sábado, 29 de dezembro de 2007

EFEMÉRIDE: Dia Mundial da Diversidade Biológica










NO JARDIM DO REI QUE NÃO EXISTE (I)

Comemora-se, hoje, o Dia Mundial da Diversidade Biológica. Para muitos é um dia insignificante, mais um daqueles que se inventam por aí, mais um que não serve absolutamente para nada a não ser para exclamar “hum, hum” quando, acidentalmente, nos cruzamos com um folheto, um poster ou uma notícia minúscula num jornal. Na verdade, a diversidade biológica não interessa a ninguém. O facto de se extinguirem 27 mil espécies por ano não afecta em nada a nossa vida e o nosso bem-estar. O facto de existirem mais de 15 mil espécies de animais e 60 mil espécies de plantas em perigo de extinção não nos tira o sono e muito menos o orgulho medieval de termos lá por casa qualquer coisa feita de qualquer coisa exótica muito cara e muito rara. É que os corais dão excelentes centros de mesa. E as cascas de tartaruga ficam muito bem sobre o aparador da sala. Já a pele de zebra encaixa perfeitamente no hall de entrada. E no escritório, aquela mobília feita de madeira da Indonésia fica simplesmente perfeita. O facto de, lá longe, a diversidade biológica ser cada vez menos diversa não nos incomoda minimamente. Longe da vista, longe do coração. Suficientemente longe para não fazer parte das nossas preocupações quotidianas. Convenhamos. Porque deveríamos nós chorar todos os dias pelo desaparecimento de algumas plantas em Tuvalu, um mísero e insignificante atol do Pacífico? E por umas plantas? É mesmo isso. Longe da vista, longe do coração. O que faz com que a nossa perspectiva seja um tanto solipsista. A única realidade somos nós próprios e tudo o que há à nossa volta simplesmente não existe, é irreal. Mesmo a consciência não passa de um subproduto dos media. O que faz de nós, inevitavelmente, uns cretinos. É precisamente por essa razão que vamos todos comprar a Agenda Verde 2008 da National Geographic porque é gira e barata e tem umas fotografias de bichos excepcionais mas pouco nos interessa que diga que os gorilas são uma das muitas espécies em risco de extinção por causa da destruição das florestas tropicais pelo corte ilegal e pela pressão da agricultura ou que o aquecimento global fez com que algumas plantas avançassem para norte, florescendo em extensões antes cobertas pelos glaciares ou ainda que a acção humana é, há décadas, a causa directa do imparável decréscimo do número de baleias. Mas hoje é o Dia Mundial da Diversidade Biológica. Há, logo à partida, um aspecto interessante e que simboliza de alguma forma a importância que damos à diversidade biológica. Este dia foi criado no dia 29 de Dezembro de 1993 pelo Segundo Comité da Assembleia-geral das Nações Unidas, altura em que se realizou a Convenção da Diversidade Biológica. No entanto, há quem comemore a data da adopção do texo da convenção, a 22 de Maio. A razão é simples. Para muitos países, a data de 29 de Dezembro não dá jeito. E isto até tem piada porque simboliza na perfeição a nossa preocupação para com a diversidade biológica, isto é, agora não dá jeito. Só assim se compreende que uma fábrica de cimento esteja localizada em plena serra da Arrábida e ninguém dê um grito. Aliás, uma fábrica de cimento em plena serra com uma fauna e uma flora excepcionais, algumas únicas no mundo, só pode ser uma piada de mau gosto, uma autêntica cretinice. Isto já para não falar no estuário do Sado e dos seus golfihos-roazes, uma das poucas populações residentes de golfinhos no mundo mas que está em decréscimo devido ao lixo que fábricas ali da zona despeja directamente no estuário (será que vou preso por te dito isto?!).
(continua)
Fotos do Jardim Botânico de Lisboa (c) Ricardo S. Reis dos Santos

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

OPINIÃO: Excesso de zelo

POLITICAMENTE CORRECTO
Esta quadra festiva presta-se sistematicamente à expressão das mais diversas tendências que cruzam a homogeneidade aparente do povo português com a manifestação entusiástica das suas sub-culturas. E, nos últimos anos, temos assistido a um despique cada vez mais garrido pelas atitudes ecológicas politicamente correctas que podemos ir tomando enquanto festejamos, para não deixarmos deusar as festas para ajudar o planeta e dar um grande presente à Terra. É curioso notar que até esta subcultura já tem as suas variações mais ou menos radicais, até chegarmos ao ponto em que uma data de conceitos díspares se misturam num caldeirão de amor pelo equilíbrio do planeta tão marado que começam a saltar de lá artefactos que raiam o ridículo.
Veja-se uma loja toda dedicada à celebração da Natureza, do nome à decoração das montras, das roupas de fibras naturais que vende aos escritos dos cartões alinhados junto ao balcão. Entro para trocar uma túnica azul por outra preta, e recebo o objecto pedido dentro de um saco de papel reciclado, já de si correctíssimo. Mas, quando olho melhor para o saco, até se me desfocam os olhos: de um lado está pintado um pinheiro que dá cenouras, e do outro um cão com malhas e cornos de renda. A mensagem é clara, incisiva, em tom de comando:
NÃO AO NATAL TRANSGÉNICO!
Ai eu.
Está longe de se encontrar minimamente provado que um pinheiro geneticamente modificado para dar cenouras é inimigo do ambiente, tal como não há qualquer razão para pensarmos que a engenharia necessária a misturar um cão com uma rena envenena a água dos poços ou faz murchar as colheitas. Um organismo transgénico, só por ser transgénico, não é um mal ecológico em si. Pode ser, se esgotar os nutrientes do solo, se for imposto ao mundo pelas grandes multinacionais liquidando as tradições locais, se tornar inviável o pequeno e médio comércio, ou se se escapar da área controlada onde está contido para se transformar numa praga infestante. Como em tudo na vida, os transgénicos podem ser extremamente úteis se forem extremamente bem usados. Não é por causa da engenharia genética que o Natal está portas da morte. Escrevam nos sacos
NÃO À IMBECILIDADE DA ASAE!,
e o caso muda de figura. Mas, se é para arranjar bodes expiatórios – por favor. Arrangem qualquer coisa que esteja científicamente provado ser mesmp perniciosa para o futuro.
Ou seja, tenham bom senso.
E, com ele, tenham um 2008 do caraças.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

OPINIÃO: Ainda sobre James Watson

QUANDO OS BONS HOMENS NÃO SÃO HOMENS BONS

O pai dos meus filhos é um dos frutos típicos do sonho americano: a família veio de uma aldeia muito pobre no Sul da Itália, todos falavam em dialecto, atravessaram a Grande Depressão de queixo erguido e o melhor que puderam, quando o Dick nasceu estava o pai em manobras no Pacífico, no último ano da II Guerra. O que ganharam e cresceram deu-lhes uma casa de habitação, outra casa de férias na Florida, dois carros, e um filho que é professor universitário num dos Colleges mais finos e famosos do país, o género de sítio onde estudam os Grimaldi e pessoas dessas. O Dick foi o primeiro membro da familia a abandonar o ghetto italiano de Utica para ir fazer o doutoramento, e foi directamente para Harvard estudar com nem mais nem menos que o James Watson.
Perguntaram-lhe os familiares, completamente apanhados de surpresa, Quem é o James Watson?
Respondeu ele, do alto do seu diploma do College: Apenas o miúdo que, com vinte e poucos anos, entrou na linha de montagem que leva ao Nobel por ter descoberto, juntamento com James Crick, que a estrutura do código genético, a molécula gigantesca designada como DNA em que estão todos os pares de bases da nossa individualidade, se organiza como uma colossal hélice dupla, com pontes estendidas de braço a lado a intervalos regulares.
Como é evidente, James Watson era o grande heroi intelectual do aluninho italiano que estava a sair do perímetro familiar pela primeira vez. O encontro deu-se poucos dias depois da sua chegada a Harvard, estava Watson a entrevistar um por um os novos candidatos ao doutoramento. Quando chegou a vez do Dick, olhou para o papel e franziu as sobrancelhas.
“Dick Poccia? Agora já deixam pessoas com nomes italianos entrar para Harvard?”
E foi tudo.
A verdade é que o Dick, que vinha do ghetto com o mesmo sotaque de filme da Mafia com que toda a gente ali fala, a primeira coisa que fez foi tratar de perder o sotaque o mais depressa que pode. Eu, que o conheci uns vinte e tal anos depois, só soube que ele alguma vez o tivera porque ele me disse. E mais me disse que, claro, isso fora sentido como uma rejeição e um afastamento por toda a família.
Este mesmo James Watson é o senhor que deu que falar nas últimas semanas porque proferiu tantas observações racistas nas entrevistas de lançamento do seu último livro biográfico, na sequência de muitas outras ao longo dos anos contra homosexuais, obesos e judeus, entre outros, que o Science Museum, em Londres, cancelou a conferência prevista, e o laboratório americano de Cold Spring Harbor, que dirigiu até 1994, prescindiu dos seus serviços tutelares (a Fundação Champalimaud, onde Watson preside ao Conselho Científico, preferiu até hoje não fazer comentários). Em grande medida, esta reacção de choque tem a ver com a rapidez, a frontalidade e a noção de certo e errado que permeiam a sociedade de hoje em nítido contraste com a forma como circulavam notícias e comentários nos anos 70, quando o Dick foi para Harvard. Também tem certamente a ver com a nossa percepção instintiva de que, quando um homem de ciência fala, está a fazê-lo em termos científicos – e, honra lhe seja, Watson sempre deixou claro que falava em termos pessoais. Mas é evidente que, para todos os que descobrem só hoje esta faceta insuportável do eterno enfant térrible da biologia celular, o que é realmente chocante é que um grande homem não seja um homem bom. Watson é um cientista de cinco estrelas, mas, como ser humano, já era uma peste nos anos 50, quando chegou a Cambridge para o doutoramento que ia levá-lo à glória. Está no seu direito de pensar o que quiser, e até, se isso lhe dá prazer, de usar a sua visibilidade para dizer ao mundo inteiro o que pensa. Não pode é não temer consequências. E, no caso dele, estas já eram devidas há muito tempo. É curioso, é inesperado, mas às vezes ainda me sinto orgulhosa da sociedade a que pertenço.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Orgulho e preconceito em James Watson

Teria hoje lugar no Science Museum, em Londres, a conferência de James Watson para apresentar o livro “Avoid Boring People: Lessons from a Life in Science”, que o museu decidiu cancelar, na sequência das declarações de preconceito racial proferidas pelo cientista ao "The Sunday Times." Esta decisão provocou um acalorado conjunto de reacções, a que não escapou a lista britânica de história da ciência, Mersenne. A reacção pode parecer trivial: o Science Museum é uma instituição importante para a história da ciência, principalmente no Reino Unido, e o próprio Watson é, há cerca de meio século, um objecto importante da mesma história da ciência. O que não é trivial, é que a Mersenne nunca foi uma lista de debate, mas sempre uma lista exclusivamente informativa, e por isso com um reduzido débito de mensagens.
As posições manifestadas são muito variadas, tanto as que são contra como as que são a favor do cancelamento. As primeiras incluem os que entendem ser má qualquer medida que contrarie o livre debate de ideias, os que entendem que Watson deveria ter direito a manifestar em pessoa as suas posições, sem estas serem alteradas pelo media, e a sujeitar-se directamente à sua crítica, e ainda os que consideram que o cancelamento promoveu uma desnecessária publicidade para Watson e as suas posições.
Embora concorde que o cancelamento beneficiou precisamente a promoção do livro de Watson, não posso deixar de compreender que o Science Museum não só se quisesse distanciar das suas declarações, como aproveitasse a ocasião para enviar uma mensagem de sinal contrário, principalmente dirigido à juventude inglesa de origem asiática e africana.
As restantes instituições incluídas no périplo do lançamento do livro de Watson, podem legitimamente considerar outras tácticas, como a de promover o protagonismo de pontos de vista contrários. Mas isso não deverá ser feito em nome da defesa da liberdade de expressão e debate de ideias científicas. Principalmente porque, não decorrendo de qualquer investigação séria ou mesmo da sua área de especialidade, as opiniões de Watson sobre a relação entre inteligência e a raça não são opiniões científicas, que as universidades tenham obrigação (pelo menos neste contexto) de debater.
Watson foi sempre muito desbocado no que respeita a considerações pejorativas sobre povos não brancos (ou melhor, não provenientes da Europa do Norte), mulheres, homosexuais, obesos e mesmo ... matemáticos. James Watson tem, como todos nós, direito a seguir e a manifestar o seu senso comum e os seus preconceitos. Ele (e nós) não pode é fazê-los passar por ciência.

