quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

CONTEÚDOS: Einstein e o estudante português

Imagine-se um estudante, despertado pelas comemorações do Ano Internacional da Física, que se decide a seguir o percurso de Einstein: ele pretende estudar na Universidade o que o festejado físico estudou. Einstein recebeu em 1900 um diploma em ‘professor de liceu para a área da matemática’.
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A maior parte das cadeiras são de facto de Matemática: Geometria Descritiva, Geometria Projectiva, Teoria de Funções, Funções Elípticas, Cálculo de Variações, Teoria do Integral Definido, entre outras. Para realizar um tal conjunto de disciplinas o estudante pensaria em matricular-se numa Licenciatura em Matemática. Acontece que do curriculum fazem parte um considerável conjunto de cadeiras de Física: Princípios, Instrumentos e Métodos de Medida da Electrotécnica, Trabalho Científico no Laboratório de Física, Electrotécnica Laboratorial, Introdução à Electromecânica, Introdução à Física Celeste, Introdução à Astronomia, Mecânica Celeste, entre outras. Para fazer tais cadeiras o estudante português escolherá uma licenciatura em Física. Mas se se matricular em Física, terá certamente de fazer um requerimento para lhe reconhecerem as cadeiras do departamento de Matemática.
O estudante continua a ler a relação das cadeiras do certificado de curso de Einstein e encontra: Teoria do Conhecimento Científico e Filosofia de Kant. Ora, para fazer a Filosofia de Kant, o estudante tem de ir ao departamento de Filosofia. Aqui as coisas tornam-se mais complicadas.
No ano passado houve um estudante do departamento de Filosofia, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que pretendeu fazer duas cadeiras em Ciências. Meteu um requerimento. Como Letras e Ciências não começam o semestre ao mesmo tempo, mas têm um desfasamento de duas a três semanas, quando o requerimento deu entrada, tinham decorrido cerca de duas semanas de aulas. A resposta ao pedido foi positiva, mas quando o estudante chega a Ciências tinha passado metade do semestre de Ciências. O estudante que queira seguir as pisadas de Einstein tem ainda outras dificuldades.
Do curriculum do famoso físico constam, entre as cadeiras opcionais: Pré-história, Política Suíça, História da Cultura Suiça na Idade Média e na Reforma, Negócios de Banco e de Bolsa, Consequências Sociais da Livre Concorrência, Teorias Fundamentais da Economia Nacional, Fundamentos Matemáticos da Estatística e do Seguro de Pessoas, Goethe: Obra e Cosmovisão. Como o curso foi feito em Zurique, o nosso estudante poderia substituir as cadeiras em temáticas suíças por cadeiras sobre história, política ou cultura portuguesa. Mas para frequentar a História de Portugal na Idade Média, etc. o estudante precisa de fazer um requerimento à Faculdade de Letras, departamento de História. As disciplinas de Economia exigiriam certamente mais requerimentos.
Supondo que as respostas aos requerimentos eram positivas, haveria uma dificuldade não menor, a prática. Será que o estudante vai coordenar requerimentos, respostas e horários das cadeiras de modo a fazer tudo em 4 anos? Será que o estudante vai estar em condições de ser avaliado por exame nas cadeiras das diferentes Faculdades? Há aqui um aspecto do curriculum suíço que interessa.
Einstein não teve de realizar exames em todas as cadeiras. Em Portugal, a cadeira é reconhecida se o estudante tem nota. Ora a preparação para exame, a aprendizagem daquilo que o professor pretende que se saiba, é mais difícil e consequentemente mais morosa do que o estudo do que o estudante está em condições de apreender e em princípio faz por interesse. Na verdade, Albert Einstein teve a possibilidade de realizar um curso no final do sec. XIX, que o estudante português não tem no início do séc. XXI. Mas, porque não deixar os estudantes portugueses seguir as pisadas de Einstein?
  • Referência bibliográfica: Albert Einstein. Collected Papers of Albert Einstein. Vol. I. J. Stachel (ed.) (1987). Princeton: Princeton University Press.

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