz murchar as colheitas. Um organismo transgénico, só por ser transgénico, não é um mal ecológico em si. Pode ser, se esgotar os nutrientes do solo, se for imposto ao mundo pelas grandes multinacionais liquidando as tradições locais, se tornar inviável o pequeno e médio comércio, ou se se escapar da área controlada onde está contido para se transformar numa praga infestante. Como em tudo na vida, os transgénicos podem ser extremamente úteis se forem extremamente bem usados. Não é por causa da engenharia genética que o Natal está portas da morte. Escrevam nos sacos
NÃO À IMBECILIDADE DA ASAE!,
e o caso muda de figura. Mas, se é para arranjar bodes expiatórios – por favor. Arrangem qualquer coisa que esteja científicamente provado ser mesmp perniciosa para o futuro.
Ou seja, tenham bom senso.
E, com ele, tenham um 2008 do caraças.
Esta quadra festiva presta-se sistematicamente à expressão das mais diversas tendências que cruzam a homogeneidade aparente do povo português com a manifestação entusiástica das suas sub-culturas. E, nos últimos anos, temos assistido a um despique cada vez mais garrido pelas atitudes ecológicas politicamente correctas que podemos ir tomando enquanto festejamos, para não deixarmos deusar as festas para ajudar o planeta e dar um grande presente à Terra. É curioso notar que até esta subcultura já tem as suas variações mais ou menos radicais, até chegarmos ao ponto em que uma data de conceitos díspares se misturam num caldeirão de amor pelo equilíbrio do planeta tão marado que começam a saltar de lá artefactos que raiam o ridículo.
Veja-se uma loja toda dedicada à celebração da Natureza, do nome à decoração das montras, das roupas de fibras naturais que vende aos escritos dos cartões alinhados junto ao balcão. Entro para trocar uma túnica azul por outra preta, e recebo o objecto pedido dentro de um saco de papel reciclado, já de si correctíssimo. Mas, quando olho melhor para o saco, até se me desfocam os olhos: de um lado está pintado um pinheiro que dá cenouras, e do outro um cão com malhas e cornos de renda. A mensagem é clara, incisiva, em tom de comando:
NÃO AO NATAL TRANSGÉNICO!
Ai eu.
Está longe de se encontrar minimamente provado que um pinheiro geneticamente modificado para dar cenouras é inimigo do ambiente, tal como não há qualquer razão para pensarmos que a engenharia necessária a misturar um cão com uma rena envenena a água dos poços ou faz murchar as colheitas. Um organismo transgénico, só por ser transgénico, não é um mal ecológico em si. Pode ser, se esgotar os nutrientes do solo, se for imposto ao mundo pelas grandes multinacionais liquidando as tradições locais, se tornar inviável o pequeno e médio comércio, ou se se escapar da área controlada onde está contido para se transformar numa praga infestante. Como em tudo na vida, os transgénicos podem ser extremamente úteis se forem extremamente bem usados. Não é por causa da engenharia genética que o Natal está portas da morte. Escrevam nos sacos
NÃO À IMBECILIDADE DA ASAE!,
e o caso muda de figura. Mas, se é para arranjar bodes expiatórios – por favor. Arrangem qualquer coisa que esteja científicamente provado ser mesmp perniciosa para o futuro.
Ou seja, tenham bom senso.
E, com ele, tenham um 2008 do caraças.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
OPINIÃO: Ainda sobre James Watson
QUANDO OS BONS HOMENS NÃO SÃO HOMENS BONS
O pai dos meus filhos é um dos frutos típicos do sonho americano: a família veio de uma aldeia muito pobre no Sul da Itália, todos falavam em dialecto, atravessaram a Grande Depressão de queixo erguido e o melhor que puderam, quando o Dick nasceu estava o pai em manobras no Pacífico, no último ano da II Guerra. O que ganharam e cresceram deu-lhes uma casa de habitação, outra casa de férias na Florida, dois carros, e um filho que é professor universitário num dos Colleges mais finos e famosos do país, o género de sítio onde estudam os Grimaldi e pessoas dessas. O Dick foi o primeiro membro da familia a abandonar o ghetto italiano de Utica para ir fazer o doutoramento, e foi directamente para Harvard estudar com nem mais nem menos que o James Watson.
