segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

NA CAIXA DO CORREIO: João (de Deus) César Monteiro

MEMÓRIA DE JOÃO (de Deus) CÉSAR MOMTEIRO
Não me lembro bem quando foi que conheci João César, se é que fomos alguma vez apresentados. Talvez tenha sido no tempo das minhas aventuras de cinéfilo das vidinhas (qual delas?), no CCC – leia-se Centro de Cultura Cinematográfica, da JUC –, nos anos 60; ou no contemporâneo cenáculo que discutia filmes e escrevia artigos e críticas aos sábados, na página Pelo Mundo do Cinema das Novidades coordenada por José Vieira Marques; ou em O Tempo e o Modo onde ambos escrevemos. Porque, ainda em 1972, João César declarava-se cineasta católico (com Manoel de Oliveira e Paulo Rocha), e talvez soubesse de mim. Eu, por mim, sabia dele, tinha lido a sua espantosa crítica a O Passado e o Presente e, mais tarde, visto filmes seus (médias metragens, Veredas, Silvestre), com o estremecimento que provoca uma epifania.
Certo dia (já os anos 80 iam avançados), aconteceu vermo-nos frente a frente, na coxia do São Carlos (ou seria do Tivoli?), ele na ponta de baixo, eu na de cima. Íamos um para o outro, lentamente, e não me era certo se nos conhecíamos, ele aos ziguezagues (como de costume) e eu sem saber se, numa última, ágil finta dele – sou um bocado como o Garrincha: utilizo sempre a mesma finta –, nos cruzaríamos, e cada um ia à vidinha. Afinal demos um caloroso aperto de mão e ficámos amigos para sempre; mas sempre cerimoniosa ou cerimonialmente, como manda a boa educação. Afinidades electivas: a obsessão do sagrado e o gosto do profano, o amor ao cinema, à música, às letras e outras artes, o gosto da cavaqueira e o desgosto por esta piolheira...
Passou João César a convidar-me, pontualmente, para as ante-estreias dos seus filmes. Era uma festa, não só (e sobretudo) pelos ditos, mas também porque lá se encontravam amigos, entre eles Sophia de Mello Breyner (cujo documentário fora a estreia dele, em 1969) e Margarida Gil (com quem era então casado), companhia ideal para a conversa enquanto a função não começava, que havia sempre atrasos.
Em contrapartida, quando sucediam ameaças à nossa frágil cultura, lá ia eu ter com Margarida e João César, a pedir-lhes solidariedade e a sempre pronta assinatura. Lembro-me de uma vez, quando passou pela cabeça de um governante transformar o Teatro de São Carlos em “sala de visitas de Lisboa”. Fui a sua casa, perto da Avenida de Roma e, enquanto falávamos antes da consumação do abaixo-assinado, o cão preto deles – parecia o cão raivoso no fim dos Olvidados de Buñuel – estava tomado por tais cios que não parava de tentar copular comigo: o que João César olhava complacentemente enquanto Margarida tentava livrar-me da ignomínia.
Quando ele se mudou para as faldas do Bairro Alto, os nossos encontros tornaram-se mais frequentes, mas o lugar e o cão eram outros. O cão era o Liszt, não preto mas “golden”, que eu passeava todas as manhãs no Príncipe Real. João César – que clamara: O meu reino por um banco de jardim, e achava a Oceanografia del Tedi, de Eugénio d’Ors, no original catalão, a companhia ideal para o Jardim Botânico do Príncipe Real – ia aí comprar jornais, praticar abusos tabágicos, flanar e olhar as belezas da natureza, como o futuro João Vuvu, num vai e vem.
No meio daquele esplendor vegetal, via-se, ao tempo, a menina Alexandra, jovem jardineira varrendo os lixos, sachando as terras e cuidando das plantas. Tinha um mover de olhos brando e piedoso, um riso brando e honesto, um doce e humilde gesto (o soneto todo, duas vezes recitado na Comédia de Deus), a pele trigueira, o corpo roliço e um tanto rústico, como João de Deus gostava. Ao vê-la podia pensar-se que João César também a catrapiscasse para um casting: como um rato, menina de bom recato. Mas ela não devia ter maneiras para rodar à maneira dele. Queria ser arquitecta (mas os pais eram pobres), queria casar, montar casa (numa montagem a prestações)... De súbito sumiu-se, sem ser tida nem achada: terá arranjado emprego debaixo de telha, quiçá num centro comercial (paraíso, hoje, das finte giardiniere de ontem): que lhe faça bom proveito!
Beijinhos
Sidónio de Freitas Branco Paes

