segunda-feira, 2 de abril de 2007

Curso de Etologia

A Fundação Mona, um centro de recuperação de chimpanzés em Espanha dirigido pela Primatóloga e Médica Veterinária Olga Feliu, onde também se efectua investigação comportamental (não-invasiva, por exemplo na área da lateralidade manual e etologia aplicada) está a dar mini-cursos de introdução à Etologia nas suas instalações. A 1ª edição decorreu no passado mês de Março, contando com a presença de vários estudantes universitários portugueses. As próximas edições serão respectivamente:
2ª Edição - 20 e 21 de Abril
3ª edição - 18 e 19 de Maio

Para mais informações consulte
http://www.fundacionmona.org/final/english/noticies ou contacte o responsável pelo curso, Miquel Llorente em recerca@fundacionmona.org

Jim Cronin

Jim Cronin, co-director e Fundador do Monkey World morreu há pouco mais de uma semana, com 55 anos. È uma grande perda para o universo do Bem-Estar Animal e para os primatas explorados indignamente pelo mundo fora. Jim foi pioneiro no trabalho de resgate e reabilitação de primatas não-humanos na Europa, fundando o primeiro centro de reabilitação de primatas em 1987 – o Monkey World, no Reino Unido – que actualmente geria com a sua esposa Alison. Tudo começou com os chimpanzés usados para mini-espectáculos e fotografias com turistas junto às praias do Sul de Espanha, criados em condições deploráveis e usados como caricaturas humanas: após um complicado processo legal em que o casal britânico Simon e Peggy Templer teve um papel crucial, todos os chimpanzés foram alojados e socializados e passaram a viver com a dignidade e liberdade de verdadeiros chimpanzés. O Monkey World cresceu com muitos outros resgates e contém actualmente 160 primatas, de 16 espécies diferentes, todos retirados ao tráfico ilegal de animais selvagens, muitos deles crias orfâs. Jim e Alison nos últimos anos conduziram campanhas de sensibilização em vários locais do mundo onde se pratica caça furtiva e tráfico de primatas e trabalharam em estreita proximidade com os governos de alguns países africanos e asiáticos para pôr fim a estas práticas. O Monkey World proporciona aos primatas que lá vivem grandes áreas enriquecidas onde podem recuperar o seu comportamento locomotor natural e cuidados especiais de reabilitação e socialização para os indivíduos mais traumatizados e com o comportamento mais perturbado. As imagens deverão ser familiares para muitos, pois foram realizados diversos documentários sobre reabilitação de primatas no Monkey World, documentários esses que já foram exibidos em Portugal.
Existem tão poucos lugares como o Monkey world na Europa e tão poucas pessoas com a determinação de Jim Cronin, que não podíamos deixar de lhe prestar a nossa homenagem e desejar que o projecto do Monkey World continue a crescer. www.monkeyworld.org

domingo, 25 de março de 2007

VER: Cartazes chineses de Saúde Pública

Chinese Public Health Posters. É uma exposição online, que dá uma ideia da colecção de cerca de sete mil documentos chineses de saúde pública do século XX, adquiridos recentemente pela National Library of Medicine (EUA). A colecção é constituída por uma grande variedade de materiais, incluindo cartazes, boletins, jornais, livros, anúncios a medicamentos, calendários, jogos para crianças e fotografias. A exposição foi criada a partir de uma comunicação apresentada em Agosto de 2006 por Liping Bu, intitulada "Public Health and Chinese Society from 1930s to SARS".

Endereço:
http://www.nlm.nih.gov/hmd/chineseposters/index.html

sexta-feira, 23 de março de 2007

AGENDA: Workshop sobre a História dos Mamíferos Marinhos

(Imagem gentilmente cedida pela Escola de Mar)


Neste workshop inédito em Portugal, a ser realizado na zona da Grande Lisboa, a Escola de Mar pretende juntar investigadores e estudantes, a nível internacional, interessados na temática da história dos mamíferos marinhos e da sua ecologia histórica. O objectivo deste projecto é tornar as pessoas mais despertas para as possibilidades desta nova área de pesquisa altamente interdisciplinar. Os mamíferos marinhos e o Homem têm uma longa história de interacções ecológicas e culturais. Mas, para além do enorme interesse das pessoas sobre estes animais, sempre existiu uma série de conflitos na utilização do ambiente marinho. Avaliar estas relações, com todas as suas vertentes históricas, culturais e científicas é a temática central desta iniciativa. As perspectivas históricas e biológicas na mudança das mentalidades e atitudes para com os mamíferos marinhos serão igualmente abordadas e reflectidas.

Esta é uma iniciativa integrada no âmbito das comemorações do Ano do Golfinho. Vai realizar-se no dia 8 de Junho de 2007 - Dia Mundial dos Oceanos - e está aberto a estudantes universitários, biólogos e historiadores mas também ao público em geral.

Mais informações/inscrições em escolademar@gmail.com ou através dos números 966552928 218486742.

quarta-feira, 21 de março de 2007

ORIGINAIS: Fernando Pessoa

O mundo fantástico da blogosfera permitiu-me descobrir sem esforço a versão original integral de um certo poema de Álvaro de Campos que sempre esteve entre as minhas grandes preferências por ser a forma mais eficaz de afastarmos os chatos profissionais e os proselitistas de elevado autismo, ao mesmo tempo que fazemos disretamente notar o valor acrescentado da nossa eudição sobre a deles. Com muito prazer, aqui vai:

LISBOA REVISITADA
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ¬
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul o mesmo da minha infância¬,

Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio, quero estar sozinho!
E ESTÁ TUDO DITO
Homem assombroso, o Pessoa. Não pensem que são só os poemas dos seus heterónimos que podem ajudar-nos a afastar companhias desagradáveis e a acabar conversas insuportáveis. Oferece-vos alguns aforismos dele. Usem-nos todos os dias.

“Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.”
“O Essencial da arte é exprimir;
o que se exprime não interessa.”
“Se alguma vez sou coerente, é apenas como incoerência saída da incoerência.”
“Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?”
“Todos os meus escritos ficaram inacabados; sempre novos pensamentos se interpunham, associações de idéias extraordinárias e inexcluíveis, de término infinito
O Caráter da minha mente é tal que odeio os começos e os fins das coisas, porque são pontos definidos.”
“Que este processo de fazer arte cause estranheza, não admira; o que admira é que haja cousa alguma que não cause estranheza.”
O Caráter da minha mente é tal que odeio os começos e os fins das coisas, porque são pontos definidos.”
“A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras... Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras personalidades.”

Obrigado, Mestre. E, já agora, aproveito para recordar-vos o que tinha ele a dizer sobre a Amizade, tantas vezes a melhor coisa que temos na vida:
“Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.
Escolho-os não pela pele, mas pela pupila,
que tem que ter brilho questionador
e tonalidade inquietante.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo,
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos, nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto,
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou,
pois vendo-os loucos e santos,bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão…”

terça-feira, 20 de março de 2007

ENTREVISTA: João Medina

João Medina
COMO QUEM VIU TUDO

João Medina, 66 anos, Professor Catedrátrico do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nasceu em África e viveu no mundo. Casado há 43 aos, sem filhos, deixou uma miríade de obras publicadas ao longo do caminho. E agora, como uma verdadeira pedrada no charco do marasmo do panorama literário nacional, ofereceu-nos um romance impressionante de lucidez e rigor, Os Náufragos do Mar da Palha, erguido acima de todas as banalidades que se escreveram em 2006 como um monumento de inteligência e bom gosto saído dos dedos dotados de alguém que viu tudo. Este grande académico é, também, um grande escritor. Anima-o a alegria de partilhar ideias difíceis e conhecimentos raros que está por trás de todos os grandes marcos do romance universal. Considera-se a si prório um dissidente, e herdou uma história de família toda marcada pelas dissidência: descende de um clã português deportado para Cabo Verde por D. Miguel, partindo daqui para a vida no mundo numa história tão feita de aventuras e naufrágios como as trágico-marítimas.

A casa de João Medina no Monte Estoril está aninhada num nono andar com uma vista inesgotável para cima do mar. Os livros dominam o interior, e onde se afastam do caminho revelam áreas de convívio ou de trabalho onde apetece demorar a passagem. Mesmo sem perguntarmos, sabemos que tudo tem uma história própria que o proprietário acarinha. O sol entra a jorros pelas janelas, e ele não pára de me trazer chávenas café da cozinha: cheguei aqui em bastante mau estado, depois de uma longa noite em directa, e esta paz sabe-me pela vida. Quis falar da apatia e do alheamento do povo português em relação à história, diz ele.

Como é que podes chamar apático ao povo que fez as Descobertas?

E as Descobertas serviram para quê? O império colonial não era útil, não era rentável, do ponto de vista conómico não servia para nada.

Mas era empolgante.

Eu vejo-nos mais como uma nação falhada. Fez-se aquele império sem existir um projecto colectivo de desenvolvimento.

Faltaram contribuições importantes?

Estás a referir-te aos judeus? Mas nós fomos mais longe que isso. Não expulsámos só os judeus. Constituímos uma sociedade talibã à portuguesa que levou à expulsão de outros grupos, como os liberais ou os protestantes. Quem ficou instalou-se num tal conformismo que aceitou as situações mais aberrantes.

Foi mesmo a expansão arítima que causou tudo isso?

Antes da expansão marítima, temos um projecto colectivo em que está envolvida toda a população: atingimos o auge de lusitanidade que está tão bem representado nos paineis de Nuno Gonçalves, com o povo, o clero, a nobreza, e diz-se que até um rabino. Existia uma pluralidade que implicava todos os extractos da sociedade.

Essa pluralidade desapareceu com o império?

O império foi a nossa grande faina histórica, mas nem sempre correu bem e teve um preço pesado. A nossa última tentativa imperial, depois do fracasso da Ásia e do Brasil, foi o Portugal Africano, na sequência do triunfo liberal. Mas os homens como o naturalista Bocage conduziram à tragédia do mapa cor de rosa, um dos maiores desastres da nossa política colonial. Resta-nos o mito do terceiro império, acarinhado pelo governo, que perdura até ao 25 de Abril. Só nessa altura é que se fecham as portas do império, e voltamos a ser quem somos.

E quem somos, afinal?

Somos europeus. Mas parece que a Europa não chegou aqui. Nunca fomos bons alunos europeus. Somos marginais em relação à Europa. Não temos a consciência europeia que nos tornaria prósperos.

Que consciência é essa?

A União Europeia foi criada pelos seis países mais ricos da Europa, e, originalmente, destinava-se a ser um clube de ricos, onde se juntavam os países de grande sucesso económico. Nós entrámos para um clude desses com a ideia de ser um país evoluído, mas o sonho europeu português falhou. Só não estamos mesmo na cauda por causa da Roménia e da Bulgária, mas eles vão ultrapassar-nos.

Como é que defines essa situação?

É amargurante. Como historiador e romancista, creio que estamos perante um facto dramático: não temos a grande cultura europeia, que chegou a prosperar entre nós nos séculos XV e XVI mas logo a seguir foi prevertida pela inquisição. Não aproveitámos as oportunidades que a Europa nos deu. Somos uma espécie de Mónaco, mas para muito menor. Dado o estado de total debilidade económica em que nos encontramos, estamos verdadeiramente na periferia da construção da Europa comunitária sonhada por Jean Monet.

A ouvir-te falar, parece que a expulsão dos Judeus no século XV contribuiu decisivamente para esse estado de coisas moderno.

A primeira sinagoga do Novo Mundo, o Rochedo de Israel, no Recife, foi criada durante a ocupação holandesa por judeus portugueses – uns assumidos e perseguidos, e outros refugiados na Holanda. Isto foi em 1638. Em 1654 partiram para Nova Iorque, então Nova Amsterdão, onde criaram as primeiras comunidades sefarditas, e primeira sinagoga de Nova Inglaterra, e depois, no século XVIII, também criaram uma em Curaçao. Estamos a falar de pessoas extremamente empreendedoras.

Mas as Descobertas correram mal também por outras razões.

É uma história exemplar de má visão: a construção do império português foi sempre feita por via estatal, enquanto que a Holanda fez companhias por acções, que em alguns sítios continuam a funcionar. Essas companhias, aliás, tinham um forte capital de judeus portugueses. A lei que permitiu o estabelecimento desse capital judeu nunca foi feita em Portugal. Aqui, como o império era monopólio do Estado, e como tínhamos uma religião única que ia de par com o Estado, com uma polícia política e um tribunal persecutório que era a Igreja, isso tornava a Igreja completamente monopolista e anti-tolerante, em contraste total com o que se passava na Holanda. Repara, só quando os holandeses libertaram a região de Pernambuco é que se fizeram lá sinagogas. Mas esses judeus eram portugueses, mais portugueses que o Viriato, que nunca foi português na vida: foi um chefe celta que se levantou contra os romanos, e quem nos deu a língua que usamos foi Roma. Quem nos deixou a Lusitânia também foram os romanos. Basicamente, Viriato é um inimigo dos nossos pais.

