quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
EFEMÉRIDES: SIDÓNIO DE FREITAS BRANCO PAES
Foi vítima de um cancro no fígado aos 76 anos, mas esteve até duas horas antes de morrer a ditar tranquilamente à sua mulher, Lurdinhas Sassetti Paes, o último ensaio que escrevia para a revista Brotéria. O corpo de Sidónio de Freitas Branco Paes desceu à sepultura dia 4 de Dezembro de 2006, enquanto que a alma, para os crentes como ele, de certeza que subiu aos Céus. Com a morte deste homem incomparável, perdido melómano, espantoso sábio e rigoroso esteta, Portugal perdeu um dos seus cérebros mais brilhantes e uma das suas mentes mais enciclopédicas. Dizia Sidónio em várias ocasiões, com o seu pensamento sempre inquieto e atento, que faltava hoje ao mundo um visionário do Bem, como em tempos os tivémos em Jesus, ou em Ghandi. Não era qualquer caminho que poderia libertar-nos do esclavagismo materialista em que vivemos: esse caminho, para de facto nos libertar, teria que apontar no sentido de conceitos todos eles riscados do dicionário moderno, como a justiça, a fraternidade, ou a compaixão. Foi na procura desse caminho que Sidónio Pais viveu e morreu, entre livros, correspondências, conversas aturadas e actos persistentes de cidadania. Além, mais tardiamente, do encorajamento e das aulas de História da Música que ministrou durante anos, gratuitamente, em sua casa, a vários pupilos de idades entre os 7 e os 62 anos, entre eles um dos seus oito filhos, Bernardo Sassetti. Há menos de um mês, recomeçara a ler Cesário Verde, descobrira-lhe novos engenhos e colorações, começara a escrever um ensaio e citava sonetos de cor. É este entusiasmo perante busca da perfeição que nos fica como sua herança, e imperdoável seria deixá-lo alguma vez arrefecer.
NA CAIXA DO CORREIO: O BARÃO VOADOR
O barão Karl Friedrich vom Munchausen, que já mereceu vários livros e dois filmes, viveu entre 1720 e 1797 e distinguiu-se pela sua capacidade fenomenal de contar histórias de guerra e de caça absolutamente fantásticas e imaginativas. Viveu uma vida aventurosa, com duas campanhas militares na Turquia enquanto capitão de cavalaria do exército russo, e, entre as suas medalhas de glória, conta-se até, provavelmente, a de ter sido amante da Imperatriz Catarina. Sabe-se que, enquanto no activo, se diz ter percorrido a Rússia, o Mar Cáspio, as Islândia, a Turquia, o Egipto, Gibraltar, o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. Teria até visitado a Lua, tomando devida nota dos métodos para cozinhar seres humanos aqui utilizados. Depois da reforma, transformou-se num conversador de renome, e deixou-nos uma longa lista de aventuras tão ousadas quanto imaginárias.
Por exemplo, terá usado cerejas como balas durante um cerco...
Terá sido amarrado a uma bala de canhão e assim projectado para além das linhas inimigas...
E, era esta a história a que eu queria chegar, um dia fugia a cavalo de uma hordem de inimigos. Começaram a atravessar um pântano, e, acto contínuo, o cavalo começou a afundar-se. Os inimigos estavam cada vez mais próximos. Para se salvar...
Por exemplo, terá usado cerejas como balas durante um cerco...
Terá sido amarrado a uma bala de canhão e assim projectado para além das linhas inimigas...
E, era esta a história a que eu queria chegar, um dia fugia a cavalo de uma hordem de inimigos. Começaram a atravessar um pântano, e, acto contínuo, o cavalo começou a afundar-se. Os inimigos estavam cada vez mais próximos. Para se salvar...
NA CAIXA DO CORREIO: DESEMPREGO
Portugal tem 54 mil licenciados desempregados. Os panditas do comentário deixam cair este número como se estisessem a referir uma desgraça específica, que é a de existirem demasiados jovens que preferem a Universidade ao trabalho imediato menos qualificado. E é assim: quem faz esta associação de ideias é parvo. Em primeiro lugar, a única e verdadeira desgraça implícita neste número é a reconfirmação de que Portugal não tem iniciativa empresarial nenhuma, não tem imaginação, não tem criatividade, não investe na qualidade, não sabe crescer: há uma imensa falta de quadros a coexistir com estes potenciais quadros que não encontram emprego. E, em segundo lugar, com toda a franqueza: asdesde quando é que as Universidades são agências de emprego? Parece-me que são antes polos de excelência e santuários de conhecimento, e se em vez de licenciados fossem 54 mil doutorados que estivessem desempregados isso bastaria para este cantinho ser um país melhor, porque os seus cidadãos seriam mais inteligentes, de raciocínio melhor treinado e capacidade superior de associação de conceitos. Até talvez fossem menos coniventes com o esclavagismo economicista que alastra por aí, e talvez até soubessem explicar porquê com clareza e coerência, fornecendo aos outros bases mais sólidas para pensarem na razão de ser deste pantanal. Menos universitários só representam um país mais estúpido. E, por isso, mais manipulável. Será mesmo isso que a gente quer?
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