domingo, 18 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: O Filósofo da Bénard

O FILÓSOFO DA BÉNARD
As pessoas gostam muito de dizer que os portugueses são burros e que não têm nada entre as orelhas, mas eu regozijo-me quase todos os dias com pequenas revelações de que não é verdade que andem para aqui dez milhões de criaturas com o cérebro em coma. A desta semana, absolutamente deliciosa, foi-me entregue numa folha A4 por um empregado da Bénard, ali em pleno Chiado, numa dessas tardes em que parei lá por uns minutos para me refazer da chuva antes de seguir para casa. O que era aquilo? Muito simples. Há um jovem filósofo alemão, absolutamente brilhante e de seu nome Robert Kurtz, que vai escrevendo textos para tentar partilhá-los com o mundo. Esse filósofo alemão é amigo de um filósofo português. E este segundo rapaz, empenhado em não deixar apagar a chama, traduz cuidadosamente a prosa do colega para a nossa língua e distribui-a por vários locais – nomeadamente pela Bénard. O texto desta semana, intitulado Desarmamento moral: a cultura do escândalo como expressão da falta de perspectiva social, contém várias passagens notáveis, da quais transcrevo, por impossibilidade de monopolizar mais espaço, apenas isto: “A sociedade transformou-se num grande ninho de intriga global. Quando os conteudos se tornam indiferentes surge um capitalismo mental, com a sua espectacular economia da atenção”. Querem mais? Vão ver a exit-online.org. E, por favor, deixem de generalizar a acefalia crónica dos portugueses. Garanto-vos que o empregado que me passou o papel estava genuinamente entusiamado com o texto.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

ENTREVISTA: Ana Maria Rodrigues

Ana Maria Rodrigues
COMO QUEM VIAJA NO TEMPO

António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, historiador medievalista e contemporâneo, resistente antifascista, antigo director da Biblioteca Nacional, Gão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supermo Conselho do grau 33 (1991-1994), condecorado em 1998 com a Grão Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, autor de uma vasta obra de grande importância para o estudo da História de Portugal, faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vítima de problemas cardíacos. Tinha formado uma verdadeira escola, e deixado pelo caminho vários discípulos que foram, por seu turno, subindo nos escalões da carreira. Homenageá-lo, hoje, é, antes de mais nada, não deixar que a Idade Média desapareça do conhecimento imediato dos portugueses. Para recordarmos esse período único em todo o seu esplendor, pedimos ajuda a Ana Maria Rodrigues, Professora Associada do Departamento de História da Universidade de Lisboa, 49 anos, dois filhos, pronta a fazer uma grande festa, com viagem familiar e tudo, quando totalizar os 50. A sua especialidade é História Medieval, e os seus olhos brilham quando revela o que estuda. Fala tranquilamente, familiarmente, como quem viaja no tempo, do período menos compreendido e mais maltratado da História da Europa.

A cave da Faculdade de Letras tem corredores infindáveis com cacifos alinhados dos dois lados, inscrições nas colunas do tecto que ninguém se dá ao trabalho de ler, e um certo ar de última paragem neste mundo dos que foram sentenciados a deixá-lo. Na rua o frio continua a gelar os transeuntes, mas dentro do gabinete onde Ana Maria trabalha hoje estão os aquecimentos ligados e os casacos pesados vindos do exterior despem-se depressa. Uma mesa larga, um computador antigo, prateleiras a transbordar de papeladas, paredes vagamente cinzentas e janelas abertas para o sol gélido do exterior. Ela está linda, como sempre, com aquele seu ar que trouxe do doutoramento em França e nunca mais a largou. As pessoas atribuem à Idade Média tudo o que acontece de mal, diz ela.

Mas por que é que temos uma visão assim tão negativa do período medieval?

Foi na Idade Média que a nossa sociedade colocou a barbárie, a violência, o arbitrário... e, no entanto, hoje sabemos bem que não é tudo assim. Talvez tivessem existido alguns períodos que correspondam a esse imaginário global. Mas, hoje em dia, há vários autores que fazem a comparação entre a Idade Média e os nossos tempos, dizendo que nos aproximamos de uma nova Idade Média.