Bem, mas a partir de 1821 os judeus puderam voltar a Portugal.

E o status-quo mudou por causa disso? Mantivemos sempre um Estado emparelhado com a Igreja. Nem os ingleses, em que o rei é por inerência o chefe da Igreja anglicana, fizeram isto. A Igreja anglicana inglesa não era um dos pilares do império britânico.

Não estás a subestimar um dos aspectos mais positivos do império português, que foi a grande miscigenação racial a que deu origem, essa sim, amplamente acarinhada pela Igreja?

São desculpas de um país pouco habitado.

Mas o Afonso de Albuquerque, na qualidade de primeiro vice-rei da Índia, fez passar uma lei sobre a prioridade dos casamentos mistos...

Pois com certeza, eles não levavam mulheres!

Queres tu dizer, prostitutas e criminosas, como os holandeses e os ingleses?

Não eram mulheres?

Então estás a dizer-me que a miscigenação portuguesa não é uma maravilhosa manifestação da nossa alma profunda?

Isso é um mito. Ouve lá. O Salazar, quando já a Europa inteira nos criticava por ainda termos um império colonial, foi buscar um brasileiro chamado Gilberto Freire, que achou que nós tínhamos inventado uma grande tolerância sexual, política e religiosa que seria o luso-tropicalismo. Claro que isto caiu como música celestial nos ouvidos do império. Mas é conversa, como é evidente.

Mas quando o Gilberto Freire fala do nosso entrosamento ecológico com o mundo que descobrimos, o encontro entre a razão e a natureza, não tem nem um bocadinho de razão?

Claro que não. Para haver encontro com a natureza era preciso que os portugueses tivessem explorado a selva, e nós limitámo-nos a andar de lado, como o caranguejo, sempre ao longo da costa. Entrámos muito pouco na selva. Toda a conversa piedosa da miscegenação é um bluff completo. Estou a basear-me em experiência própria. Visitei populações em Moçambique que nunca tinham ouvido falar português. A construção de um império multicultural de grande tolerância nas relações humanas é um bluff, que aliás foi desde logo denunciado como tal pelos dirigentes africanos, como o Amílcar Cabral.

E na vida quotidiana nas ex-colónias? Também não havia miscigenação?

Os assimilados foram sempre uma minoria. No liceu, eu tinha um colega indiano e um colega negro. E disse. Em termos económicos e sociais não havia mistura. Os negros não eram reconhecidos enquanto grupo social de pleno direito. A disseminação dessas ideias foi uma impostura política e económica descarada e bem calculada. Nunca houve uma sociedade permeável. Em Moçambique os europeus eram muito influenciados pelas políticas racistas da África do Sul, as classes dominantes eram extremamente ricas, e o racismo quotidiano era muito evidente.

Eu era miúda e lembro-me de Lisboa estar cheia de outdoors a dizer “Moçambique: Praias de Sol, Praias de Sonho”. A foto mostrava um grupo de pretos e brancos em amena confraternização. Estávamos a ser enganados?

Pois claro. Olha, eu ia à praia do Polana, que é muito pequenina e está toda fechada por redes por causa dos tubarões. E nunca, mas nunca me lembro de ter visto famílias negras a tomarem banho ao lado dos brancos, que se refugiavam num clube muito selecto.

Mas não podíamos ser tão pouco tolerantes do ponto de vista regioso como isso. Por exemplo, antes do Terramoto Lisboa etava cheia de protestantes ingleses que negociavam no ouro do Brasil. Até se disse que Deus tinha mandado aquele desastre para protestar contra a presença em Portugal de tantos protestantes...

Uma coisa é um comerciante que vem cá negociar, outra coisa é ser cidadão português. A constituição liberal de 1826, que se manteve válida atá ao 1910, dizia logo no primeiro artigo que a religião do país era católica e que os outros cultos só podiam ser mantidos privadamente. Podiam construir-se sinagogas e templos, mas só virados para dentro e murados. Só os católicos é que podiam ter igrejas grandes. No século XX, a sinagoga da Alexandre Herculano abriu as portas para a rua – mas atenção, atrás de um muro.

Ok, mas fazemos coisas bem feitas. Fizemos o 25 de Abril, por exemplo.

Essa revolução foi uma pseudo-revolução. Tanta gente com medo da tomada do poder pelo proletariado quando o proletariado não estava obviamente interessado em tomar o poder, tanto namoro com o modelo estalinista, tanto tempo perdido até se aceitar um modelo do tipo pluralista, e claro que tudo isto atrasou a nossa recondução à Europa democrática. Quando finalmente entramos na Europa e estão criadas as condições para se iniciar um verdadeiro desenvolvimento, estagna-se.

Ai, João. Portugal não tem nada de bom?

Tem a vista da minha janela. Portugal é um país defeituoso, cheio de arcaismos difíceis de superar porque somos um país inerte, sem nada de europeu, sem cultura europeia, sem desenvolvimento sustentável e coerente em termos do modelo económico que a Europa devia constituir. Estamos atrasados em relação ao que podíamos ter feito e seguramente reduzidos à lanterna vermelha dos 27 países europeus.

E o que vês na Universidade? Não te anima?

Temos uma Universidade anquilosada, tanto nas Humanidades como nas Ciências, que está muito longe do que eu vi nos Estados Unidos, em Itália, e na Alemanha. E no Brasil, também. Há uma grande degradação da cultura geral dos alunos. Há um desinteresse completo pelos instrumentos científicos e culturais do nosso tempo. Os meus alunos não sabem quem é o Stravinsky, não sabem quem é o Darwin, nunca encontro um tipo que tenha lido o Max Weber ou pelo menos As Farpas do Raul Brandão. A incultura tem vindo a crescer em Portugal, e isso ainda é mais grave quando se sente no campo universitário.

Bom, mas, pensando bem, o canibalismo tem vindo a diminuir. És um pessimista profissional?

Sou um dissidente e um heterodoxo, e gosto destas palavras porque a geração de 70 também foi clasificada assim. Faz-me pensar nos russos que tanta importancia tiveram no desmoronamento da horrível ditadura estalisnista. Sendo membro de uma família marrana, tive uma carreira muito pouco habitual: nasci em África, passei a infância em Joabesburgo, fui para Direito, em Direito descobri a democracia e militei na campanha do Humberto Delgado, vim para Lisboa estudar Filosofia com uma tese sobre o Holocausto e participei nas Greves estudantis de 1962. Fui aliciado várias vezes para entrar para o PCP, mas resisti. Sou um independente, sempre fui.

Até disseste que o Salazar não era fascista...

Nem tinha formação para isso. O Salazar foi um fruto provinciano e bacoco da I República, que durou de 1910 a 1926 e, em dezasseis anos, teve 47 governos. Foi esta instabilidade terrível, este caos absoluto, que permitiram ao Salazar fazer um percurso que ele nunca teria conseguido fazer de outra forma, e impor-nos o Estado Novo durante 48 anos. Mas também sou independente na maneira como estudo história. Interessam-me os símbolos, as representações psicológicas, os aleijões espirituais como o anti-semitismo, as referências populares como o Zé Povinho. Dei a minha aula das provas de agregação sobre o manguito. O que é que achas?

sexta-feira, 16 de março de 2007

FERRAMENTAS: Teste de cultura geral histórica

Todos somos frequentemente surpreendidos com faltas de cultura geral dos nossos alunos, que, se detectadas e corrigidas a tempo, poderão ajudá-los a melhorar o seu nível de aproveitamento, e poupar-nos a nós surpresas que oscilam entre o hilariante e o desesperante na correcção dos exames. Para alertar os meus alunos de História do Pensamento Biológico para o espectro de conhecimentos gerais que eu assumo que eles têm quando dou as aulas, este ano preparei-lhes um teste de cultura geral histórica para distribuir no primeiro período lectivo, e me servir depois a mim como referência sobre quem é que precisa de ser mais puxado, e em quê. Talvez seja de alguma utilidade para outros docentes de História da Ciência.

TESTE DE CULTURA GERAL HISTÓRICA

As perguntas de cultura geral que se seguem deverão ser de resposta conhecida desde o tempo da escolaridade obrigatória, e o desconhecimento das respostas pode prejudicar seriamente o aproveitamento dos alunos numa disciplina de História da Ciência. Responda ao questionário seguinte para verificar como está a sua preparação para as aulas que se seguem, e verifique qual é o seu nível, sendo que cada resposta certa vale 1 valor numa escala de 0 a 20. Depois de devolver o teste, consulte atentamente a chave que lhe será entregue, por forma a organizar melhor as suas ideias e saber onde carece de melhor informação, que deverá procurar por sua própria iniciativa.

1 – Alinhe as seguintes revoluções por ordem cronológica:

Revolução Francesa
Revolução Científica
Revolução Americana
Revolução Newtoniana


2 – A Condessa Du Barry, amante do rei de França Louis XV e figura espampanante da corte de Versailles, costumava dirigir-se ao monarca nos seguintes termos:

“L’état, c’est moi”
“Après moi le déluge”
“La France, je t’aime”
“Le travail n’épouvante que les âmes faibles”

3 – Estabeleça as correspondências correctas entre datas e países para os seguintes compositores:

Ludwig van Beethoven 1810 – 1849 Alemanha
Wolfgang Amadeus Mozart 1770 – 1827 França
Fréderic Chopin 1756 – 1791 Áustria

4 – Atribua as expressões seguintes aos autores correspondentes:

“Só sei que nada sei” Galileu
“Cogito ergo sum” Sócrates
“Eppur si muove” Descartes
“Arbeit mei Frei” Himmler

5 – Qual das seguintes Madres levitava:

Madre Teresa de Calcutá
Madre Teresa de Ávila
Madre Teresinha de Lisieux

6 – Ao saber que os camponeses de França protestavam por não terem pão, Maria Antonieta terá dito:

“O pão não cai do céu”
“Eles que comam croissants”
“Bem aventurados os pobres”
“Vamos pedir auxílio aos nossos aliados americanos”

7 – A frase “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus” foi proferida por:

Jesus
Lénine
Che Guevara
Mao Zedong
Gandhi
Oráculo de Delfos

8 – Organize por ordem cronológica os seguintes blocos históricos do Ocidente:

Período Pré-Socrático
Renascença
Iluminismo
Alta Idade Média
Revolução Científica
Romantismo
Baixa Idade Média
Período Contemporâneo
Queda do Império Romano
Início das Descobertas
Período Moderno
Antiguidade Clássica

9 – O século XIX ficou marcado por três grandes pensadores que modificaram radicalmente as ideias ocidentais. Identifique a sequência correcta:

Darwin, Marx e Freud
Freud, Newton e Darwin
Marx, Engels e Lenine
Darwin, Mendel e Sutton
Von Baer, Marx e Heackel

10 – Quais destes escritores acabaram voluntariamente com a sua própria existência?

