segunda-feira, 21 de maio de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Arbeitintensif

ARBEIT MACHT FREI
Aqui vai uma historia dos meus alunos. Espertíssimos, e quase licenciados.
A meio de uma aula, nem me lembro bem porquê – eles deviam estar com um ar exausto, ou assim -- faço perfidamente uso da frase sinistra Arbeit Macht Frei. Como estou de frente para eles, noto-lhes perfeitamente nas expressões faciais que a frase não surtiu qualquer espécie de efeito para a grande maioria. Formalizo-me logo: Arbeit Macht Frei, meninos! É possível que isto não vos diga nada?
Muitos deles admitem que não.
Eu começo a explicar que é a frase que está escrita por cima do portão de Auschwitz. Que é o cúmulo da crueldade, porque significa “O Trabalho Liberta” e foi posta pelos nazis na antecâmara de um lugar horrível onde as pessoas eram obrigadas a trabalhar como escravas e a sua única libertação possível era a morte na câmara do gaz, logo seguida da queima no crematório. Com a memória ainda fresca da minha própria visita, acrescento que ninguém consegue medir na totalidade a violência do genocídio hitleriano antes de visitar Auschwitz. Vem-me à cabeça que, como professora, tenho deveres pedagógicos sérios, e faço logo ali a seguinte proposta:
-- Pessoal, eu trato de tudo. Arranjo um patrocínio, organizo a viagem à Polónia, e, assim que acabar o ano lectivo, vamos passar uns dias a Cracóvia, que é uma cidade linda com uma super vida nocturna, e nessa altura eu levo-vos a visitar Auschwitz. Querem?
E eles, logo:
-- Ó professora, mas os exames...
Ai eu.

domingo, 29 de abril de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Sem memória não há futuro

É imperdoável qualquer português não saber que data se comemora hoje, porque o esquecimento da história é o fomento da barbárie. Se é verdade que há cada vez mais jovens que desconhecem o 25 de Abril, então é porque alguma coisa no sistema de ensino obrigatório não está a funcionar. Não podemos usar como desculpa o facto de todos esses jovens já terem nascido depois da queda da ditadura, porque a ideia subjacente à civilização não é conhecermos apenas aquilo que acontece durante o nosso tempo de vida. Os jovens sabem o nome do primeiro rei de Portugal, e não é de certeza porque o conheceram pessoalmente. Mesmo que ninguém nos fale delas em casa, estas coisas aprendem-se na escola – entre várias outras razões, também para ajudar a combater as diferenças sociais e equalizar a oportunidades. O 25 de Abril faz parte de todos os manuais escolares, não me lembro bem se do 5º ou do 6º ano. E nem sequer é daquelas temáticas já mesmo do fim do ano, que muitas vezes saltam fora porque não houve tempo para leccionar tudo. E, no entanto, há números impressionantes de portugueses que passam pela escola e saem de lá sem saber o que foi que mudou no país a partir de 1974, e sem perceber que essa mudança foi da maior das importâncias para todos nós? Bolas, re-escrevam os manuais. Revejam os conteúdos e os métodos da história que se ensina aos meninos. Mas não contribuam mais para a disseminação perigosa da ignorância colectiva.

NA CAIXA DO CORREIO: Religião

A FÉ E O MUNDO
Lecciono aos finalistas de Biologia uma cadeira de História do Pensamento Biológico. À medida que os anos passam, dá ideia de que os portugueses são cada vez menos crentes, e ainda menos praticantes: de uma forma que se generaliza gradualmente, os meus alunos desconhecem tanto o Velho como o Novo Testamento. E isto torna particularmente complicado o ensino de qualquer temática de foro histórico, porque a fé cristã fez parte integrante da organização do nosso mundo até à segunda metade do século XIX, complementada pelas tradições judaica e islâmica que nos acompanharam no caminho. Aparentemente, a única forma de colmatar esta lacuna complicada seria regredir à velha obrigatoriedade da frequência de Moral e Religião, onde ao menos se aprendiam uns vislumbres. O problema é que estas aulas são constituídas por proselitismo e não por aprendizagem de factos, o que torna obrigatório manterem-se estritamente opcionais. Mas, se as bases mais elementares da religião que modelou o Ocidente já não se aprendem em casa nem por simples contágio social, a formação dos cidadãos ocidentais nunca estará completa se elas não passarem a ensinar-se na escola, por forma a não acabarmos por perder completamente o Norte quanto tentamos seguir o percurso que nos trouxe até aqui. Talvez criar, pelo menos no secundário, assim como há Filosofia e Introdução à Política, uma cadeira nova que se chamaria qualquer coisa como, simplesmente, Religião – para apresentação de factos,com exclusão rigorosa de comentários? A fé pode já não querer diser grande coisa no nosso mundo, mas o trajecto que esse mundo seguiu depende em grande parte dela, e, sem ela, não se entende com a devida clareza. E continua a querer dizer muito no mundo dos outros, remetendo-nos por analogia para o nosso, como no caso da fé islâmica. Uma cadeira de Velho e Novo Testamento, reformas, contra-reformas, hexegeses que marcaram a Europa, guerras e torturas e perseguições e criações de padrões populacionais ao longo do tempo. Pensem nisso. Eu apenas posso atestar, como docente universitária, que o nosso entendimento do mundo está a ficar cada vez mais deficiente. Agradeço muitos comentários, porque sei que isto não é nada simples.