sábado, 17 de fevereiro de 2007

ENTREVISTA: Ana Maria Rodrigues

Ana Maria Rodrigues
COMO QUEM VIAJA NO TEMPO

António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, historiador medievalista e contemporâneo, resistente antifascista, antigo director da Biblioteca Nacional, Gão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supermo Conselho do grau 33 (1991-1994), condecorado em 1998 com a Grão Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, autor de uma vasta obra de grande importância para o estudo da História de Portugal, faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vítima de problemas cardíacos. Tinha formado uma verdadeira escola, e deixado pelo caminho vários discípulos que foram, por seu turno, subindo nos escalões da carreira. Homenageá-lo, hoje, é, antes de mais nada, não deixar que a Idade Média desapareça do conhecimento imediato dos portugueses. Para recordarmos esse período único em todo o seu esplendor, pedimos ajuda a Ana Maria Rodrigues, Professora Associada do Departamento de História da Universidade de Lisboa, 49 anos, dois filhos, pronta a fazer uma grande festa, com viagem familiar e tudo, quando totalizar os 50. A sua especialidade é História Medieval, e os seus olhos brilham quando revela o que estuda. Fala tranquilamente, familiarmente, como quem viaja no tempo, do período menos compreendido e mais maltratado da História da Europa.

A cave da Faculdade de Letras tem corredores infindáveis com cacifos alinhados dos dois lados, inscrições nas colunas do tecto que ninguém se dá ao trabalho de ler, e um certo ar de última paragem neste mundo dos que foram sentenciados a deixá-lo. Na rua o frio continua a gelar os transeuntes, mas dentro do gabinete onde Ana Maria trabalha hoje estão os aquecimentos ligados e os casacos pesados vindos do exterior despem-se depressa. Uma mesa larga, um computador antigo, prateleiras a transbordar de papeladas, paredes vagamente cinzentas e janelas abertas para o sol gélido do exterior. Ela está linda, como sempre, com aquele seu ar que trouxe do doutoramento em França e nunca mais a largou. As pessoas atribuem à Idade Média tudo o que acontece de mal, diz ela.

Mas por que é que temos uma visão assim tão negativa do período medieval?

Foi na Idade Média que a nossa sociedade colocou a barbárie, a violência, o arbitrário... e, no entanto, hoje sabemos bem que não é tudo assim. Talvez tivessem existido alguns períodos que correspondam a esse imaginário global. Mas, hoje em dia, há vários autores que fazem a comparação entre a Idade Média e os nossos tempos, dizendo que nos aproximamos de uma nova Idade Média.

Porquê?

Por causa das migrações. Estaríamos perante uma nova invasão dos bárbaros...

Quem, os emigrantes de Leste?

Não. Esses vêm de uma cultura idêntica à nossa, muitas vezes até superior à nossa. E, assim que ganham algum dinheiro, vão-se embora. Poderíamos realmente falar dos romenos, por causa da raça cigana, que tem um código de honra completamente diferente do nosso. Mas já é esticar um bocado a corda. Os bárbaros em questão, segundo estes autores, seriam os argelinos, os marroquinos, enfim, os africanos. Isto em termos de opinião pública. Da mesma forma, os condomínios privados que agora existem seriam equivalentes aos antigos senhorios: instalam-se em domínios onde existe um afastamento dos outros, uma espécie de território próprio onde quem não pertence não entra. Nestes condomínios, as pessoas estranhas estão proibidas porque o Estado já não consegue assegurar a protecção da população em relação ao roubo e outras pequenas violências; e então introduzem-se aqui os seguranças privados, exactamente como existiam tropas especiais que protegiam o senhor do domínio.

Há mais exemplos do nosso novo período medieval?

Olha, se queres entrar numa grande empresa, não passas na segurança sem apresentares primeiro as credenciais, e tens que ser controlada enquanto estás lá dentro. Ou seja, há domínios de direito próprio dentro do que deveria ser uma democracia que constitui um Estado de Direito.

E voltando ao período medieval que já acabou, por que é que achas que hoje tem tão mau nome?

Provavelmente, por ser um período histórico extremamente longo. Basicamente, damos esse nome, que foi cunhado já pejorativamente pelos humanistas da Renascença, a todo o período que vai da Antiguidade Clássica à Renascença. O intuito dos humanistas do século XV era, precisamente, desvalorizar esse período e exaltar os seus próprios tempos, que tinham reatado com o grande conhecimento e beleza da Antiguidade. Até se usou por muito tempo tempo o termo “Dark Ages”, ou “Séculos Góticos”, remetendo para o obscurantismo, a violência, a falta de conhecimento do período medieval.