Camilo Castelo Branco
Antero de Quental
Feliciano de Castilho
Soares de Passos
Cesário Verde
Eça de Queirós
Júlio Dinis

11 – Um destes personagens históricos não viveu em Cuba. Identifique-o, e estabeleça a relação correcta com a sua actividade:

Diego Maradona – Escritor
Frida Khalo – Revolucionária
Che Guevara – Pintor
Ernest Hemingway – Jogador de Futebol

12 – Uma destas passagens da Bíblia não pertence ao Livro do Génesis. Identifique-a:

“ Ao princípio o mundo estava mergulhado nas trevas e o espírito de Deus vogava sobre as águas”
“ E Sansão matou todos os Filisteus, porque essa era a vontade do Senhor Deus”
“Onan desperdiçou a semente, e nisso contrariou a vontade do Senhor Deus”
“E o Senhor Deus pôs um querubim com uma espada flamejante a guardar a entrada”

13 – A expulsão dos Judeus de Portugal foi determinada por qual rei português, durante o domínio de quais reis de Espanha:
D. João II – Isabel a Católica
D. Dinis – Afonso IV de Castela
D. Manuel – Filipe II
D. João I – Reis Caólicos
D. Afonso Henriques – D. Afonso de Borgonha

18 – A Inquisição funcionou em Portugal durante o seguinte período histórico:
Séculos XV – XVII
Séculos XII – XIX
Séculos XVI – XVIII
Séculos XIII – XX

19 – Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte, por iniciativa do político Barjona de Freitas. Esta legislação foi aprovada:
No princípio do século XIX
No final do século XIX
No século XVII
No século XX
Na sequência do triunfo dos liberais sobre os absolutistas

20 – Consta do folclore luso-brasileiro que uma destas rainhas, de aparência digna e dedicada, era na realidade extremamente devassa e mantinha frequentes relações sexuais com negros. Trata-se de:
Rainha Jinga
Rainha Carlota Joaquina
Rainha Santa Isabel
Rainha do Sabá
Rainha dos Acadêmicos do Grande Rio


CHAVE DO TESTE DE CULTURAL GERAL HISTÓRICA

1 – Alinhe as seguintes revoluções por ordem cronológica

Revolução Científica
Revolução Newtoniana
Revolução Americana
Revolução Francesa

2 – A Condessa Du Barry, amante do rei de França Louis XV e figura espampanante da corte de Versailles, costumava dirigir-se ao monarca nos seguintes termos:

“La France, je t’aime”

3 – Estabeleça as correspondências correctas entre datas e países para os seguintes compositores:

Ludwig van Beethoven 1770 – 1827 Alemanha
Wolfgang Amadeus Mozart 1756 – 1791 Áustria Fréderic Chopin 1810 – 1849 França


4 – Atribua as expressões seguintes aos autores correspondentes:

“Só sei que nada sei” Sócrates
“Cogito ergo sum” Descartes
“Eppur si muove” Galileu
“Arbeit meit Frei” Himmler

5 – Qual das seguintes Madres Teresa levitava:

Madre Teresa de Ávila

6 – Ao saber que os camponeses de França protestavam por não terem pão, Maria Antonieta terá dito:

“Eles que comam croissants”

7 – A frase “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus” foi proferida por:

Jesus


8 – Organize por ordem cronológica os seguintes blocos históricos do Ocidente:

Período Pré-Socrático
Antiguidade Clássica
Queda do Império Romano
Alta Idade Média
Baixa Idade Média
Início das Descobertas
Renascença
Revolução Científica
Iluminismo
Romantismo
Período Moderno
Período Contemporâneo

9 – O século XIX ficou marcado por três grandes pensadores que modificaram radicalmente as ideias ocidentais. Identifique a sequência correcta:

Darwin, Marx e Freud

10 – Quais destes escritores acabaram voluntariamente com a sua própria existência?

Camilo Castelo Branco
Antero de Quental


11 – Um destes personagens históricos não viveu em Cuba. Identifique-o, e estabeleça a relação correcta com a sua actividade:

Frida Khalo – Pintora

12 – Uma destas passagens da Bíblia não pertence ao Primeiro Livro, intitulado Génesis. Identifique-a:

“E Sansão matou todos os Filisteus, porque essa era a vontade do Senhor Deus”

13 – A expulsão dos Judeus de Portugal foi determinada por qual rei português, durante o domínio de quais reis de Espanha:

D. Manuel – Reis Católicos


18 – A Inquisição funcionou em Portugal durante o seguinte período histórico:
Séculos XV – XVII


19 – Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte, por iniciativa do político Barjona de Freitas. Esta legislação foi aprovada:

No final do século XIX


20 – Consta do folclore luso-brasileiro que uma destas rainhas, de aparência digna e dedicada, era na realidade extremamente devassa e mantinha frequentes relações sexuais com negros. Trata-se de:

Rainha Carlota Joaquina

quinta-feira, 15 de março de 2007

LER: De Rerum Natura

De Rerum Natura é um novo blog dedicado às coisas da ciência e da sua compreensão.

Iniciou a sua actividade em 7 de Março de 2007 e conta com a colaboração de Carlos Fiolhais (físico), Desidério Murcho (filósofo), Helena Damião (pedagoga), Jorge Buescu (matemático), Palmira F. Silva (química), Paulo Gama Mota e Sofia Araújo (biólogos).

De acordo com o seu manifesto, o blog falará:

"de várias coisas do mundo, procurando expor a sua natureza. Partirá da realidade do mundo (o nosso mundo, feito de átomos e espaço vazio) para discutir o empreendimento humano da descoberta do mundo, que é a ciência, e as profundas implicações que essa descoberta tem para a nossa vida no mundo. Mostrará o que é a ciência (história e filosofia da ciência, cultura científica, aplicações da ciência, riscos, educação científica, arte e ciência, etc.).
Enfrentará a anti-ciência nas suas várias formas, sejam elas fraude, demagogia, pseudo-ciência, superstição ou simples erro. Falará em particular do caso português e da nossa necessidade de mais e melhor ciência para sermos um país mais culto, mais desenvolvido e mais livre."

O De Rerum Natura pode ser encontrado em

http://dererummundi.blogspot.com/

Viridarium dá-lhes as boas vindas e deseja-lhes a maiores felicidades.

quarta-feira, 14 de março de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Museu aberto

Esta última edição do Moda Lisboa, concluída no Domingo sob um sol radioso que enchia a rua de antecipações risonhas da Primavera, teve lugar no Museu de História Natural. Para mim era particularmente comovente, porque aquele edifício da Escola Politécnica foi onde eu fiz o curso de Biologia, alguns dos stands estavam montados onde dantes ficavam os gabinetes de professores muito temidos ou os expositores do material para as práticas de Zoologia I; e, num golpe de aproveitamento do ambiente absolutamente genial, todos os funcionários da festa estavam vestidos de batas brancas, as mesmas que o pessoal do meu tempo usava.
A organização lembrou-se de outros toques cénicos muito bem esgalhados: a sala VIP tinha armários de fósseis a decorar o fundo, as lâmpadas peduradas do tecto recuperavam o design da iluminação antiga, as tabuletas e setas do Museu estavam estategicamente destacadas do conjunto, pena foi que não se explorasse mais este filão e não se desse mais relevo à diversidade e ao colorido das colecções que lá estão dentro. A ideia geral não podia ser mais produtiva, e os responsáveis pelo Museu estão de parabéns: entrou nas suas instalações a Comunicação Social em peso e uma multidão de gente que talvez por outras razões nunca lá fosse, deu-se a ver a todo o país a beleza e profusão de materiais que caracterizam o espaço, recordou-se aos visitantes que a História Natural é um mundo que nos enriquece quando o conhecemos melhor – e, sobretudo, deu-se uma machadada no conceito desagradável de que o que é das Universidades está vedado às pessoas normais. Foi bom.

AGENDA: Darwinismo e criacionismo

Colóquio
Darwinismo versus Criacionismo. Onde começa e onde acaba uma teoria científica?

21 de Março de 2007, das 14h às 20h
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Campo Grande, Edifício C6, 1º piso, Anfiteatro 36 (6.1.36)

Programa completo em
http://cfcul.fc.ul.pt/coloquios/coloquio_criacionismo.htm

Participações confirmadas:
  • António Bracinha Vieira (UNL / CFCUL)
  • Carlos Almaça (FCUL/DBA/CBA)
  • Deodália Dias (SPCN)
  • Felix Costa (IST/CFCUL)
  • Francisco Carrapiço (FCUL/ DBV/CBA)
  • Helena Abreu (E. Sec. Raínha D. Leonor/CFCUL)
  • Jónatas Machado
  • Luís Archer (FCT/UNL)
  • Luís Vicente (FCUL/DBA/CBA)
  • Mário Cachão (FCUL/Dep. Geologia)
  • Nuno Nabais (FLUL / CFCUL)
  • Olga Pombo (FCUL / CFCUL)
  • Olga Rita (Esc. Sec. Sá da Bandeira)
  • Paulo Crawford (FCUL/ CAAUL / BCFCUL)
  • Paula Serra (Representante do M.Ed/DGIDC)
  • Octávio Mateus (FCT/UNL/Museu da Lourinhã)
  • Moderador: Eduardo Crespo (FCUL/DBA/CBA)
Organização Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, em colaboração com Centro de Biologia Ambiental (CBA), Sociedade Portuguesa de Ciências da Natureza (SPCN), Biblioteca Central da FCUL e Livraria Escolar Editora.

sexta-feira, 9 de março de 2007

AGENDA: Curso de Alemão para a História das Ciências











O curso destina-se a estudantes, professores, funcionários não docentes e público em geral e visa desenvolver a competência de leitura de textos científicos e atingir aí, na Lesekompetenz, o nível B1/limiar B2 do QCER (Quadro Comum Europeu de Referência), ou seja, "leitura de artigos/relatos em que os autores defendem determinadas atitudes ou pontos de vista".

Professores
Ruth Huber (Faculdade de Letras de Lisboa)
Ricardo Lopes Coelho (Faculdade de Ciências de Lisboa)

Programa
O curso iniciará com o diploma de Einstein: 'professor do ensino secundário na área da matemática', cadeiras e notas. Percorrer-se-ão artigos famosos do autor publicados entre 1905 e 1915. Em função deles abordar-se-ão outros clássicos da ciência da língua alemã. De 1907 é a expressão 'equivalência entre matéria e energia'. Aproveita-se para se falar da energia. Serão lidas passagens significativas de textos de Robert Mayer e Hermann von Helmholtz. Como eram médicos de profissão, os textos permitem contactar a terminologia das ciências da vida e da saúde. De 1907 é o "pensamento mais feliz da minha vida", segundo o próprio Einstein. Vão-se ler textos relativos ao desenvolvimento da ideia, como a experiência conceptual da cabine fechada, que surge nos manuais e em obras de divulgação. Finalmente, será fornecido um elemento curioso, mas vulgar em História da Ciência, uma página manuscrita dum texto não publicado de Schrödinger, sobre a relatividade de Einstein e a mecânica de Hertz.

Local e horários
As sessões decorrerão na Faculdade de Ciências de Lisboa, edifício C1, sala 1.5.10.
Às terças e quintas, das 18h às 20h.

Contactos
Prof. Ricardo Coelho, rlc@fc.ul.pt

quarta-feira, 7 de março de 2007

AGENDA: Segundo Encontro de História das Ciências Naturais e da Saúde


A Comissão Executiva do Segundo Encontro de História das Ciências Naturais e da Saúde decidiu prolongar o prazo para a aceitação de resumos até ao dia 19 de Março p.f.

2.º Encontro de História das Ciências Naturais e da Saúde.
Lisboa, Culturgest. 7-8 de Julho de 2007.
Secção Hist. Fil. Ciên. IRC.
Página: http://www.ircabral.org/conferencias/index.php?cf=1

Organização: Secção de História e Filosofia das Ciências do Instituto Rocha Cabral
Prazo limite para resumos: 19 de Março de 2007
Prazo limite para textos integrais (facultativos): 1 de Julho de 2007

Este encontro, que utiliza o Open Conference Systems, permite aos participantes submeter os resumos/abstracts online em:

http://www.ircabral.org/conferencias/submit.php?cf=1

PROGRAMA

DIA 7

9.30 - 10.30 - Inscrições, logística e distribuição de materiais do Encontro

10.15 - 10.30
Palavras de boas-vindas pelo representante da Culturgest. Miguel Lobo Antunes.

