domingo, 21 de janeiro de 2007

LER: Erasmo, a Renascença e o Humanismo

Esta biografia de Erasmo de Roterdão, publicada por Ivan Lins em 1997 na Editora Civilização Brasileira, é, no mínimo, surpreendente. Mais do que a simples história do homem que nos deixou O Elogio da Loucura e provavelmente as melhores reflexões sobre a necessidade de reforma da Igreja católica, é a história de toda uma Europa em mudança, toda uma crise de valores que preside ao nascimento de uma nova religião, e de todo o pano de fundo que anima a organização do movimento humanista na Renascença que nos é contada, com grande riqueza de pormenor e um rigor factual infelizmente raro nas obras que se destinam à instrução de públicos mais alargados. Erasmo aparece-nos aqui como a figura pivotal em torno da qual se tece toda a trama complexa da sociedade e da moral do seu tempo, de toda a geografia europeia dos séculos XV e XVI. Erasmo é, sem dúvida, um dos grandes espíritos que a humanidade produziu na sua caminhada, e o que já se escreveu a seu respeito forma em si mesmo uma biblioteca vastíssima. Mas Ivan Lins consegue escrever o ainda não escrito, detendo-se com habilidade e precisão sobre as ideias, os hábitos, os costumes e as dilacerações do período abrangendo, reconstruindo um espírito que chega por vezes a surpreender-nos pela sua riqueza e capacidade de questionamento das certezas herdadas. O livro está acessível em diversos alfarrabistas, e também pode ser encomendado on-line.

OBITUÁRIO: Ray-Gude Mertin

Desde que, no início da semana passada, correu na internet a notícia da morte súbita da Ray-Gude Mertin, os escritores portugueses sentem-se subitamente orfãos. E não são só os portugueses: são todos os autores da diáspora lusófona que perderam sem aviso a sua fada madrinha. Em Outubro, na Feira de Frankfurt, ela estava ainda na maior, cheia de energia e transbordante de projectos. No Natal, trocámos as duas umas mensagens bem divertidas sobre o meu último romance, que ela já tinha em mãos, pronta para o assalto ao mercado. Consta que terá sido o regresso à superfície de um antigo episódio cancerígeno. Mas ninguém sabe ao certo. A Ray-Gude, com o seu cabelo loiro sempre cortado curto e os seus olhos azuis sempre atentos, parecia-nos eterna desde há décadas. Era alemã de origem e residência, mas tinha vivido vários anos no Brasil. Falava, lia e escrevia o português com grande fluência, e amava sinceramente a escrita portuguesa. Com o tempo, foi-se transformando na agente literária de todos nós. Conhecia-nos pelo nome, acompanhava-nos com frequência tanto nos momentos rápidos de triunfo como nas horas amargas das pequenas crises pessoais, lia os nossos livros todos e batalhava por eles no mundo com uma genica desconcertante. Para cada um de nós, convertia-se depressa numa amiga daquelas com quem se pode contar. Descobria-nos as editoras mais adequadas, os tradutores mais indicados, as linhas promocionais mais apropriadas, e ainda tinha tempo para nos dar a mão em alegrias de filhos ou desgostos de divórcios. Corria por nós o planeta inteiro, e para nós estava sempre disponível. Deixou-nos de repente. E todos ficámos sem mapa nem bússola, subitamente sozinhos.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

AGENDA: Ciclo de Conferências sobre Ciências Documentais

A Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em colaboração com o Instituto Cervantes de Lisboa, vai realizar um Ciclo de Conferências sobre Ciências Documentais. As conferências serão proferidas em castelhano e terão lugar no Auditório da Biblioteca Victor de Sá da Universidade Lusófona, situada no Campo Grande, 380-B, Lisboa. A inscrição online pode ser feita aqui.

Programa

19 de Janeiro (sexta-feira): 14h30
Fundamentos dos Estudos Bibliométricos
por Mª Ángeles Zulueta García (Universidade de Alcalá, Madrid)

«A bibliometria é uma disciplina incluída no campo da documentação científica, que tem como objectivo a análise e avaliação da actividade científica mediante a aplicação de técnicas estatísticas aos diferentes elementos bibliográficos, contidos nos documentos científicos. Surgiu como resultado da curiosidade dos próprios investigadores para conhecerem o seu âmbito de trabalho mas hoje converteu-se numa ferramenta muito importante para a tomada de decisões em políticas científicas e para a gestão de bibliotecas especializadas.»

26 de Janeiro (sexta-feira): 14h30
A Biblioteconomia e a Documentação como objecto/s de Investigação
Esperanza Martínez Montalvo (Universidade de Alcalá, Madrid)

«O objectivo de nos familiarizarmos com o conhecimento da área da documentação de um ponto de vista científico, pressupõe uma grande complexidade, uma dificuldade que se manifesta desde as suas origens devido ao carácter multidisciplinar e ao aparecimento de numerosos contributos teóricos que a trataram a partir de perspectivas muito divergentes, dando lugar a definições muito díspares e à utilização de termos muito distintos para a designar. Penetrar no seu entendimento supõe reconhecê-la, não só como uma realidade que tem de ser analisada, medida e compreendida mas também como produto cultural que há que desenvolver e gerir, em constante processo de criação. É um saber que faz parte das características comuns da Ciência e que aplica métodos científicos para a recolha, classificação, ordenação e interpretação dos dados, por forma a chegar aos princípios e às causas mais gerais da actividade científico-informativa da qual se ocupa.»

9 de Fevereiro (sexta-feira): 14h30
A avaliação em Espanha dos Serviços de Informação e Documentação para uma integração no espaço Europeu
Ana Isabel Extremeño Placer (Universidade de Alcalá, Madrid)

«O desenvolvimento de sistemas de garantias de qualidade constitui uma prioridade do espaço Europeu de Educação Superior. Neles de incluem os processos de avaliação da qualidade dos serviços que prestam as Universidades Espanholas, entre os quais destacaremos, pela sua relevância na aprendizagem, docência e investigação, os serviços prestados pelos Centros de Informação e Documentação. A Agência Nacional de Avaliação da Qualidade e Acreditação (ANECA) será órgão responsável por cumprir esses objectivos seguindo as recomendações internacionais que são sustentadas pelo modelo EFQM, desenhado pela própria agência, para tal fim.»