quinta-feira, 14 de junho de 2007

LER: Planeta verde

A verdade é esta. Sempre detestei as plantas. Nunca senti qualquer carinho por talos nem por folhas. E muito menos por aqueles intragáveis ciclos de vida que nos ensinam na escola. Vendo bem as coisas, talvez tenham sido mesmo esses esquemas que anularam qualquer relação com as plantas. Nunca senti pena por isso. Infelizmente não sou o único. Mas a verdade também é esta. Hoje estou num processo de reconciliação com essa parte do mundo que é verde. Esta reconciliação deriva sobretudo da consciencialização que há um certo preconceito, clandestino e colectivo, em relação às plantas. É óbvio que há. Dou-vos já um exemplo. A mãe de uma amiga minha comprou uma planta carnívora para a casa de fim-de-semana. Quando lá chegámos, lá estava ela, com um ar extremamente ameaçador e uma etiqueta do Horto do Campo Grande com o preço e a espécie. A mãe telefonou-lhe pedindo para por água naquela coisa. E ela lá foi. Pouco depois voltou, dizendo: "Já está. Mas tive medo que ela me mordesse!" Não era uma piada. Ela teve mesmo medo que a planta a mordesse. Credo! Até onde vai o preconceito! Vamos ver se nos entendemos. Tal como os animais, as plantas também viveram uma grande epopeia da evolução. Têm uma história. E disso nos apercebemos quando as olhamos com olhos de ver, como se diz por aí. Descobrimos nelas hábitos e comportamentos que nos pertencem também. Nunca, como hoje, senti que a relação entre o homem e a orquídea pode ser "viável". Basta para isso aderir a um programa ligeiro de reconciliação. Cada um é como cada qual. Por isso, o meu consiste em passeios regulares no magnífico Jardim Botânico. É estranho mas sinto-me sempre bem-vindo naquele sítio. O que me leva a crer que as plantas são bondosas ou pelo menos não guardam ressentimentos. Às vezes até acho que as árvores esticam as suas ramagens para me afagar o rosto. Ou então deixam cair uma flor à minha passagem como forma de saudação. E há até umas tontas que choram comigo quando lhes conto as minhas desgraças. A minha parte preferida do jardim é o arboreto. Acho que os dragoeiros, as canas-de-açúcar, os bambus, as figueiras, as palmeiras, os pinheiros, as canfoeiras, etc. têm mais encanto. Com uma única excepção. Os jacarandás e as suas belíssimas flores azuis que estão no jardim logo da entrada mas que aconselho ver à saída. É que corremos sempre o risco de ela nos oferecer uma flor sua. E se assim for então é sinal de boa sorte. Nos dias que hoje correm, é algo que nos faz muita, muita falta. Vá, aproveitem. Iniciem o vosso programa de reconciliação com as plantas e contribuam para que o planeta volte a ser verde outra vez. Seria tão bom!

Nota: algures no jardim, hão-de reparar numa estátua de homenagem a Bernardino António Gomes (1768-1823). Este senhor foi um proeminente médico, químico, botânico e parasitologista. De toda a sua obra, destaco a descoberta da cinchonina a partir de cascas da quina vindas do Brasil. No processo de isolamento desta substância, Bernardino verificou que existiam outras cristalizações «confusamente conformadas» mas não chegou a identificá-las. Haviam de o fazer mais tarde, em 1818, os franceses Pelletier e Caventou que a designaram por quinina. A quinina foi muito usada no tratamento da malária. Podem saber mais sobre este senhor aqui e aqui.

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