10.30 - 13.30
Sessão Plenária: "Os olhares da História"
Ana Maria Rodrigues (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Science and magic in Petrus Hispanus' Thesaurus Pauperum.
Fátima Nunes (Universidade de Évora)
Laboratório(s) de História e de Cultura(s) nas vi(r)agens europeias de 1800 a 1900: olhares, realidades, imagens.
Moderação e Considerações Introdutórias: Augusto Fitas (Universidade de Évora)
11.45 - 12.15
Intervalo para café

15.30 - 19.30
Sessão Plenária: "Saúde e Sociedade"
Enrique Perdiguero (Universidade Miguel Hernández - Alicante)
La historiografía del pluralismo asistencial: la lucha contra la enfermedad en todos sus ámbitos.
José Pedro Sousa Dias (Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa)
As redes de investigadores nas ciências biomédicas em Portugal na primeira metade do século XX.
Laura Ferreira dos Santos (Universidade do Minho)
Quando não se morre como nas óperas de Verdi: reflexões historico-filosóficas sobre a eutanásia e o suicídio assistido.
Moderação e Considerações Introdutórias: José David-Ferreira (Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)
17.00 - 17.30
Intervalo para café

21.00
Concerto
Programa a aunciar.
(Auditório ao ar livre da Culturgest)
Inscrições no Secretariado.

Dia 8

9.30 - 10.30 - Logística e distribuição de materiais

10.30 - 13.30 Comunicações orais e posters.
11.45 - 12.15
Intervalo para café

15.30 - 19.30
Sessão Plenária: "Ontogenia e Filogenia"
Isabel Delgado Eschevarria (Universidade de Zaragoça)
Entre microscopios e insectos, cuando la citología dio (a) luz a la genética cromosómica.
Teresa Avelar (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias)
Gradualismo e saltacionismo: afinal de que é que estamos a falar?
Clara Pinto Correia (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias)
A eugenia das Luzes e as motivações de Vandermonde.
Moderação e Considerações Introdutórias: Luís Vicente (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa)
17.00 - 17.30
Intervalo para café.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Quarta feira de cinzas

QUARTA FEIRA DE CINZAS
Quarenta dias antes da Páscoa sem contar os domingos ( que não são incluídos na Quaresma), e quarenta e quatro dias antes da Sexta-feira Santa contando os domingos: a quarta-feira de cinzas, que celebramos hoje, é o primeiro dia da Quaresma no calendário cristão ocidental. As cinzas que os católicos recebem neste dia são o símbolo para a reflexão sobre o dever da conversão, da mudança de vida, e a recordação da passageira, da transitória, da efémera fragilidade da vida humana, sujeita à morte. E é exactamente neste dia que deveríamos, com grande orgulho em sermos portugueses, observar um minuto de silêncio em memória do injustamento esquecido Barjona de Freitas, 1834-1900.
Augusto César Barjona de Freitas, sem dúvida um dos maiores portugueses de sempre, foi um jurista e político ligado à esquerda do Partido Regenerador. Foi deputado, Par do Reino, e ministro. E, graças ao seu trabalho incessante nesse sentido e aos seus dotes oratórios impressionantes, conseguiu elevar-nos à quintessência da civilização corporizada no facto incontornável de Portugal ter sido o primeiro país do Mundo a abolir a pena de morte. Isto sim, é respeitar a passageira, transitória e efémera fragilidade da vida humana. Neste momento sim, fomos o país mais educado e culto do planeta. Às vezes, um de nós torna-nos sublimes. A seguir esquecemo-lo? Somos excepcioais nessa manobra.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

FERRAMENTAS: Zotero - a próxima geração

Longe vai o tempo em que a vantagem de um documento electrónico face à sua versão em papel se resumia à maior acessibilidade e facilidade de difusão. Hoje, multiplicam-se as possibilidades de proceder à recuperação e processamento automático da informação através da adequada anotação semântica dos textos em suporte electrónico. Deixou de ser inevitável a separação entre os objectos documentais e a sua descrição bibliográfica, que reflectia a tradicional separação entre as estantes e os catálogos de livros. Hoje a base de dados bibliográfica tanto pode estar separada como contida nos próprios documentos.

Os programas tradicionais de gestão de bibliografias resultam de um modelo do passado. Primeiro, foram criados para substituir as fichas em cartolina e permitir o processamento automático da informação nelas contida. Depois, alargaram a sua esfera de acção à recuperação de informação electrónica dos catálogos de bibliotecas e das bases de dados. Contudo, mostraram sempre pouca capacidade para lidar com os documentos electrónicos que não tinham uma versão equivalente em papel.

Zotero - A "ferramenta de pesquisa da próxima geração".


Zotero vem precisamente brilhar onde estes programas falham. Ele é simultaneamente um programa de gestão de bibliografias e de notas de leitura, algo que não é tão frequente como seria de esperar no panorama geral desta categoria de software. Mas não se limita a manter uma base de dados: integra directamente e automatiza a sua recolha com a própria consulta online de bases de dados, de catálogos e dos próprios documentos, a partir do browser de navegação na Internet. A informação armazenada pode ser organizada em colecções (com uma estrutura arborescente), classificada com tags, ligada interna e externamente com documentos em vários formatos (pdf, html, etc.), armazenados localmente ou com páginas na web. O conteúdo de páginas inteiras pode ser igualmente armazenado pelo Zotero.

A partir da mesma informação podem ser produzidas bibliografias, com as referências formatadas em vários estilos (APA, Chicago e MLA), e relatórios contendo as referências bibliográficas juntamente com o conteúdo das notas a elas ligadas. Na realidade, o Zotero funciona on e off line como um gestor de bibliografias e notas, permitindo a importação e a exportação de informação bibliográfica em vários formatos (MODS, BibTeX, MARC, RDF, RIS e outros).

A ergonomia do programa é apreciável. O Zotero pode ser chamado a qualquer momento, clicando numa etiqueta existente na barra de estado do browser. Mas para gravar a informação bibliográfica nem isso é necessário. Basta clicar num ícone, frequentemente com a representação de um livro, que surge automaticamente na barra de navegação, sempre que a página contém anotações com informação bibliográfica. Diferentes ícones indicam a presença de distintos tipos de informação e só aparecem quando esta existe. Se a página contiver informação respeitante a mais de uma fonte, é dada a opção de escolher qual ou quais o utilizador pretende gravar. A dimensão ocupada na janela pelas diferentes secções do Zotero pode ser livremente reajustada. Existe mesmo um modo de tela inteira que facilita o trabalho com o programa quando não é necessária a navegação com o browser.

Página: Zotero - The next-generation research tool

Zotero foi desenvolvido por uma equipa de investigadores ligados a um centro de história digital, o Center for History and New Media da George Mason University: Daniel J. Cohen, Josh Greenberg, Dan Stillman, Simon Kornblith e David Norton e Roy Rosenzweig. Sobre este Centro, já aqui falámos a 24 de Maio de 2005 a propósito do Echo - Exploring and Collecting History Online e do software Scribe. Daniel Cohen e Roy Rosenzweig são os autores de Digital History: A Guide to Gathering, Preserving, and Presenting the Past on the Web. University of Pennsylvania Press, 2005.

Uma extensão do Firefox

Zotero é uma extensão do browser Mozilla Firefox e como este é software livre e open source. É naturalmente multi-plataforma, correndo em Windows, Linux, e Mac OS X, como o próprio Firefox. Quem pretender utilizá-lo terá que instalar ou actualizar o Firefox para a versão 2, o que pode ser feito de forma livre e gratuita no endereço:

http://en-us.www.mozilla.com/en-US/firefox/all.html

O Mozilla Firefox é actualmente o navegador de eleição para o trabalho académico na Web. O Zotero é uma das muitas extensões disponíveis para a investigação. Outra das nossas favoritas é o ScrapBook, de que trataremos numa próxima postagem.

Criar páginas que falem zotero

O número de locais compatíveis e serviços que já comunicam com o Zotero é impressionante. Incluem bases de dados (como a PubMed), bibliotecas, repositórios (como o arXiv.org), harvesters (como o Google Books e o Google Scholar), editores e distribuidores de publicações electrónicas (como o JSTOR) e mesmo serviços de venda de livros (como a Amazon.com).

Para além do desenvolvimento do próprio Zotero, a equipa do CHNM tem vindo a procurar alargar esta lista, apoiando a criação de ferramentas para que a informação na Internet seja devidamente anotada, de forma a ser reconhecida pela extensão do Firefox. Uma dessas ferramentas é um plugin para o software de publicação de blogs WordPress. Este plugin permite ao Zotero detectar vários meta-dados bibliográficos das entradas do blog, como o título, o autor, a data e os descritores.

A técnica utilizada pelo plugin consiste em embeber uma etiqueta COinS em cada postagem do blog. COinS — ou Context Objects in Spans — é um standard para incluir informação bibliográfica em páginas web, podendo ser lida por vários outros programas. Na realidade, esta técnica pode ser estendida a todo o tipo de páginas, utilizando o COinS generator, uma ferramenta que produz uma etiqueta ‘COinS’ a partir da informação bibliográfica. Esta tag pode ser introduzida manualmente em qualquer página.

O mesmo objectivo pode ser conseguido com outras ferramentas, como o Dublin Core Metadata Editor, que cria etiquetas DC para páginas web, as quais também podem ser lidas pelo Zotero.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

ENTREVISTA: Carlos Fiolhais

CARLOS FIOLHAIS
Como quem não esquece o deslumbre

Em finais de 2006, a Universidade de Évora atribuiu, pela primeira vez, o Prémio Rómulo de Carvalho, destinado a distinguir alguém que marque a diferença pelo seu contributo para a cultura científica, nomeadamente em áreas descuradas e no entanto fundamentais, como o Ensino e a História da Ciência. Agora, em Fevereiro de 2007, foi lançado o esperadíssimo Nova Física Divertida, segundo andamento de uma Física Divertida que embalou inúmeros leitores no prazer do pensamento científico nos últimos anos. O galardoado e o autor dos dois livros é Carlos Fiolhais, 50 anos, pai de um filho de 13, Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra, e, mais recentemente, director da Biblioteca Geral dessa universidade, que inclui a riquíssima Biblioteca Joanina, senhora de milhares de volumes de veneranda sabedoria. Um homem que tem dedicado grande parte da sua energia intelectual ao prazer extremamente exigente de comunicar aos outros as coisas espantosas que sabe, como quem não esquece o deslumbre que acompanha a descoberta dos segredos do Universo e da aventura da vida. Um homem que gosta mesmo de contar histórias, histórias que vale a pena ouvir.

Fizemos questão de fotografar o Carlos na biblioteca mais antiga do país; mas, antes, fomos tranquilamente conversar para o café da Gulbenkian, cada um de nós com o seu pastel de nata delicioso. Grande, sorridente, este laureado é também um cidadão empenhado: veio de Coimbra a Lisboa para ouvir a conferência única de Al Gore no Museu da Electricidade, e agora está a fazer horas para marcar presença na “vernissage” da nova exposição do nosso grande mestre Jorge Calado. Tem tanta curiosidade, e por tanta coisa, que é preciso alertá-lo e repreendê-lo para manter o fio da conversa. “Sou assinante do JL desde o primeiro número”, diz ele. “Só há muito pouco tempo é que, com pena minha, deitei fora a enorme colecção que lá tinha em casa. Mas de vez em quando também leio o 24 horas”.

Está bem, mas, pelo amor de Deus, começa lá a história do princípio. É mesmo verdade que te doutoraste aos 26 anos?

Sim, mas não foi nada de especial. Fui estudar para Frankfurt e lá a rotina era essa. Depois voltei para Coimbra, treinei-me a dar muitas aulas e aprendi imenso com vários colegas. Depois, ao fim de uns anos, voltei a sair para trabalhar para New Orleans, a cidade mais fabulosa dos Estados Unidos. Estás a ver, aqueles pântanos, as mansões, os jacarés, a comida “cajun” que é uma delícia, a loucura de Bourbon Street... Gostei tanto que já lá voltei na minha segunda sabática. A Tulane foi uma universidade que me deu muita sorte…

Só sorte, ou também muito trabalho para ter sorte?

Ambas as coisas. Quando lá cheguei, o chefe do laboratório tinha acabado de descobrir uma fórmula, e distribuiu-a por cinco colaboradores, entre os quais eu próprio, para que cada um de nós estudasse uma aplicação prática. O artigo que publicámos já teve, até hoje, 4700 citações.

É obra. E o fenómeno continua?

Sim, porque aquela fórmula calcula uma energia dos electrões. E, por isso, usa-se em tudo o que é modelação molecular.

Se eras um VIP científico, por que é que te foste meter na tarefa ingrata da divulgação?

Em 1982, quando voltei de Frankfurt, estava a nascer a editora Gradiva, com a sua famosa colecção Ciência Aberta. Eu vinha todo cheio de cultura germânica, e achava que livros de divulgação bons eram os alemães. Mas gostava dos livros científicos que a Gradiva publicava. Escrevi uma carta ao editor, o Guilherme Valente, a dizer isso. Ele telefonou-me. Estivemos uma hora ao telefone. Sabes como é o Guilherme. E eu estava cheio de sangue na guelra… Combinámos encontrar-nos em Leiria.

Quer dizer, a meio caminho entre Lisboa e Coimbra?

Sim, é a terra dele. Foi óptimo. Falámos, falámos... nessa altura havia pouca divulgação em Portugal... Começámos a colaborar. Eu recomendava livros e fiz algumas traduções. Depois, em 1991, enchi-me de brios e escrevi o Física Divertida.

E foi um espantoso “best-seller”.

Bom, vai agora na sétima edição. Vendeu quase vinte mil exemplares. Em Portugal, de facto, é um número considerável.

Estavas à espera desse êxito?

Não. Foi um choque. Na altura, o José Mariano Gago escreveu no “Expresso” uma coisa gira, a dizer que eu tinha entrado para catedrático da Universidade da Gradiva, que era melhor que várias outras. Até fiquei envergonhado... sem jeito, sabes como é? Não aprendemos em lado nenhum a estar preparados para estas coisas.

Tens ideia do que é que seduziu as pessoas?