Perguntaram-lhe os familiares, completamente apanhados de surpresa, Quem é o James Watson?
Respondeu ele, do alto do seu diploma do College: Apenas o miúdo que, com vinte e poucos anos, entrou na linha de montagem que leva ao Nobel por ter descoberto, juntamento com James Crick, que a estrutura do código genético, a molécula gigantesca designada como DNA em que estão todos os pares de bases da nossa individualidade, se organiza como uma colossal hélice dupla, com pontes estendidas de braço a lado a intervalos regulares.
Como é evidente, James Watson era o grande heroi intelectual do aluninho italiano que estava a sair do perímetro familiar pela primeira vez. O encontro deu-se poucos dias depois da sua chegada a Harvard, estava Watson a entrevistar um por um os novos candidatos ao doutoramento. Quando chegou a vez do Dick, olhou para o papel e franziu as sobrancelhas.
“Dick Poccia? Agora já deixam pessoas com nomes italianos entrar para Harvard?”
E foi tudo.
A verdade é que o Dick, que vinha do ghetto com o mesmo sotaque de filme da Mafia com que toda a gente ali fala, a primeira coisa que fez foi tratar de perder o sotaque o mais depressa que pode. Eu, que o conheci uns vinte e tal anos depois, só soube que ele alguma vez o tivera porque ele me disse. E mais me disse que, claro, isso fora sentido como uma rejeição e um afastamento por toda a família.
Este mesmo James Watson é o senhor que deu que falar nas últimas semanas porque proferiu tantas observações racistas nas entrevistas de lançamento do seu último livro biográfico, na sequência de muitas outras ao longo dos anos contra homosexuais, obesos e judeus, entre outros, que o Science Museum, em Londres, cancelou a conferência prevista, e o laboratório americano de Cold Spring Harbor, que dirigiu até 1994, prescindiu dos seus serviços tutelares (a Fundação Champalimaud, onde Watson preside ao Conselho Científico, preferiu até hoje não fazer comentários). Em grande medida, esta reacção de choque tem a ver com a rapidez, a frontalidade e a noção de certo e errado que permeiam a sociedade de hoje em nítido contraste com a forma como circulavam notícias e comentários nos anos 70, quando o Dick foi para Harvard. Também tem certamente a ver com a nossa percepção instintiva de que, quando um homem de ciência fala, está a fazê-lo em termos científicos – e, honra lhe seja, Watson sempre deixou claro que falava em termos pessoais. Mas é evidente que, para todos os que descobrem só hoje esta faceta insuportável do eterno enfant térrible da biologia celular, o que é realmente chocante é que um grande homem não seja um homem bom. Watson é um cientista de cinco estrelas, mas, como ser humano, já era uma peste nos anos 50, quando chegou a Cambridge para o doutoramento que ia levá-lo à glória. Está no seu direito de pensar o que quiser, e até, se isso lhe dá prazer, de usar a sua visibilidade para dizer ao mundo inteiro o que pensa. Não pode é não temer consequências. E, no caso dele, estas já eram devidas há muito tempo. É curioso, é inesperado, mas às vezes ainda me sinto orgulhosa da sociedade a que pertenço.
O pai dos meus filhos é um dos frutos típicos do sonho americano: a família veio de uma aldeia muito pobre no Sul da Itália, todos falavam em dialecto, atravessaram a Grande Depressão de queixo erguido e o melhor que puderam, quando o Dick nasceu estava o pai em manobras no Pacífico, no último ano da II Guerra. O que ganharam e cresceram deu-lhes uma casa de habitação, outra casa de férias na Florida, dois carros, e um filho que é professor universitário num dos Colleges mais finos e famosos do país, o género de sítio onde estudam os Grimaldi e pessoas dessas. O Dick foi o primeiro membro da familia a abandonar o ghetto italiano de Utica para ir fazer o doutoramento, e foi directamente para Harvard estudar com nem mais nem menos que o James Watson.