E tu não concordas, claro.

Então. Se houve de facto um início que pode ser considerado como um retrocesso, resultante da fusão entre a cultura romana e cristã e a cultura bárbara, depois esse período é seguido por várias ondas de criação de uma cultura nova, que já não é gótica nem obscura, e que está nos fundamentos da nossa cultura ocidental.

Diz-se que tudo muito condicionado pela Igreja...

Bem. Existem na Idade Média posturas positivas, dentro de um determinado caldo cultural que já não se conseguir reproduzir. Tem sido várias vezes assinalado nas últimas décadas que a Idade Média não possuía propriamente uma religião católica. Vivia-se, isso sim, dentro de um sistema que era religioso, em que a questão de se poder não acreditar em Deus ou de não seguir a fá cristã nem se punha. Um dos factores que caracteriza a fé islâmica é não existir separação entre a Igreja e o Estado: no período medieval, essa separação também não se fazia. Havia uma colaboração que por vezes podia ser mais difícil, mas que regra geral era muito afável. As duas entidades que nós consideramos separadas eram só uma na Idade Média. Nos Concílios, tratava-se assuntos tanto de moral e de religião como de política forma de governo, e isto dura até ao fim do século XI.

O que é que acontece no século XI?

Dá-se a Reforma Gregoriana, quando se tenta distinguir o que é que diz respeito ao papado e o que é que diz respeito ao império. As duas coisas estavam tão interligadas que os reis interferiam na Igreja, e a Igreja no poder régio.

E como é que isso passava para a vida quotidiana?

As pessoas eram cristãs como identidade profunda, que as marcava do nascimento à morte. Viviam numa civilização que acreditava no Além, o que permitia a vivência da miséria, do sofrimento, da opressão, com uma perspectiva de futuro muito mais livre, abundante e feliz. Com esta atitude coabitavam crenças mais antigas, relativas à magia, ao culto prestado em determinados lugares, que muitas vezes representava rituais anteriores ao cristianismo.

Essa vivência da fé chegava à legislação?

Os códigos das leis também tinham alguma inspiração cristã, mas as primeiras eram dos bárbaros. Foram legadas pelos Visigodos, pelos Ostrogodos, pelos Burgúndeos; e constituem uma transcrição por escrito dos códigos de Direito existentes entre eles a nível oral. Também entram nesses códigos algumas influências de Direito romano, mas poucas. A conversão dos bárbaros ao cristianismo foi mais tardia. Até aí, as suas leis são muito olho por olho dente por dente, e isto sem qualquer influência bíblica.

Temos, ou não temos, uma boa noção do que é que era considerado pecado na Idade Média?

Temos que ir buscar essa informação aos Penitenciários, ou seja, aos livros que prescreviam as penitências conforme a gravidade da ofensa a Deus, para os sacerdotes saberem que tipo de penas deviam aplicar aos fieis que vinham confessar-se. Isto aplica-se não só para os pecados da carne, que nos mostram que tipo de moral se seguia, mas também ao aborto, ao infanticídio, à masturbação, e por aí fora. As penitências costumavam ser de abstenção de sexo durante meses, senão anos, e de pão e água. As para o incesto, então, era horríveis.

Porquê especificamente o incesto?

A concepção de incesto é, neste época, muito mais vasta que entre nós. A Reforma Gregoriana excluiu o casamento com parentes até ao oitavo grau de proximidade, o que implicava quase toda a gente. Claro, podiam pedir licenças papais para serem dispensados. Concedendo ou não a dispensa, o papa fazia valer o seu poder. O controlo do matrimónio era também político: desta forma, os papas podiam reger a vida dos reis, e estabelecer fronteiras.

E o povo?

O povo não tinha forma de chegar ao papa, nem tinha dinheiro para as dispensas papais, portanto ou incorria em pecado ou ia procurar companhia fora da aldeia. Finalmente, no século XII, a proibição passou a ser apenas atá ao quarto grau, porque se tinha criado uma situação insustentável.

Bom, mas o pessoal podia pecar à vontade, certo? Só precisava de ir à confissão a seguir.

O cristianismo tem sempre isso de bom! O que é preciso, para a confissão funcionar, é que se esteja mesmo arrependido, e disposto a não voltar a repetir o pecado.