Repara, o título do livro é um paradoxo: nunca se pensa na Física como sendo divertida. O livro baseia-se em episódios da história da física, e creio que interessou tanto a miúdos como a universitários, porque era a antítese da física dos manuais escolares. Era uma prosa inspirada na colecção Ciência Para Gente Nova, de Rómulo de Carvalho. É prosa molhada, se quiseres, ao invés da prosa seca típica desses livros. Na escola, o que nos serviam como ciência eram fretes. E eu tentei falar de verdadeira ciência, com todo o seu brilho e cor. No secundário, a Física parecia-me por vezes um instrumento de tortura, um trato de polé. As minhas melhores notas eram a Filosofia e a Ciências Naturais, e não a Física ou a Matemática. Não fiquei a gostar de física na escola: encontrei-a nos livros de divulgação científica que trazia para casa da Biblioteca Municipal, onde por vinte e cinco tostões ao ano tinha acesso a tudo e mais alguma coisa. O que eu vibrei em miúdo com o Júlio Verne… E como fiquei fascinado com o átomo… Com o núcleo, que é o coração do átomo. Acabei por fazer o doutoramento sobre a cisão do núcleo.

O que é que te atraiu assim tanto para essas lides?

O núcleo do átomo é o mistério dos mistérios!

Em Biologia, a gente diz isso da reprodução...

À chaqu'un son gout. A gente não vê os núcleos. Eu pensava: gosto de dar aulas a pessoas, mas o que são elas comparado com o Cosmos? Fui atraído pelos mistérios cósmicos do muito pequeno. Percebi que podia alcançar essas dimensões… No secundário, sentia que os programas de Física me estavam a esconder qualquer coisa. E irritava-me: por que é que me escondem isto? Quando cheguei à Faculdade, encontrei o que estava escondido, o átomo com núcleo e electrões É paradoxal: o electrão é esquizofrénico! Pode estar em dois pontos ao mesmo tempo… Como é que ele faz isso? E as partículas que estão dentro do núcleo? Pronto, lá fui descobrir as leis do núcleo para a Alemanha. Sabes o que é que eu acho magnífico nisto? As leis da Natureza, a gente só pode descobri-las. Não pode, nunca, fazê-las.

O que é que tu descobriste?

Descobri melhor como se partia o núcleo atómico. Quando fui para New Orleans, a Física Nuclear, de que tanto gostava, já não estava na moda. Mas a Mecânica Quântica continuava a ser a mesma. Se a gente percebe bem, e a sério, de uma determinada coisa, depois pode aplicá-la a uma variedade grande de questões. No meu caso, podia perfeitamente utilizar o que sabia sobre os núcleos para estudar moléculas. Sempre com o computador. Acabado de doutorar, tinha comprado o primeiro PC da Universidade de Coimbra. Era um Olivetti que custou 500 contos. Isto foi em 1983, quando apareceram os primeiros computadores pessoais – tive imensa sorte com esta janela de tempo, como se ela tivesse esperado por mim… Hoje, o maior computador em Portugal para cálculo científico também está em Coimbra. Demos-lhe o nome de Milipeia, porque funciona como um bicho de mil patas que precisa que todas funcionem em uníssono para conseguir mover-se. Começámos por criar a Centopeia, que tinha mais de cem patas. E agora temos a Milipeia.

Por que é que, com a formação de físico que tens, acabaste por investir tanto tempo e energia nos computadores?

Não me puxes pela língua. Esta parte é fascinante. O computador, que vem da física, já nos deu muito, mas estou convencido de que ainda não deu tudo o que tem para dar-nos. Todos os dois anos o computador dá-nos o dobro. Isto está estudado. É a lei de Moore, o criador da Intel.

Peço desculpa, mas vais ter que explicar isso melhor.

Pensa nos transistores. São interruptores. Conforme os ligas ou não, passa ou não uma corrente eléctrica, tal como passa ou não água numa mangueira conforme pões o pé em cima ou o tiras. Tudo se faz a partir daqui, a partir de sinais de sim e não. Os transistores são cada vez mais pequenos; e, à medida que minguam, cabem vez mais no mesmo espaço: neste momento, há cerca de dez milhões de transistores num chip. Um PDA era impossível há poucos anos. É uma tecnologia que seria impossível se os transistores não fossem pequeninos. E vão ser menores. Olha: um micrómetro, o tamanho de uma célula, é o tamanho dos transistores actuais. Um nanometro, um milésimo do micrometro, é o tamanho de uma molécula orgânica, e os transistores vão ser deste tamanho. O que quer dizer que, nessa altura, um PDA poderá ser do tamanho de um cabelo. Não podemos descer abaixo do nível do átomo; mas, até aí, muita coisa se pode fazer..

Não há dimensões abaixo do átomo?

Há, mas é vazio até ao núcleo. E transístores com partículas do núcleo é ficção científica.

E o que é que vai acontecer, na prática, por causa do encolhimento dos transistores?

Pensa bem. Se a indústria automóvel tivesse progredido ao ritmo da indústria informática, eu hoje tinha um Ferrari pelo preço de uma bicicleta. Mas, no mundo dos computadores, já tenho o meu Ferrari ao custo da bicicleta. E, enquanto o Ferrari parou ali, os computadores continuam a ficar cada vez mais poderosos.

Então e as aplicações científicas desse fenómeno?

Sem computadores, toda a moderna ciência do caos seria impossível. Sempre se fizeram associações entre causas e efeitos, mas a ideia de que pequenas causas pode causar grandes efeitos é recente e deve-se ao computador.

Aquilo da borboleta que bate as asas no México e desencadeia um ciclone na China?

Sim, isso mesmo.

Eu estava a pensar em desenvolvimentos científicos que interferissem directamente com a vida de todos nós…

Há um conto do Jorge Luis Borges em que alguém quer fazer um mapa do tamanho de um império. Os computadores ainda não conseguem mapear o mundo dessa forma, mas para lá caminham. Basta lembrar que põem satélites em órbita com precisão e, por favor, isso é uma velharia dos anos 50. Com esses satélites prevê-se o tempo que vai fazer amanhã. Vamos prever cada vez melhor o futuro, porque vamos ter cada vez mais poder de cálculo.

Credo. E isso é bom, com os futuros que andam para aí a ser previstos?

Claro que é. Para já, porque, assim, temos a possibilidade de evitar o pior, por exemplo as alterações climáticas E temos a possibilidade de decidir – e que exige muito de nós, em maturidade - mas também nos dá muito em troca, em bem-estar e mesmo sobrevivência. Podemos fazer vários cenários, e depois escolher o futuro que queremos. E, num país democrático, quando o governo não quiser escolher o futuro que queremos, podemos tirá-lo nas eleições seguintes.

Até lá, o dito governo ainda tem tempo de fazer muita porcaria.

E tu queres viver em regime de golpe de Estado, é? Ainda hoje o Al Gore disse na conferência: numa democracia o poder político é um recurso renovável… Assim como o periscópio permite ver mais longe, o computador permite ver mais para diante. Podemos até alterar o mundo e criar mundos virtuais, como no filme “Matrix”. Podemos alterar virtualmente as leis da Natureza e ver se o mundo fica pior ou não.

Por exemplo?

Experimenta mudar a lei da gravidade no teu mundo virtual. Não demoras muito tempo a perceber que tudo deixa de funcionar. Perde-se logo a regularidade astronómica, por exemplo. E, sem ela, não há estações, não há climas, não há noites de Lua Cheia... Quando percebes que perfeito que isto é, que perfeitos são os fenómenos cósmicos que permitiram o aparecimento da vida, passas a gostar mais de estar no mundo. Já viste bem que fantástico tudo isto foi?

domingo, 18 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: O Filósofo da Bénard

O FILÓSOFO DA BÉNARD
As pessoas gostam muito de dizer que os portugueses são burros e que não têm nada entre as orelhas, mas eu regozijo-me quase todos os dias com pequenas revelações de que não é verdade que andem para aqui dez milhões de criaturas com o cérebro em coma. A desta semana, absolutamente deliciosa, foi-me entregue numa folha A4 por um empregado da Bénard, ali em pleno Chiado, numa dessas tardes em que parei lá por uns minutos para me refazer da chuva antes de seguir para casa. O que era aquilo? Muito simples. Há um jovem filósofo alemão, absolutamente brilhante e de seu nome Robert Kurtz, que vai escrevendo textos para tentar partilhá-los com o mundo. Esse filósofo alemão é amigo de um filósofo português. E este segundo rapaz, empenhado em não deixar apagar a chama, traduz cuidadosamente a prosa do colega para a nossa língua e distribui-a por vários locais – nomeadamente pela Bénard. O texto desta semana, intitulado Desarmamento moral: a cultura do escândalo como expressão da falta de perspectiva social, contém várias passagens notáveis, da quais transcrevo, por impossibilidade de monopolizar mais espaço, apenas isto: “A sociedade transformou-se num grande ninho de intriga global. Quando os conteudos se tornam indiferentes surge um capitalismo mental, com a sua espectacular economia da atenção”. Querem mais? Vão ver a exit-online.org. E, por favor, deixem de generalizar a acefalia crónica dos portugueses. Garanto-vos que o empregado que me passou o papel estava genuinamente entusiamado com o texto.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

ENTREVISTA: Ana Maria Rodrigues

Ana Maria Rodrigues
COMO QUEM VIAJA NO TEMPO

António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, historiador medievalista e contemporâneo, resistente antifascista, antigo director da Biblioteca Nacional, Gão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supermo Conselho do grau 33 (1991-1994), condecorado em 1998 com a Grão Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, autor de uma vasta obra de grande importância para o estudo da História de Portugal, faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vítima de problemas cardíacos. Tinha formado uma verdadeira escola, e deixado pelo caminho vários discípulos que foram, por seu turno, subindo nos escalões da carreira. Homenageá-lo, hoje, é, antes de mais nada, não deixar que a Idade Média desapareça do conhecimento imediato dos portugueses. Para recordarmos esse período único em todo o seu esplendor, pedimos ajuda a Ana Maria Rodrigues, Professora Associada do Departamento de História da Universidade de Lisboa, 49 anos, dois filhos, pronta a fazer uma grande festa, com viagem familiar e tudo, quando totalizar os 50. A sua especialidade é História Medieval, e os seus olhos brilham quando revela o que estuda. Fala tranquilamente, familiarmente, como quem viaja no tempo, do período menos compreendido e mais maltratado da História da Europa.

A cave da Faculdade de Letras tem corredores infindáveis com cacifos alinhados dos dois lados, inscrições nas colunas do tecto que ninguém se dá ao trabalho de ler, e um certo ar de última paragem neste mundo dos que foram sentenciados a deixá-lo. Na rua o frio continua a gelar os transeuntes, mas dentro do gabinete onde Ana Maria trabalha hoje estão os aquecimentos ligados e os casacos pesados vindos do exterior despem-se depressa. Uma mesa larga, um computador antigo, prateleiras a transbordar de papeladas, paredes vagamente cinzentas e janelas abertas para o sol gélido do exterior. Ela está linda, como sempre, com aquele seu ar que trouxe do doutoramento em França e nunca mais a largou. As pessoas atribuem à Idade Média tudo o que acontece de mal, diz ela.

Mas por que é que temos uma visão assim tão negativa do período medieval?

Foi na Idade Média que a nossa sociedade colocou a barbárie, a violência, o arbitrário... e, no entanto, hoje sabemos bem que não é tudo assim. Talvez tivessem existido alguns períodos que correspondam a esse imaginário global. Mas, hoje em dia, há vários autores que fazem a comparação entre a Idade Média e os nossos tempos, dizendo que nos aproximamos de uma nova Idade Média.

Porquê?

Por causa das migrações. Estaríamos perante uma nova invasão dos bárbaros...

Quem, os emigrantes de Leste?

Não. Esses vêm de uma cultura idêntica à nossa, muitas vezes até superior à nossa. E, assim que ganham algum dinheiro, vão-se embora. Poderíamos realmente falar dos romenos, por causa da raça cigana, que tem um código de honra completamente diferente do nosso. Mas já é esticar um bocado a corda. Os bárbaros em questão, segundo estes autores, seriam os argelinos, os marroquinos, enfim, os africanos. Isto em termos de opinião pública. Da mesma forma, os condomínios privados que agora existem seriam equivalentes aos antigos senhorios: instalam-se em domínios onde existe um afastamento dos outros, uma espécie de território próprio onde quem não pertence não entra. Nestes condomínios, as pessoas estranhas estão proibidas porque o Estado já não consegue assegurar a protecção da população em relação ao roubo e outras pequenas violências; e então introduzem-se aqui os seguranças privados, exactamente como existiam tropas especiais que protegiam o senhor do domínio.

