domingo, 25 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Quarta feira de cinzas

QUARTA FEIRA DE CINZAS
Quarenta dias antes da Páscoa sem contar os domingos ( que não são incluídos na Quaresma), e quarenta e quatro dias antes da Sexta-feira Santa contando os domingos: a quarta-feira de cinzas, que celebramos hoje, é o primeiro dia da Quaresma no calendário cristão ocidental. As cinzas que os católicos recebem neste dia são o símbolo para a reflexão sobre o dever da conversão, da mudança de vida, e a recordação da passageira, da transitória, da efémera fragilidade da vida humana, sujeita à morte. E é exactamente neste dia que deveríamos, com grande orgulho em sermos portugueses, observar um minuto de silêncio em memória do injustamento esquecido Barjona de Freitas, 1834-1900.
Augusto César Barjona de Freitas, sem dúvida um dos maiores portugueses de sempre, foi um jurista e político ligado à esquerda do Partido Regenerador. Foi deputado, Par do Reino, e ministro. E, graças ao seu trabalho incessante nesse sentido e aos seus dotes oratórios impressionantes, conseguiu elevar-nos à quintessência da civilização corporizada no facto incontornável de Portugal ter sido o primeiro país do Mundo a abolir a pena de morte. Isto sim, é respeitar a passageira, transitória e efémera fragilidade da vida humana. Neste momento sim, fomos o país mais educado e culto do planeta. Às vezes, um de nós torna-nos sublimes. A seguir esquecemo-lo? Somos excepcioais nessa manobra.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

FERRAMENTAS: Zotero - a próxima geração

Longe vai o tempo em que a vantagem de um documento electrónico face à sua versão em papel se resumia à maior acessibilidade e facilidade de difusão. Hoje, multiplicam-se as possibilidades de proceder à recuperação e processamento automático da informação através da adequada anotação semântica dos textos em suporte electrónico. Deixou de ser inevitável a separação entre os objectos documentais e a sua descrição bibliográfica, que reflectia a tradicional separação entre as estantes e os catálogos de livros. Hoje a base de dados bibliográfica tanto pode estar separada como contida nos próprios documentos.

Os programas tradicionais de gestão de bibliografias resultam de um modelo do passado. Primeiro, foram criados para substituir as fichas em cartolina e permitir o processamento automático da informação nelas contida. Depois, alargaram a sua esfera de acção à recuperação de informação electrónica dos catálogos de bibliotecas e das bases de dados. Contudo, mostraram sempre pouca capacidade para lidar com os documentos electrónicos que não tinham uma versão equivalente em papel.

Zotero - A "ferramenta de pesquisa da próxima geração".


Zotero vem precisamente brilhar onde estes programas falham. Ele é simultaneamente um programa de gestão de bibliografias e de notas de leitura, algo que não é tão frequente como seria de esperar no panorama geral desta categoria de software. Mas não se limita a manter uma base de dados: integra directamente e automatiza a sua recolha com a própria consulta online de bases de dados, de catálogos e dos próprios documentos, a partir do browser de navegação na Internet. A informação armazenada pode ser organizada em colecções (com uma estrutura arborescente), classificada com tags, ligada interna e externamente com documentos em vários formatos (pdf, html, etc.), armazenados localmente ou com páginas na web. O conteúdo de páginas inteiras pode ser igualmente armazenado pelo Zotero.

A partir da mesma informação podem ser produzidas bibliografias, com as referências formatadas em vários estilos (APA, Chicago e MLA), e relatórios contendo as referências bibliográficas juntamente com o conteúdo das notas a elas ligadas. Na realidade, o Zotero funciona on e off line como um gestor de bibliografias e notas, permitindo a importação e a exportação de informação bibliográfica em vários formatos (MODS, BibTeX, MARC, RDF, RIS e outros).

A ergonomia do programa é apreciável. O Zotero pode ser chamado a qualquer momento, clicando numa etiqueta existente na barra de estado do browser. Mas para gravar a informação bibliográfica nem isso é necessário. Basta clicar num ícone, frequentemente com a representação de um livro, que surge automaticamente na barra de navegação, sempre que a página contém anotações com informação bibliográfica. Diferentes ícones indicam a presença de distintos tipos de informação e só aparecem quando esta existe. Se a página contiver informação respeitante a mais de uma fonte, é dada a opção de escolher qual ou quais o utilizador pretende gravar. A dimensão ocupada na janela pelas diferentes secções do Zotero pode ser livremente reajustada. Existe mesmo um modo de tela inteira que facilita o trabalho com o programa quando não é necessária a navegação com o browser.

Página: Zotero - The next-generation research tool

Zotero foi desenvolvido por uma equipa de investigadores ligados a um centro de história digital, o Center for History and New Media da George Mason University: Daniel J. Cohen, Josh Greenberg, Dan Stillman, Simon Kornblith e David Norton e Roy Rosenzweig. Sobre este Centro, já aqui falámos a 24 de Maio de 2005 a propósito do Echo - Exploring and Collecting History Online e do software Scribe. Daniel Cohen e Roy Rosenzweig são os autores de Digital History: A Guide to Gathering, Preserving, and Presenting the Past on the Web. University of Pennsylvania Press, 2005.

Uma extensão do Firefox

Zotero é uma extensão do browser Mozilla Firefox e como este é software livre e open source. É naturalmente multi-plataforma, correndo em Windows, Linux, e Mac OS X, como o próprio Firefox. Quem pretender utilizá-lo terá que instalar ou actualizar o Firefox para a versão 2, o que pode ser feito de forma livre e gratuita no endereço:

http://en-us.www.mozilla.com/en-US/firefox/all.html

O Mozilla Firefox é actualmente o navegador de eleição para o trabalho académico na Web. O Zotero é uma das muitas extensões disponíveis para a investigação. Outra das nossas favoritas é o ScrapBook, de que trataremos numa próxima postagem.

Criar páginas que falem zotero

O número de locais compatíveis e serviços que já comunicam com o Zotero é impressionante. Incluem bases de dados (como a PubMed), bibliotecas, repositórios (como o arXiv.org), harvesters (como o Google Books e o Google Scholar), editores e distribuidores de publicações electrónicas (como o JSTOR) e mesmo serviços de venda de livros (como a Amazon.com).