Porquê?

Por causa das migrações. Estaríamos perante uma nova invasão dos bárbaros...

Quem, os emigrantes de Leste?

Não. Esses vêm de uma cultura idêntica à nossa, muitas vezes até superior à nossa. E, assim que ganham algum dinheiro, vão-se embora. Poderíamos realmente falar dos romenos, por causa da raça cigana, que tem um código de honra completamente diferente do nosso. Mas já é esticar um bocado a corda. Os bárbaros em questão, segundo estes autores, seriam os argelinos, os marroquinos, enfim, os africanos. Isto em termos de opinião pública. Da mesma forma, os condomínios privados que agora existem seriam equivalentes aos antigos senhorios: instalam-se em domínios onde existe um afastamento dos outros, uma espécie de território próprio onde quem não pertence não entra. Nestes condomínios, as pessoas estranhas estão proibidas porque o Estado já não consegue assegurar a protecção da população em relação ao roubo e outras pequenas violências; e então introduzem-se aqui os seguranças privados, exactamente como existiam tropas especiais que protegiam o senhor do domínio.

Há mais exemplos do nosso novo período medieval?

Olha, se queres entrar numa grande empresa, não passas na segurança sem apresentares primeiro as credenciais, e tens que ser controlada enquanto estás lá dentro. Ou seja, há domínios de direito próprio dentro do que deveria ser uma democracia que constitui um Estado de Direito.

E voltando ao período medieval que já acabou, por que é que achas que hoje tem tão mau nome?

Provavelmente, por ser um período histórico extremamente longo. Basicamente, damos esse nome, que foi cunhado já pejorativamente pelos humanistas da Renascença, a todo o período que vai da Antiguidade Clássica à Renascença. O intuito dos humanistas do século XV era, precisamente, desvalorizar esse período e exaltar os seus próprios tempos, que tinham reatado com o grande conhecimento e beleza da Antiguidade. Até se usou por muito tempo tempo o termo “Dark Ages”, ou “Séculos Góticos”, remetendo para o obscurantismo, a violência, a falta de conhecimento do período medieval.

E tu não concordas, claro.

Então. Se houve de facto um início que pode ser considerado como um retrocesso, resultante da fusão entre a cultura romana e cristã e a cultura bárbara, depois esse período é seguido por várias ondas de criação de uma cultura nova, que já não é gótica nem obscura, e que está nos fundamentos da nossa cultura ocidental.

Diz-se que tudo muito condicionado pela Igreja...

Bem. Existem na Idade Média posturas positivas, dentro de um determinado caldo cultural que já não se conseguir reproduzir. Tem sido várias vezes assinalado nas últimas décadas que a Idade Média não possuía propriamente uma religião católica. Vivia-se, isso sim, dentro de um sistema que era religioso, em que a questão de se poder não acreditar em Deus ou de não seguir a fá cristã nem se punha. Um dos factores que caracteriza a fé islâmica é não existir separação entre a Igreja e o Estado: no período medieval, essa separação também não se fazia. Havia uma colaboração que por vezes podia ser mais difícil, mas que regra geral era muito afável. As duas entidades que nós consideramos separadas eram só uma na Idade Média. Nos Concílios, tratava-se assuntos tanto de moral e de religião como de política forma de governo, e isto dura até ao fim do século XI.

O que é que acontece no século XI?

Dá-se a Reforma Gregoriana, quando se tenta distinguir o que é que diz respeito ao papado e o que é que diz respeito ao império. As duas coisas estavam tão interligadas que os reis interferiam na Igreja, e a Igreja no poder régio.

E como é que isso passava para a vida quotidiana?

As pessoas eram cristãs como identidade profunda, que as marcava do nascimento à morte. Viviam numa civilização que acreditava no Além, o que permitia a vivência da miséria, do sofrimento, da opressão, com uma perspectiva de futuro muito mais livre, abundante e feliz. Com esta atitude coabitavam crenças mais antigas, relativas à magia, ao culto prestado em determinados lugares, que muitas vezes representava rituais anteriores ao cristianismo.

Essa vivência da fé chegava à legislação?

