terça-feira, 31 de janeiro de 2006

CONTEÚDOS: Academia Médica Portopolitana

Academia Médica Portopolitana

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Academia Médica Portopolitana ou Real Academia Médico-Portopolitana. Academia científica fundada em 1749 na cidade do Porto pelo cirurgião Manuel Gomes de Lima (1727-1806). Os primeiros Estatutos foram aprovados pelo irmão do Rei, o Arcebispo D. José de Bragança, protector da Academia. Além de Manuel Gomes de Lima, a Academia contou com a presença de João Mendes Sachetti Barbosa, dirigente do Círculo de Évora, o qual trouxe António Nunes Ribeiro Sanches e Jacob de Castro Sarmento. Em Lisboa, o lugar dirigente foi ocupado pelo médico stahliano José Rodrigues de Abreu.


História

O cirurgião Manuel Gomes de Lima fundou e foi o principal impulsionador, em meados do Século XVIII, de várias academias médico-cirúrgicas na cidade do Porto. Ao todo, num espaço de onze anos, fundou nada menos que quatro academias, mas estas podem ser reduzidas apenas a duas: uma academia cirúrgica e outra médica. A primeira, a Academia Cirúrgica Portuense, funcionou em dois períodos distintos, 1748-1749 e 1759-1764. A segunda, que incluía a Medicina, a Cirurgia e a Farmácia, foi criada em 1749, primeiro com o nome de Academia dos Escondidos e depois com o de Academia Médico-Portopolitana, funcionando até cerca de 1752. A primeira academia fundada no Porto foi a Real Academia Cirúrgico-Proto-Tipo-Lusitânica Portuense, também chamada Academia Cirúrgica Portuense. Os Estatutos foram aprovados a 5 de Setembro de 1748. Gomes de Lima, que já se afastara antes desta data, por incompatibilidade com outros académicos, promoveu de imediato a criação de uma nova academia com médicos, cirurgiões e boticários. Esta iniciou os seus trabalhos em Janeiro de 1749, com a denominação de Academia dos Escondidos da Cidade do Porto ou dos Imitadores da Natureza. Editou o único volume do Zodíaco Lusitano Délfico, correspondente ao mês de Janeiro de 1749, que pretendia ser o primeiro periódico científico em Portugal. Os académicos obtiveram a protecção do irmão do rei e filho natural de D. Pedro II, o Arcebispo e Senhor de Braga. Logo de seguida, a Academia dos Escondidos transformou-se na Academia Médico-Portopolitana. Os primeiros Estatutos foram aprovados em 14 de Abril de 1749. A academia tinha membros distribuídos pelo Porto, Braga, Lisboa, Évora, Brasil e Espanha. Em Janeiro de 1751, os Estatutos ainda foram reformados, mas conflitos internos, a ida de Gomes de Lima para a Universidade de Coimbra, a morte do Arcebispo e de vários membros levaram à sua desagregação. Sendo parte do movimento de renovação intelectual anterior à Reforma Pombalina (1772), a Academia Médico-Portopolitana tomou como bandeira a ciência experimental e as teorias médicas de Hermann Boerhaave contra Aristóteles e Galeno, ainda dominantes no ensino médico. Apesar de todo o seu potencial, os resultados obtidos foram muito reduzidos.


Bibliografia

  • Estatutos da Real Academia Medico-Portopolitana. s.l., 1749.
  • Zodiaco Lusitanico-Delphico. Anatomico, Botanico, Chirurgico, Chymico, Dendrologico, Ictyologico, Lithologico, Medico, Meteorologico, Optico, Ornithologico, Pharmaceutico e Zoologico, Janeiro de 1749. s.l., 1749.
  • Júlio de Lemos. O limianista Doutor Lima Bezerra. Esboço bio-bibliográfico. Coimbra: Tip. Coimbra Editora, 1948.
  • A. Silva Carvalho. O culto de S. Cosme e S. Damião em Portugal e no Brasil. História das sociedades médicas portuguesas. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1928.
  • A. A. Banha de Andrade. "Uma academia luso-espanhola, antes da expulsão dos jesuítas". Brotéria. 40(1945)619-636.
  • J. P. Sousa Dias. “Equívocos sobre Ciência Moderna nas Academias Médico-Cirúrgicas Portuenses”. Medicamento, História e Sociedade. NS1(1992)2-9.