Para além do desenvolvimento do próprio Zotero, a equipa do CHNM tem vindo a procurar alargar esta lista, apoiando a criação de ferramentas para que a informação na Internet seja devidamente anotada, de forma a ser reconhecida pela extensão do Firefox. Uma dessas ferramentas é um plugin para o software de publicação de blogs WordPress. Este plugin permite ao Zotero detectar vários meta-dados bibliográficos das entradas do blog, como o título, o autor, a data e os descritores.

A técnica utilizada pelo plugin consiste em embeber uma etiqueta COinS em cada postagem do blog. COinS — ou Context Objects in Spans — é um standard para incluir informação bibliográfica em páginas web, podendo ser lida por vários outros programas. Na realidade, esta técnica pode ser estendida a todo o tipo de páginas, utilizando o COinS generator, uma ferramenta que produz uma etiqueta ‘COinS’ a partir da informação bibliográfica. Esta tag pode ser introduzida manualmente em qualquer página.

O mesmo objectivo pode ser conseguido com outras ferramentas, como o Dublin Core Metadata Editor, que cria etiquetas DC para páginas web, as quais também podem ser lidas pelo Zotero.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

ENTREVISTA: Carlos Fiolhais

CARLOS FIOLHAIS
Como quem não esquece o deslumbre

Em finais de 2006, a Universidade de Évora atribuiu, pela primeira vez, o Prémio Rómulo de Carvalho, destinado a distinguir alguém que marque a diferença pelo seu contributo para a cultura científica, nomeadamente em áreas descuradas e no entanto fundamentais, como o Ensino e a História da Ciência. Agora, em Fevereiro de 2007, foi lançado o esperadíssimo Nova Física Divertida, segundo andamento de uma Física Divertida que embalou inúmeros leitores no prazer do pensamento científico nos últimos anos. O galardoado e o autor dos dois livros é Carlos Fiolhais, 50 anos, pai de um filho de 13, Professor Catedrático de Física da Universidade de Coimbra, e, mais recentemente, director da Biblioteca Geral dessa universidade, que inclui a riquíssima Biblioteca Joanina, senhora de milhares de volumes de veneranda sabedoria. Um homem que tem dedicado grande parte da sua energia intelectual ao prazer extremamente exigente de comunicar aos outros as coisas espantosas que sabe, como quem não esquece o deslumbre que acompanha a descoberta dos segredos do Universo e da aventura da vida. Um homem que gosta mesmo de contar histórias, histórias que vale a pena ouvir.

Fizemos questão de fotografar o Carlos na biblioteca mais antiga do país; mas, antes, fomos tranquilamente conversar para o café da Gulbenkian, cada um de nós com o seu pastel de nata delicioso. Grande, sorridente, este laureado é também um cidadão empenhado: veio de Coimbra a Lisboa para ouvir a conferência única de Al Gore no Museu da Electricidade, e agora está a fazer horas para marcar presença na “vernissage” da nova exposição do nosso grande mestre Jorge Calado. Tem tanta curiosidade, e por tanta coisa, que é preciso alertá-lo e repreendê-lo para manter o fio da conversa. “Sou assinante do JL desde o primeiro número”, diz ele. “Só há muito pouco tempo é que, com pena minha, deitei fora a enorme colecção que lá tinha em casa. Mas de vez em quando também leio o 24 horas”.

Está bem, mas, pelo amor de Deus, começa lá a história do princípio. É mesmo verdade que te doutoraste aos 26 anos?

Sim, mas não foi nada de especial. Fui estudar para Frankfurt e lá a rotina era essa. Depois voltei para Coimbra, treinei-me a dar muitas aulas e aprendi imenso com vários colegas. Depois, ao fim de uns anos, voltei a sair para trabalhar para New Orleans, a cidade mais fabulosa dos Estados Unidos. Estás a ver, aqueles pântanos, as mansões, os jacarés, a comida “cajun” que é uma delícia, a loucura de Bourbon Street... Gostei tanto que já lá voltei na minha segunda sabática. A Tulane foi uma universidade que me deu muita sorte…

Só sorte, ou também muito trabalho para ter sorte?

Ambas as coisas. Quando lá cheguei, o chefe do laboratório tinha acabado de descobrir uma fórmula, e distribuiu-a por cinco colaboradores, entre os quais eu próprio, para que cada um de nós estudasse uma aplicação prática. O artigo que publicámos já teve, até hoje, 4700 citações.

É obra. E o fenómeno continua?

Sim, porque aquela fórmula calcula uma energia dos electrões. E, por isso, usa-se em tudo o que é modelação molecular.

Se eras um VIP científico, por que é que te foste meter na tarefa ingrata da divulgação?

Em 1982, quando voltei de Frankfurt, estava a nascer a editora Gradiva, com a sua famosa colecção Ciência Aberta. Eu vinha todo cheio de cultura germânica, e achava que livros de divulgação bons eram os alemães. Mas gostava dos livros científicos que a Gradiva publicava. Escrevi uma carta ao editor, o Guilherme Valente, a dizer isso. Ele telefonou-me. Estivemos uma hora ao telefone. Sabes como é o Guilherme. E eu estava cheio de sangue na guelra… Combinámos encontrar-nos em Leiria.

Quer dizer, a meio caminho entre Lisboa e Coimbra?

Sim, é a terra dele. Foi óptimo. Falámos, falámos... nessa altura havia pouca divulgação em Portugal... Começámos a colaborar. Eu recomendava livros e fiz algumas traduções. Depois, em 1991, enchi-me de brios e escrevi o Física Divertida.

E foi um espantoso “best-seller”.

Bom, vai agora na sétima edição. Vendeu quase vinte mil exemplares. Em Portugal, de facto, é um número considerável.

Estavas à espera desse êxito?

Não. Foi um choque. Na altura, o José Mariano Gago escreveu no “Expresso” uma coisa gira, a dizer que eu tinha entrado para catedrático da Universidade da Gradiva, que era melhor que várias outras. Até fiquei envergonhado... sem jeito, sabes como é? Não aprendemos em lado nenhum a estar preparados para estas coisas.

