domingo, 29 de abril de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Religião

A FÉ E O MUNDO
Lecciono aos finalistas de Biologia uma cadeira de História do Pensamento Biológico. À medida que os anos passam, dá ideia de que os portugueses são cada vez menos crentes, e ainda menos praticantes: de uma forma que se generaliza gradualmente, os meus alunos desconhecem tanto o Velho como o Novo Testamento. E isto torna particularmente complicado o ensino de qualquer temática de foro histórico, porque a fé cristã fez parte integrante da organização do nosso mundo até à segunda metade do século XIX, complementada pelas tradições judaica e islâmica que nos acompanharam no caminho. Aparentemente, a única forma de colmatar esta lacuna complicada seria regredir à velha obrigatoriedade da frequência de Moral e Religião, onde ao menos se aprendiam uns vislumbres. O problema é que estas aulas são constituídas por proselitismo e não por aprendizagem de factos, o que torna obrigatório manterem-se estritamente opcionais. Mas, se as bases mais elementares da religião que modelou o Ocidente já não se aprendem em casa nem por simples contágio social, a formação dos cidadãos ocidentais nunca estará completa se elas não passarem a ensinar-se na escola, por forma a não acabarmos por perder completamente o Norte quanto tentamos seguir o percurso que nos trouxe até aqui. Talvez criar, pelo menos no secundário, assim como há Filosofia e Introdução à Política, uma cadeira nova que se chamaria qualquer coisa como, simplesmente, Religião – para apresentação de factos,com exclusão rigorosa de comentários? A fé pode já não querer diser grande coisa no nosso mundo, mas o trajecto que esse mundo seguiu depende em grande parte dela, e, sem ela, não se entende com a devida clareza. E continua a querer dizer muito no mundo dos outros, remetendo-nos por analogia para o nosso, como no caso da fé islâmica. Uma cadeira de Velho e Novo Testamento, reformas, contra-reformas, hexegeses que marcaram a Europa, guerras e torturas e perseguições e criações de padrões populacionais ao longo do tempo. Pensem nisso. Eu apenas posso atestar, como docente universitária, que o nosso entendimento do mundo está a ficar cada vez mais deficiente. Agradeço muitos comentários, porque sei que isto não é nada simples.

2 comentários:

Cristina Melo disse...

"O que nos trouxe até aqui ?", não foi um "pedaço de história",história católica, apesar de de A Rua da Judiaria ser suficientemente conhecido, cansa, caso de pudesse falar em história judia, história cristã, história disto, história daquilo, talvez eu prefira dizer que a história é universal e criar uma historiografia estritamente religiosa
é empobrecer a humanidade (bem, acho que foi por isso me cansei de visitar a Rua da Judiaria).

Pensando numa frase que li ultimamente e que me deu que pensar: é verdade que caso não tivesse existido períodos de intolerância, inquisições católicas, talvez não tivesse existido o Renascimento .
Será mais difícil do que parece avaliar o que nos trouxe até aqui, porque afinal foi tudo.

miguel disse...

sim, estou de acordo que conhecer uma historia religiosa é importante para compreender a historia da nossa sociedade, nem que seja por ser cultura!!
No entanto acho que é bem mais interessante mostrar aos seus alunos como o pensamento biologico foi castrado pelo pensamento religioso, mais ainda como foi atrasado por imuneros julgamentos de inquisição que nos roubaram de pessoas muito interessantes, cujo unico crime era pensar de forma diferente...
isso sim era interessante explicar aos seus alunos, talvez aí percebesse o porquê de cada vez mais os portugueses sejam menos religiosos!!