Perguntaram-lhe os familiares, completamente apanhados de surpresa, Quem é o James Watson?
Respondeu ele, do alto do seu diploma do College: Apenas o miúdo que, com vinte e poucos anos, entrou na linha de montagem que leva ao Nobel por ter descoberto, juntamento com James Crick, que a estrutura do código genético, a molécula gigantesca designada como DNA em que estão todos os pares de bases da nossa individualidade, se organiza como uma colossal hélice dupla, com pontes estendidas de braço a lado a intervalos regulares.
Como é evidente, James Watson era o grande heroi intelectual do aluninho italiano que estava a sair do perímetro familiar pela primeira vez. O encontro deu-se poucos dias depois da sua chegada a Harvard, estava Watson a entrevistar um por um os novos candidatos ao doutoramento. Quando chegou a vez do Dick, olhou para o papel e franziu as sobrancelhas.
“Dick Poccia? Agora já deixam pessoas com nomes italianos entrar para Harvard?”
E foi tudo.
A verdade é que o Dick, que vinha do ghetto com o mesmo sotaque de filme da Mafia com que toda a gente ali fala, a primeira coisa que fez foi tratar de perder o sotaque o mais depressa que pode. Eu, que o conheci uns vinte e tal anos depois, só soube que ele alguma vez o tivera porque ele me disse. E mais me disse que, claro, isso fora sentido como uma rejeição e um afastamento por toda a família.
Este mesmo James Watson é o senhor que deu que falar nas últimas semanas porque proferiu tantas observações racistas nas entrevistas de lançamento do seu último livro biográfico, na sequência de muitas outras ao longo dos anos contra homosexuais, obesos e judeus, entre outros, que o Science Museum, em Londres, cancelou a conferência prevista, e o laboratório americano de Cold Spring Harbor, que dirigiu até 1994, prescindiu dos seus serviços tutelares (a Fundação Champalimaud, onde Watson preside ao Conselho Científico, preferiu até hoje não fazer comentários). Em grande medida, esta reacção de choque tem a ver com a rapidez, a frontalidade e a noção de certo e errado que permeiam a sociedade de hoje em nítido contraste com a forma como circulavam notícias e comentários nos anos 70, quando o Dick foi para Harvard. Também tem certamente a ver com a nossa percepção instintiva de que, quando um homem de ciência fala, está a fazê-lo em termos científicos – e, honra lhe seja, Watson sempre deixou claro que falava em termos pessoais. Mas é evidente que, para todos os que descobrem só hoje esta faceta insuportável do eterno enfant térrible da biologia celular, o que é realmente chocante é que um grande homem não seja um homem bom. Watson é um cientista de cinco estrelas, mas, como ser humano, já era uma peste nos anos 50, quando chegou a Cambridge para o doutoramento que ia levá-lo à glória. Está no seu direito de pensar o que quiser, e até, se isso lhe dá prazer, de usar a sua visibilidade para dizer ao mundo inteiro o que pensa. Não pode é não temer consequências. E, no caso dele, estas já eram devidas há muito tempo. É curioso, é inesperado, mas às vezes ainda me sinto orgulhosa da sociedade a que pertenço.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Orgulho e preconceito em James Watson
Teria hoje lugar no Science Museum, em Londres, a conferência de James Watson para apresentar o livro “Avoid Boring People: Lessons from a Life in Science”, que o museu decidiu cancelar, na sequência das declarações de preconceito racial proferidas pelo cientista ao "The Sunday Times." Esta decisão provocou um acalorado conjunto de reacções, a que não escapou a lista britânica de história da ciência, Mersenne. A reacção pode parecer trivial: o Science Museum é uma instituição importante para a história da ciência, principalmente no Reino Unido, e o próprio Watson é, há cerca de meio século, um objecto importante da mesma história da ciência. O que não é trivial, é que a Mersenne nunca foi uma lista de debate, mas sempre uma lista exclusivamente informativa, e por isso com um reduzido débito de mensagens.