OK, mas isso não justifica todas as perseguições religiosas de que ouvimos falar.

Essas perseguições, no período medieval, são uma ideia-feita que não corresponde à verdade. As grandes perseguições só começara no dealbar da Renascença, por volta do século XV. Mesmo as histórias de perseguições a feiticeiras a bruxos são sobretudo do período Moderno.

Então no período Medieval não existiram perseguições?

Existiram perseguições a judeus, como é evidente.

Por que é que havia de ser evidente?

A expulsão dos judeus de Portugal em 1496 já tinha sido precedida por várias outras no Sul da Europa, com períodos de maior ou menor turbulência, sobretudo por motivos económicos. Os judeus praticavam a usura e cobravam as rendas reais, e tornavam-se odiosos porque as pessoas nem tinham que comer, e eram obrigadas a estar a pagar. Em Portugal também havia alguma preocupação com os muçulmanos. Foram expulsos da Península pelos Reis Católicos no século XV, mas até aí já viviam muito restritos na sua liberdade de movimentos. Praticavam a sua religião, tinham as suas escolas mas, pelo menos a partir de D. Afonso IV, tiveram que começar a usar roupas distintivas e viver em bairros fechados, onde as mulheres cristãs não podiam entrar porque se temia a miscigenação sexual entre mouros e cristãos, e eram sempre as mulheres quem caía ou fazia cair em tentação. Eram essencialmente agricultores e artesãos, gozavam de protecção régia, mas não se conseguiram evitar confrontos sangrentos quando as populações locais eram tomadas pela raiva.

E a Inquisição, aparece quando?

No século XIII, mas não contra os judeus. Forma-se antes para vigiar os cátaros, acusados de heresia por aceitarem uma religião dualista, em que o Bem e o Mal se degladiam constantemente pelo poder. Tudo o que está ligado à matéria é mau e tudo o que está ligado ao espírito à bom. Pensa-se que terão sido influenciados pelas culturas orientais na altura das cruzadas. Mas era uma Inquisição episcopal, eram os bispos que mandavam os inquisidores às dioceses onde existiam hereges, resultando dos seus julgamentos ou a expropriação de bens ou a morte pelo fogo.

E não eram torturados? Achas que a expressão corrente “tortura medieval” também não faz sentido.

Acho que até as torturas se tornaram muito mais requintadas e cruéis do século XV em diante. Mas a tortura existia, claro. Era considerada um meio legítimo de obter informações. Claro que a Joana d'Arc morreu na fogueira como uma herege, mas não sofreu torturas prévias, e este era um caso extremo, com fortes implicações políticas.

Também não existiam feiticeiras?

Existiam, sim. Mas as acusações mais extremas que lhe são dirigidas, como as de copularem com o Diabo nas noites de Lua Cheia, são formulações da Idade Moderna. Existem demónios na Idade Média, as pessoas têm sonhos, têm visões, mas não se dá a nada disto a importância que se dará mais tarde. O imaginário desenfreado dos demónios só se forma a partir do século XV, como aliás fica bem patente nas pinturas de Hyeronimus Bosh.

Olha, e cientistas? Podemos falar de cientistas medievais?

Entre muitos outros temos o Pedro Hispano, possivelmente o mesmo homem que, sob o nome de Pedro Julião, se tornou mais tarde no papa português João XXI. Ou só um autor ou vários autores, isso não se sabe, escreveram obras sobre as mais variadas ciências. O Tesouro dos Pobres é um livro fascinante de Medicina, de Magia, de estudo de muitas plantas curativas, e dos rituais a seguir durante a utilização dessas plantas.

E em termos de grandes romances medievais?

Ah, temos a história lindíssima da Heloísa e do Abelardo. Heloisa é uma jovem sobrinha doe um clérigo a quem o tio deixa ter uma educação pouco comum numa mulher da época, arranjando-lhe para o efeito, como preceptor, o grande filósofo Abelardo. Apaixonam-e os dois, Heloisa engravida, e isto causa graves problemas para ambos. Abelardo foi capado, e ela foi fechada num convento e viveu lá o resto da vida, mas trocou uma correspondência assídua com o homem amado,. Apesar das circunstâncias, manteve sempre vivos o amor e a independência de espírito, sem nunca se mostrar arrependida do que fez. Claro que, durante muitos séculos, se duvidou da autoridade dessas cartas, porque ninguém queria acreditar que uma mulher tivesse aquele nível de instrução e de capacidade filosófica.

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