sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

LER: Mecenato e patrocínios assimétricos

No final de 2006 os jornais anunciavam a abertura do primeiro borboletário da Europa, denominado Lagartagis, uma estrutura integrada no Jardim Botânico de Lisboa, e dinamizada pelo Tagis - Centro de Conservação das Borboletas de Portugal. Do sítio oficial (http://www.tagis.org/) constam os seguintes objectivos: «O Lagartagis foi inicialmente criado para proporcionar às crianças em idade escolar um novo espaço de aprendizagem duma importante parcela do nosso património natural. O objectivo primordial é ensinar a biologia das borboletas e sua interacção com as plantas, contribuindo para despertar o interesse para a importância da conservação da natureza e da biodiversidade. É também um espaço de lazer, um recanto do jardim óptimo para descansar, para ler, para contemplar e usufruir de um espaço privilegiado de elevada diversidade de plantas com flor e borboletas». Eu tive a oportunidade de conhecer o Tagis quando há uns tempos fiz uma reportagem sobre o seu trabalho para uma revista. Era um grupo muito jovem e determinado, extremamente profissional e empenhado em fazer. Era também um grupo muito bem organizado, com um projecto e com objectivos muito bem definidos. Além disso, lembro-me de ter participado numas actividades com o meu sobrinho e que foram tão marcantes que ele hoje distingue com naturalidade aí uma boa meia dúzia de espécies de borboletas. Distraído, li no passado número da National Geographic que o borboletário foi entretanto desactivado por falta de financiamento. Fiquei de cabelos em pé! Por que será que as coisas realmente bem feitas neste país têm um prazo de validade tão curto? Bem, é certo que se desconhecem as razões concretas para que a torneira do financiador tenha sido fechado. Mas isto não é de todo um caso isolado. É sistemática a recusa de patrocínio a acções científicas ou de divulgação científica em detrimento de outras actividades, digamos assim, um pouco mais lúdicas. Gulbenkian, Bento da Rocha Cabral ou Champalimaud compreenderam muito bem o que é realmente importante. Ainda assim há quem ache um desperdício.

É provável que o primeiro borboletário da Europa tenha deixado de ser atractivo do ponto de vista comercial (poucas visitas? pouca visibilidade?). Mas isso não lhe retira qualquer mérito. E é até provável que a "crise", essa safada, também justifique alguma coisa. Não sei. Agora, o que é estranho é essa assimetria de mecenatos e patrocínios. Trata-se apenas de uma constatação a título de exemplo o que vou dizer a seguir. O Museu da Presidência da República, o qual visito e gosto de visitar regularmente, conta com o apoio dos seguintes mecenas: Câmara Municipal de Lisboa, Bial, Grupo SGC, Grupo Visabeira, e BPI. E ainda com os patrocínios oficiais do Millenium BCP, Jerónimo Martins, Santander Totta, Somague, BES, grupo CGD, Motaengil, MSF, EDP, Labesfal, BPP e grupo Ferpinta. Quer dizer, é um museu com sorte! E a bem da nação.

(fotos do Tagis)

IMAGENS: Charles Darwin com cerca de 30 anos