domingo, 8 de outubro de 2006

NA CAIXA DO CORREIO: UM POEMA TÃO SIMPLES

Chegou finalmente ao topo da minha pilha de leituras nocturnas o volume Contos Apátridas, com contribuições de cinco autores de língua espanhola em torno da ideia da pulverização da pátria, editado pela Asa já há mais de um ano. Todos os contos são muito bons, e a forma como a noção de pátria muda de sentido em cada um deles deixa-nos sempre surpreendidos. Mas, a mim, o que me seduziu acima de tudo foi uma visita especial presente em Antiga Morada, de Antonio Saraiva. É um poema tão simples quanto evocativo escrito há mais de mil anos, da autoria de um poeta taoista chinês chamado Li Po, É uma joia belíssima, que nos fere exactamente pela noção da intemporalidade dos fenómenos. Reza assim:

Aqui foi a antiga morada do rei Wu.
Livre cresce hoje a realva nas suas ruínas.
Mais ao longe, o imenso palácio dos T'sing, outrora tão sumptuoso e tão temido.
Tudo isso foi e já não é, tudo chega ao seu término.
Os acontecimentos e os homens viajam para a morte,
Assim como as águas do rio azul correm até se perderem no mar.

E agora, volvidos tantos séculos, algum de nós conseguiria alguma vez dizer isto melhor?

NA CAIXA DO CORREIO: SABEDORIA

Passei uma tarde inteira a catalogar os livros da biblioteca do nosso Centro. É uma experiência estranha, passar tantas horas as segurar volumes, a ler títulos e subtítulos, a folhear índices e prefácios, a ler notas de contracapa. Tanta sabedoria que está ali concentrada, quieta e calada, longe do mundo. Nós às vezes vamos buscar um dos livros, de que estamos a precisar ara o nosso trabalho, corremos-lhe as páginas com os olhos até encontrarmos a parte de que íamos à procura, estudamos cuidadosamente essa secção, retiramos dela o que precisávamos, e depois devolvêmo-lo à prateleira. É diferente quando encaramos os livros todos de uma vez, mais de um milhar deles, recheados de informações e paisagens e visões de outrém, de histórias longínquas e de contovérsias prementes, num jorro inquieto de estudos e pensamentos que nos dá vontade de mergulhar a fundo e só voltar à superfície muito depois. Fica-se irremediavelmente impressionado quando se mede o esforço de saber e entendimento que tem agitado o mundo desde que os humanos caminham sobre a sua superfície. Dá vontade de parar tudo para ficar ali a saber mais, cada vez mais. Não há nada mais empolgante do que a aventura do conhecimento.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

NA CAIXA DO CORREIO: O OVO DE COLOMBO

Tenho um amigo que passou o último ano lectivo de licença sabática no Museu de História Natural em Paris. Voltou de lá impressionadíssimo com uma solução que os franceses adoptaram para pôr na ordem a circulação de automóveis particulares dentro das grandes cidades que é um verdadeiro ovo de Colombo. É um sistema que foi cuidadosamente negociado com os sindicatos, e que agora figura com todas as letras no contrato colectivo de trabalho: faz parte do ordenado de todos os trabalhadores receberem ao fim do mês, juntamente com o dinheiro, o passe social. Note-se, não é uma figura de estilo em que o preço do passe se acrescenta ao valor a receber, não – estamos mesmo a falar de um rectângulo de plástico com a vinheta para o mês seguinte que faz parte integrante do salário. Ninguém á obrigado a utilizá-lo, mas o efeito psicológico deste pagamento explica-se a si próprio. Claro que, depois de o terem na mão, muitos dos que se tinham habituado a fazer todas as deslocações em carro próprio já pensam duas vezes: então, se têm ali aquele acesso aos transportes públicos que não lhes custou um tostão e podem passar o mês a viajar à borla... Não é? Este meu amigo diz que, a partir do momento em que recebeu o seu primeiro ordenado parisiense, nunca mais pegou no carro – que, no entanto, tinha levado consigo desde Lisboa.
Bem podíamos começar a pensar em fazer o mesmo.