Há mais exemplos do nosso novo período medieval?

Olha, se queres entrar numa grande empresa, não passas na segurança sem apresentares primeiro as credenciais, e tens que ser controlada enquanto estás lá dentro. Ou seja, há domínios de direito próprio dentro do que deveria ser uma democracia que constitui um Estado de Direito.

E voltando ao período medieval que já acabou, por que é que achas que hoje tem tão mau nome?

Provavelmente, por ser um período histórico extremamente longo. Basicamente, damos esse nome, que foi cunhado já pejorativamente pelos humanistas da Renascença, a todo o período que vai da Antiguidade Clássica à Renascença. O intuito dos humanistas do século XV era, precisamente, desvalorizar esse período e exaltar os seus próprios tempos, que tinham reatado com o grande conhecimento e beleza da Antiguidade. Até se usou por muito tempo tempo o termo “Dark Ages”, ou “Séculos Góticos”, remetendo para o obscurantismo, a violência, a falta de conhecimento do período medieval.

E tu não concordas, claro.

Então. Se houve de facto um início que pode ser considerado como um retrocesso, resultante da fusão entre a cultura romana e cristã e a cultura bárbara, depois esse período é seguido por várias ondas de criação de uma cultura nova, que já não é gótica nem obscura, e que está nos fundamentos da nossa cultura ocidental.

Diz-se que tudo muito condicionado pela Igreja...

Bem. Existem na Idade Média posturas positivas, dentro de um determinado caldo cultural que já não se conseguir reproduzir. Tem sido várias vezes assinalado nas últimas décadas que a Idade Média não possuía propriamente uma religião católica. Vivia-se, isso sim, dentro de um sistema que era religioso, em que a questão de se poder não acreditar em Deus ou de não seguir a fá cristã nem se punha. Um dos factores que caracteriza a fé islâmica é não existir separação entre a Igreja e o Estado: no período medieval, essa separação também não se fazia. Havia uma colaboração que por vezes podia ser mais difícil, mas que regra geral era muito afável. As duas entidades que nós consideramos separadas eram só uma na Idade Média. Nos Concílios, tratava-se assuntos tanto de moral e de religião como de política forma de governo, e isto dura até ao fim do século XI.

O que é que acontece no século XI?

Dá-se a Reforma Gregoriana, quando se tenta distinguir o que é que diz respeito ao papado e o que é que diz respeito ao império. As duas coisas estavam tão interligadas que os reis interferiam na Igreja, e a Igreja no poder régio.

E como é que isso passava para a vida quotidiana?

As pessoas eram cristãs como identidade profunda, que as marcava do nascimento à morte. Viviam numa civilização que acreditava no Além, o que permitia a vivência da miséria, do sofrimento, da opressão, com uma perspectiva de futuro muito mais livre, abundante e feliz. Com esta atitude coabitavam crenças mais antigas, relativas à magia, ao culto prestado em determinados lugares, que muitas vezes representava rituais anteriores ao cristianismo.

Essa vivência da fé chegava à legislação?

Os códigos das leis também tinham alguma inspiração cristã, mas as primeiras eram dos bárbaros. Foram legadas pelos Visigodos, pelos Ostrogodos, pelos Burgúndeos; e constituem uma transcrição por escrito dos códigos de Direito existentes entre eles a nível oral. Também entram nesses códigos algumas influências de Direito romano, mas poucas. A conversão dos bárbaros ao cristianismo foi mais tardia. Até aí, as suas leis são muito olho por olho dente por dente, e isto sem qualquer influência bíblica.

Temos, ou não temos, uma boa noção do que é que era considerado pecado na Idade Média?

Temos que ir buscar essa informação aos Penitenciários, ou seja, aos livros que prescreviam as penitências conforme a gravidade da ofensa a Deus, para os sacerdotes saberem que tipo de penas deviam aplicar aos fieis que vinham confessar-se. Isto aplica-se não só para os pecados da carne, que nos mostram que tipo de moral se seguia, mas também ao aborto, ao infanticídio, à masturbação, e por aí fora. As penitências costumavam ser de abstenção de sexo durante meses, senão anos, e de pão e água. As para o incesto, então, era horríveis.

Porquê especificamente o incesto?

A concepção de incesto é, neste época, muito mais vasta que entre nós. A Reforma Gregoriana excluiu o casamento com parentes até ao oitavo grau de proximidade, o que implicava quase toda a gente. Claro, podiam pedir licenças papais para serem dispensados. Concedendo ou não a dispensa, o papa fazia valer o seu poder. O controlo do matrimónio era também político: desta forma, os papas podiam reger a vida dos reis, e estabelecer fronteiras.

E o povo?

O povo não tinha forma de chegar ao papa, nem tinha dinheiro para as dispensas papais, portanto ou incorria em pecado ou ia procurar companhia fora da aldeia. Finalmente, no século XII, a proibição passou a ser apenas atá ao quarto grau, porque se tinha criado uma situação insustentável.

Bom, mas o pessoal podia pecar à vontade, certo? Só precisava de ir à confissão a seguir.

O cristianismo tem sempre isso de bom! O que é preciso, para a confissão funcionar, é que se esteja mesmo arrependido, e disposto a não voltar a repetir o pecado.

OK, mas isso não justifica todas as perseguições religiosas de que ouvimos falar.

Essas perseguições, no período medieval, são uma ideia-feita que não corresponde à verdade. As grandes perseguições só começara no dealbar da Renascença, por volta do século XV. Mesmo as histórias de perseguições a feiticeiras a bruxos são sobretudo do período Moderno.

Então no período Medieval não existiram perseguições?

Existiram perseguições a judeus, como é evidente.

Por que é que havia de ser evidente?

A expulsão dos judeus de Portugal em 1496 já tinha sido precedida por várias outras no Sul da Europa, com períodos de maior ou menor turbulência, sobretudo por motivos económicos. Os judeus praticavam a usura e cobravam as rendas reais, e tornavam-se odiosos porque as pessoas nem tinham que comer, e eram obrigadas a estar a pagar. Em Portugal também havia alguma preocupação com os muçulmanos. Foram expulsos da Península pelos Reis Católicos no século XV, mas até aí já viviam muito restritos na sua liberdade de movimentos. Praticavam a sua religião, tinham as suas escolas mas, pelo menos a partir de D. Afonso IV, tiveram que começar a usar roupas distintivas e viver em bairros fechados, onde as mulheres cristãs não podiam entrar porque se temia a miscigenação sexual entre mouros e cristãos, e eram sempre as mulheres quem caía ou fazia cair em tentação. Eram essencialmente agricultores e artesãos, gozavam de protecção régia, mas não se conseguiram evitar confrontos sangrentos quando as populações locais eram tomadas pela raiva.

E a Inquisição, aparece quando?

No século XIII, mas não contra os judeus. Forma-se antes para vigiar os cátaros, acusados de heresia por aceitarem uma religião dualista, em que o Bem e o Mal se degladiam constantemente pelo poder. Tudo o que está ligado à matéria é mau e tudo o que está ligado ao espírito à bom. Pensa-se que terão sido influenciados pelas culturas orientais na altura das cruzadas. Mas era uma Inquisição episcopal, eram os bispos que mandavam os inquisidores às dioceses onde existiam hereges, resultando dos seus julgamentos ou a expropriação de bens ou a morte pelo fogo.

E não eram torturados? Achas que a expressão corrente “tortura medieval” também não faz sentido.

Acho que até as torturas se tornaram muito mais requintadas e cruéis do século XV em diante. Mas a tortura existia, claro. Era considerada um meio legítimo de obter informações. Claro que a Joana d'Arc morreu na fogueira como uma herege, mas não sofreu torturas prévias, e este era um caso extremo, com fortes implicações políticas.

Também não existiam feiticeiras?

Existiam, sim. Mas as acusações mais extremas que lhe são dirigidas, como as de copularem com o Diabo nas noites de Lua Cheia, são formulações da Idade Moderna. Existem demónios na Idade Média, as pessoas têm sonhos, têm visões, mas não se dá a nada disto a importância que se dará mais tarde. O imaginário desenfreado dos demónios só se forma a partir do século XV, como aliás fica bem patente nas pinturas de Hyeronimus Bosh.

Olha, e cientistas? Podemos falar de cientistas medievais?

Entre muitos outros temos o Pedro Hispano, possivelmente o mesmo homem que, sob o nome de Pedro Julião, se tornou mais tarde no papa português João XXI. Ou só um autor ou vários autores, isso não se sabe, escreveram obras sobre as mais variadas ciências. O Tesouro dos Pobres é um livro fascinante de Medicina, de Magia, de estudo de muitas plantas curativas, e dos rituais a seguir durante a utilização dessas plantas.

E em termos de grandes romances medievais?

Ah, temos a história lindíssima da Heloísa e do Abelardo. Heloisa é uma jovem sobrinha doe um clérigo a quem o tio deixa ter uma educação pouco comum numa mulher da época, arranjando-lhe para o efeito, como preceptor, o grande filósofo Abelardo. Apaixonam-e os dois, Heloisa engravida, e isto causa graves problemas para ambos. Abelardo foi capado, e ela foi fechada num convento e viveu lá o resto da vida, mas trocou uma correspondência assídua com o homem amado,. Apesar das circunstâncias, manteve sempre vivos o amor e a independência de espírito, sem nunca se mostrar arrependida do que fez. Claro que, durante muitos séculos, se duvidou da autoridade dessas cartas, porque ninguém queria acreditar que uma mulher tivesse aquele nível de instrução e de capacidade filosófica.

ENTREVISTA: Ricardo Santos

RICARDO SANTOS
Como quem veio de longe

Por que é que fez muita falta escutar a voz dos filósofos durante todo o debate sobre o aborto que marcou os últimos meses da vida portuguesa? Provavelmente, pela mesma ordem de razões que torna tão desastrosa a eliminação dos exames de Filosofia no ensino secundário. Contemplando estas questões cruzadas que de uma forma ou de outra marcam a identidade nacional, Ricardo Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Professor Auxiliar da Universidade de Évora e investigador no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, quarenta anos, três filhos, fala com a grande calma de quem já veio de muito longe e sabe que tem pela frente um grande caminho. A Filosofia formou o núcleo duro dos primeiros passos científicos do mundo, e confronta-se com um futuro emocionante, pleno de desafios cada vez mais complexos. Trazê-los até aos mais jovens e imbuir a sociedade do seu espírito acutilante é a missão de todos os que se juntam à sua volta.

A Sociedade Portuguesa de Filosofia partilha o andar com outras sociedades científicas num prédio igual aos outros da Avenida da República. Está frio na rua, e as salas de pé direito elevadíssimo parecem todas completamente geladas. Um cinzeiro grande marca a zona de tolerância sobre a mesa de reuniões. Ricardo Santos deixou de fumar há pouco tempo, num esforço que lhe pareceu “curiosamente fácil”. A calma das suas respostas está infectada pela energia contagiosa dos que amam a sua área de estudo e não hesitam em partilhá-la com o mundo. O debate sobre o aborto tem sofrido de um abaixamento inaceitável, diz ele. E, aí, nota-se mesmo a falta dos filósofos.

Porquê?

Porque em Portugal ouviu-se muito pouco a voz dos filósofos a debater esta questão, quando há muito trabalho de reflexão filosófica sobre o problema ético do aborto que era importante ter em conta. E também porque a formação em Filosofia nos dá uma grande disciplina de argumentação, que nestes casos faz toda a diferença. Um filósofo está, em princípio, mais preparado para evitar os erros mais frequentes num debate: conclusão precipitada, petição de princípio, problemas ambíguos, uso de falácias. Estamos precavidos contra o apelo à emoção, o escamotear da informação, a utilização de informação manipulada intencionalmente, temos esse arcaboiço. Que é sempre um contributo valioso para um debate público tão importante como este.

O que diria um filósofo sobre o aborto, se lhe perguntassem?

Por exemplo, começaria por mostrar que a questão do aborto está intrinsecamente ligada ao problema da vagueza.

E isso é o quê?

É um problema muito antigo, conhecido desde a Grécia antiga, sob a designação de “paradoxo de sorites”. Quantos grãos de areia são necessários para formar um monte? Se eu tiver três grãos de areia, não tenho um monte. E se só tiver quatro, também não. Em geral, se não tenho um monte, e acrescento apenas mais um grão, não passo a ter um monte. Mas, por este raciocínio, seria levado a concluir que uma enorme duna na Costa da Caparica também não é ainda um monte, pois os grãos de areia que a formam foram, imaginemos, acrescentados um a um. Ora, há muitos casos análogos. Por exemplo, os carecas: a partir de quantos cabelos é que passo a ser careca? E, no caso do desenvolvimento do feto, a questão é a de saber ao fim de quantos dias passamos a ter um ser humano.