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

NAQUELE TEMPO: Nascem Galileu e a ciência moderna

"Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, intimado pessoalmente à presença deste tribunal e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais Inquisidores-Gerais contra a gravidade herética em toda a comunidade cristã, tendo diante dos olhos e tocando com as mãos os Santos Evangelhos, juro que sempre acreditei, que acredito, e, mercê de Deus, acreditarei no futuro, em tudo quanto é defendido, pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica e Apostólica. Mas, considerando que (... ) escrevi e imprimi um livro no qual discuto a nova doutrina (o heliocentrismo) já condenada e aduzo argumentos de grande força em seu favor, sem apresentar nenhuma solução para eles, fui, pelo Santo Oficio, acusado de veementemente suspeito de heresia, isto é, de haver sustentado e acreditado que o Sol está no centro do mundo e imóvel, e que a Terra não está no centro, mas se move; desejando eliminar do espírito de Vossas Eminências e de todos os cristãos fiéis essa veemente suspeita concebida mui justamente contra mim, com sinceridade e fé verdadeira, abjuro, amaldiçôo e detesto os citados erros e heresias, e em geral qualquer outro erro, heresia e seita contrários à Santa Igreja, e juro que no futuro nunca mais direi nem afirmarei, verbalmente nem por escrito, nada que proporcione motivo para tal suspeita a meu respeito."
A data: 22 de junho de 1633. O local: numa sala do convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma.
Assim se encerrava um dos episódios mais controversos da história: o julgamento de Galileu Galilei pela Santa Inquisição, sua condenação e subsequente renúncia à crença de que a Terra gira em torno do Sol. Além da retratação, o Tribunal do Santo Oficio impôs a Galileu a pena de prisão domiciliar perpétua e a repetição, semanal, por três anos, dos sete salmos penitenciais.
Lido o veredicto e cumprida a cerimónia de abjuração pública (ao término da qual, segundo contam alguns, Galileu teria murmurado ironicamente "eppur si muove "), o sábio recolheu-se à residência do grão-duque da Toscana, seu velho amigo, onde começou a cumprir a sentença. Pouco depois, alojou-se por algum tempo no palácio do arcebispo Piccolomini, em Siena, mudando-se finalmente para Florença, onde passaria os seus últimos anos de vida.
Este período final foi bastante penoso para o cientista, pois, em 1638, a cegueira total atingiu-o. Em carta a um amigo, desabafava seu sofrimento: "Ai de mim! O vosso amigo e servo Galileu tem estado no último mês desesperadamente cego, de modo que este céu, esta Terra, este Universo, que eu, por maravilhosos descobrimentos e claras demonstrações, alarguei cem mil vezes além da crença dos sábios da antiguidade, se reduzem, daqui por diante, para mim, a um diminuto espaço preenchido pelas minhas próprias sensações corpóreas". Morreu a 8 de Janeiro de 1642e foi enterrado na Capela de Santa Croce, em Florença.