Post-scriptum: O lado lusitano do tema
Imagem:
J. Watson, com Leonor Beleza, recebido em Belém em Março de 2007.

Será curioso conhecer melhor as posições de James Watson sobre os níveis de inteligência dos indianos, tendo em conta as suas funções na Fundação Champalimaud e o grupo a que pertencem os beneficiários do 2007 António Champalimaud Vision Award.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Redes sociais electrónicas e ensino. II. Mundos virtuais

Uma das mais promissoras entre as ferramentas sociais utilizadas no ensino, consiste na utilização de mundos virtuais. São inúmeras as suas aplicações, desde a possibilidade de leccionar aulas, realizar conferências e reuniões, até à criação de exposições virtuais e mesmo à recriação visual em 3D de edifícios e locais desaparecidos. Alguns destes objectivos podiam, já há algum tempo, ser atingidos por outras vias. A videoconferência, o podcasting e as aplicações gráficas 3D de realidade virtual, não são propriamente novidades. O que é de facto uma novidade é a possibilidade de integrar todos estes recursos através da imersão em grande realismo numa rede de mundos virtuais comunicantes, onde os diferentes intervenientes interagem através do seus avatares. O que era até há pouco, reservado a adolescentes em demanda de fama, glória e aventura em mundos fantásticos (nos jogos MMO, massively multiplayer online), abriu-se agora a todo o tipo de adultos desempenhando papéis muito menos heróicos.
Neste capítulo, o mundo virtual Second Life (SL) tem sido a grande estrela. O seu promotor, uma empresa de San Francisco denominada Linden Lab, teve a preocupação de dar grande destaque ao sistema de ensino, criando condições especiais para que universidades, escolas, bibliotecas, museus, institutos e editores científicos, investissem na presença neste mundo, adquirindo terrenos virtuais (ilhas). A resposta conseguida é impressionante. Cerca de uma centena de universidades já se instalaram no Second Life. Existe mesmo um arquipélago, agrupando várias ilhas de instituições científicas (onde se inclui a NASA e a Second Nature Island da Nature), denominado Sci-Lands. Nem as universidades portuguesas escaparam a esta febre. As Universidades de Aveiro e do Porto já adquiriram as suas ilhas. A de Aveiro foi inaugurada no ano lectivo passado, tendo custado cerca de 3 mil euros. A do Porto terá sido mais barata, custando 750 euros, mais uma mensalidade de cerca de 110 euros (cf. "Universidade de Aveiro inaugura ilha no Second Life" e "Universidade do Porto compra ilha no Second Life" no JPn). O modelo empresarial de Linden Lab baseia-se na venda e aluguer de terrenos virtuais. O acesso dos utilizadores é gratuito, desde que não pretendam ser proprietários de terrenos e edifícios. Neste caso, para além dos próprios custos do imobiliário, é necessário pagar uma mensalidade.
Para uma visão global e exaustiva de todas as presenças de ensino pode-se consultar o site Second Life Education Wiki, o recurso oficial de Linden Lab para os educadores no Second Life. Uma breve introdução também se encontra no artigo "Second Life Science. Take a scientific Field Trip to a digital world" de Sarah Everts. São muitos os projectos educativos a ser desenvolvidos no SL. Veja-se Eduserv in Second Life e o Joanna Scott's blog (da Nature), a título de exemplo.
SL é o mais conhecido, mas não o único mundo virtual operacional. Os seus concorrentes mais directos são Active Worlds e There. O primeiro tem igualmente um programa virado para a educação, The Active Worlds Educational Universe (AWEDU), cuja lista de participantes ultrapassa largamente a centena, com uma distribuição internacional muito variada. Embora as condições de participação (e custos) apresentem algumas diferenças, todos estes serviços são privados, fechados e encontram-se em última instância sob o controlo de uma única empresa. Aqui se encontra uma das grandes contradições dos actuais mundos virtuais. SL é frequentemente apresentado como uma extensão 3D da Internet (veja-se, p.e., o You Tube video: Seriously Engaging : The New Media Consortium in Second Life). Contudo, a Internet é um sistema aberto e baseado em tecnologias e standards abertos e não proprietários. A Internet não é possuída por nenhuma empresa. Na Web, qualquer universidade pode instalar o seu próprio servidor e abri-lo para o mundo, mantendo o controlo total sobre ele desde que cumpra os protocolos de comunicação e as regras de funcionamento da Internet. Na SL não podemos criar uma ilha num servidor próprio e fazer o mesmo que faríamos com a Web.
Vencer estas limitações é o objectivo de vários projectos de desenvolvimento de mundos virtuais em open source, como o Open Source Metaverse Project, o The M.U.P.P.E.T.S. Project, e o Croquet Consortium. Dos três, o último projecto, baseado num consórcio de várias universidades, é o que se encontra em fase mais próxima da produção. O Croquet SDK (Software Developer Kit) versão 1.0 já se encontra disponível. Com base nele perfilam-se vários projectos, como o Arts Metaverse (ver o vídeo Machu Picchu tour), Ancient Spaces (ler artigo na: Educause) e Qwaq (os Qwaq Forums, na imagem à esquerda, são espaços virtuais produzidos por Qwaq, Inc. em cima da plataforma Croquet, próprios para reuniões de empresas).

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Ciclo de Conferências sobre Evolução e Criacionismo Científico


CICLO DE CONFERÊNCIAS NA CULTURGEST
DE SEGUNDA 8 A SEXTA 12 DE OUTUBRO DE 2007
18h30 · Pequeno Auditório · Entrada Gratuita*
http://www.culturgest.pt/actual/criacionismo.html
Evolução e Criacionismo - Uma relação impossível


Desde que Charles Darwin publicou A Origem das Espécies e a Descendência do Homem, evolucionistas e criacionistas já se enfrentaram em muitas batalhas. A mais mediática foi em 1925, o Julgamento de Scopes, onde estava em causa o direito de ensinar a teoria da evolução. Desde então, o Darwinismo foi profunda e detalhadamente explicado, graças ao conhecimento que entretanto se acumulou em Genética de populações, Genética molecular, Ecologia, Filogenia, Paleontologia, Sociobiologia e Etologia. Também o criacionismo se foi modificando, multiplicando-se em diversos movimentos, alguns muito divergentes entre si. O de maior visibilidade e impacto mediático actual é chamado “Criacionismo Científico”. Os movimentos de Criacionismo
Científico tomaram grande fôlego e têm empreendido na última década campanhas políticas nos Estados Unidos no sentido de modificar os programas escolares, ora para suprimir o ensino da evolução ora para incorporar as teorias criacionistas nas aulas de ciências. Este conflito inicialmente vivido nos EUA é agora iminente na Europa. A influência criacionista no ensino e na divulgação da ciência já não é apenas de movimentos de inspiração cristã vindos dos EUA, mas também de inspiração islâmica, ou seja, movimentam-se agora mais dinheiro e pessoas. Bento XVI também tem uma posição mais conservadora do que o seu predecessor João Paulo II relativamente à evolução e ao grau de ingerência que a religião deve ter no domínio do saber académico. Há consequências previsíveis para o futuro da ciência e da humanidade e implicações
sociais e morais para cada um dos cenários que pode resultar da batalha que agora se trava. Esta série de palestras baseia-se no livro com o mesmo título da autoria dos palestrantes e que trata o passado histórico deste conflito e o modo como a história se repete, discute as razões pelas quais a evolução tem sido tão mal-interpretada e tão
combatida por certos sectores da sociedade e explica a evolução de modo resumido e simples, dando exemplos de evolução observada de facto e esclarecendo alguns malentendidos comuns.


Segunda 8
História das relações entre criacionismo e evolucionismo
por Teresa Avelar (Universidade Lusófona)
Terça 9
Muitos criacionismos e a efervescência actual do Criacionismo Científico
por Gonçalo Jesus e Augusta Gaspar (Universidade Lusófona)
Quarta 10
Alguns Erros do Criacionismo Científico Explicados e Corrigidos
por Frederico Almada (Universidade Lusófona) e Octávio Mateus (Museu da Lourinhã)
Quinta 11
O que nos ensinaram duas décadas de evolução experimental em Drosophyla?
por Margarida Matos (Universidade de Lisboa)
Sexta 12
Uma história evolutiva da Ética humana
por Augusta Gaspar (Universidade Lusófona)

A Internet para a História e a Filosofia da Ciência

O serviço Intute produziu recentemente mais um conjunto de manuais introdutórios à utilização da Internet em várias áreas disciplinares e temas, escritos por especialistas dessas mesmas áreas. Estes guias são muito úteis para serem utilizados por professores, alunos e investigadores. Este lote inclui várias artes, a música, a arquitectura, a comunicação, a moda e também a História e a Filosofia da Ciência (HFC).
O manual "Internet for History and Philosophy of Science (HPS)" encontra-se em http://www.vts.intute.ac.uk/he/tutorial/hps/ e foi preparado por David J Mossley e outros docentes e investigadores da Leeds University.
Como acontece com os restantes manuais de Intute, este dá acesso a quatro grandes áreas: "tour" (com o que os autores consideram o melhor da Web para a HFC), "discover" (ensinando como pesquisar melhor na Internet), "judge"(ensinando a avaliar os conteúdos) e "success" (com a descrição de casos de pesquisa com bons resultados).
O manual inclui um muito útil "cesto de hiperligações", que o leitor pode ir enchendo à medida que o vai percorrendo e que no final pode ser enviado para o seu e-mail.
O conjunto de todos os manuais de Intute pode ser consultado em http://www.vts.intute.ac.uk/

sábado, 8 de setembro de 2007

Redes sociais electrónicas e ensino. I

No dia 25 de Março passado, teve lugar em Chicago um simpósio intitulado "Using Social Networking Tools to Teach Chemistry", organizado no âmbito do 233rd ACS (American Chemical Society) National Meeting. Uma descrição geral do evento pode ser vista no artigo "Web-based social software is changing the way chemistry is taught" de Rachel Petkewich, publicado no vol. 85, núm. 17, pp. 44-45, de 23 de Abril de 2007 de Chemical & Engineering News.
Apesar de dirigidas para o ensino da química, as dezoito comunicações apresentadas cobriram boa parte das principais possibilidades da utilização, para todas as áreas de ensino, dos recursos disponibilizados na Internet no âmbito das ferramentas de redes sociais e da denominada Web 2.0. Essas ferramentas incluem a partilha de referências documentais da Web através do social bookmarking, a difusão de informação e conteúdos através de RSS feeds, podcasting de áudio e vídeo, blogues, wikis e a utilização de mundos virtuais, como o Second Life. A cobertura não é exaustiva, mas o simpósio apontou as principais tendências neste domínio, mostrando que as redes sociais estão a ganhar um estatuto de importância e seriedade que vai muito além da cobertura que lhes é dada normalmente pelos media.
Uma das características mais interessantes deste tipo de recursos, resulta da sua acessibilidade e facilidade de utilização. O facto de funcionarem como importantes fontes de captação de receitas, nomeadamente por via da publicidade e promoção de outros serviços e produtos, as redes sociais electrónicas são normalmente disponibilizadas de forma gratuita, tanto para os produtores de conteúdos como para os seus utilizadores. Isto permite ter acesso directo e gratuito a recursos de dimensões muito apreciáveis, que combinam normalmente elevada sofisticação técnica com grande facilidade de utilização.
O programa e resumos das comunicações pode ser consultado na Net, assim como algumas das comunicações apresentadas e outros textos produzidos pelos seus autores sobre o mesmo tema:

Keeping up and staying current: Harnessing the chemical information web with RSS
Teri M. Vogel (v. sua página web em: http://scilib.ucsd.edu/about/people/vogel.html)

RSS and social tagging: on the desktop and in the classroom
Laura E. Pence Harry E. Pence (v. "The alchemist blog" em http://aristotle.oneonta.edu/33_the_alchemists_blog)

Blogging the culture of chemistry
Michelle M. Francl (v. o seu blogue "The Culture of Chemistry" em http://cultureofchemistry.blogspot.com/)

Second Life as a scientific education medium
Joanna Scott (v. o seu blogue na Nature em http://network.nature.com/blogs/user/joannascott)

Teaching organic chemistry with blogs and wikis (slideshow)
Jean-Claude Bradley; Beth Ritter-Guth (v. o blog "Useful Chemistry" em http://usefulchem.blogspot.com/)

Wikis, podcasts and screencasts (oh my!) in undergraduate chemistry coursework and research (texto)
Keith A. Walters

Using wiki in education: The Science of Spectroscopy
Stewart Mader

Wikipedia: a holistic model for the communal creation of chemical course content
Henry S. Rzepa; Marion E. Cass

sábado, 18 de agosto de 2007

LER: OpenCourseWare em história das ciências


Numa altura em que muitos docentes portugueses ainda torcem o nariz à colocação dos programas das disciplinas fora das intranets das suas universidades, é bom ver o crescimento do movimento do OpenCourseWare (OCW), iniciado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 2001, com o anúncio pelas fundações William and Flora Hewlett e Andrew W. Mellon de apoiar financeiramente a iniciativa de OpenCourseWare deste instituto. O OCW visa disponibilizar materiais didácticos através da Web, de forma livre e gratuita, para professores, alunos e outros interesssados em todo o mundo. O facto de esta iniciativa ter tido lugar no MIT é de grande importância e significado, tanto pelo impacto que produziu em outras instituições de ensino superior, como por ter sido no MIT Artificial Intelligence Lab que Richard Stallman iniciou o projecto GNU em 1983. Foi a partir do projecto GNU que se desenvolveram iniciativas como a Free Software Foundation (1985) e a sua GNU General Public License (GPL), donde irradiaram outras viradas para os conteúdos, incluindo os educacionais, como o projecto OpenContent (1998), a GNU Free Documentation License (2000) e o projecto Creative Commons (2002).
Em Novembro de 2006, o MIT OCW já contava com mais de milhar e meio de cursos. Actualmente o movimento alastrou a mais universidades, dos EUA e de outros países. Esta colaboração internacional é feita através do OpenCourseWare Consortium, englobando mais de 100 instituições e organizações de ensino superior de todo o mundo. A colaboração é variada, indo desde a disponibilização de conteúdos próprios até à tradução dos conteúdos de terceiros. A rede do Portal Universia, que inclui Portugal, Espanha e América Latina, participa nesta última modalidade, traduzindo para castelhano e português do Brasil, os cursos do MIT OCW. A lista de participantes na Península Ibérica inclui várias universidades espanholas (ainda sem conteúdos) e nenhuma portuguesa.
O sucesso desta iniciativa mostra como a disponibilização de materiais didácticos de acordo com uma licença aberta pode contribuir para a afirmação das universidades. Na verdade, o acesso aos materiais didácticos não permite conferir qualquer grau académico, mas dá aos futuros alunos a garantia de que os cursos ministrados pelos docentes se encontram abertos ao escrutínio dos seus pares de outras universidades. A disponibilização aberta dos conteúdos é um indicador claro de qualidade, preparação cuidadosa e inovação.
No campo da história e estudos sobre a ciência, o maior volume de conteúdos é naturalmente disponibilizado pelo MIT, através do Programa de Ciência, Tecnologia e Sociedade. Este inclui mais de duas dezenas de cursos de graduação e outros tantos de pós-graduação. Os conteúdos incluem, a título de exemplo, disciplinas como "History of Science", "History and Anthropology of Medicine and Biology", "Cultural History of Technology", "Theories and Methods in the Study of History", "Toward the Scientific Revolution", "The Rise of Modern Science" e "Nature, Environment, and Empire". Entre os cursos disponibilizadas por outras universidades, apenas encontrámos nesta área uma História da Saúde Pública na Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health e outro sobre Tecnologia e Sociedade na University of Southern Queensland.

A minha lista de marcadores de cursos em OCW de história e outros estudos sobre a ciência, pode ser vista em:

Lista de cursos em OCW de história e estudos sobre a ciência (del.icio.us)

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

LER: Hipertexto, anotações semânticas e rede(s) na História da Ciência, Tecnologia e Medicina: O Projecto Historiographus

A apresentação da conferência no Segundo Encontro de História das Ciências Naturais e da Saúde. Lisboa, Culturgest, 7-8 de Julho de 2007.

Hipertexto, anotações semânticas e rede(s) na História da Ciência, Tecnologia e Medicina: O Projecto Historiographus.

José Pedro Sousa Dias
Fac. Farmácia Universidade de Lisboa e Inst. Rocha Cabral

Resumo
A história da ciência, como toda a história, só com grande esforço e recurso intensivo ao aparato erudito e outros instrumentos do ofício, se enquadra adequadamente dentro de uma narrativa linear. O objecto da disciplina decorre ao longo, não de um, mas de pelo menos dois eixos, onde o espaço e o tempo se desdobram em narrativas divergentes. As denominadas histórias horizontal e vertical são conceitos convenientes para distinguir dois estilos de fazer história da ciência, mas tornam-se perspectivas de difícil articulação numa visão mais sintética. Num plano mais aproximado, encontramos ainda outras dimensões, numa apertada rede de perspectivas e relações simultâneas e concorrentes, ligando pessoas, objectos, ideias e outros elementos. Estas várias dimensões não são fáceis de descrever num modo linear. Inicialmente, o hipertexto surgiu como uma forma de ajudar a vencer estas dificuldades, permitindo recriar uma teia imensa de relações e leituras. Contudo, na rede criada pelo hipertexto, as linhas que ligam os diferentes nós são todas equivalentes. Ora, as relações que elas pretendem representar não o são. Estas não só são múltiplas e distintas, como as relações possíveis variam consoante a natureza dos nós. As relações que unem pessoas entre si são diferentes das que ligam pessoas com grupos de pessoas, objectos ou locais.
Esta comunicação visa analisar a forma como a aplicação de ontologias e dos conceitos de anotação semântica, que surgiram no âmbito da Semantic Web, podem ser aplicados na análise de dados e na comunicação científica na histórias das ciências, da tecnologia e da medicina, apresentando ao mesmo tempo os primeiros passos do projecto Historiographus, o protótipo de uma Wiki Semântica, baseado numa ontologia especialmente concebida, denominada HiSTEMM (de History of Science, Technology, Engineering, Mathematics, and Medicine).

terça-feira, 7 de agosto de 2007

NAQUELE TEMPO: Imagens do quotidiano

O microscópio
(Clique sobre as fotos para aumentar)

De cima para baixo: Aurélio Quintanilha, Marck Athias, Augusto Celestino da Costa e Abel Salazar.


(Todas as fotos foram importadas da página do Projecto Principia Naturalis)

terça-feira, 31 de julho de 2007

GRANDES CAPAS

Die biologische Tragödie der Frau (em português, a Tragédia Biológica da Mulher) é uma obra do professor Antoni W. Nemilow, da Universidade de Lenigrado, Rússia. Mais interessante ainda que a própria obra é o facto de ter sido publicada (em 1925) por uma mulher, nem mais nem menos que Alexandra Ramm-Pfemfert (publicou, entre outros, Leo Trotzki, Anna A. Karawajewa, Elena A. Nagrodskaja, Mohamed Aischin, Michail N. Pokrowski). Foi depois traduzida para várias línguas e amplamente divulgada. É um livro muito interessante. A começar pelo título que, à partida, parece querer dizer tudo sobre o que vem a seguir. Mas não. Logo na introdução o autor faz questão de dizer que «é possível que o título que eu escolhi para este livro não seja o mais conveniente, porque as palavras "tragédia" e "trágico" se têm interpretado, segundo os tempos, de diferente maneira». Os tempos de hoje levar-nos-ia, intuitivamente, a ter uma ideia negativa sobre a palavra "tragédia". Muito provavelmente, ao lermos este título, pensaríamos que se tratava de um livro a justificar a inferioridade da mulher, do ponto de vista da biologia. Mas não. Antes pelo contrário. Este livro foi escrito com intenções políticas que vão precisamente no sentido de afirmar o homem e a mulher como «equipotenciais». O autor é muito claro no prólogo ao livro. «Com este livro me propuz contribuir para a obra a que na Rússia chamamos "Liquidação do Analfabetismo" facultando ao leitor, sob uma forma vulgarizadora, o ABC da questão sexual». Fala até numa «nova moral sexual», totalmente abstraída de uma «interpretação eclesiástico-cristã» e de um conceito de mulher-escrava «hipocritamente idealizada e cantada pelos poetas». E depois , imediatamente depois, cola esta «nova moral sexual» a um ideal político. Convém relembrar que este livro foi publicado numa URSS comunista dos tempos de Lenine, Estaline e Trótski. Aliás, o próprio Trótski participa em 7 de Dezembro de 1925, na Terceira Conferência Sindical sobre a Protecção às Mães e às Crianças, discursando sobre a protecção das mães e a luta pela elevação do nível cultural. O livro de Nemilow não destoa. «Desde que o poder passou na Rússia às mãos dos proletários, as velhas ideias àcerca da moral desapareceram», diz ele logo no prólogo. E continua, «O proletariado - e especialmente a sua parte mais importante: a juventude - trata de fundar uma nova moral sexual; ou, como poderíamos dizer, a evolução histórica busca actualmente novas normas para a vida sexual. Não há dúvida, em troca, que a biologia do sexo e a sexologia hão-de constituir as suas bases, reforçadas com as considerações engenéticas por um lado, a consciência duma grande responsabilidade em cada acto inter-sexual; e, por outros, a extrema atenção para cada nova existência; mas, sobretudo uma sinceridade absoluta em todas as questões desta natureza. Sobre tais bases se edificam actualmente na Rússia as novas normas». Mais, «À semelhança dos antigos pagãos, nós, os russos, consideramos a vida sexual como a fonte de alegria dos acontecimentos mais intensos e das mais altas e fecundas emoções. Mas sabemos, graças à Biologia, que o homem tem de administrar cautelosamente tão alto benefício, se não quiser adquirir dores em lugar de gozos... Na Rússia Soviética ignoramos essa condição da mulher que vemos nas obtas de Moebins e de Otto Weiguinger. Para nós, a mulher é uma companheira, um membro da sociedade com plenitude de direitos como o homem. Combatemos categoricamente a teoria da "inferioridade da mulher"». Nemilow dá o seu contributo. O seu livro segue sempre um fio condutor. O sentimento de tragédia biológica é uma ilusão. E é uma ilusão eficaz sobretudo «nos países de formas sociais atrasadas». Mudando o ponto de vista, então passamos a ver a mulher tal e qual vemos o homem. E esse ponto de vista, segundo Nemilow, deve ser sintetizado numa nova fórmula «tendo em conta o avanço das ciências biológicas». Assim se pensava naquele tempo.