Tens ideia do que é que seduziu as pessoas?

Repara, o título do livro é um paradoxo: nunca se pensa na Física como sendo divertida. O livro baseia-se em episódios da história da física, e creio que interessou tanto a miúdos como a universitários, porque era a antítese da física dos manuais escolares. Era uma prosa inspirada na colecção Ciência Para Gente Nova, de Rómulo de Carvalho. É prosa molhada, se quiseres, ao invés da prosa seca típica desses livros. Na escola, o que nos serviam como ciência eram fretes. E eu tentei falar de verdadeira ciência, com todo o seu brilho e cor. No secundário, a Física parecia-me por vezes um instrumento de tortura, um trato de polé. As minhas melhores notas eram a Filosofia e a Ciências Naturais, e não a Física ou a Matemática. Não fiquei a gostar de física na escola: encontrei-a nos livros de divulgação científica que trazia para casa da Biblioteca Municipal, onde por vinte e cinco tostões ao ano tinha acesso a tudo e mais alguma coisa. O que eu vibrei em miúdo com o Júlio Verne… E como fiquei fascinado com o átomo… Com o núcleo, que é o coração do átomo. Acabei por fazer o doutoramento sobre a cisão do núcleo.

O que é que te atraiu assim tanto para essas lides?

O núcleo do átomo é o mistério dos mistérios!

Em Biologia, a gente diz isso da reprodução...

À chaqu'un son gout. A gente não vê os núcleos. Eu pensava: gosto de dar aulas a pessoas, mas o que são elas comparado com o Cosmos? Fui atraído pelos mistérios cósmicos do muito pequeno. Percebi que podia alcançar essas dimensões… No secundário, sentia que os programas de Física me estavam a esconder qualquer coisa. E irritava-me: por que é que me escondem isto? Quando cheguei à Faculdade, encontrei o que estava escondido, o átomo com núcleo e electrões É paradoxal: o electrão é esquizofrénico! Pode estar em dois pontos ao mesmo tempo… Como é que ele faz isso? E as partículas que estão dentro do núcleo? Pronto, lá fui descobrir as leis do núcleo para a Alemanha. Sabes o que é que eu acho magnífico nisto? As leis da Natureza, a gente só pode descobri-las. Não pode, nunca, fazê-las.

O que é que tu descobriste?

Descobri melhor como se partia o núcleo atómico. Quando fui para New Orleans, a Física Nuclear, de que tanto gostava, já não estava na moda. Mas a Mecânica Quântica continuava a ser a mesma. Se a gente percebe bem, e a sério, de uma determinada coisa, depois pode aplicá-la a uma variedade grande de questões. No meu caso, podia perfeitamente utilizar o que sabia sobre os núcleos para estudar moléculas. Sempre com o computador. Acabado de doutorar, tinha comprado o primeiro PC da Universidade de Coimbra. Era um Olivetti que custou 500 contos. Isto foi em 1983, quando apareceram os primeiros computadores pessoais – tive imensa sorte com esta janela de tempo, como se ela tivesse esperado por mim… Hoje, o maior computador em Portugal para cálculo científico também está em Coimbra. Demos-lhe o nome de Milipeia, porque funciona como um bicho de mil patas que precisa que todas funcionem em uníssono para conseguir mover-se. Começámos por criar a Centopeia, que tinha mais de cem patas. E agora temos a Milipeia.

Por que é que, com a formação de físico que tens, acabaste por investir tanto tempo e energia nos computadores?

Não me puxes pela língua. Esta parte é fascinante. O computador, que vem da física, já nos deu muito, mas estou convencido de que ainda não deu tudo o que tem para dar-nos. Todos os dois anos o computador dá-nos o dobro. Isto está estudado. É a lei de Moore, o criador da Intel.

Peço desculpa, mas vais ter que explicar isso melhor.

Pensa nos transistores. São interruptores. Conforme os ligas ou não, passa ou não uma corrente eléctrica, tal como passa ou não água numa mangueira conforme pões o pé em cima ou o tiras. Tudo se faz a partir daqui, a partir de sinais de sim e não. Os transistores são cada vez mais pequenos; e, à medida que minguam, cabem vez mais no mesmo espaço: neste momento, há cerca de dez milhões de transistores num chip. Um PDA era impossível há poucos anos. É uma tecnologia que seria impossível se os transistores não fossem pequeninos. E vão ser menores. Olha: um micrómetro, o tamanho de uma célula, é o tamanho dos transistores actuais. Um nanometro, um milésimo do micrometro, é o tamanho de uma molécula orgânica, e os transistores vão ser deste tamanho. O que quer dizer que, nessa altura, um PDA poderá ser do tamanho de um cabelo. Não podemos descer abaixo do nível do átomo; mas, até aí, muita coisa se pode fazer..

Não há dimensões abaixo do átomo?

Há, mas é vazio até ao núcleo. E transístores com partículas do núcleo é ficção científica.

E o que é que vai acontecer, na prática, por causa do encolhimento dos transistores?

Pensa bem. Se a indústria automóvel tivesse progredido ao ritmo da indústria informática, eu hoje tinha um Ferrari pelo preço de uma bicicleta. Mas, no mundo dos computadores, já tenho o meu Ferrari ao custo da bicicleta. E, enquanto o Ferrari parou ali, os computadores continuam a ficar cada vez mais poderosos.

Então e as aplicações científicas desse fenómeno?

Sem computadores, toda a moderna ciência do caos seria impossível. Sempre se fizeram associações entre causas e efeitos, mas a ideia de que pequenas causas pode causar grandes efeitos é recente e deve-se ao computador.

Aquilo da borboleta que bate as asas no México e desencadeia um ciclone na China?

Sim, isso mesmo.

Eu estava a pensar em desenvolvimentos científicos que interferissem directamente com a vida de todos nós…

Há um conto do Jorge Luis Borges em que alguém quer fazer um mapa do tamanho de um império. Os computadores ainda não conseguem mapear o mundo dessa forma, mas para lá caminham. Basta lembrar que põem satélites em órbita com precisão e, por favor, isso é uma velharia dos anos 50. Com esses satélites prevê-se o tempo que vai fazer amanhã. Vamos prever cada vez melhor o futuro, porque vamos ter cada vez mais poder de cálculo.

