domingo, 19 de março de 2006

LER: Opus Magnum

Numa alusão à obra divina da criação e ao projecto de redenção nela contido, o processo alquímico foi designado por «Grande Obra». Nesse processo, uma matéria inicial, misteriosa e caótica, chamada materia prima, em que os opostos se encontram ainda inconciliáveis num conflito violento, deve ser transformada progressivamente num estado de libertação de harmonia perfeita, a «Pedra Filosofal» redentora ou o lapis philosophorum: «Primeiro, combinamos, em seguida decompomos, dissolvemos o decomposto, depuramos o dividido, juntamos o purificado e solidificamo-lo. Deste modo, o homem e a mulher transformam-se num só.»
(Büchlein vom Stein des Weisen, 1778)

[in Alquimia & Misticismo, de Alexander Roob]

LER: Macrocosmos

O Universo ou a Grande Ordem Universal foi concebido, segundo Platão, pelo Deus criador como manifestação e imagem da sua própria perfeição: «(...) e assim criou-o como um único ser vivo visível, que contém em si todas as criaturas afins (...).
Através da rotação deu-lhe a forma esférica (...), conferindo-lhe pois a figura que é, de entre todas, a mais perfeita.»
(Timeu, c.410 a.C.)

[in Alquimia & Misticismo, de Alexander Roob]

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

LER: A arte da ciência, ou a ciência na arte

De Humanis Corporis Fabrica (1543), de Andreas Vesalius

«(...) o que se encontra neste livro não é já, simplesmente, o estudo duma região anatómica, como haviam feito Dürer, Miguel Ângelo e, sobretudo, Leonardo da Vinci. É a globalidade da arquitectura do corpo humano ligado à vida quotidiana. Nada até aí atingira a nobreza e a precisão daquelas estampas. Aquele esqueleto, por exemplo, de pé, de perfil, um tanto curvado, que se apoia negligente numa espécie de grande mesa colocada à direita do desenho. Ergue-se sobre o fundo de paisagem em miniatura, essa amálgama de palácios, de ruínas, de colinas salpicadas de ávores anãs, que balizava as perspectivas renascentistas. O que dá a cada um dos ossos relevo e nitidez é uma luz, bastante suave, que dimana do alto, à direita, de forma que a sombra se esboça por detrás do crânio e das vértebras. O esqueleto tem uma postura um tudo-nada mole, como se o artista tivesse querido dar uma impressão de indolência e de recolhimento. Indolência, devido à posição ligeiramente desengonçada: o peso do esqueleto recai sobre a perna direita, que se mantém estendida, enquanto o joelho esquerdo se flecte apenas o suficiente para dar às tíbias a possibilidade de se cruzarem, pé esquerdo somente apoiado na ponta. Mas impressão de recolhimento também, porque o braço esquerdo, de cotovelo na mesa, se dobra em ângulo agudo, de forma que a cabeça se apoia nas costas da mão, na atitude do pensador. Mas o que atrai a atenção e dá intensidade à gravura é a face voltada para um outro crânio, que a mão direita segura sobre a mesa. Bem abertas, as órbitas do esqueleto parecem perscrutar essoutra face. Como se o homem se quisesse estudar a si mesmo. (...)»
(Fançois Jacob, in O Jogo dos Possíveis - Ensaio sobre a diversidade do mundo vivo, 1981)