Os códigos das leis também tinham alguma inspiração cristã, mas as primeiras eram dos bárbaros. Foram legadas pelos Visigodos, pelos Ostrogodos, pelos Burgúndeos; e constituem uma transcrição por escrito dos códigos de Direito existentes entre eles a nível oral. Também entram nesses códigos algumas influências de Direito romano, mas poucas. A conversão dos bárbaros ao cristianismo foi mais tardia. Até aí, as suas leis são muito olho por olho dente por dente, e isto sem qualquer influência bíblica.

Temos, ou não temos, uma boa noção do que é que era considerado pecado na Idade Média?

Temos que ir buscar essa informação aos Penitenciários, ou seja, aos livros que prescreviam as penitências conforme a gravidade da ofensa a Deus, para os sacerdotes saberem que tipo de penas deviam aplicar aos fieis que vinham confessar-se. Isto aplica-se não só para os pecados da carne, que nos mostram que tipo de moral se seguia, mas também ao aborto, ao infanticídio, à masturbação, e por aí fora. As penitências costumavam ser de abstenção de sexo durante meses, senão anos, e de pão e água. As para o incesto, então, era horríveis.

Porquê especificamente o incesto?

A concepção de incesto é, neste época, muito mais vasta que entre nós. A Reforma Gregoriana excluiu o casamento com parentes até ao oitavo grau de proximidade, o que implicava quase toda a gente. Claro, podiam pedir licenças papais para serem dispensados. Concedendo ou não a dispensa, o papa fazia valer o seu poder. O controlo do matrimónio era também político: desta forma, os papas podiam reger a vida dos reis, e estabelecer fronteiras.

E o povo?

O povo não tinha forma de chegar ao papa, nem tinha dinheiro para as dispensas papais, portanto ou incorria em pecado ou ia procurar companhia fora da aldeia. Finalmente, no século XII, a proibição passou a ser apenas atá ao quarto grau, porque se tinha criado uma situação insustentável.

Bom, mas o pessoal podia pecar à vontade, certo? Só precisava de ir à confissão a seguir.

O cristianismo tem sempre isso de bom! O que é preciso, para a confissão funcionar, é que se esteja mesmo arrependido, e disposto a não voltar a repetir o pecado.

OK, mas isso não justifica todas as perseguições religiosas de que ouvimos falar.

Essas perseguições, no período medieval, são uma ideia-feita que não corresponde à verdade. As grandes perseguições só começara no dealbar da Renascença, por volta do século XV. Mesmo as histórias de perseguições a feiticeiras a bruxos são sobretudo do período Moderno.

Então no período Medieval não existiram perseguições?

Existiram perseguições a judeus, como é evidente.

Por que é que havia de ser evidente?

A expulsão dos judeus de Portugal em 1496 já tinha sido precedida por várias outras no Sul da Europa, com períodos de maior ou menor turbulência, sobretudo por motivos económicos. Os judeus praticavam a usura e cobravam as rendas reais, e tornavam-se odiosos porque as pessoas nem tinham que comer, e eram obrigadas a estar a pagar. Em Portugal também havia alguma preocupação com os muçulmanos. Foram expulsos da Península pelos Reis Católicos no século XV, mas até aí já viviam muito restritos na sua liberdade de movimentos. Praticavam a sua religião, tinham as suas escolas mas, pelo menos a partir de D. Afonso IV, tiveram que começar a usar roupas distintivas e viver em bairros fechados, onde as mulheres cristãs não podiam entrar porque se temia a miscigenação sexual entre mouros e cristãos, e eram sempre as mulheres quem caía ou fazia cair em tentação. Eram essencialmente agricultores e artesãos, gozavam de protecção régia, mas não se conseguiram evitar confrontos sangrentos quando as populações locais eram tomadas pela raiva.

E a Inquisição, aparece quando?

No século XIII, mas não contra os judeus. Forma-se antes para vigiar os cátaros, acusados de heresia por aceitarem uma religião dualista, em que o Bem e o Mal se degladiam constantemente pelo poder. Tudo o que está ligado à matéria é mau e tudo o que está ligado ao espírito à bom. Pensa-se que terão sido influenciados pelas culturas orientais na altura das cruzadas. Mas era uma Inquisição episcopal, eram os bispos que mandavam os inquisidores às dioceses onde existiam hereges, resultando dos seus julgamentos ou a expropriação de bens ou a morte pelo fogo.