CONTEÚDOS: Tomé Pires

Tomé Pires

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Tomé Pires (1465?-1540?). Destacado boticário português que viveu no Oriente no Século XVI. Primeiro embaixador português enviado à China e autor da Suma Oriental, a primeira descrição europeia da Malásia e a mais antiga e extensa descrição portuguesa do Oriente.


Biografia

Tomé Pires, boticário do príncipe, partiu para a Índia em 1511, quando já era homem de meia idade. No Oriente, esteve durante pouco tempo em Cananor como feitor das drogarias, encarregado da aquisição de drogas destinadas às naus da carreira da Índia, mas foi logo em 1512 enviado por Afonso de Albuquerque a Malaca. Aí esteve como escrivão da feitoria e como contador e vedor das drogarias até 1515. Em 1513 deslocou-se a Java, como feitor de uma frota de quatro navios que foram buscar especiarias. Foi durante ou logo a seguir à sua estadia em Malaca que escreveu a Suma Oriental que trata do Mar Roxo até aos Chins. Em 1515 regressou à Índia, aparentemente com o intuito de regressar a Portugal, mas o novo governador-geral da Índia, Lopo Soares de Albergaria escolheu-o para dirigir uma embaixada que o rei decidira enviar à China. As razões para a escolha de Tomé Pires são apontadas pelos cronistas. Castanheda diz que "o governador não quis senão mandar este Tomé Pires, que mandou com conselho dos fidalgos e capitães da Índia, e porque este Tomé Pires fora boticário do Príncipe Dom Afonso, e por que conheceria melhor que outro as drogas que havia na China". Segundo Barros, "o embaixador ... havia nome Tomé Pires, que Lopo Soares, na Índia, escolheu para isso. E posto que não era homem de tanta qualidade, por ser boticário e servir na Índia de escolher as drogas de botica que haviam de vir para este reino, para aquele negócio era o mais hábil e auto que podia ser; porque, além de ter pessoa e natural descrição com Letras, segundo sua faculdade, e largo de condição e aprazível em negociar, era mui curioso de inquirir e saber as coisas, e tinha um espírito vivo para tudo". Em 27 de Janeiro de 1516, Pires escreveu em Cochim uma importante carta a D. Manuel I onde descreveu de forma pioneira a origem geográfica e algumas características de grande número de drogas asiáticas. Partiu em 1516 para Cantão onde chegou, depois de vários contratempos, dezanove meses depois. Em Cantão, Pires ainda esperou mais quinze meses, antes de partir em 1520 para Beijing, onde a embaixada nunca chegou a ser recebida pelo imperador, regressando a Cantão em Setembro de 1521. Resultado da conjunção de vários factores, desde a natural desconfiança dos chineses, à falta de tacto de alguns portugueses e à intriga movida pelo deposto rei de Malaca, a embaixada caiu em desgraça, os seus membros foram presos e mortos e os portugueses perseguidos na China durante três décadas. Os testemunhos destes acontecimentos não coincidem no que respeita à sorte de Tomé Pires. Segundo uns terá falecido de doença em 1524, mas segundo outros terá vivido mais tempo, embora sem ter autorização para sair da China.


