QUANDO OS BONS HOMENS NÃO SÃO HOMENS BONS
O pai dos meus filhos é um dos frutos típicos do sonho americano: a família veio de uma aldeia muito pobre no Sul da Itália, todos falavam em dialecto, atravessaram a Grande Depressão de queixo erguido e o melhor que puderam, quando o Dick nasceu estava o pai em manobras no Pacífico, no último ano da II Guerra. O que ganharam e cresceram deu-lhes uma casa de habitação, outra casa de férias na Florida, dois carros, e um filho que é professor universitário num dos Colleges mais finos e famosos do país, o género de sítio onde estudam os Grimaldi e pessoas dessas. O Dick foi o primeiro membro da familia a abandonar o ghetto italiano de Utica para ir fazer o doutoramento, e foi directamente para Harvard estudar com nem mais nem menos que o James Watson.
Perguntaram-lhe os familiares, completamente apanhados de surpresa, Quem é o James Watson?
Respondeu ele, do alto do seu diploma do College: Apenas o miúdo que, com vinte e poucos anos, entrou na linha de montagem que leva ao Nobel por ter descoberto, juntamento com James Crick, que a estrutura do código genético, a molécula gigantesca designada como DNA em que estão todos os pares de bases da nossa individualidade, se organiza como uma colossal hélice dupla, com pontes estendidas de braço a lado a intervalos regulares.
Como é evidente, James Watson era o grande heroi intelectual do aluninho italiano que estava a sair do perímetro familiar pela primeira vez. O encontro deu-se poucos dias depois da sua chegada a Harvard, estava Watson a entrevistar um por um os novos candidatos ao doutoramento. Quando chegou a vez do Dick, olhou para o papel e franziu as sobrancelhas.
“Dick Poccia? Agora já deixam pessoas com nomes italianos entrar para Harvard?”
E foi tudo.
A verdade é que o Dick, que vinha do ghetto com o mesmo sotaque de filme da Mafia com que toda a gente ali fala, a primeira coisa que fez foi tratar de perder o sotaque o mais depressa que pode. Eu, que o conheci uns vinte e tal anos depois, só soube que ele alguma vez o tivera porque ele me disse. E mais me disse que, claro, isso fora sentido como uma rejeição e um afastamento por toda a família.
Este mesmo James Watson é o senhor que deu que falar nas últimas semanas porque proferiu tantas observações racistas nas entrevistas de lançamento do seu último livro biográfico, na sequência de muitas outras ao longo dos anos contra homosexuais, obesos e judeus, entre outros, que o Science Museum, em Londres, cancelou a conferência prevista, e o laboratório americano de Cold Spring Harbor, que dirigiu até 1994, prescindiu dos seus serviços tutelares (a Fundação Champalimaud, onde Watson preside ao Conselho Científico, preferiu até hoje não fazer comentários). Em grande medida, esta reacção de choque tem a ver com a rapidez, a frontalidade e a noção de certo e errado que permeiam a sociedade de hoje em nítido contraste com a forma como circulavam notícias e comentários nos anos 70, quando o Dick foi para Harvard. Também tem certamente a ver com a nossa percepção instintiva de que, quando um homem de ciência fala, está a fazê-lo em termos científicos – e, honra lhe seja, Watson sempre deixou claro que falava em termos pessoais. Mas é evidente que, para todos os que descobrem só hoje esta faceta insuportável do eterno enfant térrible da biologia celular, o que é realmente chocante é que um grande homem não seja um homem bom. Watson é um cientista de cinco estrelas, mas, como ser humano, já era uma peste nos anos 50, quando chegou a Cambridge para o doutoramento que ia levá-lo à glória. Está no seu direito de pensar o que quiser, e até, se isso lhe dá prazer, de usar a sua visibilidade para dizer ao mundo inteiro o que pensa. Não pode é não temer consequências. E, no caso dele, estas já eram devidas há muito tempo. É curioso, é inesperado, mas às vezes ainda me sinto orgulhosa da sociedade a que pertenço.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Orgulho e preconceito em James Watson
Teria hoje lugar no Science Museum, em Londres, a conferência de James Watson para apresentar o livro “Avoid Boring People: Lessons from a Life in Science”, que o museu decidiu cancelar, na sequência das declarações de preconceito racial proferidas pelo cientista ao "The Sunday Times." Esta decisão provocou um acalorado conjunto de reacções, a que não escapou a lista britânica de história da ciência, Mersenne. A reacção pode parecer trivial: o Science Museum é uma instituição importante para a história da ciência, principalmente no Reino Unido, e o próprio Watson é, há cerca de meio século, um objecto importante da mesma história da ciência. O que não é trivial, é que a Mersenne nunca foi uma lista de debate, mas sempre uma lista exclusivamente informativa, e por isso com um reduzido débito de mensagens.