E não eram torturados? Achas que a expressão corrente “tortura medieval” também não faz sentido.

Acho que até as torturas se tornaram muito mais requintadas e cruéis do século XV em diante. Mas a tortura existia, claro. Era considerada um meio legítimo de obter informações. Claro que a Joana d'Arc morreu na fogueira como uma herege, mas não sofreu torturas prévias, e este era um caso extremo, com fortes implicações políticas.

Também não existiam feiticeiras?

Existiam, sim. Mas as acusações mais extremas que lhe são dirigidas, como as de copularem com o Diabo nas noites de Lua Cheia, são formulações da Idade Moderna. Existem demónios na Idade Média, as pessoas têm sonhos, têm visões, mas não se dá a nada disto a importância que se dará mais tarde. O imaginário desenfreado dos demónios só se forma a partir do século XV, como aliás fica bem patente nas pinturas de Hyeronimus Bosh.

Olha, e cientistas? Podemos falar de cientistas medievais?

Entre muitos outros temos o Pedro Hispano, possivelmente o mesmo homem que, sob o nome de Pedro Julião, se tornou mais tarde no papa português João XXI. Ou só um autor ou vários autores, isso não se sabe, escreveram obras sobre as mais variadas ciências. O Tesouro dos Pobres é um livro fascinante de Medicina, de Magia, de estudo de muitas plantas curativas, e dos rituais a seguir durante a utilização dessas plantas.

E em termos de grandes romances medievais?

Ah, temos a história lindíssima da Heloísa e do Abelardo. Heloisa é uma jovem sobrinha doe um clérigo a quem o tio deixa ter uma educação pouco comum numa mulher da época, arranjando-lhe para o efeito, como preceptor, o grande filósofo Abelardo. Apaixonam-e os dois, Heloisa engravida, e isto causa graves problemas para ambos. Abelardo foi capado, e ela foi fechada num convento e viveu lá o resto da vida, mas trocou uma correspondência assídua com o homem amado,. Apesar das circunstâncias, manteve sempre vivos o amor e a independência de espírito, sem nunca se mostrar arrependida do que fez. Claro que, durante muitos séculos, se duvidou da autoridade dessas cartas, porque ninguém queria acreditar que uma mulher tivesse aquele nível de instrução e de capacidade filosófica.

ENTREVISTA: Ricardo Santos

RICARDO SANTOS
Como quem veio de longe

Por que é que fez muita falta escutar a voz dos filósofos durante todo o debate sobre o aborto que marcou os últimos meses da vida portuguesa? Provavelmente, pela mesma ordem de razões que torna tão desastrosa a eliminação dos exames de Filosofia no ensino secundário. Contemplando estas questões cruzadas que de uma forma ou de outra marcam a identidade nacional, Ricardo Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Professor Auxiliar da Universidade de Évora e investigador no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, quarenta anos, três filhos, fala com a grande calma de quem já veio de muito longe e sabe que tem pela frente um grande caminho. A Filosofia formou o núcleo duro dos primeiros passos científicos do mundo, e confronta-se com um futuro emocionante, pleno de desafios cada vez mais complexos. Trazê-los até aos mais jovens e imbuir a sociedade do seu espírito acutilante é a missão de todos os que se juntam à sua volta.

A Sociedade Portuguesa de Filosofia partilha o andar com outras sociedades científicas num prédio igual aos outros da Avenida da República. Está frio na rua, e as salas de pé direito elevadíssimo parecem todas completamente geladas. Um cinzeiro grande marca a zona de tolerância sobre a mesa de reuniões. Ricardo Santos deixou de fumar há pouco tempo, num esforço que lhe pareceu “curiosamente fácil”. A calma das suas respostas está infectada pela energia contagiosa dos que amam a sua área de estudo e não hesitam em partilhá-la com o mundo. O debate sobre o aborto tem sofrido de um abaixamento inaceitável, diz ele. E, aí, nota-se mesmo a falta dos filósofos.