A edição portuguesa (em cima) é da Guimarães & Editores, Lda. e foi publicada em 1934. A brasileira (ao lado) foi publicada em 1935.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

AGENDA: Mestrado em História das Ciências da Saúde.

Encontram-se abertas as candidaturas para o Mestrado em História das Ciências da Saúde, que terá início em Outubro de 2007.
  • Ano lectivo: 2007/2008
  • Área de Especialização: História da Ciência e da Técnica
  • Professor coordenador: José Pedro Sousa Dias
  • Condições de acesso: Licenciaturas nas áreas de Ciências da Saúde, Farmácia, Medicina, Enfermagem, Biologia, Filosofia, Sociologia, Antropologia, Educação, Comunicação, História, Químicas, Ambiente.
  • Horário de funcionamento: Pós-laboral.
  • Local: Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa
  • Candidaturas: Até finais de Setembro de 2007
  • Início: Outubro de 2007
  • Disciplinas e corpo docente:
    • História da Biologia - Clara Pinto Correia (U Lusófona)
    • História da Filosofia da Ciência - Ricardo Lopes Coelho (F Ciências UL)
    • Introdução à Historiografia e à Metodologia da História - Ana M S Almeida Rodrigues (F Letras UL)
    • Latim para a História da Ciência I e II - Arnaldo Espírito Santo (F Letras UL)
    • Saúde e Sistemas Médicos até 1800 - José Pedro Sousa Dias (F Farmácia UL)
    • História da Medicina em Portugal na Época Contemporânea - Vitor A R de Oliveira (F Medicina UL)
    • Ciência, Cultura e Sociedade - Maria de Fátima Nunes (U Évora)
    • Filosofia da Ciência Experimental - Ricardo Lopes Coelho (F Ciências UL)
    • Saúde, Ciência e Tecnologia na Época Contemporânea - José Pedro Sousa Dias (F Farmácia UL)
    • Raízes greco-latinas da linguagem científica - M Cristina de Sousa Pimentel (F Letras UL)
    • Saúde, Medicina e Império - Cristiana Bastos (I Ciências Sociais UL)
    • Teorias Científicas do Século XX - Clara Pinto Correia (U Lusófona)
    • Alemão para a História da Ciência I e II - Ruth K Huber (F Letras UL)
    • Ciência e Religião - Clara Pinto Correia (U Lusófona)
    • História das Teorias Evolutivas - Teresa Avela (U Lusófona)
    • Seminário de Investigação - José Pedro Sousa Dias (F Farmácia UL)

quinta-feira, 14 de junho de 2007

LER: Planeta verde

A verdade é esta. Sempre detestei as plantas. Nunca senti qualquer carinho por talos nem por folhas. E muito menos por aqueles intragáveis ciclos de vida que nos ensinam na escola. Vendo bem as coisas, talvez tenham sido mesmo esses esquemas que anularam qualquer relação com as plantas. Nunca senti pena por isso. Infelizmente não sou o único. Mas a verdade também é esta. Hoje estou num processo de reconciliação com essa parte do mundo que é verde. Esta reconciliação deriva sobretudo da consciencialização que há um certo preconceito, clandestino e colectivo, em relação às plantas. É óbvio que há. Dou-vos já um exemplo. A mãe de uma amiga minha comprou uma planta carnívora para a casa de fim-de-semana. Quando lá chegámos, lá estava ela, com um ar extremamente ameaçador e uma etiqueta do Horto do Campo Grande com o preço e a espécie. A mãe telefonou-lhe pedindo para por água naquela coisa. E ela lá foi. Pouco depois voltou, dizendo: "Já está. Mas tive medo que ela me mordesse!" Não era uma piada. Ela teve mesmo medo que a planta a mordesse. Credo! Até onde vai o preconceito! Vamos ver se nos entendemos. Tal como os animais, as plantas também viveram uma grande epopeia da evolução. Têm uma história. E disso nos apercebemos quando as olhamos com olhos de ver, como se diz por aí. Descobrimos nelas hábitos e comportamentos que nos pertencem também. Nunca, como hoje, senti que a relação entre o homem e a orquídea pode ser "viável". Basta para isso aderir a um programa ligeiro de reconciliação. Cada um é como cada qual. Por isso, o meu consiste em passeios regulares no magnífico Jardim Botânico. É estranho mas sinto-me sempre bem-vindo naquele sítio. O que me leva a crer que as plantas são bondosas ou pelo menos não guardam ressentimentos. Às vezes até acho que as árvores esticam as suas ramagens para me afagar o rosto. Ou então deixam cair uma flor à minha passagem como forma de saudação. E há até umas tontas que choram comigo quando lhes conto as minhas desgraças. A minha parte preferida do jardim é o arboreto. Acho que os dragoeiros, as canas-de-açúcar, os bambus, as figueiras, as palmeiras, os pinheiros, as canfoeiras, etc. têm mais encanto. Com uma única excepção. Os jacarandás e as suas belíssimas flores azuis que estão no jardim logo da entrada mas que aconselho ver à saída. É que corremos sempre o risco de ela nos oferecer uma flor sua. E se assim for então é sinal de boa sorte. Nos dias que hoje correm, é algo que nos faz muita, muita falta. Vá, aproveitem. Iniciem o vosso programa de reconciliação com as plantas e contribuam para que o planeta volte a ser verde outra vez. Seria tão bom!

Nota: algures no jardim, hão-de reparar numa estátua de homenagem a Bernardino António Gomes (1768-1823). Este senhor foi um proeminente médico, químico, botânico e parasitologista. De toda a sua obra, destaco a descoberta da cinchonina a partir de cascas da quina vindas do Brasil. No processo de isolamento desta substância, Bernardino verificou que existiam outras cristalizações «confusamente conformadas» mas não chegou a identificá-las. Haviam de o fazer mais tarde, em 1818, os franceses Pelletier e Caventou que a designaram por quinina. A quinina foi muito usada no tratamento da malária. Podem saber mais sobre este senhor aqui e aqui.

domingo, 27 de maio de 2007

SOCIEDADE: Questões de educação

Faço um apelo ao país

Tenho 47 anos, e portanto sou do tempo em que se descobria imensa coisa na escola e em casa, e no próprio acto de viver. Quase tudo o que sei, aprendi entre a primeira e a quarta classe. Não há mais nenhum factor pessoal que interesse, a não ser que, nos primeiros tempos, integrei o juri do programa A Bela e o Mestre. E, com isso, descobri uma situação generalizada que me surpreendeu e assustou. Agora que o programa acabou, reflectir sobre o que aprendemos com ele é um acto de utilidade pública. Estamos perante um assunto que eu considero dolorosamente sério, e carente de reflexão nacional igualmente séria. Se possível, com caracter de urgência. Para chefes máximos do país, ministros, políticos, professores, cidadãos, pais – todos os que desempenham no quotidiano a função cada vez mais complexa de educadores dos portugueses.



Aqueles rapazes e raparigas que nós vimos no programa serão mesmo representativos de toda a juventude portuguesa?

Claro que não. O que não falta ao país são jovens inteligentes, cheios de curiosidade, plenos de energia, e com muito espírito de iniciativa. Na Universidade, os meus alunos são tipos giríssimos a quem eu gosto mesmo de dar aulas e com quem me dá muito gozo conversar. Outro exemplo é que basta uma visita rápida à blogosfera, e salta logo de lá uma amostragem impressionante de miúdos cultos, inquietos, informados, e até, benção das bençãos, perfeitamente capazes de escrever em português. O grande problema com os participantes do concurso é que, para existir aquela amostragem, tem que existir no país muitíssimo mais gente assim. Portanto, este mal não está a afectar toda a juventude portuguesa, mas está a afectar uma parte significativa dessa juventude.

Então, mas eles não foram escolhidos a dedo pela produção para serem mesmo parvos?

Foram. O simples facto de uma maioria impressionante das meninas serem barmaids revela claramente a que tipo de sítios é que os produtores foram procurá-las. Mas isto não resolve minimamente o problema. A Endemol não andou propriamente três anos com detectives especializados a correr o país para encontrar os concorrentes. Imaginem quantos jovens assim têm que existir para, em dois ou três meses, sem grande esforço, se arranjar logo uma amostragem daquele calibre.

O que muita gente pensa é que eles foram especialmente treinados e pagos pela produção para se comportarem como se fossem mesmo completamente estúpidos e ignorantes. Mas estavam a fingir. Na realidade, até são muito inteligentes.

É mentira. Eu estive lá durante um mês, falei pessoalmente e sem ninguém a ouvir com vários dos concorrentes, e posso garantir que eles são mesmo como vocês o viram. Por exemplo, a menina que disse que não sabia quem era o Fidel Castro não sabia mesmo. Aquilo, desse ponto de vista, era completamente verdade. Aqueles jovens eram, mesmo, pessoas totalmente desinformadas. E volto a repetir: há centenas, talvez milhares, de outros como eles em Portugal.

Muito bem. Nesse caso, o que é que não está a correr bem na formação dos portugueses, para haver tanta gente que chega aos vinte anos com este nível de desconhecimento absoluto do país e do mundo?

Antes de mais nada, a escolaridade está a correr mal de certeza. Daí eu ter interpelado tantas vezes a ministra da Educação. Em Portugal, lamentavelmente, o ensino obrigatório só vai até ao 9º ano. Mas, mesmo sem ir até ao 11º como na maioria dos países da União Europeia, em nove anos de escola, se forem bem utilizados, pode aprender-se muita coisa. Se pensarmos que sem o 9º ano completo é impossível obter um emprego legal, então temos que deduzir logicamente que aquelas meninas, todas elas com empregos, tinham pelo menos estudado até este nível. Ora, se cumpriram a escolaridade obrigatória -- e reparem que isto implica, entre outras coisas, passar em exames nacionais -- e não aprenderam nada, então é mesmo porque já há uns bons dez anos que a escola portuguesa se tornou completamente disfuncional.

Em que é que podemos basear uma afirmação assim tão taxativa?