Credo. E isso é bom, com os futuros que andam para aí a ser previstos?

Claro que é. Para já, porque, assim, temos a possibilidade de evitar o pior, por exemplo as alterações climáticas E temos a possibilidade de decidir – e que exige muito de nós, em maturidade - mas também nos dá muito em troca, em bem-estar e mesmo sobrevivência. Podemos fazer vários cenários, e depois escolher o futuro que queremos. E, num país democrático, quando o governo não quiser escolher o futuro que queremos, podemos tirá-lo nas eleições seguintes.

Até lá, o dito governo ainda tem tempo de fazer muita porcaria.

E tu queres viver em regime de golpe de Estado, é? Ainda hoje o Al Gore disse na conferência: numa democracia o poder político é um recurso renovável… Assim como o periscópio permite ver mais longe, o computador permite ver mais para diante. Podemos até alterar o mundo e criar mundos virtuais, como no filme “Matrix”. Podemos alterar virtualmente as leis da Natureza e ver se o mundo fica pior ou não.

Por exemplo?

Experimenta mudar a lei da gravidade no teu mundo virtual. Não demoras muito tempo a perceber que tudo deixa de funcionar. Perde-se logo a regularidade astronómica, por exemplo. E, sem ela, não há estações, não há climas, não há noites de Lua Cheia... Quando percebes que perfeito que isto é, que perfeitos são os fenómenos cósmicos que permitiram o aparecimento da vida, passas a gostar mais de estar no mundo. Já viste bem que fantástico tudo isto foi?

domingo, 18 de fevereiro de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: O Filósofo da Bénard

O FILÓSOFO DA BÉNARD
As pessoas gostam muito de dizer que os portugueses são burros e que não têm nada entre as orelhas, mas eu regozijo-me quase todos os dias com pequenas revelações de que não é verdade que andem para aqui dez milhões de criaturas com o cérebro em coma. A desta semana, absolutamente deliciosa, foi-me entregue numa folha A4 por um empregado da Bénard, ali em pleno Chiado, numa dessas tardes em que parei lá por uns minutos para me refazer da chuva antes de seguir para casa. O que era aquilo? Muito simples. Há um jovem filósofo alemão, absolutamente brilhante e de seu nome Robert Kurtz, que vai escrevendo textos para tentar partilhá-los com o mundo. Esse filósofo alemão é amigo de um filósofo português. E este segundo rapaz, empenhado em não deixar apagar a chama, traduz cuidadosamente a prosa do colega para a nossa língua e distribui-a por vários locais – nomeadamente pela Bénard. O texto desta semana, intitulado Desarmamento moral: a cultura do escândalo como expressão da falta de perspectiva social, contém várias passagens notáveis, da quais transcrevo, por impossibilidade de monopolizar mais espaço, apenas isto: “A sociedade transformou-se num grande ninho de intriga global. Quando os conteudos se tornam indiferentes surge um capitalismo mental, com a sua espectacular economia da atenção”. Querem mais? Vão ver a exit-online.org. E, por favor, deixem de generalizar a acefalia crónica dos portugueses. Garanto-vos que o empregado que me passou o papel estava genuinamente entusiamado com o texto.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

ENTREVISTA: Ana Maria Rodrigues

Ana Maria Rodrigues
COMO QUEM VIAJA NO TEMPO

António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, historiador medievalista e contemporâneo, resistente antifascista, antigo director da Biblioteca Nacional, Gão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supermo Conselho do grau 33 (1991-1994), condecorado em 1998 com a Grão Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, autor de uma vasta obra de grande importância para o estudo da História de Portugal, faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, vítima de problemas cardíacos. Tinha formado uma verdadeira escola, e deixado pelo caminho vários discípulos que foram, por seu turno, subindo nos escalões da carreira. Homenageá-lo, hoje, é, antes de mais nada, não deixar que a Idade Média desapareça do conhecimento imediato dos portugueses. Para recordarmos esse período único em todo o seu esplendor, pedimos ajuda a Ana Maria Rodrigues, Professora Associada do Departamento de História da Universidade de Lisboa, 49 anos, dois filhos, pronta a fazer uma grande festa, com viagem familiar e tudo, quando totalizar os 50. A sua especialidade é História Medieval, e os seus olhos brilham quando revela o que estuda. Fala tranquilamente, familiarmente, como quem viaja no tempo, do período menos compreendido e mais maltratado da História da Europa.

A cave da Faculdade de Letras tem corredores infindáveis com cacifos alinhados dos dois lados, inscrições nas colunas do tecto que ninguém se dá ao trabalho de ler, e um certo ar de última paragem neste mundo dos que foram sentenciados a deixá-lo. Na rua o frio continua a gelar os transeuntes, mas dentro do gabinete onde Ana Maria trabalha hoje estão os aquecimentos ligados e os casacos pesados vindos do exterior despem-se depressa. Uma mesa larga, um computador antigo, prateleiras a transbordar de papeladas, paredes vagamente cinzentas e janelas abertas para o sol gélido do exterior. Ela está linda, como sempre, com aquele seu ar que trouxe do doutoramento em França e nunca mais a largou. As pessoas atribuem à Idade Média tudo o que acontece de mal, diz ela.

Mas por que é que temos uma visão assim tão negativa do período medieval?

Foi na Idade Média que a nossa sociedade colocou a barbárie, a violência, o arbitrário... e, no entanto, hoje sabemos bem que não é tudo assim. Talvez tivessem existido alguns períodos que correspondam a esse imaginário global. Mas, hoje em dia, há vários autores que fazem a comparação entre a Idade Média e os nossos tempos, dizendo que nos aproximamos de uma nova Idade Média.

Porquê?

Por causa das migrações. Estaríamos perante uma nova invasão dos bárbaros...

Quem, os emigrantes de Leste?

