terça-feira, 18 de janeiro de 2005

NA CAIXA DO CORREIO: Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez retirou-se da vida pública por razões de saúde: cancro linfático. Agora, parece que é cada vez mais grave. Enviou uma carta de despedida aos seus amigos que, graças à Internet, está a ser difundida.
A sua leitura é recomendada porque é verdadeiramente comovedor este texto escrito por um dos Latino-americanos mais brilhantes dos últimos tempos.
"Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.
Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem. Ouviria quando os outros falam, e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate!
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto, não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua.
Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas...
Meu Deus, se eu tivesse um pouco de vida...
Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar!
A uma criança, dar-lhe-ia asas, mas teria que aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...
Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer..."

GABRIEL GARCIA MARQUEZ

1 comentário:

Rostos disse...

Lendo o que Marquez nos tinha para dizer: "Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua.", dissipo as dúvidas que me restam. Na verdade, quando escrevi o meu livro sonhei com Van Gogh, vi essas estrelas de que ele fala, sorrindo-me. Dei por mim na janela, sentado, a embaciar um olho de neblina, por onde espreito esperando que chova. Foi assim que eu nasci. Nasci Gonçalo. E isso leva-nos ao porquê deste comentário. Primeiro, como não poderia deixar de ser, sou um admirador incondicionável da sua escrita. Segundo, fi-lo porque o Gonçalo nasceu, mas ainda nao sabe falar. Precisa de uma voz. Da sua, a prefaciá-lo. E finalmente, porque sei que neste mundo repleto de incertezas e indiferenças, ninguém se pode negar a ajudá-lo. Ninguém, que tenha coração, como o Marquez refere, pode virar-lhe as costas e não lhe abrir a gaveta onde está enclausurado. É bonito de mais para restar fechado. Foi por isso que escrevi este texto. Foi para me poder sentar, na janela onde sempre estive, à espera de o ouvir falar. O Gonçalo.
Já agora, desculpe a minha audácia e a minha insolência, mas fi-lo de coração aberto. E como a minha avó dizia: "Quem o faz de coração aberto, tem sempre a sorte por perto."
Fico pois a aguardar uma resposta.
Obrigado.

Pedro Rocha

mail: pr@aiminho.pt.
messenger: rostos@sapo.pt