Aprender, e sobretudo no período coberto pelo ensino básico, quando estamos a completar e a organizar a formação do nosso cérebro, é muitíssimo mais que decorar meia dúzia de coisas que se debitam nos exames e se esquecem logo a seguir. É desenvolver o raciocínio lógico-dedutivo, treinar a capacidade de resolver problemas, adquirir a competência de sustentar um argumento tanto oralmente como por escrito, saber fazer associações livres cada vez mais ricas, mais rápidas, e mais instintivas – e, além de todas estas características que se limitam ao foro pessoal, aprender também é ganhar a capacidade de funcionar em sociedade, com tudo o que isso implica, que não é simples nem é pouco. O fair-play aprende-se. A noção de hierarquia, e consequentemente dos diferentes comportamentos a observar perante diferentes interlocutores, também se aprende. A gestão do tempo passado em divertimentos colectivos aprende-se. A noção dos limites num contexto de grupo também se aprende. O respeito pelos outros aprende-se. O exercício do livre arbítrio – pensem na pergunta que já todos os pais fizeram aos filhos, “então e se os outros meninos se deitassem a um poço tu também te deitavas?”-- também se aprende. E este tipo de aprendizagem, como implica a presença de adultos representativos de variadíssimas funções e de dezenas de miúdos em simultâneo, é obrigatoriamente uma aprendizagem que tem que ser feita na escola. Ora, se os nossos jovens estão a sair da escola sem saber absolutamente nada do que vem no currículo obrigatório de cada ano lectivo, e da mesma forma estão a sair da escola sem capacidade de raciocínio, nem de associação, nem de dedução, nem sequer de simples coabitação – perante um cenário destes, como é que podemos sustentar que a escola está a cumprir o seu papel?

Dizer que os alunos saem do nono ano sem saber absolutamente nada do que vem no currículo de cada ano não será um exagero grosseiro?

Infelizmente, não é um exagero em relação aos jovens representados pela amostragem de A Bela e o Mestre – e, como já disse, estes jovens são mesmo uma fatia deveras significativa daquela faixa etária. Posso dar uma lista rápida de matéria que faz parte do currículo até ao 9º ano que as concorrentes desconheciam em absoluto, e isto é só uma pontinha de nada do iceberg. O 25 de Abril. O Estado Novo, o Salazar, e até o Marcelo Caetano. A geografia de Portugal e do mundo. As Descobertas. Anatomia. Fisiologia. Biologia Celular. Fecundação. Zoologia e Botânica. União Europeia. A cultura e a política do período greco-romana. Gregos, fenícios e cartagineses como primeiros visitantes comerciais da Península Ibérica. O Terramoto, e, consequentemente, o Marquês de Pombal e tanto a arquitectura como as reformas pombalinas. E chega, mas é evidente que ficou imensa matéria de fora. Se elas estudaram tudo isto e já não se lembram de rigorosamente nada, então é porque a escola não cumpriu como devia os seus objectivos didácticos e pedagógicos. Para piorar a situação, se alguém seguisse os diários era gritante, absolutamente gritante, que as raparigas não sabiam estudar e os rapazes não sabiam ensinar. Isto é um sinal inequívoco de péssima preparação escolar, e uma vez mais respeitante ao período coberto pelo ensino básico.

Mas esta fatia da faixa etária em causa é capaz de não fazer grande diferença em relação ao funcionamento de todo o país.

Antes de mais nada, a escola tem que estar a funcionar mal porque eu todos os anos recebo uma nova fornada de alunos universitários interessados em Biologia, de uma fatia completamente antipódica da dos concorrentes do programa, que são cem por cento incapazes de escrever e discorrer em português fluente, escorreito, e sem um dilúvio de erros de ortografia e sintaxe. Além desta limitação, que é a mais flagrante, não sabem formular perguntas, são incapazes de elaborar tanto sínteses como paráfrases, e têm que ultrapassar muitas dificuldades antes de conseguirem estudar e trabalhar em grupo. Pior: só lá pelo terceiro ou quarto ano é que começam a perceber a enorme importância de ir assistir a conferências extra-curso, de participar em debates, de tomar iniciativas no âmbito de grupos de estudantes, de organizar críticas construtivas e representar os colegas, e até de actividades tão evidentes como viajar para aprender e ler por prazer.

Pronto, mas há sempre a alternativa da Universidade para lhes completar a preparação.

Quer isso dizer que quem não frequentar o Ensino Superior é automaticamente cidadão de segunda? Além de perigosa, é uma ideia completamente estúpida, até porque o país precisa imensamente de vários tipos de técnicos e quadros que não se formam nas Universidades. Mas enfim. Eu diria que, em termos de discriminação social à boa maneira do Estado Novo, isto é o mínimo comparado com o pressuposto extremamente capcioso de que este grupo mal formado de jovens não é representativo perante o país. Tanto quanto sei, este país é uma democracia. Em democracia, todos os cidadãos são representativos. O que quer dizer que todos os cidadãos têm que sair bem preparados da escola, por forma a poderem ser parceiros sociais activos. E, quando falamos em escola neste contexto, estamos incontornavelmente a falar de escola pública: aceitar que os pais têm ou que ser ricos ou que fazer sacrifícios terríveis para pôr os filhos num colégio privado onde os preparem como deve ser, já é aceitar sem resistência que a democracia portuguesa não está a funcionar. É triste, sobretudo se estivermos conscientes, como eu estou, de que isto já se tornou consensual para toda a gente, incluindo muitos professores do ensino público.

Mas a democracia também dá a possibilidade de, para quem não estiver interessado, pura e simplesmente não participar...

É extremamente discutível; mas, neste caso concreto, nem vale a pena discutir. Entre aquelas concorrentes que representam centenas ou milhares de outras, existiam pessoas que, pura e simplesmente, não sabiam sequer quem é o actual primeiro ministro. Podíamos escrever um tratado inteiro sobre o estado de alienação que torna esta ignorância possível – e sobretudo no caso do José Sócrates, que faz tudo o que pode para aparecer na televisão e foi através da televisão que cresceu na política – mas vamos limitar-nos a discutir o perigo que esta situação representa. Quando perguntei às meninas se elas costumavam votar, elas responderam que sim. Já mediram bem o problema de alguém que desconhece até o primeiro ministro exercer um direito de voto que vale tanto como o meu ou o vosso? A alternativa era elas não votarem, de tão desinteressadas que estão. Mas isso é exactamente o que fazem mais de metade dos eleitores americanos. E não é por acaso que um indivíduo limitado e perigoso como o George W. Bush já vai no segundo mandato, com todo o descalabro mundial que isso implica.

Só não é pacífico que toda esta falta de formação seja da responsabilidade da escola. Então e a família, os pais e os irmãos e os tios e primos e os avós, tudo o que se aprende em casa? Estamos a assumir que já nem sequer têm um papel a desempenhar?

Mais do que nunca, têm. Só que estamos perante dois problemas distintos que, demasiadas vezes, tornam a família praticamente irrelevante na educação dos jovens. O primeiro problema é, para simplificar grosseiramente uma realidade extremamente complexa, o divórcio. Era proibido antes da revolução, e foi tornado possível a seguir sem qualquer formação dos cidadãos para saberem viver com este tipo de liberdade depois de séculos de prisão para a vida: os pais deixam de se falar se é que não se insultam mesmo da forma mais desbragada, a participação conjunta de frente unida na educação dos filhos é tratada com pés para usar um grandecíssimo eufemismo, as relações-relâmpago ou extremamente conflituosas são vividas à frente dos miúdos sem uma única explicação, tanto a chantagem emocional como a cedência cega para comprar a boa vontade das crianças se usam a torto e a direito – e é evidente que tudo isto é absolutamente incompatível com a educação que devia obrigatoriamente receber-se em casa, até porque não há outro sítio em que estes ensinamentos possam administrar-se. Bom. Isto já é péssimo, mas o segundo problema é igualmente grave, e muitas vezes mistura-se com o primeiro para tornar a educação dos portugueses um verdadeiro desastre: a vida no nosso país tornou-se extremamente difícil; e, em consequência, tanto o pai como a mãe trabalham cada vez mais. Acho muito saudável que ambos os pais trabalhem e tenham a sua carreira pessoal, mas, estupidamente, o Portugal da democracia, ao contrário de tantos outros países da Europa, nunca criou qualquer espécie de medidas destinadas a proteger e incentivar a família. Eu própria, que sou mãe solteira de dois rapazes adoptados e não estou incluída pelo IRS entre os portugueses pobres, teria pelo menos mais dois filhos se recebesse ajuda do Estado. E esta ajuda não é só dinheiro: é bom acompanhamento em termos de saúde, são boas creches, é boa pré, são licenças pagas pelo patronato em todas as situações que requeiram de nós dedicação particular, são regalias fiscais em tudo o que tenha a ver com a formação deles, e é mais um grande pacote de medidas destas que são correntes e antigas nas sociedades mais funcionais da Europa.

Nesse caso, poderíamos concluir que um bom ensino e uma boa política de apoio à família impediriam a formação da tal fatia etária de ignorância e alienação que nos foi brutalmente revelada com A Bela e o Mestre.

Não. Falta todo o enquadramento social que motiva os miúdos para se interessarem pelo país pelo mundo e que sustenta a sua vontade de descobrir e aprender, que ou é usada antes das responsabilidades profissionais, familiares e financeiras, ou já não pode ser usada.

De onde é que devia vir esse enquadramento social?

De um número muito grande de programas públicos, e de benefícios fiscais tangíveis e compensadores para as entidade privadas interessadas em promovê-lo. Crescer e aprender em democracia, e sobretudo no nosso mundo globalizado e sobrecarregado de informação, implica um conjunto muito grande de actividades que nem a família nem a escola que podem assegurar e que é urgente criar em Portugal, onde tudo isto foi cronicamente negligenciado desde a instauração da democracia. Colónias de férias. Viagens culturais – e super-curtidas, senão não funciona – pelo mundo. Desportos de equipa para todos. Clubes de debate, passíveis de preparação para a participação em grandes debates nacionais ou internacionais. Clubes de leitura. Aprendizagem e utilização de línguas estrangeiras. Intervenção social. Um mínimo – gratificante e feliz – de contacto com todas as formas de arte. Treino em conseguir fazer coisas a sério com as próprias mãos, seja em olaria seja em cartazes de concertos. Camaradagem e fogueiras à noite debaixo das estrelas. Introdução ao ambientalismo sensato e bem fundamentado. Trabalho agrícola, como quando nós éramos putos e íamos ganhar umas massas para as vindimas – mas, agora que a Europa está toda unida, por que é que ninguém organiza isso por forma a juntar o útil ao agradável, que são brigadas internacionais em vinhas longínquas? Pelo amor de Deus, nem as famílias são super-famílias nem as escolas são super-escolas. Quando as circunstâncias mudam, as medidas sociais têm que mudar com elas para que a educação progrida em vez de regredir. Quando eu era miúda e tinha todo o tempo e energia do mundo, devorava um mínimo de um livro por dia. Mas, nessa altura, a internet não existia. Se eu fosse miúda agora e pudesse escolher entre ler A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersen Através da Suécia ou jogar on-line o World of Warcraft, provavelmente escolhia mesmo o aquele jogo estranhamente viciante a que os meus filhos se agarram como se a sua vida dependesse disso. E de certeza que aprendia algumas coisas. Mas, além de não aprender a ler, além de não descobrir todo o universo maravilhoso que a literatura nos revela, ainda por cima ficava cada vez mais anti-social. Pela mesma ordem de razões, eu provavelmente passei a minha juventude enfiada no teatro, na ópera, e na cinemateca, porque nessa altura não existia a Boum de Idanha-a-Nova, tal como não existia o Festival do Sudoeste, tal como, de todo em todo, não existia a noite do Bairro Alto que dura até ser dia. Não é que as coisas sejam mutuamente exclusivas. Apenas precisam de ser devidamente equilibradas – e, hoje, esta tarefa é demasiado complexa para ficar simplesmente entregue à escola e à família, como ficava dantes. Sem uma orientação melhor organizada e cuidadosamente sistematizada, chegámos de facto a uma encruzilhada civilizacional que permite crescer-se e chegar-se à vida adulta em estado de alienação total.