Bibliografia

  • Albuquerque, L. “Tomé Pires”, in Dictionary of Scientific Biography. 1974. Vol. 10, p. 616.
  • Cortesão, A. ``A propósito do ilustre boticário quinhentista Tomé Pires. Revista Portuguesa de Farmácia. 13,3(1963)298-307.
  • Cortesão, A. A Suma Oriental de Tomé Pires e o Livro de Francisco Rodrigues. Coimbra, 1978.
  • Cortesão, A. Primeira embaixada europeia à China. o boticário e embaixador Tomé Pires. Lisboa, 1945.
  • Dias, J. Lopes. Medicinas da 'Suma Oriental' de Tomé Pires. Porto, 1947. Sep. ``Jornal do Médico, vol. 9, n.º 208, pp. 76-83.
  • Dias, J. P. Sousa. A Farmácia em Portugal. Uma introdução à sua história. 1338-1938. Lisboa: ANF, 1994.
  • Loureiro, Rui M. O manuscrito de Lisboa da "Suma Oriental" de Tomé Pires (Contribuição para uma edição crítica). Macau: Instituto Português do Oriente, 1996.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

CONTEÚDOS: João Mendes Sachetti Barbosa (1714-1774)

João Mendes Sachetti Barbosa
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João Mendes Sachetti Barbosa (1714-1774). Médico portugês do Século XVIII, um dos exemplos mais representativos do Iluminismo médico residente em Portugal.

Biografia

Nasceu em Estremoz em 1714, sendo filho de João Mendes Sachetti, pedreiro de alvenaria e de Catarina Rodrigues. Apesar de ser de origem humilde, estudou Filosofia em Évora e Medicina em Coimbra, onde se distinguiu, ganhando a fama de ter sido o melhor estudante do seu curso. Exerceu a Medicina em Estremoz e Campo Maior até que se estabeleceu em Elvas depois de 1743. Nesta cidade, foi médico do Hospital Real, ocupação que exercera igualmente em Campo Maior. A exemplo do irmão, o Dr. António Mendes Sachetti, Tesoureiro-mor da Sé de Elvas e comissário da Inquisição de Évora, habilitou-se a Familiar do Santo Oficio, de que obteve carta em 1756. Pouco depois tornou-se médico do número da Casa Real e da Câmara do Infante D. Manuel, assim como cavaleiro fidalgo da mesma Casa, e recebeu o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo. Foi nomeado Físico-mor do Exército durante a guerra de 1762, mas logo no ano seguinte caiu em desgraça e teve baixa desse posto a 21 de Abril, depois de ter estado preso quatro meses e meio. Terá falecido em finais de 1773 ou em 1774. A Carta de Familiar terá sido o passaporte de Barbosa para altas funções, mas a sua reputação como homem de ciência é-lhe bastante anterior. Sachetti Barbosa nunca terá saído do país, mas as relações que estabeleceu com sociedades cientificas estrangeiras e com os médicos emigrados mais prestigiados do tempo, tornaram-no num dos exemplos mais marcantes do iluminismo médico residente em Portugal. Em 1747 era já membro da Real Academia Médica de Madrid e iniciou correspondência com Jacob de Castro Sarmento e António Nunes Ribeiro Sanches anteriormente a 1748 e 1750, respectivamente. No ano de 1755 iniciou uma colaboração nas Philosophical Transactions da Royal Society de Londres, de que era sócio. A sua correspondência com Sarmento só terminou com a morte deste em 1762, tendo procurado substituir a sua falta através de Emanuel Mendes da Costa, secretário da Royal Society, com o qual manteve contactos epistolares entre 1763 e 1765. Quanto a Ribeiro Sanches, as boas relações entre ambos mantiveram-se até 1772, quando algumas divergências quanto à reforma dos estudos médicos, lhes vieram pôr um ponto final. Quando, em 1749, Manuel Gomes de Lima fundou no Porto a Academia Médica Portopolitana, o nome de Barbosa surgiu à frente do Círculo Eborense. Entre os sócios da Academia, surgiram vários que terão aderido por via do próprio Sachetti, entre os quais Ribeiro Sanches, Castro Sarmento e vários médicos alentejanos. Segundo o testemunho de Fr. Manuel do Cenáculo, presidente da Junta de Providência corroborado por Ribeiro Sanches, Sachetti Barbosa colaborou muito activamente na reforma dos estudos médicos e terá sido mesmo o autor dos novos Estatutos da Faculdade de Medicina. Sachetti Barbosa mostrou-se interessado por algumas observações e experiências muito simples descritas no livro Considerações Médicas (1758), mas o seu contributo científico prático foi nulo, limitando-se à sua actividade clínica. Onde o seu contributo merece ser realçado foi como entusiasta e apologista da Filosofia Newtoniana e das teorias médicas de Hermann Boerhaave, servindo de alguma forma de intermediário entre vários homens de ciência emigrados e as autoridades portuguesas, nomeadamente no momento da reforma pombalina da Universidade de Coimbra. Nas Considerações Médicas ele refere existir "ultimamente a vantagem e o artifício do sistema natural do ilustre Boerhaave, sobre que devemos fundar e introduzir a verdadeira Medicina, estabelecido pelo método de filosofar do incomparável Newton, que consiste em acomodar a razão aos experimentos e descobrir as leis da Natureza, depois de um suficiente número de feitos constantes, crítica e logicamente observados". Ele foi o principal teórico da Academia Médica-Portopolitana, cabendo-lhe recitar a "Oração Académica Inaugural" (1749), com 29 reflexões sobre a divisão do trabalho e o método de descrever e indagar as matérias de estudo da Academia. Segundo Barbosa, aos académicos devia ser distribuído um tema de estudo, de acordo com regras minuciosas e todos deviam fazer "profissão da Filosofia Newtoniana, precedendo para isso, se puder ser, o estudo de Geometria, Aritmética, Álgebra, Fluxões, Trigonometria, Secções cónicas, etc.".