Porquê?

Porque em Portugal ouviu-se muito pouco a voz dos filósofos a debater esta questão, quando há muito trabalho de reflexão filosófica sobre o problema ético do aborto que era importante ter em conta. E também porque a formação em Filosofia nos dá uma grande disciplina de argumentação, que nestes casos faz toda a diferença. Um filósofo está, em princípio, mais preparado para evitar os erros mais frequentes num debate: conclusão precipitada, petição de princípio, problemas ambíguos, uso de falácias. Estamos precavidos contra o apelo à emoção, o escamotear da informação, a utilização de informação manipulada intencionalmente, temos esse arcaboiço. Que é sempre um contributo valioso para um debate público tão importante como este.

O que diria um filósofo sobre o aborto, se lhe perguntassem?

Por exemplo, começaria por mostrar que a questão do aborto está intrinsecamente ligada ao problema da vagueza.

E isso é o quê?

É um problema muito antigo, conhecido desde a Grécia antiga, sob a designação de “paradoxo de sorites”. Quantos grãos de areia são necessários para formar um monte? Se eu tiver três grãos de areia, não tenho um monte. E se só tiver quatro, também não. Em geral, se não tenho um monte, e acrescento apenas mais um grão, não passo a ter um monte. Mas, por este raciocínio, seria levado a concluir que uma enorme duna na Costa da Caparica também não é ainda um monte, pois os grãos de areia que a formam foram, imaginemos, acrescentados um a um. Ora, há muitos casos análogos. Por exemplo, os carecas: a partir de quantos cabelos é que passo a ser careca? E, no caso do desenvolvimento do feto, a questão é a de saber ao fim de quantos dias passamos a ter um ser humano.

Parece um problema filosófico criado de propósito para este debate.

Ele mostra que há certos processos de mudança – de uns quantos grãos de areia para um monte, de cabeludo para careca, ou de óvulo fecundado para ser humano – que, devido ao seu carácter contínuo, tornam muito problemático o estabelecimento de uma linha divisória precisa. Será que essa linha não existe, e por isso haverá certas pessoas das quais não é verdadeiro nem falso dizer que são carecas, ou ela existe, mas nós não a conhecemos? No caso do aborto, esta dificuldade parece favorecer mais a posição conservadora, pois todos recusamos o infanticídio e, se não houver linha divisória, o aborto será tão grave como o infanticídio. Mas isto é apenas um exemplo de como há muita coisa pensada e estudada pelos filósofos sobre problemas desta natureza, que são relevantes e que seria importante ter trazido para iluminar mais o debate.

Então por que é que o Ricardo acha que os filósofos não foram chamados a participar?

Por pura ignorância? É uma possibilidade. Desconhecendo a Filosofia, é provável que se conclua, logo à partida, que ela não tem coisas relevantes para trazer para este debate. Mas eu creio que, no afastamento dos filósofos, há também uma boa dose de preconceito: considera-se a questão do aborto demasiado séria para justificar suportar-se esta problematização fria, abstracta e racional dos filósofos. Mas sentimos a falta deles quando a questão começa a ser discutida de um modo que abusa do apelo à emoção ou que pede sobretudo a identificação das pessoas com certos grupos de opinião, sejam eles católicos, feministas, esquerdistas ou outros.

Há mais problemas filosóficos que sejam relevantes num debate tão humanamente dilacerante?

Há, e são completamente ignorados pela maioria das pessoas. Cito-lhe mais um exemplo: o problema da consciência e da capacidade de sentir dor. Quando é que isso começa no desenvolvimento do feto? Não se tem conseguido responder. E será possível algum dia responder? Ora, a Filosofia tem uma longa tradição de reflexão sobre o conhecimento das outras mentes. Como posso eu conhecer a consciência do outro? Como posso conhecer a dor dos outros sem a ter, se a dor é uma experiência completamente privada? Cientificamente, podemos tentar postular medidas observáveis que tomamos como reveladores da presença de consciência. Mas como é que vamos justificar esta correlação entre o observável e o inobservável? Todo esse legado de problematização que existe na Filosofia devia ter sido trazido para a linha da frente.