Isto tem mensagem final?

Portugueses, exijam. Nós queremos o melhor para os nossos filhos, e temos esse direito. Para nem mencionar o facto óbvio de que, se a gente lhes der o melhor, o país melhora assim que eles votarem.

Clara Pinto Correia

quarta-feira, 23 de maio de 2007

LER: SemanticLinnaeus e Historiographus.org

Cumpre-se hoje o tricentenário do nascimento de Carl Linnaeus. Para o comemorarmos decidimos (o plural é mesmo majestático) dar a público o projecto Historiographus.org e o seu SemanticLinnaeus.

Historiographus
é o protótipo de uma Wiki com anotações semânticas para a História da Ciência e da Técnica, baseada numa ontologia especialmente desenhada para o efeito. Esta é a HiSTEMM (History of Science, Technology, Engineering, Mathematics, and Medicine). Para comemorar o tricentenário de Lineu, optámos por desenvolver este protótipo precisamente a partir da figura deste cientista, testando a ontologia e a Wiki a partir de um conjunto de pessoas, organizações, acontecimentos, objectos, locais e conceitos com ele directa ou indirectamente relacionados. A este núcleo inicial da Wiki demos o nome de SemanticLinnaeus.

O endereço da Wiki é:

http://www.historiographus.org/wiki/

Quem pretender ver o que é possível fazer com o Lineu, associando as tecnologias de colaboração das Wikis com a Semantic Web, pode saltar logo para a página dedicada a Linnaeus, Carl e navegar a partir das relações e atributos nela definidos.

Quem pretender saber um pouco mais sobre o projecto, pode consultar um esboço de apontamento sobre os seus objectivos e sobre a orientação dada à construção da ontologia.

Lembrem-se, contudo, que Historiographus ainda é apenas uma prova de conceito e um protótipo para testar a construção da ontologia e a organização da Wiki. Os textos e as anotações disponíveis são ainda esboços experimentais. A ontologia encontra-se longe de estável e por isso ainda não tornámos público o respectivo ficheiro OWL.

A Wiki de Historiographus.org é uma das contribuições portuguesas previstas num projecto candidato a financiamento europeu no âmbito da História da Ciência e do Ensino da Ciência. Com esse ou outro financiamento e colaboração, esperamos que num curto espaço seja possível construir e desenvolver o seu conteúdo através do contributo de autores devidamente identificados, provenientes de diferentes disciplinas e sectores do ensino e da investigação. Quem estiver desde já interessado em colaborar de alguma forma, ou mesmo quem apenas pretenda esclarecimentos adicionais, encontrará na página de Historiographus.org a necessária informação sobre contactos.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

ENTREVISTA: Fernando Barriga

FERNANDO BARRIGA
Como os exploradores do passado

Fernando Barriga, 54 anos, dois filhos, professor Catedrático de Geologia na Universidade de Lisboa e actual director do Museu de História Natural, tem o perfil e a pose dos grandes exploradores do passado, que transformaram o século XIX no período épico da sua ciência. Foram eles que expandiram a idade da Terra para biliões de anos, foram eles que descobriram no registo fóssil o vestígio de uma longa sequência de espécies extintas, foram eles que tornaram o Dilúvio de Moisés numa cheia de menor de pouquíssima importância à escala global. Barriga enfrenta outro desafio épico que se levanta agora à Geologia: como travar o avanço acelerado do mar sobre a Terra? Como proteger as praias, as falésias, todas as zonas litorais que temos tantas vezes visto na televisão a caírem como castelos de cartas? Enquanto o povo português procura desesperadamente um culpado para comparecer perante a sua justiça, seja a Natureza, seja o Governo, seja o presidente da Câmara lá da zona, ele aponta tranquilamente o dedo a todas as pessoas que nos rodeiam e recorda-nos, com provas atrás de provas e estudos sobre estudos, que o aquecimento global não é nenhuma brincadeira. Mas, enquanto o flagelo do Terceiro Milénio não se reduz nas suas dimensões apocalípticas, ele já está a projectar estratégias para ir tapando os buracos no prazo imediato. Sem alarde. É ciência.

Foi no edifício do Museu de História Natural que eu aprendi a ser bióloga. Entrar na imponente alameda das palmeiras que dá para a Rua da Escola Politécnica faz-me sempre voltar a ter dezoito anos. Aqui dentro, há ossadas que partilham expositores com réplicas, há meninos que abrem muito os olhos para verem bem, com todos os pormenores, os bichos estranhos de outros tempos – e, a fazer brilhar de felicidade todo o rosto do Fernando, há uma profusão espantosa de minerais bizarros, cristais oblongos, rochas de milhares de anos onde viveram bactérias que já não existem. Não sei se percebem que isto é tudo absolutamente fascinante, diz ele.

OK, então vamos lá. O mar enlouqueceu, e está a dar cabo da nossa costa. De uma vez por todas: de quem é a culpa?

Não costuma ser assim muito fácil atribuir culpas em situações complexas, mas este é um daqueles casos em que podemos cortar a direito: o aquecimento global é culpa das pessoas, e é culpa dos políticos. Toda a gente sabe que o clima está a mudar, e isso pode originar mudanças dramáticas na Terra, e sobretudo na vida que estamos habituados a viver.

Mas toda a gente sabe que o clima tem mudado ao longo do tempo...

Sim, toda a gente sabe que já houve grandes glaciações. Ou que o clima de Lisboa já foi muito mais frio do que é agora.

Então por que é que, desta vez, vocês dizem que as mudanças são causadas pelo homem?

Pois, era bom podermos encolher os ombros e não fazer nada. Mas, quando nos damos conta, cientificamente, com centenas de dados comprovativos, de que desta vez o homem é parte substancial da mudança, então a coisa muda de figura.

Mas como é que se mede a mudança climática?

Olha, a subida do nível do mar, de que temos falado tanto em Portugal, é uma consequência disso. Há variações seculares da mudança do nível do mar, que eram da ordem dos 01/0.2 milímetros antes da revolução industrial. Depois disso, o que acontece é que o aumento da temperatura que já se verificou, atribuído quase todo ao homem, é de cerca de 6ºC desde meados do século XX. Esses 6ºC não são um número muito grande para os nossos sentidos, mas o que sabemos claramente é que estamos muito mais tempo fora do valor médio: o clima muda todos os dias. A temperatura média de Agosto em Lisboa é de 28ºC e continua a ser, mas mas estamos mais tempo fora do valor médio. Temos picos de calor como o de 2003, temos máximos de chuva, máximos de frio, as ondas no oceano estão cada vez mais altas. Sabes que os seguros marítimos aumentaram todos de preço? Isso é por que as tempestades estão cada vez mais intensas.

E porquê?

Antes de mais nada, o calor faz aumentar o tamanho da água. Entre 10 e 12ºC, a água sobe de volume. Quando tens um aumento destes numa massa tão grande, o crescimento só pode ser para cima. Por outro lado, o aumento da temperatura desencadeia a fusão das águas polares, e estamos a falar de valores extremamente significativos. As zonas vulneráveis dos gelos da Antárctida podem fazer subir o nível do mar uns bons seis metros, e isto não é o gelo todo, é só o dos glaciares da Antárctida Ocidental, onde há muito gelo em cima do continente. E os relatos que vêem do Ártico apontam para que, daqui a poucas décadas, haja um processo de fusão dos gelos desmesurado.

E isto tudo por nossa culpa?

Há um registo geológico extremamente importante no sentido de o nível do mar já ter estado muito mais baixo que hoje. Estamos num período intra-glaciário. Estes períodos são cíclicos. Quando ocorrem, a tendencia do mar é para descer. Mas, neste momento, estamos confrontados com uma tendência muito forte de subida.

Que nós provocámos?

Ouve, se a subida da temperatura for causada pelo homem, segue-se inevitavelmente uma subida do nível do mar causada pelo homem.

Todos concordam?

Já nenhuma dúvida é razoável. Os últimos relatórios apontam todos claramente nesse sentido. Uma coisa destas nunca se demonstra de forma absoluta, mas os argumentos contra o factor humano são cada vez mais académicos, no mau sentido da palavra. O grau de certeza de que a alteração climática á atribuída ao homem é de mais de 90%, e isto é a versão oficial, aprovada politicamente.

Fala-me de um indicador que, a ti, te convence mesmo.

O registo das paleoatmosferas. Das atmosferas que existiram na Terra desde há de dez a vinte mil dezenas de milhares de anos atrás. Encontramos esse registo nas falhas que há no gelo. São amostras de uma atmosfera antiga que ficou ali aprisionada. Aí temos uma indicação precisa da idade de cada segmento, e podemos analisar a atmosfera fóssil, incluindo o teor em dióxido de Carbono que ela tinha. .

E então?

Há geralmente uma correlação positiva entre o dióxido de Carbono e a temperatura: quanto mais quente está a Terra, mais vestígios de CO2 se encontram. Por vezes, a subida da temperatura antecede o aumento do CO2. Pode ser que existam causas independentes que desencadeiam estes efeitos, como as modificações da órbita da Terra. Mas a mudança actual é sistematicamente ao contrário.

Ou seja?

Agora, nesta mudança climática, temos sempre primeiro a subida do CO2. Para isto, não há outra explicação senão a influência do homem.

E como é que isso funciona na costa portuguesa?

As modificações da costa são as principais causas da situação a que estamos a assistir, e isso é devido a falta de sedimentos.

O que é que queres de dizer com isso?

Há falta de areia nas praias.

E porquê?

Os rios transportam naturalmente uma grande uma grande parte de sedimento para o mar. A areia que hoje está na tua praia não é a mesma do que quando eras criança. Há um transporte de areia de Norte para Sul que é feito pelos rios, e em determinados pontos há os chamados sumidouros de sedimento, onde a circulação da areia é feita para longe da costa e vai parar ao mar profundo, pelo que se perde em relação à areia do litoral. Mas, enquanto circula junto à costa, é ela que protege o litoral, interpondo-se entre as rochas sólidas e as ondas. Se a quantidade de areia for menor tens a dinâmica do mar mais perto da costa, e quanto menos tempo o sedimento estiver junto ao litoral pior.

Mas aqueles pontões todos que nós agora passamos o tempo a ver não se destinam, exactamente, a reter a areia e proteger o litoral?

Não é assim tão simples. Um esporão perpendicular à costa só protege um pequeno triângulo junto a esse ponto. Logo ao lado há uma zona de maior depósito, mas a maior parte da areia perde-se. Isto já se faz há muito tempo, mas, a prazo, dá mau resultado. É muito mais eficaz fazer uma construção paralela à costa para manter a areia junto do litoral.

E é só por isso que temos assistido a tantos desastres?