As posições manifestadas são muito variadas, tanto as que são contra como as que são a favor do cancelamento. As primeiras incluem os que entendem ser má qualquer medida que contrarie o livre debate de ideias, os que entendem que Watson deveria ter direito a manifestar em pessoa as suas posições, sem estas serem alteradas pelo media, e a sujeitar-se directamente à sua crítica, e ainda os que consideram que o cancelamento promoveu uma desnecessária publicidade para Watson e as suas posições.
Embora concorde que o cancelamento beneficiou precisamente a promoção do livro de Watson, não posso deixar de compreender que o Science Museum não só se quisesse distanciar das suas declarações, como aproveitasse a ocasião para enviar uma mensagem de sinal contrário, principalmente dirigido à juventude inglesa de origem asiática e africana.
As restantes instituições incluídas no périplo do lançamento do livro de Watson, podem legitimamente considerar outras tácticas, como a de promover o protagonismo de pontos de vista contrários. Mas isso não deverá ser feito em nome da defesa da liberdade de expressão e debate de ideias científicas. Principalmente porque, não decorrendo de qualquer investigação séria ou mesmo da sua área de especialidade, as opiniões de Watson sobre a relação entre inteligência e a raça não são opiniões científicas, que as universidades tenham obrigação (pelo menos neste contexto) de debater.
Watson foi sempre muito desbocado no que respeita a considerações pejorativas sobre povos não brancos (ou melhor, não provenientes da Europa do Norte), mulheres, homosexuais, obesos e mesmo ... matemáticos. James Watson tem, como todos nós, direito a seguir e a manifestar o seu senso comum e os seus preconceitos. Ele (e nós) não pode é fazê-los passar por ciência.
Post-scriptum: O lado lusitano do tema
Imagem: J. Watson, com Leonor Beleza, recebido em Belém em Março de 2007.
Será curioso conhecer melhor as posições de James Watson sobre os níveis de inteligência dos indianos, tendo em conta as suas funções na Fundação Champalimaud e o grupo a que pertencem os beneficiários do 2007 António Champalimaud Vision Award.
As posições manifestadas são muito variadas, tanto as que são contra como as que são a favor do cancelamento. As primeiras incluem os que entendem ser má qualquer medida que contrarie o livre debate de ideias, os que entendem que Watson deveria ter direito a manifestar em pessoa as suas posições, sem estas serem alteradas pelo media, e a sujeitar-se directamente à sua crítica, e ainda os que consideram que o cancelamento promoveu uma desnecessária publicidade para Watson e as suas posições.
Embora concorde que o cancelamento beneficiou precisamente a promoção do livro de Watson, não posso deixar de compreender que o Science Museum não só se quisesse distanciar das suas declarações, como aproveitasse a ocasião para enviar uma mensagem de sinal contrário, principalmente dirigido à juventude inglesa de origem asiática e africana.
As restantes instituições incluídas no périplo do lançamento do livro de Watson, podem legitimamente considerar outras tácticas, como a de promover o protagonismo de pontos de vista contrários. Mas isso não deverá ser feito em nome da defesa da liberdade de expressão e debate de ideias científicas. Principalmente porque, não decorrendo de qualquer investigação séria ou mesmo da sua área de especialidade, as opiniões de Watson sobre a relação entre inteligência e a raça não são opiniões científicas, que as universidades tenham obrigação (pelo menos neste contexto) de debater.
Watson foi sempre muito desbocado no que respeita a considerações pejorativas sobre povos não brancos (ou melhor, não provenientes da Europa do Norte), mulheres, homosexuais, obesos e mesmo ... matemáticos. James Watson tem, como todos nós, direito a seguir e a manifestar o seu senso comum e os seus preconceitos. Ele (e nós) não pode é fazê-los passar por ciência.
Post-scriptum: O lado lusitano do temaImagem: J. Watson, com Leonor Beleza, recebido em Belém em Março de 2007.