Não. Esses vêm de uma cultura idêntica à nossa, muitas vezes até superior à nossa. E, assim que ganham algum dinheiro, vão-se embora. Poderíamos realmente falar dos romenos, por causa da raça cigana, que tem um código de honra completamente diferente do nosso. Mas já é esticar um bocado a corda. Os bárbaros em questão, segundo estes autores, seriam os argelinos, os marroquinos, enfim, os africanos. Isto em termos de opinião pública. Da mesma forma, os condomínios privados que agora existem seriam equivalentes aos antigos senhorios: instalam-se em domínios onde existe um afastamento dos outros, uma espécie de território próprio onde quem não pertence não entra. Nestes condomínios, as pessoas estranhas estão proibidas porque o Estado já não consegue assegurar a protecção da população em relação ao roubo e outras pequenas violências; e então introduzem-se aqui os seguranças privados, exactamente como existiam tropas especiais que protegiam o senhor do domínio.

Há mais exemplos do nosso novo período medieval?

Olha, se queres entrar numa grande empresa, não passas na segurança sem apresentares primeiro as credenciais, e tens que ser controlada enquanto estás lá dentro. Ou seja, há domínios de direito próprio dentro do que deveria ser uma democracia que constitui um Estado de Direito.

E voltando ao período medieval que já acabou, por que é que achas que hoje tem tão mau nome?

Provavelmente, por ser um período histórico extremamente longo. Basicamente, damos esse nome, que foi cunhado já pejorativamente pelos humanistas da Renascença, a todo o período que vai da Antiguidade Clássica à Renascença. O intuito dos humanistas do século XV era, precisamente, desvalorizar esse período e exaltar os seus próprios tempos, que tinham reatado com o grande conhecimento e beleza da Antiguidade. Até se usou por muito tempo tempo o termo “Dark Ages”, ou “Séculos Góticos”, remetendo para o obscurantismo, a violência, a falta de conhecimento do período medieval.

E tu não concordas, claro.

Então. Se houve de facto um início que pode ser considerado como um retrocesso, resultante da fusão entre a cultura romana e cristã e a cultura bárbara, depois esse período é seguido por várias ondas de criação de uma cultura nova, que já não é gótica nem obscura, e que está nos fundamentos da nossa cultura ocidental.

Diz-se que tudo muito condicionado pela Igreja...

Bem. Existem na Idade Média posturas positivas, dentro de um determinado caldo cultural que já não se conseguir reproduzir. Tem sido várias vezes assinalado nas últimas décadas que a Idade Média não possuía propriamente uma religião católica. Vivia-se, isso sim, dentro de um sistema que era religioso, em que a questão de se poder não acreditar em Deus ou de não seguir a fá cristã nem se punha. Um dos factores que caracteriza a fé islâmica é não existir separação entre a Igreja e o Estado: no período medieval, essa separação também não se fazia. Havia uma colaboração que por vezes podia ser mais difícil, mas que regra geral era muito afável. As duas entidades que nós consideramos separadas eram só uma na Idade Média. Nos Concílios, tratava-se assuntos tanto de moral e de religião como de política forma de governo, e isto dura até ao fim do século XI.

O que é que acontece no século XI?

Dá-se a Reforma Gregoriana, quando se tenta distinguir o que é que diz respeito ao papado e o que é que diz respeito ao império. As duas coisas estavam tão interligadas que os reis interferiam na Igreja, e a Igreja no poder régio.

E como é que isso passava para a vida quotidiana?

As pessoas eram cristãs como identidade profunda, que as marcava do nascimento à morte. Viviam numa civilização que acreditava no Além, o que permitia a vivência da miséria, do sofrimento, da opressão, com uma perspectiva de futuro muito mais livre, abundante e feliz. Com esta atitude coabitavam crenças mais antigas, relativas à magia, ao culto prestado em determinados lugares, que muitas vezes representava rituais anteriores ao cristianismo.

Essa vivência da fé chegava à legislação?

Os códigos das leis também tinham alguma inspiração cristã, mas as primeiras eram dos bárbaros. Foram legadas pelos Visigodos, pelos Ostrogodos, pelos Burgúndeos; e constituem uma transcrição por escrito dos códigos de Direito existentes entre eles a nível oral. Também entram nesses códigos algumas influências de Direito romano, mas poucas. A conversão dos bárbaros ao cristianismo foi mais tardia. Até aí, as suas leis são muito olho por olho dente por dente, e isto sem qualquer influência bíblica.

Temos, ou não temos, uma boa noção do que é que era considerado pecado na Idade Média?

Temos que ir buscar essa informação aos Penitenciários, ou seja, aos livros que prescreviam as penitências conforme a gravidade da ofensa a Deus, para os sacerdotes saberem que tipo de penas deviam aplicar aos fieis que vinham confessar-se. Isto aplica-se não só para os pecados da carne, que nos mostram que tipo de moral se seguia, mas também ao aborto, ao infanticídio, à masturbação, e por aí fora. As penitências costumavam ser de abstenção de sexo durante meses, senão anos, e de pão e água. As para o incesto, então, era horríveis.

Porquê especificamente o incesto?

A concepção de incesto é, neste época, muito mais vasta que entre nós. A Reforma Gregoriana excluiu o casamento com parentes até ao oitavo grau de proximidade, o que implicava quase toda a gente. Claro, podiam pedir licenças papais para serem dispensados. Concedendo ou não a dispensa, o papa fazia valer o seu poder. O controlo do matrimónio era também político: desta forma, os papas podiam reger a vida dos reis, e estabelecer fronteiras.

E o povo?

O povo não tinha forma de chegar ao papa, nem tinha dinheiro para as dispensas papais, portanto ou incorria em pecado ou ia procurar companhia fora da aldeia. Finalmente, no século XII, a proibição passou a ser apenas atá ao quarto grau, porque se tinha criado uma situação insustentável.

Bom, mas o pessoal podia pecar à vontade, certo? Só precisava de ir à confissão a seguir.

O cristianismo tem sempre isso de bom! O que é preciso, para a confissão funcionar, é que se esteja mesmo arrependido, e disposto a não voltar a repetir o pecado.

OK, mas isso não justifica todas as perseguições religiosas de que ouvimos falar.

Essas perseguições, no período medieval, são uma ideia-feita que não corresponde à verdade. As grandes perseguições só começara no dealbar da Renascença, por volta do século XV. Mesmo as histórias de perseguições a feiticeiras a bruxos são sobretudo do período Moderno.