Claro que não. Como os temporais são mais intensos, as marés vivas também são mais vivas, o mar está muito mais agitado, e tudo isto causa uma erosão fortíssima.

Disseste que o sedimento costumava vir para a costa com os rios. Deixou de vir?

Deixou de vir nas quantidades habituais que mantinham o equilíbrio no litoral, em grande medida por causa das barragens. Até ao início do século XX vinha muito mais areia nos rios. Há uma quantidade enorme de areia que agora fica retida pelo caminho, e isso, para mim, é a principal causa do que tem estado a acontecer. Há barragens em todo o lado. Em Portugal, não há um único rio que vá para o mar que não tenha uma barragem. Isso, sem a menor dúvida, é uma péssima gestão de recursos e um planeamento ambiental desastroso.

E há mais?

Bem... há todo o desgaste relacionado com a agricultura.

Então, mas a agricultura também tem a culpa?

Ao contrário do que dizem os poetas sobre os campos dourados, a agricultura implica revolver o solo e deixá-lo exposto à intempérie uma grande parte do ano. Se houver uma grande chuvada depois da colheita, as partículas as partículas mais finas, exactamente as mais nutrientes, são arrastadas até às barragens; e isso provoca uma grande descida de fertilidade nos solos, e o material que pode contribuir para essa fertilidade está no fundo da barragem.

Dá ideia de que já tens aí um belo projecto de recuperação de solos...

Estou a trabalhar nisto há dez anos. Não tiramos água absolutamente nenhuma da barragem. Vamos mesmo ao fundo, para lá da parte grosseira que está por cima. Tiramos uma lama com água suja, que tem que ser diluída, e depois é preciso decantar o sedimento. Só volta para a albufeira a água limpa. A lama é re-injectada no solo, e olha: em terrenos que eram completamente áridos já criámos tulipas francamente melhores que as dos melhores viveiros.

Onde é que fazes isso?

No Brasil.

Porquê?

Porque a Europa tem excesso de produção alimentar e não há grandes interesses agrícolas.

E a tal parte grosseira que está por cima, não pode ter, também, qualquer préstimo?

Oh. Esse, agora, é um dos nossos grandes interesses. A parte grosseira é a tal areia que pode ser levada até ao litoral! Como o transporte é caro, o material pode ser fornecido à construção civil, com bons incentivos – e, assim, talvez consigamos que os madeireiros não tirem a areia que é da praia.

Então ainda há esperança.

Enquanto houver ciência.

NA CAIXA DO CORREIO: Arbeitintensif

ARBEIT MACHT FREI
Aqui vai uma historia dos meus alunos. Espertíssimos, e quase licenciados.
A meio de uma aula, nem me lembro bem porquê – eles deviam estar com um ar exausto, ou assim -- faço perfidamente uso da frase sinistra Arbeit Macht Frei. Como estou de frente para eles, noto-lhes perfeitamente nas expressões faciais que a frase não surtiu qualquer espécie de efeito para a grande maioria. Formalizo-me logo: Arbeit Macht Frei, meninos! É possível que isto não vos diga nada?
Muitos deles admitem que não.
Eu começo a explicar que é a frase que está escrita por cima do portão de Auschwitz. Que é o cúmulo da crueldade, porque significa “O Trabalho Liberta” e foi posta pelos nazis na antecâmara de um lugar horrível onde as pessoas eram obrigadas a trabalhar como escravas e a sua única libertação possível era a morte na câmara do gaz, logo seguida da queima no crematório. Com a memória ainda fresca da minha própria visita, acrescento que ninguém consegue medir na totalidade a violência do genocídio hitleriano antes de visitar Auschwitz. Vem-me à cabeça que, como professora, tenho deveres pedagógicos sérios, e faço logo ali a seguinte proposta:
-- Pessoal, eu trato de tudo. Arranjo um patrocínio, organizo a viagem à Polónia, e, assim que acabar o ano lectivo, vamos passar uns dias a Cracóvia, que é uma cidade linda com uma super vida nocturna, e nessa altura eu levo-vos a visitar Auschwitz. Querem?
E eles, logo:
-- Ó professora, mas os exames...
Ai eu.

domingo, 29 de abril de 2007

NA CAIXA DO CORREIO: Sem memória não há futuro

É imperdoável qualquer português não saber que data se comemora hoje, porque o esquecimento da história é o fomento da barbárie. Se é verdade que há cada vez mais jovens que desconhecem o 25 de Abril, então é porque alguma coisa no sistema de ensino obrigatório não está a funcionar. Não podemos usar como desculpa o facto de todos esses jovens já terem nascido depois da queda da ditadura, porque a ideia subjacente à civilização não é conhecermos apenas aquilo que acontece durante o nosso tempo de vida. Os jovens sabem o nome do primeiro rei de Portugal, e não é de certeza porque o conheceram pessoalmente. Mesmo que ninguém nos fale delas em casa, estas coisas aprendem-se na escola – entre várias outras razões, também para ajudar a combater as diferenças sociais e equalizar a oportunidades. O 25 de Abril faz parte de todos os manuais escolares, não me lembro bem se do 5º ou do 6º ano. E nem sequer é daquelas temáticas já mesmo do fim do ano, que muitas vezes saltam fora porque não houve tempo para leccionar tudo. E, no entanto, há números impressionantes de portugueses que passam pela escola e saem de lá sem saber o que foi que mudou no país a partir de 1974, e sem perceber que essa mudança foi da maior das importâncias para todos nós? Bolas, re-escrevam os manuais. Revejam os conteúdos e os métodos da história que se ensina aos meninos. Mas não contribuam mais para a disseminação perigosa da ignorância colectiva.

NA CAIXA DO CORREIO: Religião

A FÉ E O MUNDO
Lecciono aos finalistas de Biologia uma cadeira de História do Pensamento Biológico. À medida que os anos passam, dá ideia de que os portugueses são cada vez menos crentes, e ainda menos praticantes: de uma forma que se generaliza gradualmente, os meus alunos desconhecem tanto o Velho como o Novo Testamento. E isto torna particularmente complicado o ensino de qualquer temática de foro histórico, porque a fé cristã fez parte integrante da organização do nosso mundo até à segunda metade do século XIX, complementada pelas tradições judaica e islâmica que nos acompanharam no caminho. Aparentemente, a única forma de colmatar esta lacuna complicada seria regredir à velha obrigatoriedade da frequência de Moral e Religião, onde ao menos se aprendiam uns vislumbres. O problema é que estas aulas são constituídas por proselitismo e não por aprendizagem de factos, o que torna obrigatório manterem-se estritamente opcionais. Mas, se as bases mais elementares da religião que modelou o Ocidente já não se aprendem em casa nem por simples contágio social, a formação dos cidadãos ocidentais nunca estará completa se elas não passarem a ensinar-se na escola, por forma a não acabarmos por perder completamente o Norte quanto tentamos seguir o percurso que nos trouxe até aqui. Talvez criar, pelo menos no secundário, assim como há Filosofia e Introdução à Política, uma cadeira nova que se chamaria qualquer coisa como, simplesmente, Religião – para apresentação de factos,com exclusão rigorosa de comentários? A fé pode já não querer diser grande coisa no nosso mundo, mas o trajecto que esse mundo seguiu depende em grande parte dela, e, sem ela, não se entende com a devida clareza. E continua a querer dizer muito no mundo dos outros, remetendo-nos por analogia para o nosso, como no caso da fé islâmica. Uma cadeira de Velho e Novo Testamento, reformas, contra-reformas, hexegeses que marcaram a Europa, guerras e torturas e perseguições e criações de padrões populacionais ao longo do tempo. Pensem nisso. Eu apenas posso atestar, como docente universitária, que o nosso entendimento do mundo está a ficar cada vez mais deficiente. Agradeço muitos comentários, porque sei que isto não é nada simples.

ENTREVISTA: Teresa Avelar

TERESA AVELAR
Como quem defende a ciência

Há pequenos pormenores que podem passar hoje despercebidos junto do grande público, apenas para se converterem nos debates mais dramáticos da próxima década. Um jornal português de grande tiragem, e respeitado consensualmente como de referência, publica um artigo de página inteira escrito por um defensor português do chamado Criacionismo Científico. Algum tempo mais tarde, o mesmo jornal surpreende-nos com a notícia improvável de que, um dia destes, vai abrir perto de Mafra o Museu do Criacionismo. Finalmente, é a própria Faculdade de Ciências que organiza uma conferência de dia inteiro sobre a controvérsia entre o Darwinismo e o Criacionismo, e nela participa o defensor do Criacionismo com tanta seriedade como qualquer cientista que venha pronunciar-se sobre modelos de evolução. Nos bastidores, já se preparam livros sobre o assunto. Entretanto, nos Estados Unidos, a controvérsia já cresceu para proporções tais que acabou por dar origem ao documentário Flock of Dodos, acompanhado por toda a espécie de merchandising e unanimemente louvado pela crítica. Vocês podem ainda não ter dado por nada, mas, daqui a dez anos, quando forem chamados a referendo para se decidir se o país introduz ao não o Criacionismo nos programas escolares, lembrem-se do aviso que receberam hoje. Esta estranha confraria que já se agita há muitos anos nos subterrâneos do mundo americano está a estender-se pela Europa e a lançar as suas raízes no solo português; e, onde ela chega, acaba por ser difícil ignorá-la. Para que ao menos estejamos devidamente informados perante o que ainda vamos ter que debater a doer, chamei à conversa a minha colega Teresa Avelar, professora de Evolução, que respira como quem estuda e vive cada um dos seus dias como quem defende a ciência acima de todas as coisas. A Teresa tem 49 anos, e toda a vida se interessou pelas teorias da evolução, tanto na aplicação como na história. Licenciou-se pela primeira vez em Biologia em Inglaterra, em 1979. Depois repetiu todo o processo em Lisboa, e completou o grau em 1983. Doutorou-se na Faculdade de Ciências em 1991, no dia seguinte ao início do bombardeamento americano sobre Bagdad durante a Guerra do Golfo-- o que quer dizer que, em plena véspera de doutoramento, não dormiu nada. Os dramas do Golfo tornaram-se muito mais complexos e criminosos desde essa altura, e agora podemos olhar para essa primeira investida como para um acontecimento quase ingénuo; mas, na altura, pareceu-nos a todos estar a viver uma noite decisiva. E quando a Teresa acredita que uma coisa é séria, acredita mesmo. Estuda, investiga, ensina e publica a um ritmo que só existe quando existem grandes paixões.

Conversamos numa das salas de aula do edifício de Mestrados da Universidade Lusófona, onde ambas trabalhamos. A Teresa tem estado doente, mas fez das tripas coração para estar aqui hoje, como faz muitas vezes, sempre que acha que o que está em causa é importante. Este cerco que o Criacionismo tem andado a fazer a Portugal, para ela, é uma dessas causas que pede verdadeira luta. Seguiu com toda a atenção o debate na Faculdade de Ciências, e ainda está incomodada com o que viu e ouviu. Se as pessoas tiverem pouca instrução, diz ela, irão sempre atrás do que é mais fácil. E o Criacionismo é fácil demais.

Está bem, mas então agora pensa que estás mesmo a falar com uma pessoa sem nenhuma instrução. Tens que conseguir explicar-me o que é a Teoria da Evolução. Consegues?