Parece um problema filosófico criado de propósito para este debate.

Ele mostra que há certos processos de mudança – de uns quantos grãos de areia para um monte, de cabeludo para careca, ou de óvulo fecundado para ser humano – que, devido ao seu carácter contínuo, tornam muito problemático o estabelecimento de uma linha divisória precisa. Será que essa linha não existe, e por isso haverá certas pessoas das quais não é verdadeiro nem falso dizer que são carecas, ou ela existe, mas nós não a conhecemos? No caso do aborto, esta dificuldade parece favorecer mais a posição conservadora, pois todos recusamos o infanticídio e, se não houver linha divisória, o aborto será tão grave como o infanticídio. Mas isto é apenas um exemplo de como há muita coisa pensada e estudada pelos filósofos sobre problemas desta natureza, que são relevantes e que seria importante ter trazido para iluminar mais o debate.

Então por que é que o Ricardo acha que os filósofos não foram chamados a participar?

Por pura ignorância? É uma possibilidade. Desconhecendo a Filosofia, é provável que se conclua, logo à partida, que ela não tem coisas relevantes para trazer para este debate. Mas eu creio que, no afastamento dos filósofos, há também uma boa dose de preconceito: considera-se a questão do aborto demasiado séria para justificar suportar-se esta problematização fria, abstracta e racional dos filósofos. Mas sentimos a falta deles quando a questão começa a ser discutida de um modo que abusa do apelo à emoção ou que pede sobretudo a identificação das pessoas com certos grupos de opinião, sejam eles católicos, feministas, esquerdistas ou outros.

Há mais problemas filosóficos que sejam relevantes num debate tão humanamente dilacerante?

Há, e são completamente ignorados pela maioria das pessoas. Cito-lhe mais um exemplo: o problema da consciência e da capacidade de sentir dor. Quando é que isso começa no desenvolvimento do feto? Não se tem conseguido responder. E será possível algum dia responder? Ora, a Filosofia tem uma longa tradição de reflexão sobre o conhecimento das outras mentes. Como posso eu conhecer a consciência do outro? Como posso conhecer a dor dos outros sem a ter, se a dor é uma experiência completamente privada? Cientificamente, podemos tentar postular medidas observáveis que tomamos como reveladores da presença de consciência. Mas como é que vamos justificar esta correlação entre o observável e o inobservável? Todo esse legado de problematização que existe na Filosofia devia ter sido trazido para a linha da frente.

E eu que, dos problemas filosóficos, só conhecia aquela história do barco reconstruído...

Ah! Esse é o barco em que Teseu regressou a Atenas depois de vencer o Minotauro. Os atenienses decidiram preservá-lo e, à medida que as tábuas envelheciam, eram substituídas por novas. A dada altura, restavam muito poucas tábuas originais e colocou-se a questão: É este ainda o barco de Teseu? Actualmente, fazemos uma modificação do problema: o barco sai de um porto, empreende uma grande viagem, leva madeira no porão, e vai uma chalupa atrás. Durante a viagem, os marinheiros têm que ir mudando as tábuas, e vão deitando fora as velhas. A chalupa que vai atrás aproveita as tábuas velhas para reconstruir o barco. Quando regressam ao porto, o barco da frente não tem nenhuma tábua original, e o barco que vem atrás tem essas tábuas todas. Qual deles é o barco que partiu à frente? E, a ser o segundo, como é que a tripulação que partiu no primeiro barco mudou de barco sem nunca ter desembarcado?

Com tantas contribuições interessantes para oferecer ao nosso pensamento, por que é que o Ministério da Educação decidiu abolir os exames de Filosofia?

Não sabemos. A sério. Já perguntámos várias vezes, e nunca obtivemos resposta. Ficamos numa completa perplexidade, porque o que temos pela frente parece uma medida puramente administrativa, da qual se desconhecem os fundamentos, didácticos, científicos, ou outros.

Será embirração particular da Ministra?

Esta medida é completamente contraditória com o restante discurso da própria Ministra sobre a disciplina, que continua a ser obrigatória em todos os cursos no 10º e 11º anos. Isto implica que a Filosofia é importante para a formação geral dos estudantes, pelo que não se percebe por que é que para Português existe um exame nacional, e para Filosofia não.

A mim parece-me uma medida ainda mais grave do que abolir a disciplina. É uma forma explícita de dizer que embora tenha que se ouvir falar “daquilo”, “aquilo” não é importante. É tão pouco importante que nem se justifica existir exame.

Há um conjunto de razões que tornam esta medida contra-producente. A ideia-chave por trás de um exame é ter uma medida de aferição: um instrumento que, associado a outros, permite aos agentes do processo educativo aferir a sua acção e gerir uma série de coisas. Sem exame, ficamos privados da informação que daí derivava. Essa informação permite-nos ver se os programas estão a ter bons resultados, se os manuais estão a ser úteis, se os métodos são adequados. Com o exame, também temos funções de normalização do ensino da disciplina nas várias turmas que há em cada escola e nas várias escolas que há ao longo do país. No que diz respeito aos estudantes, é mais que sabido que a sua atitude perante uma disciplina, nomeadamente no esforço que ela merece, muda completamente conforme ela tem ou não exame. É fundamental que esta disciplina exista, e não ter exame é um sério revés para a sua imagem de seriedade.

Na sua opinião, quais vão ser as consequências da abolição do exame?

Vamos ter várias consequências, a nível dos vários agentes envolvidos. Do lado dos alunos, vamos certamente ter um forte desinvestimento quando a matéria que está a ser ensinada não vai ser sujeita a avaliação externa. Só quem não tem experiência de ensino é que pode não saber disto. Os professores também mudam as suas práticas consoante existe ou não um exame nacional. Os manuais, os autores, as editoras, o próprio Ministério da Educação quando está a fazer programas e a monitorizar a sua aplicação, todos vão ressentir-se. Não existe só um efeito: a abolição dos exames provoca uma multiplicidade de efeitos que dá uma boa medida da importância do ensino da Filosofia na sociedade portuguesa, tanto qualitativa quanto quantitativa. Vamos saber menos sobre Filosofia do que devíamos, e vão ser menos as pessoas a interessar-se por ela.

Bom, e aqui põe-se a vexata quaestio... para que é que serve a Filosofia?

Se pensarmos só ao nível de um utilitarismo mais básico, não serve para consertar canos. Claro que não. Mas também não é isso que queremos dar aos nossos estudantes. Se fizermos a pergunta com um sentido mais economicista, no sentido de o que é que se ganha com isso, aí já podemos ter nuances na resposta. O mundo contemporâneo é diferente na forma como mede o valor de mercado das coisas. Como actividade intelectual, a Filosofia produz resultados que não é completamente óbvio que não tenham valor de mercado. Até em Portugal já houve livros de Filosofia que foram best-sellers. Ainda recentemente houve notícias de empresas norte-americanas a recrutarem filósofos para os seus conselhos de administração. Mas as coisas têm que ser vistas de outra maneira.

Como?

A Filosofia serve verdadeiramente para fins de carácter intelectual. É um instrumento que é insubstituível para desenvolver nos nossos jovens a capacidade de pensamento e de análise crítica de problemas e de argumentos. E também uma capacidade invulgar de interpretação de textos. Sempre foram estes os verdadeiros contributos da Filosofia. Há outras áreas do saber que cultivam também este género de capacidades, daí que muita gente sublinhe a proximidade da Filosofia com a Matemática, com a Física, com a História ou com a Literatura. Mas a Filosofia reúne, por tradição, esta capacidade que lhe é muito própria de desenvolver habilidades de análise e de pensamento crítico, de reflexão autónoma, que não se encontra noutras áreas. É fundamental para a formação de cidadãos autónomos, intervenientes no espaço público, na vida da sociedade.

O Ministério terá tomado esta decisão por a Filosofia ser considerada particularmente difícil de ensinar?

Eu fui professor do secundário, e posso responder pela minha experiência. A Filosofia não é mais difícil de ensinar do que outras disciplinas. A Matemática, a Física, a História, a Literatura, são de um ensino igualmente complexo. Claro que não podemos ensinar jovens de quinze e dezasseis anos como ensinamos os universitários, mas estes alunos têm uma coisa maravilhosa do seu lado: são de uma curiosidade intelectual inesgotável, ainda muito crua, sem deformações. Parecem esponjas. E isso faz com que captem e sejam captados pelo essencial dos problemas de que a Filosofia vai tratar.

Já falámos do problema da vagueza, do paradoxo de sorites, da questão da consciência, do barco de Teseu...

Sim, esses são bons exemplos de problemas filosóficos, importantes e também interessantes, que podem ser apresentados de modo claro e acessível. O barco de Teseu tem de ser explicado aos alunos do secundário como um problema sobre a identidade e a persistência dos objectos. Relaciona-se facilmente com o célebre aforismo de Heraclito “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”: os elementos que compõem um objecto são substituídos por novos e isso leva-nos a questionar a identidade do objecto. Platão interpretou o aforismo pelas suas consequências epistemológicas: se o mundo visível está em constante mudança, se nele tudo é fugaz e nenhum objecto persiste no tempo, então não podemos conhecê-lo, pelo que não poderia haver uma ciência deste mundo. De onde Platão infere que o mundo que vemos não é a verdadeira realidade.

Ou seja, tudo é questionável.

Não há dúvida de que os problemas filosóficos têm a particularidade de pôr em causa de modo surpreendente as ideias feitas, coisas que parecem evidências para o senso comum. Como a relação entre o pensamento e a existência, por exemplo. Tendemos geralmente a achar que podemos pensar no que não existe, mas será que podemos mesmo? Se uma coisa não existe, como posso realmente pensar nela? Não vale responder que a coisa existe no meu pensamento, que tenho uma imagem mental do diabo, por exemplo, e que é nela que penso quando penso no diabo. Porque essa imagem ou representação mental existe e, nesse caso, não estaria a pensar em algo que não existe. Mas se o pensamento está necessariamente vinculado à existência, daqui decorre que, se consigo realmente pensar em algo – em deus, por exemplo –, então isso existe. O que seria uma prova surpreendemente fácil da existência de certas entidades. Como os números, por exemplo.

É dessas coisas que se fala nas aulas de Filosofia do secundário?

Sim, entre muitas outras. Mas é preciso que os professores usem a linguagem e os métodos adequados. E que possam socorrer-se de bons materiais didácticos, como manuais escolares de qualidade. As coisas têm melhorado bastante ultimamente, mas há ainda muito a aperfeiçoar.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

AGENDA: Aborto, Valor e Identidade Pessoal

2 de Fevereiro, 6.ª feira - 15 horas

Auditório da Sociedade Portuguesa de Filosofia

Aborto, Valor e Identidade Pessoal

Pedro Galvão (Universidade de Lisboa)

Entrada livre com inscrição obrigatória

Pedro Galvão é membro da Direcção da Sociedade
Portuguesa de Filosofia, é doutorando em Ética na
Universidade de Lisboa e é investigador no Centro de
Filosofia da mesma universidade.

domingo, 28 de janeiro de 2007

ENTREVISTA: Carlos Pimenta

CARLOS PIMENTA
Como quem não baixa os braços

Então vamos lá ver, por que é que o mar da Costa da Caparica decidiu este ano dar cabo da praia? Por que é que desmoronam as falésias no Algarve? O que é que julgam que vai acontecer a prazo na Ria de Aveiro? Alguma vez se questionaram sobre o que vos obriga realmente a passarem tanto tempo no trânsito? Têm a certeza de que escolheram bem o vosso automóvel particular? Pensavam que ter ar condicionado em casa só era mau por causa da factura da electricidade? Têm a certeza de que deveriam mesmo ser os camiões a pejar-nos as autoestradas de cortejos de mercadorias, se ali mesmo ao lado passa uma linha de comboio? O que é que vos impede de comprarem lâmpadas amigas do ambiente de cada vez que vão ao Aki? Já tomaram consciência de que o aquecimento global é mesmo um problema real e terrível, a dois passos de se tornar irreparável? Se tudo isto já se sabe desde 1991, por que é que terá levado tanto tempo a calar-nos fundo na consciência? Pode não parecer à primeira vista, mas todas estas questões estão intrinsecamente ligadas. Em Portugal, um homem que batalha constantemente na cena internacional pela devolução às sociedades humanas de um planeta feliz e habitável sabe orientar-nos no mapa da nossa própria degradação melhor que qualquer outro: Carlos Pimenta, 51 anos, três filhos, formado em Engenharia Electrotécnica e munido de Pós-Graduaçoes em Informática feitas na Suíça, em França e na Bélgica, fala-nos com a energia contagiante de quem não baixa os braços e demonstra-nos por a mais b que, se o drama da Caparica não existisse, isso significaria que estávamos todos a viver melhor. É com um conhecimento de causa enciclopédica que nos explica porquê.