Então no período Medieval não existiram perseguições?

Existiram perseguições a judeus, como é evidente.

Por que é que havia de ser evidente?

A expulsão dos judeus de Portugal em 1496 já tinha sido precedida por várias outras no Sul da Europa, com períodos de maior ou menor turbulência, sobretudo por motivos económicos. Os judeus praticavam a usura e cobravam as rendas reais, e tornavam-se odiosos porque as pessoas nem tinham que comer, e eram obrigadas a estar a pagar. Em Portugal também havia alguma preocupação com os muçulmanos. Foram expulsos da Península pelos Reis Católicos no século XV, mas até aí já viviam muito restritos na sua liberdade de movimentos. Praticavam a sua religião, tinham as suas escolas mas, pelo menos a partir de D. Afonso IV, tiveram que começar a usar roupas distintivas e viver em bairros fechados, onde as mulheres cristãs não podiam entrar porque se temia a miscigenação sexual entre mouros e cristãos, e eram sempre as mulheres quem caía ou fazia cair em tentação. Eram essencialmente agricultores e artesãos, gozavam de protecção régia, mas não se conseguiram evitar confrontos sangrentos quando as populações locais eram tomadas pela raiva.

E a Inquisição, aparece quando?

No século XIII, mas não contra os judeus. Forma-se antes para vigiar os cátaros, acusados de heresia por aceitarem uma religião dualista, em que o Bem e o Mal se degladiam constantemente pelo poder. Tudo o que está ligado à matéria é mau e tudo o que está ligado ao espírito à bom. Pensa-se que terão sido influenciados pelas culturas orientais na altura das cruzadas. Mas era uma Inquisição episcopal, eram os bispos que mandavam os inquisidores às dioceses onde existiam hereges, resultando dos seus julgamentos ou a expropriação de bens ou a morte pelo fogo.

E não eram torturados? Achas que a expressão corrente “tortura medieval” também não faz sentido.

Acho que até as torturas se tornaram muito mais requintadas e cruéis do século XV em diante. Mas a tortura existia, claro. Era considerada um meio legítimo de obter informações. Claro que a Joana d'Arc morreu na fogueira como uma herege, mas não sofreu torturas prévias, e este era um caso extremo, com fortes implicações políticas.

Também não existiam feiticeiras?

Existiam, sim. Mas as acusações mais extremas que lhe são dirigidas, como as de copularem com o Diabo nas noites de Lua Cheia, são formulações da Idade Moderna. Existem demónios na Idade Média, as pessoas têm sonhos, têm visões, mas não se dá a nada disto a importância que se dará mais tarde. O imaginário desenfreado dos demónios só se forma a partir do século XV, como aliás fica bem patente nas pinturas de Hyeronimus Bosh.

Olha, e cientistas? Podemos falar de cientistas medievais?

Entre muitos outros temos o Pedro Hispano, possivelmente o mesmo homem que, sob o nome de Pedro Julião, se tornou mais tarde no papa português João XXI. Ou só um autor ou vários autores, isso não se sabe, escreveram obras sobre as mais variadas ciências. O Tesouro dos Pobres é um livro fascinante de Medicina, de Magia, de estudo de muitas plantas curativas, e dos rituais a seguir durante a utilização dessas plantas.

E em termos de grandes romances medievais?

Ah, temos a história lindíssima da Heloísa e do Abelardo. Heloisa é uma jovem sobrinha doe um clérigo a quem o tio deixa ter uma educação pouco comum numa mulher da época, arranjando-lhe para o efeito, como preceptor, o grande filósofo Abelardo. Apaixonam-e os dois, Heloisa engravida, e isto causa graves problemas para ambos. Abelardo foi capado, e ela foi fechada num convento e viveu lá o resto da vida, mas trocou uma correspondência assídua com o homem amado,. Apesar das circunstâncias, manteve sempre vivos o amor e a independência de espírito, sem nunca se mostrar arrependida do que fez. Claro que, durante muitos séculos, se duvidou da autoridade dessas cartas, porque ninguém queria acreditar que uma mulher tivesse aquele nível de instrução e de capacidade filosófica.

ENTREVISTA: Ricardo Santos

RICARDO SANTOS
Como quem veio de longe

Por que é que fez muita falta escutar a voz dos filósofos durante todo o debate sobre o aborto que marcou os últimos meses da vida portuguesa? Provavelmente, pela mesma ordem de razões que torna tão desastrosa a eliminação dos exames de Filosofia no ensino secundário. Contemplando estas questões cruzadas que de uma forma ou de outra marcam a identidade nacional, Ricardo Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Professor Auxiliar da Universidade de Évora e investigador no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, quarenta anos, três filhos, fala com a grande calma de quem já veio de muito longe e sabe que tem pela frente um grande caminho. A Filosofia formou o núcleo duro dos primeiros passos científicos do mundo, e confronta-se com um futuro emocionante, pleno de desafios cada vez mais complexos. Trazê-los até aos mais jovens e imbuir a sociedade do seu espírito acutilante é a missão de todos os que se juntam à sua volta.

A Sociedade Portuguesa de Filosofia partilha o andar com outras sociedades científicas num prédio igual aos outros da Avenida da República. Está frio na rua, e as salas de pé direito elevadíssimo parecem todas completamente geladas. Um cinzeiro grande marca a zona de tolerância sobre a mesa de reuniões. Ricardo Santos deixou de fumar há pouco tempo, num esforço que lhe pareceu “curiosamente fácil”. A calma das suas respostas está infectada pela energia contagiosa dos que amam a sua área de estudo e não hesitam em partilhá-la com o mundo. O debate sobre o aborto tem sofrido de um abaixamento inaceitável, diz ele. E, aí, nota-se mesmo a falta dos filósofos.

Porquê?

Porque em Portugal ouviu-se muito pouco a voz dos filósofos a debater esta questão, quando há muito trabalho de reflexão filosófica sobre o problema ético do aborto que era importante ter em conta. E também porque a formação em Filosofia nos dá uma grande disciplina de argumentação, que nestes casos faz toda a diferença. Um filósofo está, em princípio, mais preparado para evitar os erros mais frequentes num debate: conclusão precipitada, petição de princípio, problemas ambíguos, uso de falácias. Estamos precavidos contra o apelo à emoção, o escamotear da informação, a utilização de informação manipulada intencionalmente, temos esse arcaboiço. Que é sempre um contributo valioso para um debate público tão importante como este.