A Teoria da Evolução tem várias componentes. Ocorreu evolução no mundo vivo. Essa evolução ocorreu por ramificação sucessiva a partir de um ancestral comum. Essas ramificações ocorrem por especialização dentro das populações, e a formação de novas espécies que daqui resulta é gradual e não ocorre de uma geração para a outra. O principal mecanismo da mudança evolutiva é a Selecção Natural. Não é o único, mas é é o único responsável por adaptações que se transformam nas características mais distintivas dos seres vivos.

Quais são as confusões mais frequentes que se fazem a este respeito?

Olha, que o homem descende do macaco, por exemplo. Não é assim tão simples como isso, e sobretudo é muito menos directo.

Mas essa confusão fez-se desde muito cedo.

Foi. O livro crucial de Charles Darwin que lançou estas ideias, A Origem das Espécies, saiu em 1859. Antes de ser vendido ao grande público, foi enviado para leitura e comentário a várias entidades. Uma revista escreveu logo que o livro era “uma abominação”, e chamou à Teoria da Evolução “a Teoria do Macaco”. No livro, Darwin escreveu uma única frase sobre a origem do homem, e disse apenas isto: “havemos de fazer luz sobre o homem e a sua história”. Mas a ilação automática do público foi logo a do macaco.

E para as especialistas da matéria? A reacção também foi assim tão visceral?

Praticamente todos os biólogos aderiram logo à Teoria da Evolução. Mas o conceito de Selecção Natural demorou muito mais tempo a entrar.

Porquê?

Porque aceitar a Selecção Natural é aceitar um mecanismo que não tem planos, não prevê o futuro, é imediatista, não se rege por qualquer moral. Isso é mais difícil de engolir. No fim do século XIX, já existem uma série de teorias evolutivas em que a evolução é o resultado de um plano providencial. Em relação aos modelos anteriores a Darwin, só desapareceu a ideia de o plano ser orientado por Deus.

Essa aliás, essa ideia continua a não ter desaparecido.

Ao nível da Biologia desapareceu, mas não ao nível da consciência das pessoas em geral. Aliás, a maioria das pessoas contínua a não saber o que é exactamente a Selecção Natural. Basta pensares nos títulos dos manuais escolares do Básico e do Secundário, onde encontras coisas absurdas como Do ADN ao Homem ou Das Moléculas ao Homem -- como se a organização da vida tendesse sistematicamente para o homem como modelo perfeito e mais complexo, uma espécie de produto final. Olhas para a sequência dos capítulos, e tens sempre as bactérias, depois os eucariotas, depois os mamíferos, depois o homem – como se tudo o que existe no mundo vivo fizesse parte de um grande esforço colectivo para se conseguir chegar ao homem. Mas, na realidade, e evolução não avança em direcção ao homem. Avança de forma perfeitamente aleatória. A bactéria é o nosso ancestral comum, e não deixou de existir por causa de nós existirmos. É esta parte que a maioria das pessoas tem dificuldade em assimilar. O esquema evolutivo que se mostra a todos os miúdos começa com uns primatas muito cabeludos e acaba num homem do Cro-Magnon que é loiro de olhos azuis. Isto é um absurdo, e aquele desenho só pode induzir em erro, porque na realidade existem várias linhagens diferentes de hominídeos.

Bom, e, tanto quanto sabemos, continuaram a aparecer espécies novas muito depois de ter aparecido o Homo sapiens.

Claro. O exemplo mais famoso é o das mais de quinhentos espécies de peixes que se descobriram no Lago Vitória, que não podem ter mais de quinze mil anos, porque, antes disso, o lago estava seco. Ora, em contrapartida, o Homo sapiens já tem uns veneráveis 1 500 000 anos.

Perante tudo isto, o que é que foi avançando a defesa do Criacionismo?

O Criacionismo mais básico apareceu no princípio do século XX nos Estados Unidos, com uma crispação crescente em torno do respeito pela letra do texto bíblico, que acabou por ter um confronto muito visível com o evolucionismo em 1925. No Tennessee, foi declarado ilegal ensinar evolução nas escolas, por ser contrário à Bíblia. A American Union for Civic Liberties conseguiu convencer um professor chamado Scopes a ensinar evolução a ser condenado, para ir a tribunal e depois ir ao Supremo: à luz do first ammendement da Constituição americana, que impõe separação entre a Igreja e o Estado, teria que ser autorizado a dar as aulas que entendesse, e o caso seria discutido a nível nacional. O julgamento foi muito publicitado. Aliás, foi dos primeiros casos de reportagem em directo para a rádio. O advogado de acusação era um candidato crónico à presidência da república que achava que ensinar evolução era abrir a porta a todas as imoralidades, e o de defesa era um homem igualmente famoso e mediático, que convocou um grande número de cientistas notáveis para virem defender a evolução. Foi um grande espectáculo.

Mas mudou alguma coisa?

Pouco. O ensino da evolução foi proibido em mais Estados além do Tennessee, e os editores de livros de texto queriam fabricar produtos que pudessem vender-se em todos os Estados Unidos. Por isso, era frequente os livros de texto dos anos 30 e 40 só mencionarem a evolução pela rama, e só nas páginas finais. Alguns dos grandes evolucionistas da actualidade, como o teu amigo Stephen Jay Gould, lembravam-se de nem terem chegado a aprender evolução no liceu.

Então e depois?

Depois os russos puseram um satélite artificial em órbita e os americanos apanharam um susto! Só nessa altura é que se lembraram de rever seriamente a forma como estavam a ser educadas as crianças americanas, e foi quando os biólogos notaram que os livros de texto nem sequer falavam na evolução, que é o grande pólo agregador da Biologia. O Sputnik é de 1957. Em 1960, os livros de texto americanos já davam todos um grande relevo à evolução. E nessa altura, sim, formou-se em resposta um movimento criacionista organizado.

Para fazer o quê?

Lobby, claro. Como já não fazia grande sentido impedir o ensino da Evolução, inventaram o Criacionismo Científico, e começaram a defender que este tinha tanto direito de ser ensinado às crianças como a Teoria da Evolução, porque era uma teoria científica alternativa. Isto acabou por ser aprovado em alguns Estados, e voltaram a registar-se julgamentos mediáticos, desta vez sobretudo no Arkansas: a lei exigia tempo escolar igual para uma coisa e para outra, e os evolucionistas foram a tribunal porque o Criacionismo Científico era religião com outro nome. Foram novamente chamados vários cientistas famosos, desta vez como testemunhas de acusação. O juiz acabou por decidir em favor da acusação, e o seu parecer foi publicado na íntegra na revista Science em 1982. Nesta altura, alguns criacionistas acharam que estava na altura de “evoluir” e substituíram o antigo Criacionismo Científico pelo novo Intelligent Design.

Qual é a diferença?

O Criacionismo clássico levava o Génesis bíblico à letra, e nisto tinha a honestidade de admitir que não apresentava soluções para as contradições internas que existem na própria Bíblia. Há discordâncias dentro do próprio relato do Génesis que são complicadas para quem quer sustentar “cientificamente” que a Bíblia foi escrita exactamente como Deus a ditou e que, como tal, não tem erros. Além de que há episódios do Génesis que, com os conhecimentos actuais, se tornam impossíveis de explicar cientificamente. Um bom exemplo é a arca de Noé. Como é que pode ter sido fabricada por forma a levar lá dentro dez milhões de espécies? Ou então, esbarram em problemas sérios quando apresentam teorias cientificamente testáveis que caem pela base perante os métodos de observação modernos: como é que todos os depósitos geológicos que existem se podem ter formado durante o Dilúvio, se grande parte deles são francamente anteriores à existência do homem? Os defensores do Intelligent Design já apresentam versões mais requintadas, e, como tal, são mais hipócritas.

Mas, antes de mais nada, como é que se fazem ouvir?

Ah! Têm editoras próprias onde publicam, revistas próprias onde escrevem, sites espampanantes na net, um Institute of Creation Research com tecnologia de ponta... e, claro, sabe-se lá de onde é que vem o dinheiro para isso tudo. Fala-se de financiamentos de grupos fundamentalistas, de Adventistas do Sétimo Dia, de Testemunhas de Jeová, de Born Again Christians, mas está tudo envolto num grande secretismo, como é próprio destas coisas.

E usam esses palanques para argumentar o quê, basicamente?

Que há uma entidade criadora a reger o mundo vivo, mas isto é feito de forma sofisticada. Recorrem a dois grandes grupos de argumentos. O primeiro é que os seres vivos possuem aquilo a que eles chamam “complexidade irredutível”: é impossível existir evolução gradual, porque o todo só funciona quando existe a soma completa das partes. O exemplo preferido deles é a ratoeira, que só funciona quando tem todas as peças no sítio correcto. E passam o tempo a citar incorrectamente o Darwin no que diz respeito ao olho, para implicar que até ele acreditava que um olho é tão complexo que não pode evoluir gradualmente. Na realidade, o que o Darwin escreveu sobre as possibilidades de adaptação é que existem na Natureza todos os tipos de olhos possíveis, pelo que é possível que se tenha começado apenas pelas formas mais simples. Mas eles usam só a frase “quem olha para o olho, em toda a sua perfeição, pode pensar que ele nunca poderia ter evoluído”, e argumentam que o olho é complexo demais para alguma vez poder ter existido numa forma que não seja a presente. Também recorrem a uma série de ideias de nível molecular, que assentam num conhecimento que as pessoas geralmente não têm, pelo que pode convencê-las mais facilmente. Um exemplo deles é o flagelo das bactérias: se funciona por acção de uma série de proteínas que o fazem andar à roda, então todo esse conjunto teve que aparecer tal qual o conhecemos, numa organização pré-fabricada por desígnio. Claro que já vários biólogos sublinharam que a maior parte dessas proteínas já existiu antes noutros complexos metabólicos, e portanto há várias explicações possíveis para a evolução do flagelo – mas eles estão, sobretudo, a tentar convencer as pessoas que não são formadas nestas áreas.

E o segundo argumento?

Chama-se “informação complexa especificada”. Os flocos de neve podem ser todos diferentes e manter as mesmas características cristalinas, mas os seres vivos só podem ser complexos dentro de um padrão específico que lhes permita serem, também, funcionais. Um ser vivo tem que ter a organização específica que tem e nenhuma outra, porque se tivesse outra já não funcionava. Chegaram a publicar os algoritmos de complexidade possível para a funcionalidade, e, repara, estas já são áreas onde o comum dos mortais se perde com facilidade. Uma vez mais, eles defendem que, para este fenómeno da organização funcional complexa ser possível, tem que ser resultado de uma organização pré-fabricada por desígnio.

Ou seja, por Deus? É isso?

Para evitar o rótulo religioso, eles defendem que há um desígnio mas deixam em aberto quem foi o designer desse desígnio. Só insistem que, perante os seus argumentos, qualquer pessoa tem que inferir a existência de um designer. Claro que, entre eles, o designer é Deus, sim.

Tens alguma noção de quem são, exactamente, estas pessoas?

Muitos são cientistas, mas nenhum é biólogo. Que eu saiba, há um bioquímico, e é o mais próximo que encontramos do conhecimento do mundo vivo. Depois há matemáticos, engenheiros, gente de Direito... sem dúvida, pessoas que gostam de argumentos rebuscados.

Mas não são teólogos.

Não. Sobretudo os católicos e os anglicanos tendem a afastar-se, e há criacionistas sinceramente magoados com o João Paulo II . Agora, o presidente dos Estados Unidos tem inequivocamente uma grande simpatia por eles...