quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

OPINIÃO: Excesso de zelo

POLITICAMENTE CORRECTO
Esta quadra festiva presta-se sistematicamente à expressão das mais diversas tendências que cruzam a homogeneidade aparente do povo português com a manifestação entusiástica das suas sub-culturas. E, nos últimos anos, temos assistido a um despique cada vez mais garrido pelas atitudes ecológicas politicamente correctas que podemos ir tomando enquanto festejamos, para não deixarmos deusar as festas para ajudar o planeta e dar um grande presente à Terra. É curioso notar que até esta subcultura já tem as suas variações mais ou menos radicais, até chegarmos ao ponto em que uma data de conceitos díspares se misturam num caldeirão de amor pelo equilíbrio do planeta tão marado que começam a saltar de lá artefactos que raiam o ridículo.
Veja-se uma loja toda dedicada à celebração da Natureza, do nome à decoração das montras, das roupas de fibras naturais que vende aos escritos dos cartões alinhados junto ao balcão. Entro para trocar uma túnica azul por outra preta, e recebo o objecto pedido dentro de um saco de papel reciclado, já de si correctíssimo. Mas, quando olho melhor para o saco, até se me desfocam os olhos: de um lado está pintado um pinheiro que dá cenouras, e do outro um cão com malhas e cornos de renda. A mensagem é clara, incisiva, em tom de comando:
NÃO AO NATAL TRANSGÉNICO!
Ai eu.
Está longe de se encontrar minimamente provado que um pinheiro geneticamente modificado para dar cenouras é inimigo do ambiente, tal como não há qualquer razão para pensarmos que a engenharia necessária a misturar um cão com uma rena envenena a água dos poços ou faz murchar as colheitas. Um organismo transgénico, só por ser transgénico, não é um mal ecológico em si. Pode ser, se esgotar os nutrientes do solo, se for imposto ao mundo pelas grandes multinacionais liquidando as tradições locais, se tornar inviável o pequeno e médio comércio, ou se se escapar da área controlada onde está contido para se transformar numa praga infestante. Como em tudo na vida, os transgénicos podem ser extremamente úteis se forem extremamente bem usados. Não é por causa da engenharia genética que o Natal está portas da morte. Escrevam nos sacos
NÃO À IMBECILIDADE DA ASAE!,
e o caso muda de figura. Mas, se é para arranjar bodes expiatórios – por favor. Arrangem qualquer coisa que esteja científicamente provado ser mesmp perniciosa para o futuro.
Ou seja, tenham bom senso.
E, com ele, tenham um 2008 do caraças.

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