O prefácio do De revolutionibus orbium coelestium trazia a seguinte observação tranquilizadora: "Por favor, não tomeis isto a sério. É apenas um gracejo, destinado exclusivamente a matemáticos e, na verdade, muito improvável".
Assim, podemos dizer que Galileu foi mais coperniciano que Copérnico, e até que Kepler, uma vez que ao contrário destes, que sempre viveram em países protestantes, fora do alcance da Inquisição, o cientista italiano pagou caro a sua audácia.
Galileu Galilei nasceu em Pisa, a 15 de fevereiro de 1564 (faz hoje 441 anos), filho de Vincenzo Galilei e Julia Ammanati di Pescia. O pai, membro empobrecido da pequena nobreza, era músico e mercador, homem de cultura respeitada e um espírito contestador das idéias vigentes. Entretanto, Vincenzo desejava uma sólida posição social para seu filho, e por isso induziu-o à carreira médica.
Assim, após completar seus primeiros estudos em Pisa e na escola dos jesuítas do mosteiro de Vallombrosa, perto de Florença, com apenas dezessete anos, Galileu ingressava na Universidade de Pisa como estudante de Medicina. Entretanto, já no segundo ano do curso - que jamais concluiu, por falta de interesse pela matéria - ele descobriu a Física e a Matemática, realizando sua primeira observação importante: a oscilação de um pêndulo apresenta uma frequência constante, independentemente de sua amplitude (quando esta é muito pequena). Na mesma época, inventou o pulsillogium, espécie de relógio utilizada para medir a pulsação.

O "resto", ou seja, o tornar-se lente de Matemática da Universidade de Pisa, mesmo não tendo completado os estudos universitários; mais tarde em Pádua assumir a Cátedra de Matemática; a publicação do Sidereus nuncius (Mensageiro das Estrelas), onde descreve algumas de suas observações com a luneta (como a descoberta de quatro luas de Júpiter ou da superfície "rugosa" da Lua); ou ainda do Il Saggiatore (O Experimentador) onde expõe os princípios que devem regular o raciocínio científico e o processo experimental, defendendo o cepticismo do investigador perante as afirmações aparentemente definitivas (a lendária experiência da torre de Pisa); ou ainda no Dialogo di Galileo Galilei Linceo, dove ne i congressi di quattro giornate si discorre sopra i due massimi sistemi del mondo, tolemaico e copernicano (Diálogos sobre os Dois Grandes Sistemas do Mundo), onde começa a sua "condenação" como "persona non grata" para a igreja; que resto!!!, o resto é história.
A grande contribuição de Galileu (contra todos os aristotelismos) foi ter dado o devido peso ao papel da observação experimental na ciência, que constitui a principal etapa do trabalho científico. Mas é necessário ir mais além, buscando, pelo raciocínio, o caminho que permitirá a generalização das leis empíricas. E foi a aquisição dessa nova maneira de interpretar os fatos que permitiu o nascimento da ciência moderna.
Ah! é verdade, só em 1980 o Papa João Paulo II ordenou um re-exame do processo contra Galileo, o que eliminou os últimos vestígios de resistência, por parte da igreja Católica, à revolução Copernicana..... 416 anos....
Que bela maneira de começarmos esta página de efemérides.
Salve Maestro. Dopo 441 anni eppur si muove

LER: Indústria Química contra História da Tecnologia

Vinte grandes empresas químicas dos EUA, como a Dow, Monsanto, Goodrich, Goodyear, Union Carbide, lançaram uma violenta campanha para desacreditar os historiadores Gerald Markowitz e David Rosner, autores do livro Deceit and Denial: The Deadly Politics of Industrial Pollution, que investigaram os seus esforços para esconder a relação causal dos seus produtos com o cancro.
Deceit and Denial
Para além da acção contra os dois autores, os advogados das empresas intimaram a depor os cinco revisores científicos que recomendaram que a University of California Press publicasse o livro.
As empresas ainda recrutaram os "seus historiadores" (há sempre gente para tudo) para acusarem Markowitz e Rosner de falta de ética.
Markowitz é professor de história no CUNY Grad Center e Rosner é professor de história e saúde pública na Columbia University e director do Center for the History and Ethics of Public Health na Columbia's School of Public Health.

Toda a história pode ser vista no artigo
"Why 2 Historians Now Have to Fear the Chemical Industry", de Jon Wiener,
que pode ser lido on-line em: http://hnn.us/articles/9950.html
Wiener é autor do livro Historians in Trouble: Plagiarism, Fraud and Politics in the Ivory Tower (2005) e professor de história na University of California at Irvine.

O livro:
Gerald Markowitz, David Rosner. Deceit and Denial: The Deadly Politics of Industrial Pollution (California/Milbank Series on Health & the Public). University of California Press, 2003. ISBN: 0520240634. 428 páginas.