E eu que, dos problemas filosóficos, só conhecia aquela história do barco reconstruído...

Ah! Esse é o barco em que Teseu regressou a Atenas depois de vencer o Minotauro. Os atenienses decidiram preservá-lo e, à medida que as tábuas envelheciam, eram substituídas por novas. A dada altura, restavam muito poucas tábuas originais e colocou-se a questão: É este ainda o barco de Teseu? Actualmente, fazemos uma modificação do problema: o barco sai de um porto, empreende uma grande viagem, leva madeira no porão, e vai uma chalupa atrás. Durante a viagem, os marinheiros têm que ir mudando as tábuas, e vão deitando fora as velhas. A chalupa que vai atrás aproveita as tábuas velhas para reconstruir o barco. Quando regressam ao porto, o barco da frente não tem nenhuma tábua original, e o barco que vem atrás tem essas tábuas todas. Qual deles é o barco que partiu à frente? E, a ser o segundo, como é que a tripulação que partiu no primeiro barco mudou de barco sem nunca ter desembarcado?

Com tantas contribuições interessantes para oferecer ao nosso pensamento, por que é que o Ministério da Educação decidiu abolir os exames de Filosofia?

Não sabemos. A sério. Já perguntámos várias vezes, e nunca obtivemos resposta. Ficamos numa completa perplexidade, porque o que temos pela frente parece uma medida puramente administrativa, da qual se desconhecem os fundamentos, didácticos, científicos, ou outros.

Será embirração particular da Ministra?

Esta medida é completamente contraditória com o restante discurso da própria Ministra sobre a disciplina, que continua a ser obrigatória em todos os cursos no 10º e 11º anos. Isto implica que a Filosofia é importante para a formação geral dos estudantes, pelo que não se percebe por que é que para Português existe um exame nacional, e para Filosofia não.

A mim parece-me uma medida ainda mais grave do que abolir a disciplina. É uma forma explícita de dizer que embora tenha que se ouvir falar “daquilo”, “aquilo” não é importante. É tão pouco importante que nem se justifica existir exame.

Há um conjunto de razões que tornam esta medida contra-producente. A ideia-chave por trás de um exame é ter uma medida de aferição: um instrumento que, associado a outros, permite aos agentes do processo educativo aferir a sua acção e gerir uma série de coisas. Sem exame, ficamos privados da informação que daí derivava. Essa informação permite-nos ver se os programas estão a ter bons resultados, se os manuais estão a ser úteis, se os métodos são adequados. Com o exame, também temos funções de normalização do ensino da disciplina nas várias turmas que há em cada escola e nas várias escolas que há ao longo do país. No que diz respeito aos estudantes, é mais que sabido que a sua atitude perante uma disciplina, nomeadamente no esforço que ela merece, muda completamente conforme ela tem ou não exame. É fundamental que esta disciplina exista, e não ter exame é um sério revés para a sua imagem de seriedade.

Na sua opinião, quais vão ser as consequências da abolição do exame?

Vamos ter várias consequências, a nível dos vários agentes envolvidos. Do lado dos alunos, vamos certamente ter um forte desinvestimento quando a matéria que está a ser ensinada não vai ser sujeita a avaliação externa. Só quem não tem experiência de ensino é que pode não saber disto. Os professores também mudam as suas práticas consoante existe ou não um exame nacional. Os manuais, os autores, as editoras, o próprio Ministério da Educação quando está a fazer programas e a monitorizar a sua aplicação, todos vão ressentir-se. Não existe só um efeito: a abolição dos exames provoca uma multiplicidade de efeitos que dá uma boa medida da importância do ensino da Filosofia na sociedade portuguesa, tanto qualitativa quanto quantitativa. Vamos saber menos sobre Filosofia do que devíamos, e vão ser menos as pessoas a interessar-se por ela.

Bom, e aqui põe-se a vexata quaestio... para que é que serve a Filosofia?