As posições manifestadas são muito variadas, tanto as que são contra como as que são a favor do cancelamento. As primeiras incluem os que entendem ser má qualquer medida que contrarie o livre debate de ideias, os que entendem que Watson deveria ter direito a manifestar em pessoa as suas posições, sem estas serem alteradas pelo media, e a sujeitar-se directamente à sua crítica, e ainda os que consideram que o cancelamento promoveu uma desnecessária publicidade para Watson e as suas posições.
Embora concorde que o cancelamento beneficiou precisamente a promoção do livro de Watson, não posso deixar de compreender que o Science Museum não só se quisesse distanciar das suas declarações, como aproveitasse a ocasião para enviar uma mensagem de sinal contrário, principalmente dirigido à juventude inglesa de origem asiática e africana.
As restantes instituições incluídas no périplo do lançamento do livro de Watson, podem legitimamente considerar outras tácticas, como a de promover o protagonismo de pontos de vista contrários. Mas isso não deverá ser feito em nome da defesa da liberdade de expressão e debate de ideias científicas. Principalmente porque, não decorrendo de qualquer investigação séria ou mesmo da sua área de especialidade, as opiniões de Watson sobre a relação entre inteligência e a raça não são opiniões científicas, que as universidades tenham obrigação (pelo menos neste contexto) de debater.
Watson foi sempre muito desbocado no que respeita a considerações pejorativas sobre povos não brancos (ou melhor, não provenientes da Europa do Norte), mulheres, homosexuais, obesos e mesmo ... matemáticos. James Watson tem, como todos nós, direito a seguir e a manifestar o seu senso comum e os seus preconceitos. Ele (e nós) não pode é fazê-los passar por ciência.
Post-scriptum: O lado lusitano do tema
Imagem: J. Watson, com Leonor Beleza, recebido em Belém em Março de 2007.
Será curioso conhecer melhor as posições de James Watson sobre os níveis de inteligência dos indianos, tendo em conta as suas funções na Fundação Champalimaud e o grupo a que pertencem os beneficiários do 2007 António Champalimaud Vision Award.
As posições manifestadas são muito variadas, tanto as que são contra como as que são a favor do cancelamento. As primeiras incluem os que entendem ser má qualquer medida que contrarie o livre debate de ideias, os que entendem que Watson deveria ter direito a manifestar em pessoa as suas posições, sem estas serem alteradas pelo media, e a sujeitar-se directamente à sua crítica, e ainda os que consideram que o cancelamento promoveu uma desnecessária publicidade para Watson e as suas posições.
Embora concorde que o cancelamento beneficiou precisamente a promoção do livro de Watson, não posso deixar de compreender que o Science Museum não só se quisesse distanciar das suas declarações, como aproveitasse a ocasião para enviar uma mensagem de sinal contrário, principalmente dirigido à juventude inglesa de origem asiática e africana.
As restantes instituições incluídas no périplo do lançamento do livro de Watson, podem legitimamente considerar outras tácticas, como a de promover o protagonismo de pontos de vista contrários. Mas isso não deverá ser feito em nome da defesa da liberdade de expressão e debate de ideias científicas. Principalmente porque, não decorrendo de qualquer investigação séria ou mesmo da sua área de especialidade, as opiniões de Watson sobre a relação entre inteligência e a raça não são opiniões científicas, que as universidades tenham obrigação (pelo menos neste contexto) de debater.
Watson foi sempre muito desbocado no que respeita a considerações pejorativas sobre povos não brancos (ou melhor, não provenientes da Europa do Norte), mulheres, homosexuais, obesos e mesmo ... matemáticos. James Watson tem, como todos nós, direito a seguir e a manifestar o seu senso comum e os seus preconceitos. Ele (e nós) não pode é fazê-los passar por ciência.
Imagem: J. Watson, com Leonor Beleza, recebido em Belém em Março de 2007.
Será curioso conhecer melhor as posições de James Watson sobre os níveis de inteligência dos indianos, tendo em conta as suas funções na Fundação Champalimaud e o grupo a que pertencem os beneficiários do 2007 António Champalimaud Vision Award.
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