O que diria um filósofo sobre o aborto, se lhe perguntassem?

Por exemplo, começaria por mostrar que a questão do aborto está intrinsecamente ligada ao problema da vagueza.

E isso é o quê?

É um problema muito antigo, conhecido desde a Grécia antiga, sob a designação de “paradoxo de sorites”. Quantos grãos de areia são necessários para formar um monte? Se eu tiver três grãos de areia, não tenho um monte. E se só tiver quatro, também não. Em geral, se não tenho um monte, e acrescento apenas mais um grão, não passo a ter um monte. Mas, por este raciocínio, seria levado a concluir que uma enorme duna na Costa da Caparica também não é ainda um monte, pois os grãos de areia que a formam foram, imaginemos, acrescentados um a um. Ora, há muitos casos análogos. Por exemplo, os carecas: a partir de quantos cabelos é que passo a ser careca? E, no caso do desenvolvimento do feto, a questão é a de saber ao fim de quantos dias passamos a ter um ser humano.

Parece um problema filosófico criado de propósito para este debate.

Ele mostra que há certos processos de mudança – de uns quantos grãos de areia para um monte, de cabeludo para careca, ou de óvulo fecundado para ser humano – que, devido ao seu carácter contínuo, tornam muito problemático o estabelecimento de uma linha divisória precisa. Será que essa linha não existe, e por isso haverá certas pessoas das quais não é verdadeiro nem falso dizer que são carecas, ou ela existe, mas nós não a conhecemos? No caso do aborto, esta dificuldade parece favorecer mais a posição conservadora, pois todos recusamos o infanticídio e, se não houver linha divisória, o aborto será tão grave como o infanticídio. Mas isto é apenas um exemplo de como há muita coisa pensada e estudada pelos filósofos sobre problemas desta natureza, que são relevantes e que seria importante ter trazido para iluminar mais o debate.

Então por que é que o Ricardo acha que os filósofos não foram chamados a participar?

Por pura ignorância? É uma possibilidade. Desconhecendo a Filosofia, é provável que se conclua, logo à partida, que ela não tem coisas relevantes para trazer para este debate. Mas eu creio que, no afastamento dos filósofos, há também uma boa dose de preconceito: considera-se a questão do aborto demasiado séria para justificar suportar-se esta problematização fria, abstracta e racional dos filósofos. Mas sentimos a falta deles quando a questão começa a ser discutida de um modo que abusa do apelo à emoção ou que pede sobretudo a identificação das pessoas com certos grupos de opinião, sejam eles católicos, feministas, esquerdistas ou outros.

Há mais problemas filosóficos que sejam relevantes num debate tão humanamente dilacerante?

Há, e são completamente ignorados pela maioria das pessoas. Cito-lhe mais um exemplo: o problema da consciência e da capacidade de sentir dor. Quando é que isso começa no desenvolvimento do feto? Não se tem conseguido responder. E será possível algum dia responder? Ora, a Filosofia tem uma longa tradição de reflexão sobre o conhecimento das outras mentes. Como posso eu conhecer a consciência do outro? Como posso conhecer a dor dos outros sem a ter, se a dor é uma experiência completamente privada? Cientificamente, podemos tentar postular medidas observáveis que tomamos como reveladores da presença de consciência. Mas como é que vamos justificar esta correlação entre o observável e o inobservável? Todo esse legado de problematização que existe na Filosofia devia ter sido trazido para a linha da frente.

E eu que, dos problemas filosóficos, só conhecia aquela história do barco reconstruído...

Ah! Esse é o barco em que Teseu regressou a Atenas depois de vencer o Minotauro. Os atenienses decidiram preservá-lo e, à medida que as tábuas envelheciam, eram substituídas por novas. A dada altura, restavam muito poucas tábuas originais e colocou-se a questão: É este ainda o barco de Teseu? Actualmente, fazemos uma modificação do problema: o barco sai de um porto, empreende uma grande viagem, leva madeira no porão, e vai uma chalupa atrás. Durante a viagem, os marinheiros têm que ir mudando as tábuas, e vão deitando fora as velhas. A chalupa que vai atrás aproveita as tábuas velhas para reconstruir o barco. Quando regressam ao porto, o barco da frente não tem nenhuma tábua original, e o barco que vem atrás tem essas tábuas todas. Qual deles é o barco que partiu à frente? E, a ser o segundo, como é que a tripulação que partiu no primeiro barco mudou de barco sem nunca ter desembarcado?

Com tantas contribuições interessantes para oferecer ao nosso pensamento, por que é que o Ministério da Educação decidiu abolir os exames de Filosofia?

Não sabemos. A sério. Já perguntámos várias vezes, e nunca obtivemos resposta. Ficamos numa completa perplexidade, porque o que temos pela frente parece uma medida puramente administrativa, da qual se desconhecem os fundamentos, didácticos, científicos, ou outros.

Será embirração particular da Ministra?

Esta medida é completamente contraditória com o restante discurso da própria Ministra sobre a disciplina, que continua a ser obrigatória em todos os cursos no 10º e 11º anos. Isto implica que a Filosofia é importante para a formação geral dos estudantes, pelo que não se percebe por que é que para Português existe um exame nacional, e para Filosofia não.

A mim parece-me uma medida ainda mais grave do que abolir a disciplina. É uma forma explícita de dizer que embora tenha que se ouvir falar “daquilo”, “aquilo” não é importante. É tão pouco importante que nem se justifica existir exame.

Há um conjunto de razões que tornam esta medida contra-producente. A ideia-chave por trás de um exame é ter uma medida de aferição: um instrumento que, associado a outros, permite aos agentes do processo educativo aferir a sua acção e gerir uma série de coisas. Sem exame, ficamos privados da informação que daí derivava. Essa informação permite-nos ver se os programas estão a ter bons resultados, se os manuais estão a ser úteis, se os métodos são adequados. Com o exame, também temos funções de normalização do ensino da disciplina nas várias turmas que há em cada escola e nas várias escolas que há ao longo do país. No que diz respeito aos estudantes, é mais que sabido que a sua atitude perante uma disciplina, nomeadamente no esforço que ela merece, muda completamente conforme ela tem ou não exame. É fundamental que esta disciplina exista, e não ter exame é um sério revés para a sua imagem de seriedade.

