quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

CONTEÚDOS: Mais da "BÍblia" de Celestino da Costa

SOBRE A DEDICAÇÃO À CAUSA

Toda obra grande es el fruto de la paciencia y de la perseverança, combinadas con una atención orientada tenazmente durante meses y aun años hacia el objecto particular. Así lo han confesado sabios ilustres al ser interrogados tocante al secredo de sus creationes. Newton declaraba que solo pensando siempre en la misma cosa había llegado a la sobrena ley de la atractión universal; de Darwin refere uno de sus hijos que lhegou a tal concentración en el estudo de los hechos biológicos relacionados con el gran principio de la evolutión, que se privó durante muchos años relacionados con el gran principio de la avolution, que se privó durante muchos anos y de modo sistemático de toda lectura y meditatión estrañas ao blanco de sus pensamientos; en fin, Buffon no vacilaba en decir, que “el genio no es sino la paciencia extremada”. Suya es también esta resposta a los que le perguntaban cómo habia conquistado la gloria: “pasando cuarenta años de mi vida inclinado sobre mi escritorio”. Por fin, nadie ignora que Mayer, el genial descubridor del principio de la conservación y transformatión de la energia, consagró a esta concepción toda su vida.
Santiago Ramón y Cajal
Reglas y Consejos sobre la Investigación Científica
1941

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

CONTEÚDOS: Da Bíblia de Celestino da Costa

CIENTISTAS E SANTOS
Rasgo dominante en los investigadores eminentes es la altiva independencia de criterio. Ante la obra de sus predecesores y maestros no permanecem suspensos y anonados, sino recelosos y escuadriñadores. Aquellos espíritua que, como Vesalio, Eustaquio y Harveo, corrigieram la obra anatómica de Galeno, y aquellos otros lhamados Copérnico, Keplero, Newton y Huyghens, que echaram abajo la astronomia de los antiguos, fueram sin duda preclaros entendimientos, pero, ante todo, poseyeron individualidad mental ambiciosa y descontentadiza y osadia crítica extraordinaria. De los dóciles y humildes pueden salir los santos, pocas vezes los sabios.
Santiago Ramón y Cajal
Reglas y Consejos sobre la Investigación Científica
1941

NA CAIXA DO CORREIO: João (de Deus) César Monteiro

MEMÓRIA DE JOÃO (de Deus) CÉSAR MOMTEIRO
Não me lembro bem quando foi que conheci João César, se é que fomos alguma vez apresentados. Talvez tenha sido no tempo das minhas aventuras de cinéfilo das vidinhas (qual delas?), no CCC – leia-se Centro de Cultura Cinematográfica, da JUC –, nos anos 60; ou no contemporâneo cenáculo que discutia filmes e escrevia artigos e críticas aos sábados, na página Pelo Mundo do Cinema das Novidades coordenada por José Vieira Marques; ou em O Tempo e o Modo onde ambos escrevemos. Porque, ainda em 1972, João César declarava-se cineasta católico (com Manoel de Oliveira e Paulo Rocha), e talvez soubesse de mim. Eu, por mim, sabia dele, tinha lido a sua espantosa crítica a O Passado e o Presente e, mais tarde, visto filmes seus (médias metragens, Veredas, Silvestre), com o estremecimento que provoca uma epifania.
Certo dia (já os anos 80 iam avançados), aconteceu vermo-nos frente a frente, na coxia do São Carlos (ou seria do Tivoli?), ele na ponta de baixo, eu na de cima. Íamos um para o outro, lentamente, e não me era certo se nos conhecíamos, ele aos ziguezagues (como de costume) e eu sem saber se, numa última, ágil finta dele – sou um bocado como o Garrincha: utilizo sempre a mesma finta –, nos cruzaríamos, e cada um ia à vidinha. Afinal demos um caloroso aperto de mão e ficámos amigos para sempre; mas sempre cerimoniosa ou cerimonialmente, como manda a boa educação. Afinidades electivas: a obsessão do sagrado e o gosto do profano, o amor ao cinema, à música, às letras e outras artes, o gosto da cavaqueira e o desgosto por esta piolheira...
Passou João César a convidar-me, pontualmente, para as ante-estreias dos seus filmes. Era uma festa, não só (e sobretudo) pelos ditos, mas também porque lá se encontravam amigos, entre eles Sophia de Mello Breyner (cujo documentário fora a estreia dele, em 1969) e Margarida Gil (com quem era então casado), companhia ideal para a conversa enquanto a função não começava, que havia sempre atrasos.
Em contrapartida, quando sucediam ameaças à nossa frágil cultura, lá ia eu ter com Margarida e João César, a pedir-lhes solidariedade e a sempre pronta assinatura. Lembro-me de uma vez, quando passou pela cabeça de um governante transformar o Teatro de São Carlos em “sala de visitas de Lisboa”. Fui a sua casa, perto da Avenida de Roma e, enquanto falávamos antes da consumação do abaixo-assinado, o cão preto deles – parecia o cão raivoso no fim dos Olvidados de Buñuel – estava tomado por tais cios que não parava de tentar copular comigo: o que João César olhava complacentemente enquanto Margarida tentava livrar-me da ignomínia.
Quando ele se mudou para as faldas do Bairro Alto, os nossos encontros tornaram-se mais frequentes, mas o lugar e o cão eram outros. O cão era o Liszt, não preto mas “golden”, que eu passeava todas as manhãs no Príncipe Real. João César – que clamara: O meu reino por um banco de jardim, e achava a Oceanografia del Tedi, de Eugénio d’Ors, no original catalão, a companhia ideal para o Jardim Botânico do Príncipe Real – ia aí comprar jornais, praticar abusos tabágicos, flanar e olhar as belezas da natureza, como o futuro João Vuvu, num vai e vem.
No meio daquele esplendor vegetal, via-se, ao tempo, a menina Alexandra, jovem jardineira varrendo os lixos, sachando as terras e cuidando das plantas. Tinha um mover de olhos brando e piedoso, um riso brando e honesto, um doce e humilde gesto (o soneto todo, duas vezes recitado na Comédia de Deus), a pele trigueira, o corpo roliço e um tanto rústico, como João de Deus gostava. Ao vê-la podia pensar-se que João César também a catrapiscasse para um casting: como um rato, menina de bom recato. Mas ela não devia ter maneiras para rodar à maneira dele. Queria ser arquitecta (mas os pais eram pobres), queria casar, montar casa (numa montagem a prestações)... De súbito sumiu-se, sem ser tida nem achada: terá arranjado emprego debaixo de telha, quiçá num centro comercial (paraíso, hoje, das finte giardiniere de ontem): que lhe faça bom proveito!
Beijinhos
Sidónio de Freitas Branco Paes