domingo, 21 de janeiro de 2007

OBITUÁRIO: Ray-Gude Mertin

Desde que, no início da semana passada, correu na internet a notícia da morte súbita da Ray-Gude Mertin, os escritores portugueses sentem-se subitamente orfãos. E não são só os portugueses: são todos os autores da diáspora lusófona que perderam sem aviso a sua fada madrinha. Em Outubro, na Feira de Frankfurt, ela estava ainda na maior, cheia de energia e transbordante de projectos. No Natal, trocámos as duas umas mensagens bem divertidas sobre o meu último romance, que ela já tinha em mãos, pronta para o assalto ao mercado. Consta que terá sido o regresso à superfície de um antigo episódio cancerígeno. Mas ninguém sabe ao certo. A Ray-Gude, com o seu cabelo loiro sempre cortado curto e os seus olhos azuis sempre atentos, parecia-nos eterna desde há décadas. Era alemã de origem e residência, mas tinha vivido vários anos no Brasil. Falava, lia e escrevia o português com grande fluência, e amava sinceramente a escrita portuguesa. Com o tempo, foi-se transformando na agente literária de todos nós. Conhecia-nos pelo nome, acompanhava-nos com frequência tanto nos momentos rápidos de triunfo como nas horas amargas das pequenas crises pessoais, lia os nossos livros todos e batalhava por eles no mundo com uma genica desconcertante. Para cada um de nós, convertia-se depressa numa amiga daquelas com quem se pode contar. Descobria-nos as editoras mais adequadas, os tradutores mais indicados, as linhas promocionais mais apropriadas, e ainda tinha tempo para nos dar a mão em alegrias de filhos ou desgostos de divórcios. Corria por nós o planeta inteiro, e para nós estava sempre disponível. Deixou-nos de repente. E todos ficámos sem mapa nem bússola, subitamente sozinhos.

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