Na sua opinião, quais vão ser as consequências da abolição do exame?

Vamos ter várias consequências, a nível dos vários agentes envolvidos. Do lado dos alunos, vamos certamente ter um forte desinvestimento quando a matéria que está a ser ensinada não vai ser sujeita a avaliação externa. Só quem não tem experiência de ensino é que pode não saber disto. Os professores também mudam as suas práticas consoante existe ou não um exame nacional. Os manuais, os autores, as editoras, o próprio Ministério da Educação quando está a fazer programas e a monitorizar a sua aplicação, todos vão ressentir-se. Não existe só um efeito: a abolição dos exames provoca uma multiplicidade de efeitos que dá uma boa medida da importância do ensino da Filosofia na sociedade portuguesa, tanto qualitativa quanto quantitativa. Vamos saber menos sobre Filosofia do que devíamos, e vão ser menos as pessoas a interessar-se por ela.

Bom, e aqui põe-se a vexata quaestio... para que é que serve a Filosofia?

Se pensarmos só ao nível de um utilitarismo mais básico, não serve para consertar canos. Claro que não. Mas também não é isso que queremos dar aos nossos estudantes. Se fizermos a pergunta com um sentido mais economicista, no sentido de o que é que se ganha com isso, aí já podemos ter nuances na resposta. O mundo contemporâneo é diferente na forma como mede o valor de mercado das coisas. Como actividade intelectual, a Filosofia produz resultados que não é completamente óbvio que não tenham valor de mercado. Até em Portugal já houve livros de Filosofia que foram best-sellers. Ainda recentemente houve notícias de empresas norte-americanas a recrutarem filósofos para os seus conselhos de administração. Mas as coisas têm que ser vistas de outra maneira.

Como?

A Filosofia serve verdadeiramente para fins de carácter intelectual. É um instrumento que é insubstituível para desenvolver nos nossos jovens a capacidade de pensamento e de análise crítica de problemas e de argumentos. E também uma capacidade invulgar de interpretação de textos. Sempre foram estes os verdadeiros contributos da Filosofia. Há outras áreas do saber que cultivam também este género de capacidades, daí que muita gente sublinhe a proximidade da Filosofia com a Matemática, com a Física, com a História ou com a Literatura. Mas a Filosofia reúne, por tradição, esta capacidade que lhe é muito própria de desenvolver habilidades de análise e de pensamento crítico, de reflexão autónoma, que não se encontra noutras áreas. É fundamental para a formação de cidadãos autónomos, intervenientes no espaço público, na vida da sociedade.

O Ministério terá tomado esta decisão por a Filosofia ser considerada particularmente difícil de ensinar?

Eu fui professor do secundário, e posso responder pela minha experiência. A Filosofia não é mais difícil de ensinar do que outras disciplinas. A Matemática, a Física, a História, a Literatura, são de um ensino igualmente complexo. Claro que não podemos ensinar jovens de quinze e dezasseis anos como ensinamos os universitários, mas estes alunos têm uma coisa maravilhosa do seu lado: são de uma curiosidade intelectual inesgotável, ainda muito crua, sem deformações. Parecem esponjas. E isso faz com que captem e sejam captados pelo essencial dos problemas de que a Filosofia vai tratar.

Já falámos do problema da vagueza, do paradoxo de sorites, da questão da consciência, do barco de Teseu...

Sim, esses são bons exemplos de problemas filosóficos, importantes e também interessantes, que podem ser apresentados de modo claro e acessível. O barco de Teseu tem de ser explicado aos alunos do secundário como um problema sobre a identidade e a persistência dos objectos. Relaciona-se facilmente com o célebre aforismo de Heraclito “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”: os elementos que compõem um objecto são substituídos por novos e isso leva-nos a questionar a identidade do objecto. Platão interpretou o aforismo pelas suas consequências epistemológicas: se o mundo visível está em constante mudança, se nele tudo é fugaz e nenhum objecto persiste no tempo, então não podemos conhecê-lo, pelo que não poderia haver uma ciência deste mundo. De onde Platão infere que o mundo que vemos não é a verdadeira realidade.

Ou seja, tudo é questionável.

Não há dúvida de que os problemas filosóficos têm a particularidade de pôr em causa de modo surpreendente as ideias feitas, coisas que parecem evidências para o senso comum. Como a relação entre o pensamento e a existência, por exemplo. Tendemos geralmente a achar que podemos pensar no que não existe, mas será que podemos mesmo? Se uma coisa não existe, como posso realmente pensar nela? Não vale responder que a coisa existe no meu pensamento, que tenho uma imagem mental do diabo, por exemplo, e que é nela que penso quando penso no diabo. Porque essa imagem ou representação mental existe e, nesse caso, não estaria a pensar em algo que não existe. Mas se o pensamento está necessariamente vinculado à existência, daqui decorre que, se consigo realmente pensar em algo – em deus, por exemplo –, então isso existe. O que seria uma prova surpreendemente fácil da existência de certas entidades. Como os números, por exemplo.

É dessas coisas que se fala nas aulas de Filosofia do secundário?

Sim, entre muitas outras. Mas é preciso que os professores usem a linguagem e os métodos adequados. E que possam socorrer-se de bons materiais didácticos, como manuais escolares de qualidade. As coisas têm melhorado bastante ultimamente, mas há ainda muito a aperfeiçoar.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

AGENDA: Aborto, Valor e Identidade Pessoal

2 de Fevereiro, 6.ª feira - 15 horas

Auditório da Sociedade Portuguesa de Filosofia

Aborto, Valor e Identidade Pessoal

Pedro Galvão (Universidade de Lisboa)

Entrada livre com inscrição obrigatória

Pedro Galvão é membro da Direcção da Sociedade
Portuguesa de Filosofia, é doutorando em Ética na
Universidade de Lisboa e é investigador no Centro de
Filosofia da mesma universidade.