Se pensarmos só ao nível de um utilitarismo mais básico, não serve para consertar canos. Claro que não. Mas também não é isso que queremos dar aos nossos estudantes. Se fizermos a pergunta com um sentido mais economicista, no sentido de o que é que se ganha com isso, aí já podemos ter nuances na resposta. O mundo contemporâneo é diferente na forma como mede o valor de mercado das coisas. Como actividade intelectual, a Filosofia produz resultados que não é completamente óbvio que não tenham valor de mercado. Até em Portugal já houve livros de Filosofia que foram best-sellers. Ainda recentemente houve notícias de empresas norte-americanas a recrutarem filósofos para os seus conselhos de administração. Mas as coisas têm que ser vistas de outra maneira.

Como?

A Filosofia serve verdadeiramente para fins de carácter intelectual. É um instrumento que é insubstituível para desenvolver nos nossos jovens a capacidade de pensamento e de análise crítica de problemas e de argumentos. E também uma capacidade invulgar de interpretação de textos. Sempre foram estes os verdadeiros contributos da Filosofia. Há outras áreas do saber que cultivam também este género de capacidades, daí que muita gente sublinhe a proximidade da Filosofia com a Matemática, com a Física, com a História ou com a Literatura. Mas a Filosofia reúne, por tradição, esta capacidade que lhe é muito própria de desenvolver habilidades de análise e de pensamento crítico, de reflexão autónoma, que não se encontra noutras áreas. É fundamental para a formação de cidadãos autónomos, intervenientes no espaço público, na vida da sociedade.

O Ministério terá tomado esta decisão por a Filosofia ser considerada particularmente difícil de ensinar?

Eu fui professor do secundário, e posso responder pela minha experiência. A Filosofia não é mais difícil de ensinar do que outras disciplinas. A Matemática, a Física, a História, a Literatura, são de um ensino igualmente complexo. Claro que não podemos ensinar jovens de quinze e dezasseis anos como ensinamos os universitários, mas estes alunos têm uma coisa maravilhosa do seu lado: são de uma curiosidade intelectual inesgotável, ainda muito crua, sem deformações. Parecem esponjas. E isso faz com que captem e sejam captados pelo essencial dos problemas de que a Filosofia vai tratar.

Já falámos do problema da vagueza, do paradoxo de sorites, da questão da consciência, do barco de Teseu...

Sim, esses são bons exemplos de problemas filosóficos, importantes e também interessantes, que podem ser apresentados de modo claro e acessível. O barco de Teseu tem de ser explicado aos alunos do secundário como um problema sobre a identidade e a persistência dos objectos. Relaciona-se facilmente com o célebre aforismo de Heraclito “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”: os elementos que compõem um objecto são substituídos por novos e isso leva-nos a questionar a identidade do objecto. Platão interpretou o aforismo pelas suas consequências epistemológicas: se o mundo visível está em constante mudança, se nele tudo é fugaz e nenhum objecto persiste no tempo, então não podemos conhecê-lo, pelo que não poderia haver uma ciência deste mundo. De onde Platão infere que o mundo que vemos não é a verdadeira realidade.

Ou seja, tudo é questionável.

Não há dúvida de que os problemas filosóficos têm a particularidade de pôr em causa de modo surpreendente as ideias feitas, coisas que parecem evidências para o senso comum. Como a relação entre o pensamento e a existência, por exemplo. Tendemos geralmente a achar que podemos pensar no que não existe, mas será que podemos mesmo? Se uma coisa não existe, como posso realmente pensar nela? Não vale responder que a coisa existe no meu pensamento, que tenho uma imagem mental do diabo, por exemplo, e que é nela que penso quando penso no diabo. Porque essa imagem ou representação mental existe e, nesse caso, não estaria a pensar em algo que não existe. Mas se o pensamento está necessariamente vinculado à existência, daqui decorre que, se consigo realmente pensar em algo – em deus, por exemplo –, então isso existe. O que seria uma prova surpreendemente fácil da existência de certas entidades. Como os números, por exemplo.

É dessas coisas que se fala nas aulas de Filosofia do secundário?

Sim, entre muitas outras. Mas é preciso que os professores usem a linguagem e os métodos adequados. E que possam socorrer-se de bons materiais didácticos, como manuais escolares de qualidade. As coisas têm melhorado bastante ultimamente, mas há ainda muito a aperfeiçoar.