A obra

A principal obra de Barbosa, para além dos contributos publicados no âmbito da Academia Médica Portopolitana, foi o livro Considerações Médicas sobre o metodo de conhecer, curar e preservar as Epidemias, ou Febres Malignas Podres, Pestilenciaes, contagiozas (1758) onde, na forma de três cartas escritas do Alentejo a um amigo de Lisboa, tratou da origem, conhecimento, profilaxia e tratamento das epidemias e febres contagiosas, que o autor considerava ser um dos grandes perigos depois do Terramoto de 1755. Este livro levou Maximiano de Lemos a considerar o médico alentejano como “um dos mais ilustres práticos do seu tempo” e “um espírito bem educado e cheio de entusiasmo por tudo quanto representava verdadeiro progresso no domínio das ciências médicas’’. O livro de Barbosa, nomeadamente devido aos reparos feitos ao tratamento das febres normalmente seguido em Lisboa, foi objecto de uma resposta por parte do médico Duarte Rebelo Saldanha, no livro Ilustração Médica (1761-62).

Bibliografia

  • D. Barbosa Machado. Biblioteca Lusitana. Lisboa: Oficina Patriarcal de Francisco Luis Ameno, 1759. Vol. 4, pp. 185-86.
  • M. Lemos. “Amigos de Ribeiro Sanches”. Arquivo Histórico Português. 8(1910)288-295.
  • M. Lemos. História da Medicina em Portugal. 2.ª ed. Lisboa: Publ. Dom Quixote/Ordem dos Médicos, 1991. Vol. 2, p. 125.
  • A. Gonçalves Rodrigues. “A correspondência científica do Dr. Sachetti Barbosa com Emmanuel Mendes da Costa, Secretário da Sociedade Real de Londres”. Biblos. 14(1938)396-408.
  • J. P. Sousa Dias. A Água de Inglaterra no Portugal das Luzes. Lisboa: FFUL, 1986.
  • J. P. Sousa Dias, “Equívocos sobre Ciência Moderna nas Academias Médico-Cirúrgicas Portuenses”. Medicamento, História e Sociedade. NS 1(1992)2-9.