À hora marcada em ponto, nem mais nem menos um minuto, aparece à porta da sala com o seu tradicional sorriso de miúdo, rasgado de orelha a orelha. Aqui, no meio de computadores topo da gama e informação ambiental de todo o mundo nas paredes, que ninguém pense sequer em fumar. Quando está em Lisboa, é neste quarto andar das Avenidas Novas que está o grosso do investimento do Carlos: no Centro de Estudos de Economia, Energia, Transportes e Ambiente, uma Organização Não-Governamental com cerca de vinte anos e cerca de vinte pessoas a trabalhar aqui, quase todas oriundas da Universidade Nova de Lisboa, unidas pela primeira vez nos anos 80 quando foi preciso lutar contra a entrada da energia nuclear em Portugal. Agora, militam pela promoção dos recursos renováveis e da eficiência energética. Como do costume, o Carlos passa por aqui, assoberbado de coisas importantes para fazer, dessas coisas das quais vai depender inteiramente o futuro dos nossos filhos.
Estou com projectos a mais em relação àquilo que posso fazer, comenta ele.

Quando falas de energias renováveis que toda a gente em Portugal pode usar se quiser, estás a pensar exactamente em quê?

Em coisas tão simples como instalar em casas paredes que absorvem o calor durante o dia e o libertam à noite, ou em forros de cortiça. Ou no biogaz dos aterros sanitários, ou nos sitemas fotovoltaicos. Nas condutas de água de rega podem instalar-se micro-turbinas dentro dos canos. É ridículo, o que nós não fazemos. Desperdiçamos tudo, até a energia solar, até a matéria orgânica que, à falta de outra iniciativa, é atirada para as ribeiras em quantidades gigantescas, e ainda tem o problema de poluir a água. Temos complexo de país rico, e ainda por cima nenhum país rico faz isto – e, por isso mesmo, é que é rico.

Isso implicaria vontade política e organização nacional. Mas nós, individualmente, podemos contribuir de alguma forma para que se poupe mais energia em Portugal?

Claro que pudemos! Sessenta por cento da electricidade consumida no país é desperdiçada nos edifícios. Uma casa de habituação não precisa de ter ar condicionado. Se estiver bem isolada, não precisa mesmo. Sabes que cinquenta por cento da energia que se consome se perde através do telhado? Basta um bom isolamento do telhado, que até podemos fazer por nós próprios com rolhas usadas, e isso acaba-se. Depois é importante instalar janelas de vidro duplo com vácuo no meio. Digo-te uma coisa: este escritório não tem aquecimento nem ventilação. E estamos bem, não estamos? Além disso, podemos sempre instalar paineis solares para o aquecimento da água, com a quantidade de horas de sol que cá temos: fazes um investimento inicial de 3500 a 5000 Euros, que podes pagar em sete anos, o teu duche passa a ser de graça e reduzes substancialmente as despesas para a aquecer a água nas máquinas. E isto dura-te vinte ou 25 anos. Estás a ver, nem precisas de querer salvar o planeta para fazeres estas opções: basta-te quereres reduzir as tuas despesas energéticas.

Todas essas iniciativas precisam de ter benefícios fiscais para atraírem verdadeiramente as pessoas.

Pois claro, e nesse ponto a nossa legislação fiscal só mete água. Repara neste disparate. Compras uma casa. Queres isolá-la toda muito bem? Pagas 21% de IVA. Queres instalar uma boa caldeira de gaz natural? Pagas 12% de IVA. Continuas a gastar recursos e a contaminar o ambiente, e limitas-te a eleftrificar tudo? Pois bem, só pagas 5% de IVA! O melhor sistema de consumo é o mais penalizado. Faz algum sentido? Premeia-se a forma mais parva de aquecer ou refrescar a casa, que tem que ser queimada termicamente no Carregado ou tirada do carvão em Sines, depois perde 11% nas linhas eléctricas, perde ainda mais com os equipamentos de conversão da electricidade, e acaba por só ter 25 ou 20% da eficiência original. São grandes erros, que desmotivam as pessoas, claro.

Então fala-me de outras coisas simples que podemos fazer.

Podemos arrancar todas as lâmpadas convencionais, que só dão vinte por cento de luz e os restantes oitenta por cento são calor. E as de halogéneo ainda são piores. Em vez disso, instalamos lâmpadas económicas, daquelas fluorescentes pequeninas que há no Aki, no Jumbo, em qualquer grande superfície. Estas lâmpadas têm cinco vezes mais potência que as outras fontes de luz, e agora apareceram outras que nem sequer têm gasto de energia. Não é melhor para toda a gente?

Também já te ouvi falar dos frigoríficos.

Há frigoríficos em categorias que vão do A+ ao E, e hoje em dia a menção no rótulo é obrigatória. Os A+ fazem exactamente o mesmo que os outros, mas com muitissimo menos consumo energético. São ligeiramente mais caros, mas, com o tempo, até isso compensa.

E os plasmas? Ainda não pecebi se são bons ou maus.

Se não leres os papeis, ainda te arriscas a descobrir que tens em casa um bicho que te consome uma energia doida em cada hora que está ligado. Mas há outros que não consomem nada. E nós nunca devemos esquecer-nos de que vamos comprar o equipamento uma vez, mas a seguir vamos viver com ele durante anos e anos.

Também passamos pelo mesmo com os automóveis.

Podemos sempre comprar um Smart. Ou então um híbrido, que é a melhor solução. Arranca-se com o motor eléctrico, e basta um sinal vermelho para o motor se desligar. Um motor normal está sempre a funcionar, mas estes só funcionam quando é mesmo preciso. Também se desligam nas descidas. Mesmo que não estejas a querer evitar o aquecimento global, sentes os resultados na carteira. É de tal maneira que as grandes empresas que não quiseram saber dos híbridos, como a Ford ou a General Motors, hoje estão falidas; enquanto que a Toyota, que investiu nisto a fundo, é a marca com maiores vendas e tem toda a gente na lista de espera para comprar um híbrido.

Qual foi o truque?

Aquela gente percebeu antes dos outros que um condutor quer é ir de uma lado para o outro com rapidez e conforto. Coisa que nós, em Portugal, temos imensa dificuldade em conseguir. Já viste bem que engarrafado que está este país? Isso acontece porque as nossas necessidades são fundamentalmente de energia útil, mas a classe política responde ou com infra-estruturas ou com energia primária.

Podes dar um exemplo?

Então, andam a cobrir o país de auto-estradas todas paralelas umas às outras, em vez de darem prioridade ao comboio e ao metro, por exemplo. Já vamos em cinco auto-estradas paralelas e oitenta por cento são ao longo e todo o litoral, e estamos a falar numa faixa que não tem mais de cinquenta quilómetros de largura entre Setúbal e Braga. Vamos acabar por ter seis autoestradas paralelas entre Lisboa e Cascais. Hoje, tu chegas à Figueira da Foz por três autoestradas, a Aveiro por duas, à Guarda por outras duas... e não se investe no desenvolvimento do combio! Alguma coisa está muito mal no sistema se a forma mais rápida e cómoda de chegar de Lisboa ao Porto é o automóvel particular, incluindo as portagens. É um absurdo. A economia individual é a deseconomia do país. Se as pessoas tivessem metro no aeroporto, nas estações de comboio, a fazer ligações para as periferias, não precisavam de estar horas dentro dos autocarros no meio do trânsito. Muita gente, nestas circunstâncias, desiste dos transportes públicos e mete-se antes no seu próprio automóvel, que sempre está mais à vontade; e daí resulta este efeito patético de termos um país sobreindividado com a compra de automóveis. Mas repara, alguém chega ao aeroporto em Londres e gasta uma fortuna a meter-se num taxi que vai estar horas e horas num engarrafamento? Claro que não. Vai tudo para o centro de metro, porque a estação está logo ali. Entre nós, até as mercadorias são obrigadas a sair do aeroporto de carro! Pode ser. Sabes que temos mais camiões a transportar mercadorias nas nossas estradas do que os próprios Estados Unidos? É suicida. O nosso sistema de deslocações é suicida. Parece que os governos portugueses não conseguem gerir sistemas grandes e complexos. Deixam o caminho de ferro ao abandono a acumular centenas de milhões de Euros em dívidas, descuram os portos e aeroportos, e apresentam uma oferta péssima à população.

Também não temos comboio para atravessar a ponte Vasco da Gama, que já foi construída quando todas essas coisas estavam mais que estudadas.

Bem essa foi uma daquelas guerras que eu perdi e não posso perdoar a mim próprio. Fazer a ponte naquele sítio, antes de mais nada, implicou a destruição dos soberbos terrenos agrícolas do Montijo e de Alcochete. Foi dar carne do lombo à construção civil, enquanto que, no Barreiro, temos centenas de hectares contaminados mas que fazem parte de uma frente de rio magnífica, com uma vista linda para Lisboa. Ainda por cima, a Vasco da Gama, feita de raiz recentemente, não tem comboio; e, na 25 de Abril, só devia passar o metro. Não pode lá passar um TGV, por exemplo. Mas isso seria possível se se tivesse feito a tal ponte no Barreiro. Ficavam todas as linhas ligadas, aéreas e subterrâneas, o metro juntava-se ao comboio, desapareciam as barreiras físicas entre o Norte e o Sul, era perfeito para os nossos problemas de mobilidade. Além de que se poderia ter construído uma cidade fantástica, aberta para a margem, onde o terreno não sustenta agricultura, em vez de encher de caixotes de habitação os solos magníficos onde desagua a Vasco da Gama. Resultado: Portugal tem um dos PIBs mais baixos da União Europeia e está entre os cinco países com mais automóveis particulares por habitante! Isto, além de afectar a qualidade de vida das pessoas, encharca o ambiente em dióxido de Carbono. Sabes que Portugal está completamente em falta em relação aos acordos de Kyoto? Ninguém gosta de dizer isto, mas, em termos de impacto global do nosso comportamento pessoal, estamos a portar-nos tão mal como os americanos. O ar da Avenida da Liberdade, apesar do vento marítimo que vem da Serra de Sintra, é o mais poluído da Europa!

Então vamos já ao que aqui nos trouxe: tu achas que é por causa do aquecimento global que o nível do mar está a subir e a Caparica e o Algarve estão a desaparecer?

E isso também vai acontecer na Ria de Aveiro. Em relação à Caparica, que é neste momento o exemplo mais dramático deas consequências de má gestão humana da paisagem e do ambiente, nunca se deveria ter destruído o banco de areia que, até há cerca de trinta, quarenta anos, sempre ligou o Bugio à Cova do Vapor. Fazia-se aquele caminho todo a pé, lembras-te? Destruiu-se o equilíbrio das areias, que costumavam ser empurradas todos os anos para aquela zona. Por outro lado, a construção mesmo em cima das arrribas fez aumentar dramaticamente o nível de erosão. E, por cima de isto tudo, de facto, temos a subida global do nível do mar por causa de todo o gelo que está a derreter nos pólos, em consequência do aquecimento da atmosfera causada por acumulação de dióxido de Carbono libertado pela actividade humana.

Essa parte, claro, não afecta só a Caparica.

Todos sabemos que isto está hoje em curso em todo o planeta, e que está a ser terrivelmente rápido. Tu vais à Gronelândia e vês a linha de recessão de glaciares, e olha que não são centímetros, são metros e metros de gelo que desaparecem todos os anos. Os ursos polares, que não tinham quaisquer problemas de sobrevivência, estão hoje ameaçados de extinção porque as placas de gelo no Ártico estão a ficar tão finas que se partem quando eles tentam subir para cima delas – e, depois de horas e horas sem conseguirem pisar terra firme, morrem afogados. Se isto continuar a evoluir no mesmo sentido, se não fizermos nada, vamos ter consequências terríveis ainda dentro da nossa expectativa de vida, dentro de vinte ou 25 anos. E o que me desespera mais é que já desde 1991 que se sabe isto tudo! Nessa altura o Al Gore já tinha exactamente os mesmos slides que agora mostra no filme. A primeira reacção política internacional foi que não havia a certeza de que isto estava a ser causado pelo homem, depois que não se tinha a certeza que era do dióxido de Carbono, depois que não podiam por-se travões aos países em desenvolvimento como a Índia ou a China... É exasperante. Espero que, em Portugal, toda a gente tenha finalmente acordado com esta tragédia da nossa costa.