Será curioso conhecer melhor as posições de James Watson sobre os níveis de inteligência dos indianos, tendo em conta as suas funções na Fundação Champalimaud e o grupo a que pertencem os beneficiários do 2007 António Champalimaud Vision Award.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Redes sociais electrónicas e ensino. II. Mundos virtuais
Uma das mais promissoras entre as ferramentas sociais utilizadas no ensino, consiste na utilização de mundos virtuais. São inúmeras as suas aplicações, desde a possibilidade de leccionar aulas, realizar conferências e reuniões, até à criação de exposições virtuais e mesmo à recriação visual em 3D de edifícios e locais desaparecidos. Alguns destes objectivos podiam, já há algum tempo, ser atingidos por outras vias. A videoconferência, o podcasting e as aplicações gráficas 3D de realidade virtual, não são propriamente novidades. O que é de facto uma novidade é a possibilidade de integrar todos estes recursos através da imersão em grande realismo numa rede de mundos virtuais comunicantes, onde os diferentes intervenientes interagem através do seus avatares. O que era até há pouco, reservado a adolescentes em demanda de fama, glória e aventura em mundos fantásticos (nos jogos MMO, massively multiplayer online), abriu-se agora a todo o tipo de adultos desempenhando papéis muito menos heróicos.Neste capítulo, o mundo virtual Second Life (SL) tem sido a grande estrela. O seu promotor, uma empresa de San Francisco denominada Linden Lab, teve a preocupação de dar grande destaque ao sistema de ensino, criando condições especiais para que universidades, escolas, bibliotecas, museus, institutos e editores científicos, investissem na presença neste mundo, adquirindo terrenos virtuais (ilhas). A resposta conseguida é impressionante. Cerca de uma centena de universidades já se instalaram no Second Life. Existe mesmo um arquipélago, agrupando várias ilhas de instituições científicas (onde se inclui a NASA e a Second Nature Island da Nature), denominado Sci-Lands. Nem as universidades portuguesas escaparam a esta febre. As Universidades de Aveiro e do Porto já adquiriram as suas ilhas. A de Aveiro foi inaugurada no ano lectivo passado, tendo custado cerca de 3 mil euros. A do Porto terá sido mais barata, custando 750 euros, mais uma mensalidade de cerca de 110 euros (cf. "Universidade de Aveiro inaugura ilha no Second Life" e "Universidade do Porto compra ilha no Second Life" no JPn).
O modelo empresarial de Linden Lab baseia-se na venda e aluguer de terrenos virtuais. O acesso dos utilizadores é gratuito, desde que não pretendam ser proprietários de terrenos e edifícios. Neste caso, para além dos próprios custos do imobiliário, é necessário pagar uma mensalidade.Para uma visão global e exaustiva de todas as presenças de ensino pode-se consultar o site Second Life Education Wiki, o recurso oficial de Linden Lab para os educadores no Second Life. Uma breve introdução também se encontra no artigo "Second Life Science. Take a scientific Field Trip to a digital world" de Sarah Everts. São muitos os projectos educativos a ser desenvolvidos no SL. Veja-se Eduserv in Second Life e o Joanna Scott's blog (da Nature), a título de exemplo.
SL é o mais conhecido, mas não o único mundo virtual operacional. Os seus concorrentes mais directos são Active Worlds e There. O primeiro tem igualmente um programa virado para a educação, The Active Worlds Educational Universe (AWEDU), cuja lista de participantes ultrapassa largamente a centena, com uma distribuição internacional muito variada. Embora as condições de participação (e custos) apresentem algumas diferenças, todos estes serviços são privados, fechados e encontram-se em última instância sob o controlo de uma única empresa. Aqui se encontra uma das grandes contradições dos actuais mundos virtuais. SL é frequentemente apresentado como uma extensão 3D da Internet (veja-se, p.e., o You Tube video: Seriously Engaging : The New Media Consortium in Second Life). Contudo, a Internet é um sistema aberto e baseado em tecnologias e standards abertos e não proprietários. A Internet não é possuída por nenhuma empresa. Na Web, qualquer universidade pode instalar o seu próprio servidor e abri-lo para o mundo, mantendo o controlo total sobre ele desde que cumpra os protocolos de comunicação e as regras de funcionamento da Internet. Na SL não podemos criar uma ilha num servidor próprio e fazer o mesmo que faríamos com a Web.
Vencer estas limitações é o objectivo de vários projectos de desenvolvimento de mundos virtuais em open source, como o Open Source Metaverse Project, o The M.U.P.P.E.T.S. Project, e o Croquet Consortium. Dos três, o último projecto, baseado num consórcio de várias universidades, é o que se encontra em fase mais próxima da produção. O Croquet SDK (Software Developer Kit) versão 1.0 já se encontra disponível.
Com base nele perfilam-se vários projectos, como o Arts Metaverse (ver o vídeo Machu Picchu tour), Ancient Spaces (ler artigo na: Educause) e Qwaq (os Qwaq Forums, na imagem à esquerda, são espaços virtuais produzidos por Qwaq, Inc. em cima da plataforma Croquet, próprios para reuniões de empresas).
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